Kiss Me

10 Dilemas de paranoia


Isto é tão humilhante.

Está toda a gente a rir-se e a olhar de lado para mim.

Mas o que é que está errado comigo?

Tenho o uniforme como todos os outros.

Do que se estarão a rir?

– Não lhes ligues – sussurra-me o Tiago ao ouvido.

Por momentos tinha-me esquecido que estava com ele.

Aos poucos os alunos que estavam no hall vão passando por uma grande arcada e entrando no salão principal e sentam-se, por anos, ao longo das quatro mesas dispostas sob um teto creme.

Começo a achar que tudo nesta escola está pintado de tom creme. Aposto que até as salas de aula e as casas de banho estão, devem-se ter enganado na quantidade de tinta e mandado vir em excesso.

Vejo-me separada do Tiago durante os meus desvaneios.

Ele está a abraçar uns amigos e a sentar-se com eles.

Agora vou para onde?

Não sei para onde ir…

Ele tinha prometido que não me deixava sozinha. Devia estar a mentir. Como é que fui burra ao ponto de acreditar?

Sou tão burra! Tão burra!

Em cima de uma mesa está um marcador a dizer ‘décimo ano’. Encaminho-me para lá.

Só estão alguns lugares ocupados, mas mesmo assim não sei onde me sentar.

E se por algum motivo me sento no lugar de alguém? Era só a pior coisa que podia acontecer.

Passo os dedos indicador e médio da mão direita pelo nariz para sentir o cheiro a tabaco dos meus dedos que supostamente me devia deixar mais calma. Não funciona…

Nada funciona…

Normalmente uma pessoa normal não ia ficar assim por causa disto, pois não?

Uma pessoa normal não ia entrar em paranoia por causa de ter de escolher um lugar onde se sentar.

Sinto um cheiro muito intenso a tabaco misturado com perfume atrás de mim.

Viro-me e vejo um rapaz a cinco passos de mim.

É mais alto que eu e magro. Tem um ar confuso na cara. Parece que o cheiro vem dele.

Ele apanhou-me a olhar para ele, que vergonha…

Está a dirigir-se para aqui. Oh não!

O que é que faço?

Não posso simplesmente desaparecer, pois não?

Claro que não, não há buraco suficientemente grande e fundo para eu me enfiar.

– Olá – disse ele quando se encontrava a apenas meio metro de mim, parou e não se aproximou mais.

– Olá... – não sei o que lhe dizer…

– Estás perdida?

– Hm…Não é que esteja perdida, mas… hm…- como é que lhe digo que não sei onde é que tenho de me sentar? Dizendo, né? Supostamente…

– Mas?

– Tipo… a mesa é aquela, mas não sei onde me sentar… — admito, corando um pouco. Um pouco não… sinto a minha cara tão quente, devo estra tão vermelha que até um tomate ficaria com inveja.

Ele começa a rir… A sério? Sou assim tão ridícula quanto isso?

– Sabes uma coisa? Pensava que eu era o único que não sabia onde me sentar, mas pelos vistos não estou sozinho!

– Hm…- tento rir-me com ele, mas não sai mais que um riso forçado acompanhado de um sorriso fingido.

– Se quiseres podemos sentar-nos juntos. Que achas?

– Por mim pode ser, mas tens de ser tu a escolher os lugares – antes comer com um desconhecido do que renegada a um canto ou não conseguir escolher um lugar, não é?

Ele encaminhou-se para a mesa e eu segui-o.

Afinal não é tão alto como tinha inicialmente pensado e, por baixo da camisa do uniforme dá para ver que o seu corpo é ligeiramente musculado. Tem o cabelo castanho um pouco no ar.

Sento-me ao lado dele, quase no fim da mesa, onde a maioria dos lugares ainda está vazia.

Componho as pregas da saia para disfarçar o nervosismo enquanto olho discretamente para ele.

Não faz o meu estilo…

Até podia ser bonito se não fosses os olhos castanhos, vazios e inchados sob umas olheiras enormes e uma barba por fazer que lhe dão um ar de drogado.

Tenho de parar de olhar para ele antes que ele dê conta.

Mas quanto mais olho mais ele me parece um drogado que já não consome há alguns dias e para piorar tudo não diz nada.

Este silêncio que se instalou entre nós é constrangedor.

Talvez eu devesse dizer algo, mas não sei o quê.

