Kiss Me
21 Álcool, droga e rock
Notas iniciais
Acabei por me encontrar no meio de uma floresta com três rapazes que não conheço de lado nenhum. O que é que me está a passar pela cabeça? Não sei nem quero saber. Sinceramente estou-me a cagar para o que se vai passar a seguir. O pior que me pode acontecer é eles violarem-me e nem me importo e se me matassem até me faziam um favor.
Sento-me encostada a uma árvore e olho para o céu… as estrelas estão tão longe…
Eles sentam-se ao meu lado e formamos os quatro um círculo, como se fossemos fazer um ritual satânico qualquer, mas em vez disso o Fred começa a apresentarmos. São o Rui e o David.
O Rui é o mais alto e entroncado, com o cabelo curto, não sei dizer de que cor porque está demasiado escuro e uma barba de três dias que lhe dá um aspeto um pouco selvagem.
O David é um pouco mais baixo, mas mesmo assim bastante mais alto do que o Fred, com a cabeça cheia de rastas, estava entretido a enrolar um e quando o Fred disse o nome dele olhou para mim e sorriu de orelha a orelha.
Retribui o sorriso e abri uma garrafa de cerveja. Hoje à noite vai ser para esquecer tudo. Literalmente tudo.
Quero esquecer-me dos meus pais e de quanto me odeiam e menosprezam.
Quero esquecer-me dos meus supostos amigos que deixei para trás e nunca mais me disseram nada.
Quero esquecer-me de toda a gente falsa que por aqui anda, todos felizes e com um sorrisinho na cara mas à espera da mínima oportunidade para se atacarem uns aos outros pelas costas. Metem-me nojo.
Quero esquecer-me de todos os que conheci e que tentaram penetrar as minhas barreiras acabando por me magoar.
Quero esquecer-me da filipa e das suas histerias e superficialidades.
Quero esquecer-me do António e dos seus dramas e enigmas.
Quero esquecer-me do Pedro e das nossas “brincadeiras”, dos nossos passeios silenciosos, toques proibidos e do facto de ele estar com outra.
Quero esquecer-me do Tiago e de todos os nossos avanços e recuos, dos nossos beijos perdidos e noites passadas juntos, das nossas brigas silenciosas e de todas as vezes que ele me trocou.
Quero esquecer-me de mim mesma e de todas as minhas barreiras e problemas e, embora que só por meros momentos, ser eu mesma.
Antes daquilo chegar a mim já estava a abrir outra garrafa, ainda que com alguma dificuldade. Dei três passas e passei ao Rui.
Eles estão entretidos a falar de qualquer coisa, mas em vez de me dar ao trabalho de ouvir continuo a beber. Talvez no fim da garrafa ouça.
Quando me voltam a passar o Fred pergunta-me:
– Vais beber tudo sozinha?
– Hm… e se beber?
– Eu não deixo.
Tirou-me a garrafa da mão e eu comecei a rir-me e só me apetecia encostar a ele, mas claro que não o fiz, não estou assim tão mal quanto isso. Agora que já não tenho nada com que me entreter vou ver se me meto na conversa.
– Sabes o que é que podias fazer em vez de me tirar a garrafa?
– O quê?
– Por música.
– Música? O que é que queres ouvir? – pergunta enquanto o David tira umas mini colunas dos bolsos. Porque é que ele anda com aquilo?
– Hm… o que quiseres, surpreende-me.
Ele liga o telemóvel às colunas e começa a sair o som muito suave de uma guitarra.
Fecho os olhos e começo a embalar-me ao ritmo da música.
Eles falam de coisas que para mim não fazem sentido nenhum. Dá para ver que são amigos há muito tempo. Tenho inveja deles por isso. Estão a fazer com que me sinta de parte, nada que não seja novidade para mim, mas tento esquecer-me e graças ao álcool e á droga consigo.
Sinto tudo à roda e o facto de ter os olhos fechados não ajuda nada.
Devia abri-los.
Mas se os abrir posso dar com eles a olhar para mim e não quero isso.
Odeio que as pessoas olhem para mim. Odeio.
Continuo a embalar-me, como se o facto de não ver o mundo me tornasse invisível para ele, mas eu sei que não é verdade.
Acho que devia falar com ele. Não sei porquê, mas é o que me apetece fazer. O álcool altera mesmo uma pessoa, mas não me ensina como meter conversa com alguém.
Eles continuam a falar de coisas confusas e então abro os olhos e viro-me para o Fred.
– Gostas? – pergunta-me antes que eu consiga abrir a boca.
– Adoro, isto é brutal, mas nunca tinha ouvido antes.
– É normal, não é muito conhecido.
– Porquê? Quem é?
Eles começam a rir-se. Será que disse algo que não devia?
Acho que a minha pergunta não foi assim tão estranha quanto isso.
– Sou eu.
– Tu? Estás a gozar comigo.
– Não estou, juro!
– Vou fingir que acredito em ti.
