Quando finalmente acabamos de arrumar as cenas descemos e vamos até à sala comum.

Agora, com as janelas abertas até nem parece má.

Tem duas enormes portes-fenêtre que dão para a praia, uma lareira rodeada por um conjunto de sofás pretos, uma mini cozinha com um frigorífico e um micro-ondas, uma mesa com cadeiras e o que me pareceu ser uma mesa de snooker e, claro, uma televisão. Tudo isto entre paredes do mesmo tom creme que o hall.

Eu fico à janela enquanto o Tiago vai ao frigorífico e tira duas sandes como aquelas que as companhias aéreas servem durante os voos.

– Queres comer isto aqui ou noutro sítio? – pergunta-me ele estendendo-me uma sandes.

– Que mais sítios há?

– Podemos ir para a praia.

– Podemos?

– Claro. Anda que eu mostro-te o caminho.

Ele agarra na minha mão e numa garrafa de coca-cola e leva-me por um emaranhado de caminhos que para ele são tão familiares como as campas do meu cemitério o são para mim e em menos de cinco minutos estamos a pisar areia fina e branca.

– Vamos para onde? – pergunto, procurando um sítio tranquilo e resguardado de olhares para ficarmos. Não que estivesse muita gente na praia.

–Podemos ficar aqui, ou então ir mais para ali – respondeu apontando para perto de um grupo de estudantes.

– Não podemos ir para um sítio mais, digamos, discreto?

– Porquê? Vais-me violar? – ele está a olhar-me tão intensamente com aqueles olhos cinzentos que começo a corar.

Tenho de ser forte.

– Não, claro que não – digo meia atrapalhada.

– Que pena… — ronrona ele, aproximando-se do meu ouvido esquerdo – é mesmo uma grande pena.

– Ai é?

– É. Então se não me vais violar porque é que queres ir para um sítio mais discreto?

– Sabes, é só que não gosto muito de estar no meio de pessoas…

– Hm… Vamos para o meu sítio secreto, então.

Começamos a dirigir-nos para a direita, para a zona onde o mar é mais violento.

Ele vai à frente e eu uns metros atrás com as minha All Stars a afundarem-se na areia.

Atrás de nós ficam as vozes e os risos das pessoas, a escola e toda a sua gente feliz. À nossa frente fica o silencio e o vazio, o deserto e o inabitado.

De repente o Tiago para, vira-se para mim e a sorrir diz:

– Estamos quase a chegar, já não é longe.

Acho que ele parou de propósito. Podia muito bem ter falado enquanto andava, mas não o fez. E agora estamos a caminhar lado a lado.

– Sabes, vais ser a primeira pessoa que levo ao meu sítio.

– A sério?

– Sim.

– Pareces triste com isso – e parecia mesmo, tinha a cabeça baixa, os olhos fixos no chão, os ombros descaídos, o seu sorriso tinha-se apagado dando lugar a uma expressão melancólica. – Se não quiseres não tens de me levar lá. Podemos ficar por aqui, já não está ninguém no raio de cinco minutos.

– Não. Não é isso. Eu quero levar-te lá. Não sei é porquê…

Não sei o que lhe dizer.

Continuamos a andar até que ele para de novo.

– Chegamos. Não é nada de especial, mas é só meu, ou melhor, era – exclama olhando tristemente para mim.

Sinceramente não sei do que é que estava à espera quando ele me falou no seu sítio secreto, mas isto deve ter superado as minhas espectativas.

Estamos no topo de uma duna a olhar para uma pequena baía rodeada por campos de ervas e escassas árvores. A um canto há uma casa em ruinas.

Não se vê ninguém.

Não se ouve vivalma, para além do mar.

Instintivamente, sem saber porquê, agarro na mão esquerda dele com as minhas e levo-a ao meu peito:

– Isto é lindo…

Ele parece tão surpreendido com a minha atitude como eu. Mas em vez de soltar a minha mão como eu esperava que ele fizesse, o Tiago agarra na minha cabeça com a mão livre e encosta-a ao seu peito.