Bem, foi ele que veio ter comigo por isso se quiser falar que fale, que eu não vou começar uma conversa para ser humilhada.

Aos poucos os lugares vão-se enchendo de caras sorridentes e conversas animadas e nós continuamos ali sem falar.

Do nada ele começa a rir-se. Melhor, a partir-se a rir, literalmente.

O que é que se passa? Fiz algo que não devia? Ou então ele anda a fumar algo bem mais pesado que tabaco. São tantas as perguntas que se formaram na minha cabeça, mas acabo apenas por dizer:

– O que se passa?

– Nada, nada – responde entre risos.- Não se passa nada.

– Nada?

– Sim, nada. Já agora, como te chamas mesmo? Não me lembro do teu nome, acho que me esqueci dele.

– Talvez porque eu não o disse, não é?

– Pois – ele volta a ter um ataque de riso.

– Sou a Ana e tu?

– António.

Fantástico… Agora, supostamente, tenho de continuar a conversa, mas não sei o que dizer…

Suponho que se eu fosse uma pessoa que conseguisse interagir normalmente com os outros já estávamos a ter uma conversa interessante e a rir e às tantas no fim do jantar íamos trocar os números e possivelmente podíamos acabar a noite a comer-nos. Mas eu não sou assim.

Tento esboçar um sorriso ao qual ele retribui.

Agora os lugares estão todos cheios e a diretora da escola está a dirigir-se a uma espécie de estrado. Suponho que vá discursar.

Bate palmas duas vezes e aclama por silêncio antes de começar:

– Antes do mais queria desejar-vos as boas vindas, tanto aos novos como aos antigos alunos e um excelentíssimo ano letivo – tossiu baixo para clarear a voz. – Como todos certamente sabem, ou se devem ter apercebido, este ano vai ser implementado um novo método de ensino que visa o desenvolvimento das capacidades físicas e psicológicas de todos os alunos, de modo a melhorar o aproveitamento académico para podermos passar de melhor escola do país a melhor escola da europa e, quem sabe, um dia, ver mesmo, a melhor escola do mundo. Para isso conto com a contribuição de cada um de vós. Bem, para quê continuar com palavras? Que sirvam a comida e mais uma vez bom ano letivo!

Está toda a gente a aplaudir sob o seu olhar altivo. Presumo que eu também o deva fazer, pelo que movo lentamente as minhas mãos ao encontro uma da outra enquanto começam a entrar na sala empregados com bandejas repletas de comida.

Pousam sincronizadamente as travessas na mesa e os alunos vão-se servindo avida, mas educadamente, como seria de esperar.

É tanta comida.

Tem um cheiro tão forte.

Dá-me tanta vontade de vomitar.

Só me quero levantar e sair daqui a correr mas não posso fazer isso. Não posso! Mas também não posso comer.

Fico a olhar fixamente para o prato enquanto todos à minha volta estão a comer ora disto ora daquilo, sempre a variar.

Tento ignorar o cheiro a comida.

Tento ignorar o barulho dos talheres a bater nos pratos, o barulho das pessoas a mastigarem.

Tento ignorar as conversas e a impressão de que alguém está a olhar para mim.

É demasiado difícil.

O tempo está a passar demasiado devagar.

Tenho as pernas a tremer. Estou tão nervosa.

Tenho de ter calma.

Tenho de ter calma.

Tenho de respirar.

Inspirar…

Expirar…

Inspirar…

Expirar…

Repito isto baixinho para mim, apenas movendo um pouco os lábios, enquanto levanto a cara e vejo os empregados a levantarem as travessas e os pratos, olhando com uma cara estranha para mim ao verem que o meu estava perfeitamente limpo.

As conversas à nossa volta estão cada vez mais animadas e ele ainda não disse nada.

Será que vai dizer?

Duvido…

Porque é que sequer me preocupo com isso?

Não sei, mas estar ao pé de pessoas deixam-me nervosa, mesmo muito nervosa…

Mas sinceramente, será que eu quero que ele diga alguma coisa?

Estamos bem assim, não precisamos de interagir, pelo menos eu não preciso…

Mas como toda a gente diria, ou pelo menos a grande maioria, “não é normal”.

Mas o que é realmente normal?

Ninguém sabe…

Durante os meus desvaneios acabaram de levantar a mesa e estão a trazer as sobremesas e como eu sou aquela pessoa cheia de sorte colocaram uma taça enorme de musse de chocolate mesmo à minha frente.

Oh meu deus, como eu odeio chocolate.

