Kiss Of Blood
12 Escolha
Notas iniciais
Emily estava muito, muito confusa. E principalmente: indecisa. Insegura.
Ela tinha duas opções: deixar sua melhor amiga morrer sofridamente e lentamente, ou então... Entregar-se de vez a Willian. Qualquer uma das duas parecia péssima. E em ambas ela poderia arrepender-se para o resto de sua vida. A diferença é que na primeira, o tempo de sua vida – e arrependimento –, seria menor. Na segunda, ela poderia passar a eternidade lamentando.
Ah meu Deus. Eu estou tão confusa! Ajude-me a tomar a escolha certa, por favor! Ela clamava piedosamente no peitoral de sua janela olhando para o céu estrelado. Emily não era muito religiosa, mas às vezes, quando nada se podia fazer – ou parecia impossível de sair da situação –, ela achava que a melhor coisa a fazer era rezar.
Simplesmente passou a noite pensando no assunto. Não conseguia dormir. Viu no relógio em sua prateleira: 04h00min. Mas então após minutos, caiu no sono...
Emily estava com Sophia. Elas brincavam felizes de simplesmente jogar a bola uma para a outra. As duas há pouco fizeram oito anos de idade. Emily tinha o cabelo preso em duas mexas de cada lado por laçinhos vermelhos – como sua mãe costumava fazer. Seu cabelo era um castanho muito mais claro. Sophia tinha o cabelo negro amarrado em rabo-de-cavalo. Estavam em um lugar muito bonito. Cercadas por um bosque e extensos campos de grama. Perto dali, havia um enorme lago verde. Não se podia ver o seu fundo, nem sua profundidade. Mas não tinham medo de brincar ali.
Sophia joga a bola para Emily, que sem querer deixa cair. A bola vai descendo até que cai no lago. Emily se dispõe a pegá-la, já que ela deixou cair. Porém, ela não sabia nadar. Mas mesmo assim, se jogou na água. A bola vai se distanciando dela até uma parte bem funda. Emily tenta nadar até lá. Seus frágeis braços e pernas cansam. Sophia alerta para ela voltar, mas ela não obedece. Não queria perder a bola da amiga. O corpo de Emily começa a afundar. Sophia chora de desespero e grita pelo nome dela. Não sabia o que fazer. Sophia resolve tentar socorrê-la, mesmo não sabendo nadar também. Ela entra no lago e bate pernas e braços molhando todo o vestido, e desprendendo o cabelo. Procura por Emily, mas esta já havia afundado. Ela mergulha, porém a água é muito escura e pouco lá dentro se pode ver. Sophia força a vista e vê um braço caindo nas profundezas. Ela puxa-o para a superfície, esforçando-se ao máximo. A superfície ainda parece longe. Ela pensou que não aguentaria chegar lá. O fôlego quase acabando. Por pouco, ela não consegue! Sophia recupera o ar e levanta Emily para poder respirar, mas ela não está mais acordada. Sophia carrega o pesado corpo até a margem do lago enorme. Para para respirar, depois prossegue. Ela finalmente chega. Arrasta Emily ao solo. Emily tosse um pouco e expeli a água do pulmão para fora. Ela respira freneticamente.
– Sophia... Você... Salvou-me – dizia Emily com a respiração ofegante e ainda em choque.
– Sim, Emily.
– Mas... Você não sabe nadar.
– Agora eu aprendi. O mais importante era salvar sua vida.
– Você arriscou sua vida, por mim – Emily estava impressionada com a atitude da amiga. Ela abraçou-a.
Willian estava fantasticamente lindo. Seu cabelo penteado para trás. Vestia um terno de gala que parecia ser muito caro. Uma gravata borboleta vermelha em seu pescoço. Ele fez um gesto com a mão, convidando Emily para dançar. Ela aceitou. Ele levou-a para um salão, onde muitos outros casais dançavam. Eles dançavam valsa. As mulheres usavam vestidos extravagastes, superelegantes. Inclusive Emily. Um vestido rosa claro, e uma anágua com armação enorme. Ao fundo, se podia ouvir o som de vários instrumentos de uma orquestra clássica.
Ela não é linda? – perguntou Willian, a voz calma e educada de sempre.
Sim, a música é maravilhosa.
Eu estou falando de ti, minha querida.
O rosto de Emily enrubesceu. Ela sentia-se mais velha do que era, como se tivesse a mesma idade de Willian. Ela também se sentia igual a ele, uma semelhança e um profundo entendimento. O próprio parecia muito diferente, jamais visto antes. Ele parecia mais humano, mas gentil e delicado, não havia nenhum tom maligno ou sarcástico em sua voz.
