O coração é mesmo uma merda. Ele deixa a gente ficar feliz e suave. Não nos prepara para os baques da vida. E, quando os baques acontecem, é como cair do topo da Arena Celestial. Não. É pior. Você já estará morto há muito tempo antes de atingir o solo. Mas, quando você cai nas andanças da vida, não importa por quanto tempo sua queda perdure. O impacto no chão sempre vai doer com a força de um mundo inteiro.

Você foi embora. Você simplesmente foi embora. Não disse um “tchau”. Não disse um “até logo”. Você só... sumiu.

Eu acordei feliz. Tateei a cama com o braço antes de me dar conta de que estava sozinho. Que milagre! Você levantando antes de mim! Talvez estivesse no banheiro. Mas, antes mesmo de chegar no corredor, senti o mau presságio. Não havia sons no meu apartamento. Não havia o roçar leve de suas roupas quando você caminha sonolento. Não havia o ruído da escova descendo por seus cabelos. Não havia o gorgolejar do seu chocolate quente sendo despejado na caneca de porcelana. Não havia sequer o murmúrio da chuva batendo na janela.

Percorri os cômodos mesmo assim. Zanzando como um fantasma, apesar de saber que estava sozinho. Conferi o celular, mas não havia ligações ou mensagens. Conferi o computador, mas não havia e-mail. E o Kurode estava deitado na cozinha, erguendo aqueles olhinhos melosos, como se também perguntasse onde você estava.

Eu não chorei. Ainda estava caindo. Ainda não tinha sentido o impacto. Então, voltei para o quarto e, sem razão, olhei o criado mudo. Seus brincos estavam bem ali. Brilhando escarlates. Como a cor dos seus olhos quando você me beijava.