– És a primeira pessoa que cá trago. Nunca antes trouxe cá ninguém, por mais que confiasse ou gostasse deles, mas trouxe-te a ti… uma perfeita desconhecida sobre a qual só sei o primeiro nome.

– Porquê? – murmuro suavemente.

– Vamos comer? – diz, evitando propositadamente a minha pergunta..

– Vamos.

E começamos a descer a duna. Ao chegar perto da água tiro as All Stars e as meias e depois corro para molhar os pés no mar.

Isto sabe tão bem…

Não sentia a água fria do mar contra a minha pele há tanto tempo.

Há demasiado tempo.

Sento-me ao lado dele na areia e começamos a comer em silêncio, ouvindo o leve murmúrio das ondas a morrerem em espuma branca na areia da praia, arrastando consigo algumas algas castanho-avermelhadas.

De vez em quando olho de relance para ele.

Parece que está a pensar.

Está a fixar um ponto algures entre o fim do mar e o início do céu.

Ele é tão belo e frio. Tem os traços do rosto fortes e delicados ao mesmo tempo.

Quando dou por mim estou a estender a mão na sua direção para lhe tocar e ele vira-se para mim, parando o meu movimento a meio.

– Que estavas a fazer? – pergunta sem grande interesse, olhando-me com nojo, de uma maneira tão diferente de há dez minutos a trás.

Se em algum momento antes ele se interessou por mim isso acabou, como sempre…

– Nada – como já não consigo comer mais pouso ao meu lado a sandes de atum com uma única dentada e deito-me de lado na areia, com as costas voltadas para ele.

Eu sou tão burra.

As coisas estavam a ser demasiado fáceis para ser verdade.

Não nos conhecemos.

Não estávamos a namoriscar ou, como lhe chamam agora, a flirtar.

A mão dele pousa no meu ombro.

– Desculpa, não queria ser agressivo. É só que estou a pensar…

– Não faz mal, estou habituada.

– Não digas isso…

– Estás a pensar em quê? – digo, tentando mudar o rumo da conversa, não a quero levar para aquele caminho que já conheço tão bem.

Estou a ponderar se me devia virar para ele ou não.

– Em ti…

– Em mim? – viro-me mesmo para ele, surpreendida.

– Sim. Não sei nada sobre ti e trouxe-te ao sítio que mais gosto. E tenho a estranha sensação de que já nos encontramos antes.

Não pode ser ele, não pode…

Não lhe quero falar do rapaz do restaurante, mas mesmo assim falo:

– A mim também me acontece isso. Não consigo deixar de pensar que já te vi antes.

– A sério?

Aceno com a cabeça.

– Onde?

– Não sei… — minto.

– Nem eu – acrescenta com um tom grave e melancólico.

Ficamos ambos a olhar para o mar.

Ele a comer em silêncio.

Eu com os joelhos contra o peito.

A escassos centímetros um do outro.

Porque é que a conversa com ele é tão fácil?

Porque é que consigo socializar com ele?

Não o conheço.

Como ele disse, só sabemos o primeiro nome um do outro…

Não.

Eu sei mais do que isso sobre ele… sei o que aprendi observando-o. Não é grande coisa mas deve ser mais do que o que ele sabe sobre mim.

Posso usar isso em minha vantagem.

Para!

Em minha vantagem em quê?

Em minha vantagem contra o quê?

Já não estou na minha cidadezinha do interior rodeada por montanhas onde os adolescentes têm as suas próprias regras e padrões e usam coisas uns contra os outros. Eu tinha infirmação, só tinha informação e só usava informação. Mas agora estou à beira mar e não sei como isto aqui funciona.

Quem tem a vantagem é ele… ou talvez nenhum de nós.

Olho para o meu relógio amarelo da Swatch que tenho no pulso direito. Passa um pouco das duas.

Quando ele acaba de comer põe o seu braço esquerdo por cima dos meus ombros, puxando-me contra si e eu encosto a minha cabeça contra o peito dele e ficamos assim, como dois eternos amantes desconhecidos a olhar para o oceano, a ver o mar avançar e recuar a um ritmo constante e melodioso, a observar o continuo movimento do sol… até que o telemóvel dele começa a vibrar.

