Kiss Me

18 Sinceramente…


Cheguei ao quarto e para variar ele não estava lá…

Vaguei um bocado, percorrendo os livros com as pontas dos dedos sem saber muito bem o que fazer. É impressionante a quantidade de livros que trouxe. Não há dúvida que os adoro e adoro-os ainda mais assim, misturados com os dele. São os nossos dois mundos juntos.

Despejo a minha mala para o chão espalhando as conchas e pedras por todo o lado.

Onde raio é que eu meti o meu telemóvel?

Procuro nos bolsos dos calções e nada.

Esvazio os bolsinhos da mala e nada.

Onde é que eu o meti?

Eu não o posso ter perdido.

NÃO POSSO!!!!!!!

Onde é que ele está enfiado?!

Ando pelo quarto de um lado para o outro, freneticamente e a tremer, pisando as conchas e magoando ainda mais os meus pés.

Onde é que eu deixei a merda do telemóvel?

Isto é ridículo!

Nem sequer me lembro se o levei comigo.

Devo ter batido com a cabeça em algum lado numa das muitas vezes que caí e lá me devo ter esquecido de algumas coisas… é a única explicação racional, mas isto também não pode ter acontecido!!

Tenho de me acalmar.

Depois de me despir e de me enfiar no chuveiro sem sequer me dignar a olhar para o espelho, deito-me na cama ainda toda encharcada e só com uma toalha.

Ao olhar para a mesinha de cabeceira vejo que o meu telemóvel está lá, no topo de uma pilha de livros.

Ridículo…

Podia jurar que o tinha levado comigo.

Agarro nele só para pôr música.

É mais do que obvio que nem uma mensagem ou uma chamada tenho. Quem é que haveria de me querer dizer algo? Quem é que estaria preocupado comigo? Ninguém…

E é a ouvir Oasis que me levanto e visto umas calças e uma t-shirt dele, meto o maço no bolso das calças e saio do quarto.

Sinceramente nem tenho muita fome, mas sinto que o meu corpo precisa de comida porque já mal me consigo aguentar de pé, por isso vou até ao refeitório e sento-me num canto a comer.

Devia estar absorta nos meus pensamentos porque só reparei que tinha pessoas à minha volta quando o António me tocou no braço.

– Então?

– Então o quê?

– Estamos aqui há cinco minutos a falar para ti e tu nada.

– Desculpa – digo passando a mão pelo cabelo e olhando à minha volta.

O Pedro está sentado à minha frente, a sorrir. A filipa chega e senta-se ao seu lado pousando um tabuleiro cheio de comida.

– Só comes isso? – pergunta com aquela voz um pouco irritante e aquele sotaque um pouco snob demais enquanto olha incrédula para mim e para a minha sopa.

– Não andas a comer nada.

– Não te vemos aqui desde sexta ao almoço.

E eles continuam a falar, supostamente preocupados comigo, a darem-me na cabeça, mas são tudo farsas. Eu sei que são.

Ouço-os enquanto como em silêncio, assentindo com a cabeça de vez em quando e rindo-me quando eles se riam.

Sinceramente nem sei porque é que eles estão sentados ao aqui, ao meu lado.

Sinto-me tão deslocada.

Quando eles acabam de comer sigo-os até ao átrio.

– António, vamos estudar bio? – pergunta a Filipa agarrando-o pelo braço e esganiçando a voz ainda mais do que o normal.

– Já te disse que é geologia.

– É a mesma coisa. Vamos?

– Vamos. Até logo.

– Xau – respondo e fico a olhar para o Pedro. – E nós?

– Vamos estudar geometria?

– Isso é uma piada, certo?

– Claro! Vamos dar uma volta.

Saímos e está demasiado sol.

– Vamos só até ao meu quarto para ir buscar os óculos de sol antes de irmos – peço-lhe, dirigindo-me ao edifício Petúnia.

Paro à frente da porta procurando as chaves. É impressionante como nunca sei delas.

À terceira tentativa consigo abrir a porta.

– Podes entrar – digo ao mesmo tempo que entro e dou de caras com um Tiago em tronco nu.

