Kokoro x Kokoro
8 Feridas
Eu não presto muita atenção no livro. É uma mera distração enquanto aguardo neste ônibus sacolejante. A Doutora Michelle não diz nada. Ela nunca gostou de desperdiçar saliva. Apenas fica quieta em seu canto, os braços cruzados. Está olhando para mim. Os olhos quase suaves por trás dos óculos. Levanta uma das mãos e, por um instante aterrador, penso que tocará meus cabelos, mas ela apenas esfrega o pescoço, resmungando de cansaço.
O vilarejo é pobre e insalubre. Não gosto de lugares assim. Eles sempre me trazem uma sensação de desalento, de enjoo. Apesar da dureza da vida, as crianças ainda sorriem. Elas nunca viram um Hunter antes e ficam animadas. Pulam em cima de mim, agarrando meu braço. Um homem velho ralha com elas e brande seu cajado. Ouço o som dos risos e dos pés quando o pequeno grupo sai em debandada.
E os dias seguem assim. Eu, Michelle e Aya cuidamos das pessoas e mantemos as criaturas da floresta afastadas. Nos últimos meses, elas têm se tornado bastante agressivas, e ninguém sabe o porquê. De vez em quando, aparece um homem com ferimentos terríveis. Aya não tem um pingo de nojo. Atende a todos com um sorriso gentil. Eu fico olhando de longe, pensando no futuro das crianças daqui.
Meu trabalho é investigar a floresta. Droga, por que não mandaram um Beast Hunter? Eu não sei lidar com feras. Felizmente, não preciso. Durante uma ronda, descubro os humanos por trás dessa desordem: mineradores ilegais que invadiram o território das feras e as expulsaram com armas. Não é à toa que estavam se aproximando dos limites do vilarejo. Eu não tenho pena de pessoas assim. Prendo todos eles.
A Doutora Michelle não me dá parabéns. Não fiz mais do que minha obrigação. Se ela não acreditasse que eu estava à altura daquele desafio, nunca teria me chamado. Mesmo sabendo isso tudo, fico triste. Poxa, custava um tapinha no ombro, um sorriso? Que nada! Ela apenas diz que voltaremos à faculdade na semana seguinte.
Passo a noite vigiando os mineradores ilegais. A polícia já está a caminho. Um deles chora. Fica murmurando que não tinha escolha, que teve de aceitar o trabalho para alimentar sua esposa e os filhos. Por causa das atitudes dele, os filhos de outras pessoas quase se machucaram. Poderiam ter morrido até. Uma criança não tem qualquer defesa contra aquelas feras. Eu ofereço um copo d’ água a ele.
Não gosto de ouvir lamentações.
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