– Foda-se, queres que te mostre o meu quarto para veres? – perguntou-me, levantando-se.
Não sei o que é que o quarto dele tem a ver com isto, mas mesmo assim levanto-me e digo que sim.
– Já voltamos – diz o Fred aos outros dois, agarrando-me no braço e puxando-me para o meio das árvores. Se calhar irritei-o…
– Está a aleijar-me – digo ao fim de algum tempo.
– Oh… Desculpa, tinha-me esquecido completamente que ainda te estava a agarrar – murmura, largando-me.
Segui-o, ou melhor, tentei, mas está demasiado escuro e há demasiadas raízes e pedras e o chão está excessivamente instável e eu estava sempre a tropeçar e a cair, acabando por me encontrar de joelhos esfolados, sozinha no meio do chão.
Comecei a chorar. Sou mesmo ridícula… A verdade é que odeio estar sozinha, tenho medo de estar sozinha, é ridículo, apesar de odiar é assim que passo a maior parte do meu tempo. É tão irónica a vida.
Passado nem um minuto, ou talvez dez, nem sei, ele estava de volta e quando me viu no chão correu para mim e agarrou-me para me levantar.
– O que é que se passou? Estás bem?
– Sim. Acho que devo ter tropeçado e caído.
– Está a doer muito? Podemos voltar para trás se quiseres.
– Não, vamos continuar, eu quero mesmo ver se não me estás a enganar.
– Então anda cá – agarrou-me pela cintura, passou-me por cima de um ombro e começou a andar.
– Pousa-me!!!
– Tem calma, assim vamos mais rápido.
– Mas isto é vergonhoso!
– Não te preocupes, se quiseres quando entrarmos no campus eu ponho-te no chão.
– Mas eu tenho medo de cair…
– Não tenhas, não te deixo cair. Confias em mim?
– Não… — e cravei mais os meus dedos nas costas dele, sim, os dedos, porque não tenho unhas, ou melhor, estão todas roídas.
Até nem foi muito mau e quando ele me pousou no chão ao lado da rede acho que não me importava de continuar nas costas dele.
– Desculpa… — murmurei enquanto gatinhava pelo meio de um buraco escondido atrás de uma árvore.
– Pelo quê?
– Por me teres carregado… sou pesada e devo ter-te deixado cheio de marcas.
– Oh… cala-te. És pesada o tanas e caga nisso das marcas, faz de conta que te fodi.
Comecei a rir-me mas parei quando me apercebi que estávamos a ir em direção à festa. Eu não quero ir para lá.
– Porque é que estamos a ir para a festa? Pensei que fossemos para o teu quarto.
– E vamos, é só que infelizmente o meu quarto fica ali.
Isto explica o porquê daqueles três deuses terem aparecido no meio de uma festa daquelas.
Agarrei-me à camisola dele para não me perder no meio daquele mar de gente, fogo, deve estar aqui o campus em peso… e mal entrei na casa fui atingida por uma onda de cheiros e sons que me deixou atordoada.
Segui-o pelas escadas o mais depressa que consegui e entrei atrás dele num quarto que se mais tarde me pedirem para lá voltar eu juro que não consigo.
Olhei à minha volta e a única coisa em que reparei foi que o quarto, apesar de ser do mesmo tamanho que o meu, só tinha uma cama.
– Porque é que só tens uma cama? – perguntei enquanto me descalçava e me atirava para cima dela. Quero lá saber se o vestido voa ou não, estou-me a cagar para isso. – Ainda por cima é super fofa!
– Eu sei e é assim porque posso – respondeu enquanto se ria e se sentava na cama aos meus pés.
Pois… esqueci-me de que ele também não passa de mais um menino dos papás e que basta estalar os dedos para ter tudo o que quer. E isso confirmou-se quando olhei para uma parede e ela estava repleta, mas completamente repleta de guitarras e o chão coberto de amplificadores e cabos.
Como é que não caí a caminho da cama?
– Sim, e por causa disto também. Digamos que a diretora investe bastante em possíveis talentos.
– Muito bem – então não foi por causa de dinheiro, e sim, consegui controlar-me a tempo e não disse isto. – Vais provar-me ou não?
– Claro que vou!
Agarrou numa guitarra que estava encostada a um canto e ligou-a a um amplificador.
Pelo menos assim já não ouço a música de porcaria que está a passar ali em baixo, se é que se pode chamar música àquilo.
Ele parou á minha frente.
Passou os dedos pelo cabelo e tenho de admitir que é extremamente atraente.
Por fim começou a tocar e que deus saiba como ele toca.
Isto é fantástico.
Assim que ele abriu a boca e começou a cantar apaixonei-me completamente.
Como é que não me haveria de apaixonar?
A voz dele é só a coisa mais sexy que já ouvi.
Estou completamente rendida.
Afinal ele não estava a gozar comigo.
Continuei a olhar para ele e a ouvi-lo e estava eu completamente hipnotizada quando a porta é escancarada e entra alguém que me agarra pelo braço e me arrasta dali para fora.
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