O que é que os gajos têm com o tronco nu hoje? Tudo bem que o que é bom é para se ver, mas isto começa a irritar-me um pouco, só para não dizer que me deixa mesmo muito atrapalhada e constrangida porque nunca sei se devo olhar ou não.

Ao ver-me pareceu-me que o seu rosto se iluminou, mas quando os seus olhos se pousaram no Pedro escureceram brutalmente, parece que os seus traços endureceram, fazendo com que a sua cara se assombrasse.

Pela primeira vez tive medo dele.

Acho que nunca mais vou conseguir esquecer esta visão. É aterradora.

Agarro nos óculos e saio o mais depressa que consigo para lhe fugir.

Estúpida! Porque é que lhe estás a fugir?! Ele salvou-te, não salvou? Sinceramente não sei… tenho de falar com ele para ter a certeza de como tudo aconteceu, mas agora tenho medo disso.

– Ana, Ana!! – o Pedro está à minha frente a agarrar-me e a abanar-me.

– Hã?! O que foi?

– Estavas a falar sozinha!

– Estava? Não dei conta. Vamos lá dar a volta – digo, falando demasiado depressa. Só me quero afastar dali o máximo possível e ir para um sítio onde ele não me encontre.

O Pedro queria ir à praia, mas por uma vez na vida tive coragem de contestar alguém e literalmente implorar-lhe para irmos para outro sítio qualquer. Já estou farta de praia, nunca gostei muito dela, mas depois do que se passou gosto ainda menos. Acho que já tive a minha dose para um ou dois meses.

Acabamos por vaguear aleatoriamente pela campus em silêncio, evitando cruzarmo-nos com quem quer que fosse.

Nem sei porque é que estou com ele, até nem desgosto da companhia dele. Pelo menos não me está a obrigar a ter uma conversa.

Só não sei é porque é que ele está comigo, supostamente ninguém gosta da minha companhia porque pronto… eu… eu sou simplesmente eu.

Mas até é bom caminhar ao lado dele e sentir a brisa na cara ao mesmo tempo que partilhamos esta conversa silenciosa.

– Anda por aqui, há um sítio que te quero mostrar – disse ele passado algum tempo.

Continuo a segui-lo agradecendo por este silêncio continuar.

Sinceramente não sei qual é que é a coisa das pessoas em estarem constantemente a falar, elas deviam aprender que o silêncio diz muito mais sobre o mundo que mil palavras, mas cada um tem as suas opiniões e eu respeito-as, gostando que também respeitassem as minhas, coisa que não acontece… mesmo que eu mal as exprima.

Quando resolvi prestar atenção ao que estava à nossa volta dei conta que estávamos a contornar o pavilhão desportivo e a aproximar-nos cada vez mais do limite da escola.

Finalmente ele sentou-se à sombra de uma árvore enorme junto à rede e eu sentei-me ao lado dele.

Está um bom dia… demasiado quente na minha opinião, mas um bom dia. É estranho estar conformada com alguma coisa, mas em raras ocasiões acontece.

Gosto tanto de quando isso acontece, penso enquanto acendo um cigarro e olho para o Pedro.

Os olhos dele são sem dúvida a coisa mais linda que algum dia vou encontrar.

– Pagava cinco euros para saber o que é que estás a pensar – disse, apanhando-me desprevenida e fazendo-me corar, por causa do seu sorriso enviesado.

– N-n-a-na-da… — gaguejei, tentando parecer menos atrapalhada do que realmente estou por este suposto fascínio que os seus olhos deixam transparecer.

– Hm… a mim não me enganas, mas vou fingir que acredito em ti.

Limito-me a sorrir. Sim, eu estou a sorrir espontaneamente! Desta vez não é um daqueles sorrisos manhosos e forçados, é um sorriso a sério.

– És mesmo uma pessoa de poucas palavras, não és? – pergunta, voltando a apanhar-me despercebida.

Sinceramente nem sei bem, mas presumo que sim… quer dizer, eu até falo bastante, se tiver pessoas interessantes e de quem goste com quem falar, porque se não… nem sei… a maioria das vezes nem me deixam falar…

– Sou – respondo, devolvendo-lhe o olhar.

– Eu até gosto disso – sussurrou-me, fazendo-me desviar o olhar para não corar ainda mais.