Tenho que admitir que tu também estais esplêndido. – Ele agradeceu.
Beije-me.
Não aqui, querido. As pessoas podem ver. E estamos dançando, lembra-te?
Então vamos lá para fora, vamos fugir. Vamos ser felizes! Nós podemos!
Não. Não é tão fácil quanto imaginas. Há muitos obstáculos no caminho.
Então eu te roubarei um beijo. – Ele beijou-a em seus lábios delicados. Emily sentiu um alívio no coração, que bateu mais rápido.
Todos pararam de dançar, e os músicos de tocar. Estavam encarando os jovens que se beijavam.
Não liguemos para eles. Vamos lá fora – sussurrou Willian.
Eles foram. Estava chovendo. Eles correram para a chuva de mãos dadas. Emily puxando-o. O vestido dela molhou-se todo a ponto de ficar transparente. O cabelo dele tão arrumado ficou encharcado e caiu para o rosto. O coque de Emily desmanchou-se e os cabelos – que estavam negros – caíram sob os ombros. Ele afastou o cabelo dela no rosto, ela afastou o dele.
Eu te amo. Muito e nunca deixarei de amá-la.
Eu também!
Emily acordou. Estava espantada. Seus sonhos foram estranhos. Mas ao mesmo tempo bonitos. Ambos eram sobre o que mais a preocupavam: sua indecisão. Emily não aguentou a emoção. Chorou em sua cama debaixo do travesseiro.
Na escola, Emily encontrou com Willian. Não aquele Willian perfeito do sonho, mas o de sempre. Arrogante e indelicado. Cruel, que deixaria uma pessoa morrer em troca de ela não aceitá-lo.
– Bom dia, querida – ele cumprimentou.
– Já pedi pra você não me chamar assim – ela falou irritada.
– Tanto faz – disse indiferente. – Eu não quero apressá-la. Para mim não faz diferença, pois tenho a eternidade para esperar. Mas... Você já tomou a sua decisão?
– Não! Ainda não...
– Lembre-se, eu tenho todo o tempo do mundo, mas... A sua amiga não. – Ele saiu sorrindo sarcasticamente e desapareceu em meio à multidão de alunos.
Benison dirigia em direção ao Old Town Medical Center, a pedido de Emily. Sim, ela queria vê-la. Talvez isso a ajudasse a fazer sua escolha. Eles chegaram. Emily entrou no quarto de Sophia. Ela estava desacordada. Talvez dopada.
Seu estado era horrível. Não parecia nem um pouco a Sophia que conhecia; aquela menina linda, inteligente, simpática e alegre. Parecia sofrida, sua aparecia era péssima, nem ao menos um ser humano ela parecia. Era mais para um animal muito, muito doente. Ela estava deitada de uma forma muito estranha. Não estava acordada, parecia em coma. Os braços dela estavam em uma forma em que Emily poderia jurar que estavam quebrados, entrelaçados entre a cabeça e as costas, o pescoço quase totalmente virado para trás, o calcanhar do pé levantado, quase para frente, o joelho da outra perna, completamente virado para o centro do corpo. Ela própria devia ter se contorcido em um de seus delírios e ficado assim. Como alguém que fora exorcizada. Além disso, Sophia estava com terríveis olheiras roxas, a pele pálida como a de um vampiro, uma espuma gosmenta e branca saía da boca, a menina que era magra, estava mais ainda, com os ossos quase à mostra através da pele. Era algo terrível de se ver. Emily sentiu um dó profundo no coração, que o apertava.
– Pobre garota – dizia uma enfermeira que Emily nem percebera sua presença na sala. – Ela não aceita que cheguem perto dela, nem come mais... Era tão bonita. Está morrendo aos poucos. O pior é que nenhum médico conseguiu identificar o que ela tem.
Emily começou a chorar.
Emily Grace era um bebê ainda quando conheceu Sophia. Suas mães as levavam para brincar em um parquinho infantil. Dês de então, elas foram crescendo, crescendo. Os anos se passaram, mas a amizade das duas não passou. Quando aos dez anos de idade, Emily passou pela pior fase de sua vida, ela perdeu muitos amigos que a abandonaram. Mas não Sophia. Sem Sophia, Emily não sabe o que teria feito. O desespero foi imenso, mas Sophia deu-lhe esperanças de continuar vivendo. Elas passaram por muitas coisas juntas, momentos de tristeza e alegria. Sophia inclusive salvara a vida dela uma vez, arriscando a própria. Está bem, que da ultima vez, Sophia não acreditara em Emily, traiu sua confiança. Mas ela deveria entender, era algo insuportável para ela, o medo que a controlara. Emily perdoava-a por isso. Elas se amavam. Ninguém poderia separar a amizade das duas. Nem mesmo... A morte. Depois de tudo o que passaram, ela não podia deixá-la simplesmente morrer ali. Daquela forma tão cruel. Lentamente e sofridamente, Emily podia sentir a agonia que Sophia sentia por dentro. Contorcia-se de dor, tinha medo das pessoas. Não comia, não falava só se movimentava ao ter crises de convulsões. Era inexplicável tudo aquilo. Resumia-se em uma palavra: dor.