– Estou – disse ele. — Na praia, porquê? – Silêncio. — Não.- Silêncio. — Não…- Silêncio. — Não quero estar contigo agora! – ele estava quase a gritar, aprecia irritado, ouvi a outra voz igualmente chateada. — Estou ocupado. – Silêncio. — Como queiras. – Silêncio. — Xau – e desligou o telemóvel.

Fiquei a olhar para ele, à espera de uma explicação, mas esta nunca chegou.

– Então? – pergunto quando se tornou mesmo claro que ele não ia dizer nada. – Tens de estar noutro sítio?

– Não, não tenho… Prefiro estar aqui contigo.

Quero perguntar-lhe com quem ele estava a falar, mas não tenho coragem.

Em vez disso volto a encostar-me a ele, esperando que ele se afastasse, mas em vez disso volta a agarrar-me com ainda mais força.

– Achas isto correto? – perguntou ele passado um bom bocado.

– Isto o quê?

– Isto. Estramos assim, agarrados.

–Não sei…

Estou confusa.

Será que ele está a tentar dizer qualquer coisa mais?

Será que as suas palavras têm um duplo sentido?

Não.

NÃO.

Para de pensar nisso.

Acabaste de o conhecer.

Nem ele sente algo por ti, nem tu sentes nada por ele.

Mas… Mas nada, tenho razão, é tudo na minha cabeça. Sou demasiado paranoica e começo logo a imaginar coisas que não existem e nunca vão poder existir.

– Nem eu…

– Se quiseres eu afasto-me – digo, descolando-me dele.

– Não! Eu quero-te junto a mim.

Voltou a apertar-me contra ele.

Porque é que ele me está a fazer isto?

Bem, deve fazê-lo a todas…

Só sei que se ele continua assim vai acabar por fazer com que eu goste dele e eu não me posso apaixonar.

Eu não me quero apaixonar.

Se me apaixonar vou sofrer e eu não quero…

O telemóvel dele volta a vibrar.

Desta vez atende sem me largar. Preferia que o tivesse feito.

– Estou? – Silêncio – Então meu? Como estás? – Silêncio – Onde? – Silêncio – Não, a sério? – Silêncio – Bem, já nos vemos no jantar – Silêncio – Té já.

Ele fixa os seus olhos cinzentos nos meus.

Comparada a ele, eu não sou nada…

– É verdade, esqueci-me de te dizer que no primeiro dia há um jantar de abertura, uma cena muito formal.

– O que é que temos de levar vestido? – eu sei, eu sei… nem eu acredito que fiz esta pergunta, mas não tenho nada de formal para vestir, de certeza que vou parecer uma estupida ao pé das outras raparigas.

No tempo em que eu estava perdida nos meus pensamentos ele começou a rir-se e ainda o está a fazer.

– Será que ouviste alguma coisa do que eu disse? Não te preocupes, o uso do uniforme é obrigatório.

– A sério? Não era uma “cena muito formal”? – faço aspas com os dedos para dar enfase à frase.

– Oh! Tu percebeste. O jantar é às oito, temos de estar prontos às sete. Vamos andando?

– Como quiseres.

– Anda então – disse ele, levantando-se.

Fizemos o caminho de regresso em silêncio.

Ele à frente.

Eu atrás.

Ouvi os seus risos antes de os ver a correr na praia, uns atrás dos outros… os meus ‘futuros colegas’ parecem tão felizes que tenho de me conter para não pensar em fazer-lhes coisas horríveis só para lhes arrancar aqueles sorrisos das caras. Tento ignorá-los e sigo o Tiago até ao edifício Petúnia.

Entro no quarto e deito-me na cama.

Ele agarra nas suas coisas e entra na casa de banho, presumo que vá tomar banho. Podia ter sido cavalheiro e ter-me deixado ir primeiro, mas caga.

Tiro um cigarro do maço e acendo-o.

Tenho de ter cuidado, este maço já está quase a acabar e só tenho outro inteiro comigo. Não sei quando é que vou poder comprar mais. Tem de ser em breve, tem mesmo. Isto é das poucas coisas que me ajuda a acalmar e a tentar manter pensamentos agradáveis ou a mente vazia.