Este cheiro, esta cor… só me dão vontade de vomitar.

Tenho mesmo de ir lá fora fumar um cigarro para me acalmar e apanhar ar.

– Não queres ir lá fora? – disse o António de repente, assustando-me.

É como se ele tivesse lido os meus pensamentos.

– Podemos sair? – sinceramente duvido que possamos, numa escola como esta onde estão todos felizes e alegres a tagarelar e a empanturrarem-se de bolos e cremes entre paredes decoradas com as mais finas sedas e os mais belos quadros.

Como eu adoro a ironia…

– Não sei, mas não estamos aqui a fazer nada, duvido muito que deiam pela nossa falta.

– Mas e se derem? – estou a ficar ainda mais nervosa, mas não o posso mostrar…

– Não dão. Vamos?

– Se alguma coisa correr mal a culpa é tua.

– Ok, anda. Já não aguento mais estar aqui dentro.

Ele levantou-se em silencio, muito discretamente e eu segui-o como uma sombra, esgueirando-me sorrateiramente para fora do salão principal e agarrando a cauda da camisa dele para não me perder, não que haja muito por onde me possa perder…, sempre com a cabeça baixa e o olhar dirigido para o chão.

– Sabes algum sítio para onde podemos ir e não nos encontrem? – perguntou quando saímos para o fresco ar da noite.

– Não sei, cheguei cá hoje, mas acho que se formos para ali que não deve aparecer ninguém – respondi, apontando em direção aos campos relvados de futebol que ficavam um pouco antes da praia,

– Sim, podemos sentar-nos nas bancadas.

De manhã não tive muito tempo para observar o campus, mas também não é agora que o vou fazer, à luz dos candeeiros do séc. XIX que ladeiam os passeios entre os edifícios.

Sigo-o em silêncio por entre trilhos estreitos supondo que ele sabe o caminho, uma vez que é sempre em frente, mas por uma das primeiras vezes na minha vida interrogo-me se terei tomado a decisão certa em desvalorizar-me, achar que ele tinha melhor sentido de orientação que eu e deixar que ele tomasse a dianteira. É que em cada cruzamento, cada curva, cada atalho ele abranda e olha para todos os lados tomando depois uma decisão que me parece ser ao acaso, e mesmo á noite o campus não me parece nenhum labirinto.

Já estamos a andar à quase quinze minutos, mais do dobro do tempo que eu tinha calculado que demoraríamos a chegar aos campos, quando eu pergunto:

– Sabes para onde estamos a ir?

– Sim, para os campos.

– Hm… e sabes o caminho?

– Acho que sim.

– Achas?

– Bem, na verdade não.

– Então porque é que não disseste logo? Assim escusávamos de ter andado às voltas.

– Desculpa…

– Não peças desculpa, ajuda-me a procurar uma placa que indique o campo antes que apareça aqui alguém por acaso.

– Ok ok… Acho que está ali uma.

E na verdade estava mesmo lá uma placa, indicando sempre em frente.

Mais à frente, outra indicava para a esquerda.

Em pouco menos de dois minutos chegamos lá, saltamos os portões e sentamo-nos a meio da bancada, ambos em cadeiras pretas e com o olhar fixo no campo relvado.

Ao mesmo tempo tiramos um maço do bolso interior do casaco e acendemos um cigarro. Foi pura coincidência, mas mesmo muito estranho.

E agora aqui estou eu, acabada de me escapulir do jantar de abertura da minha nova escola para fumar um cigarro com um perfeito desconhecido. Bem, perfeito não é, sei que se chama António e que anda no décimo ano, é um bom começo.

Não sei se lhe deveria dizer qualquer coisa, mas não me apetece.

Não me apetece fazer nada.

Sinto-me completamente vazia.

Talvez não completamente… há algo em mim que está muito nervoso, mas mesmo mesmo muito nervoso. Não sei se é por estar com alguém e não conseguir começar uma conversa, mas não deve ser porque é perfeitamente normal isto acontecer-me, não sei se é por ter saído a meio do jantar ou por outra coisa qualquer, mas que estou nervosa estou.

Por isso acabo o cigarro, deito-o para baixo das bancadas, pelo espaço que há entre duas cadeiras e vou-me embora sem dizer nada, não por falta de educação ou superioridade, pois não tenho nem uma nem outra, mas sim por puro nervosismo.

Estou num daqueles estados em que nem voz tenho.