– Será que eu poderia ficar a sós com ela por um tempo? – Emily pediu a enfermeira. Ela balançou a cabeça compreensiva e sorriu simpaticamente.
– Willian, eu sei que está aí... – falou Emily confiante. Não parecia haver ninguém ali a não ser por ela e Sophia. Mas Emily podia sentir aquela presença. –... Pode aparecer.
Uma forma saiu de trás das sombras da noite, das cortinas do quarto. Das sombras formou-se um homem. Willian. Um homem com um sorriso vitorioso, como quem acabara de ganhar o maior prêmio de sua vida.
– Você é esperta. Descobriu que eu estava aqui, esperando você me chamar.
– Então você já sabe – disse indiferente.
– Mas eu quero ouvir de você, querida.
– Tudo bem – disse ela revirando os olhos e suspirando profundamente. – Por favor, cure a minha amiga.
– Não estou sentindo emoção. Você não parece querer salvá-la de seu estado terrível...
– Willian! Isso não é uma brincadeira! Eu não estou brincando! – ela gritou.
– Eu também não. – Ele sussurrou.
Emily suspirou bem fundo, tentando se acalmar.
– Willian Hurt, você poderia pelo amor de Deus, salvar a minha pobre a amiga? – ela fez o tom mais implorável que pode.
– Você sabe a minha condição. Quer salvá-la mesmo assim?
– Sim, eu quero. Quero mais que tudo nessa vida!
Willian sorriu. Seu sorriso charmoso, sarcástico, cruel e único. Ele parecia impressionado. Mas assentiu com a cabeça.
Sentou-se na cadeira ao lado da maca. Fechou os olhos, se concentrou. Estendeu os braços e segurou a cabeça de Sophia. Assim como fez com Benison. Passou um tempo nisso. Logo lentamente levantou-se.
– Está feito – disse. – Você tem alguns minutos.
Emily não entendeu o que ele quis dizer por último. Mas aquelas duas palavras – está feito – foram suficientes para sua alegria e satisfação. Ela ficou ali parada esperando a reação de Sophia. Nem percebeu a ausência de Willian no minuto seguinte. Ele havia desaparecido?
Sophia começou a se mexer na maca. Corrigiu a posição torta dos braços, pernas e pescoço. Agora, estava deitada como uma pessoa normal. A palidez e as olheiras aos poucos foram sumindo. Sua pele ia ganhando cor. A cor roxa ao redor dos olhos diminuía. Emily não entendia como aquilo era possível. Não só parecia que ele havia apagado a memória dela, como também parecia haver voltado no tempo.
– Emily... – chamou uma voz fraca.
– Sophia! – Emily chorava, mas dessa vez por emoção. Ela foi até a amiga para abraçá-la. Chorou nos ombros magros de Sophia. Ela continuava mais magra que o normal.
– O quê... Aconteceu? Onde... Nós estamos? Como... Vim parar... Aqui? Por que você está... Chorando?
Emily não sabia até onde a memória dela havia sido apagada.
– Você não se lembra de nada?
Ela balançou a cabeça negando.
– Você foi para a minha casa, e na volta sofreu um acidente de carro com o seu irmão – Emily não pensou que conseguiria mentir tão bem.
– Minha nossa! Sim, eu me lembro! Alguns fragmentos soltos... Cenas rápidas. De alguns momentos apenas vejo um branco. O Simon! Ele está bem?
– Sim, ele já se recuperou. Ele perdeu muito sangue, mas agora está bem. Ai amiga, eu estou tão feliz que você está viva! Eu não aguentaria te perder!
Elas se abraçaram novamente.
– Eu agora vou avisar a enfermeira que você acordou e está bem. Lembre-se de que eu te amo, tá ok?
Sophia sorriu. Emily saiu do quarto.
O corredor estava completamente vazio. Nenhuma enfermeira ou paciente. Apenas as luzes incandescentes acesas e umas cadeiras de espera. Emily virou-se. Ela levou um susto por Willian estar atrás dela.
– Agora... Você é minha!
Ele segurou os ombros dela. Emily sentiu o seu corpo envolvê-la. Em seguida viu apenas um clarão, logo o escuro absoluto. Eles desapareceram.
Fale com o autor