Komorebi
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Doutora Altman nomeou para mim. O nome é Ansiedade Social. Pessoalmente, acho que combina, a ansiedade mais negligenciada, mas não acho que seja o diagnóstico correto, eles só estão desesperados por um desde que fugi do hospital que fui internada ano passado, minha mãe havia chegado em casa com a caçula nua em cima da cama com ambos os pulsos sangrando, ela deve ter ficado um tanto preocupada. Nunca havia estado em um lugar tão insuportável como o hospital. Aquilo fedia a morte, fazia a minha casa parecer o paraíso. Dividi o meu quarto com uma judia que foi rejeitada pelos pais adotivos e havia tentado se enforcar com a toalha de banho no chuveiro. Todos nós temos problemas. Ela me ajudou bastante, fugi pela passagem de ar alguns dias depois da internação, aquilo não dava certo para mim, nada mais da, já estão perdendo as esperanças. Eu também.
Minha mãe me levou para ver a doutora Altman pela primeira vez, ela estava achando estranho eu não ter chorado pela morte do meu pai. Uma senhora jovem, que só usava cardigãs em cores pastéis com sapatos Oxford da mesma cor combinando. Sua perfeição me enojava naquela época, hoje eu não ligo.
Hoje em dia não me importo mais com essas coisas, estou tentando ver o lado bom das coisas, apesar disso estar sendo praticamente impossível. Acordei cedo hoje de manhã e fui trabalhar no que a doutora Altman havia me proposto, escrever um pouco sobre mim, sobre tudo. Escrevi pouco porém o suficiente para me cansar e jogar o caderno de encontro com a parede oposta do quarto. Desisti de mais uma coisa, mais uma para a lista. Me levantei e fui até o espelho pendurado perto da janela. Meu cabelo parecia pior do que ontem. “E quando não está, Heaven?” – pensei. Olhos grandes e azuis. Um metro e sessenta e sete. Cabelo bagunçado e ondulado. Minha mãe diz que sou como ela era quando tinha a minha idade, a diferença é que quando minha mãe tinha quinze anos todos os garotos da escola eram apaixonados por ela. Ninguém nunca se interessaria por mim, claro. Meus amigos Órion e Lily costumam falar das minhas pernas finas, dos meus ombros ossudos, dos meus quadris estreitos. Eles dizem que não é problema, mas continuo sendo tão desinteressante como poderia ser. Ninguém gosta da garota com cicatrizes, até hoje elas ainda não desapareceram. Ainda me pergunto o que eu tinha na cabeça naquele dia, eu não me lembro de nada.
O sol já estava prestes a se pôr novamente quando minha mãe me chamou do andar de baixo, na cozinha. “Heaven, você poderia ir comprar um pouquinho mais de lentilhas para mim. Preciso terminar o jantar.” Animador. Por que ela não poderia pedir a Savannah? Peguei meu chapéu em cima da cama, presente do meu pai. Desci as escadas com cuidado, elas rangiam de um modo que irritava meus ouvidos enquanto pisava nos degraus de madeira. Encontrei minha mãe na cozinha, como havia imaginado. Ela é tão bonita, mesmo com a idade, nada a conseguiu deixar menos bela, a morte precoce do marido, criar duas filhas sozinha. Às vezes nossa avó vem aqui em casa, ficar conosco e fazer companhia a mamãe, elas sempre acabam brigando por causa do papai. Acho que a minha avó nunca quis que a mamãe se casasse com o meu pai, mas ela nunca nos falou o motivo. Peguei o dinheiro com ela, então ela me agradeceu e falou alguma coisa sobre Savannah ter saído ontem à noite e ainda não ter voltado, pediu para que eu passasse na casa de Drake para ver se ela estava lá, eu acenei com a cabeça concordando.
Notei que minha mãe ficou me olhando sair até a porta da frente bater. Ela ainda se preocupa. Moramos em uma casa simples, porém nunca nos faltou nada. Enquanto andava pela calçada até o mercado mais próximo, pensei nos meus amigos. Minha melhor amiga se chama Lilith e não penteia o cabelo antes de ir à escola. Costumo a chamar de Lily, ela não gosta muito do seu nome. Lilith mora em um trailer e seus pais são hippies ou algo do gênero. Quando a convidei para ir a minha casa na minha festinha de seis anos ela não pode ir porquê na receita do meu bolo levava leite e ela não podia beber se ele viesse de caixinhas. Minha amizade com Lily nunca foi muito forte, é algo mais superficial. Ela anda mais afastada faz dois anos, fico me perguntando se ela acha que a morte é algum tipo de doença contagiosa e que talvez eu passe para ela por causa do meu pai. Também me pergunto qual é o problema das pessoas com isso, eu era filha dele, não eles, eu sou a filha dele. Meu único motivo para ainda não ter queimado a minha escola se chama Órion. Ele sim é o meu melhor amigo. Não vejo ele faz tempos, estamos de férias.
Avistei a casa do Drake, não era muito longe da minha. Não é que eu não goste do namoro da minha irmã, é que o Drake simplesmente não é o tipo de cara que você deseja que sua irmã namore. Órion é irmão de Drake, não faço ideia de como isso é possível, eles são tão diferentes, ele me disse que o irmão foi preso no ano passado por fumar maconha no telhado da escola enquanto os amigos tinham relações na mesa da diretora, mas não era para eu contar para Savannah. Não achei muito justo, mas aceitei. Mesmo que ele seja considerado um “mau sujeito” tento levar em consideração a felicidade da minha irmã, e só isso.
Já estava a poucos passos de chegar até a porta da casa, talvez reencontrasse meu amigo, já estava com saudades. Escutei passos apressados atrás de mim, senti uma mão cobrir os meus olhos e então outra cobrir a minha boca. Tentei morde-la, mas a pessoa me segurou com tanta força que senti uma leve tontura. E então tudo estava escuro.
Fale com o autor