Kiss Me
17 Reflexos
Acordei no meio da praia com o cabelo cheio de areia e a roupa toda molhada.
Olho à minha volta e não vejo o Tiago.
Será que foi tudo um sonho?
Não pode ter sido.
O meu corpo continua com os mesmos cortezinhos que fiz ontem quando aparentemente caí no meio da aldeia fantasma.
Mas então como é que eu cheguei aqui?
Porque é que estou aqui?
Porque é que estou sozinha?
Para onde é que é a escola?
Onde é que está a aldeia?
Que horas são?
Isto são demasiadas perguntas sem interesse. A minha cabeça não tarda vai rebentar.
Olho à minha volta e, à primeira vista, só vejo praia, mas depois começo a distinguir um fio de fumo ao longe.
O que será?
Estou curiosa, mas não me dou ao trabalho de ir ver. Se há fumo ali, a escola é para o outro lado, lógico.
Ponho-me a andar arrastando vagarosamente os pés.
Não devia estar assim tão longe quanto isso pois ao fim de 10 minutos já os consigo ouvir.
Estão tão felizes… para eles nada deve ser melhor do que passar uma fantástica manhã de domingo na praia.
Não sei bem porquê mas só me apetece decepá-los a todos e espetar as cabeças em estacas à frente de um portão para depois me sentar a ver o sangue a escorrer dos seus pescoços e a formar poças encarnadas no meio do chão.
Estas deias fazem-me sorrir de uma maneira tão estranha, como se tivesse um prazer proibido com elas. Até é verdade que tenho e isso às vezes assusta-me, como me teria assustado agora se não viesse alguém a correr na minha direção.
Não sei quem é… não consigo reconhecer ao longe.
O meu primeiro instinto é para me esconder, mas não há onde me esconder.
Porque é que tinha de estar numa praia onde não há nada à volta?
O mais provável é que seja só alguém a correr por diversão e que acabe por não me ver.
De qualquer das maneiras quem é que viria a correr numa praia na minha direção com os cabelos ao vento e um sorriso na cara? Ninguém! Porque, para além de ninguém se preocupar comigo, isto é demasiado irrealista: demasiado piroso e ao mesmo tempo romântico.
Não sei o que fazer.
O mais provável é que, seja quem for, não me veja.
Quer dizer, a praia está vazia e só estou cá eu, mas ele não me vai ver… claro que não me vai ver… sou tão estúpida!
Está cada vez mais perto.
Não quero olhar.
Sou mesmo ridícula…
Continuo com passos cada vez mais lentos e cravo os olhos no chão.
Nem sei se quero olhar para o chão ou para quem quer que seja que se esteja a aproximar ou para outro sítio qualquer.
Fecho os olhos.
Só quero que isto passe o mais rapidamente possível.
Eu odeio tanto pessoas e ter que interagir com elas, odeio o simples facto de ter de conviver com elas. Nunca sei o que fazer e isso só me faz odiar-me um pouco mais.
Continuo a andar.
É impossível andar em linha reta com os olhos fechados, por isso concentro-me nisso.
Continuo a andar.
De repente sinto um encontrão forte e caio de costas no chão. A minha cabeça bate na arei e ele não está nada mole.
As dores já insuportáveis tornam-se ainda maiores.
Não sei como é que vou aguentar.
Olho para o céu, mas a luz do sol ofusca-me o obriga-me a fechar os olhos outra vez.
Quando os volto a tentar abrir tenho uma sombra sobre mim a estender-me a mão.
Sem saber o que fazer aceito-a e dou de caras com um rapaz, um pouco mais alto que eu, de tronco nu e o cabelo cheio de areia.
Fico a olhar para ele por um momento pestanejando freneticamente, como à espera de uma resposta o que ele diga qualquer coisa porque eu não sei o que fazer, mas apercebo-me que se eu não tiver a iniciativa vamos apenas ficar os dois a entreolhar-nos até um se ir embora.
A culpa disto é toda minha e da minha paranoia com pessoas. Se eu não tivesse fechado os olhos nada disto tinha acontecido.
Bem, se ele não disser nada dentro de vinte segundos dou meia volta e vou-me embora, apesar de eu estar a ir na outra direção.
Se soubesse rezar rezava para que ele se fosse logo embora, mas não sei, por isso limito-me a esperar e a contar mentalmente, desejando que em alturas como esta existisse mesmo uma entidade divina para me controlar e tomar as decisões por mim. Mas não existe.
Estou prestes a desviar os olhos dos dele quando ele diz:
– Por favor para. Estou a atrofiar bué contigo sempre a pestanejar.
– Oh… desculpa – digo, parando de pestanejar e olhando para ele com mais atenção.
Até tem a sua graça, nem é mau, mas não é nada comparado com o Tiago.
– Não, se alguém tem de pedir desculpa sou eu por ter ido contra ti – tenho de admitir que apesar de ser um lingrinhas trinca espinhas ele fica bem sexy a passar a mão pelo cabelo enquanto fala.
– Não faz mal, não sei o que aconteceu mas não interessa – saber até sei, mas se disser esta conversa vai-se prolongar por muito tempo e eu só me quero é ir embora. – diz-me só uma coisa, que horas são?
–Deve passar um pouco das dez, já agora, sou o Frederico, mas todos me chamam Fred – disse, estendendo-me a mão e fazendo um sorriso de orelha a orelha.
Isto quer dizer que eu não sei o que se passou comigo durante mais de vinte horas… wow…
Sem saber muito bem o que fazer ia apertar-lhe a mão quando ele me puxa para ele e me dá o que eu acho ser um choque de ombros, nem sei se esta expressão existe.
– Ana.
Bem, eu não sei que fazer agora, mas uma coisa é certa, tenho de me pôr a andar daqui para fora. Odeio estar com pessoas, nunca sei o que fazer e atrapalho-me sempre, mas desta vez está a ser ainda pior…
Porque é que ele tinha de estar em tronco nu? Tenho de parar de olhar para o corpo dele. Tenho de parar de o percorrer com o olhar porque se não vou ter de tirar a areia que ele tem colada à pele grão por grão.
Tenho de parar de pensar nisto e me acalmar. O melhor é focar-me num defeito qualquer. Vou fixar-me numa espinha qualquer que ele tenha na cara, se tivesse alguma…
– Ah… hm… sabes para que lado é o colégio? É que eu perdi-me…
– Colégio?
– Sim, aquele à beira da praia, o D. Manuel.
– Ah… a toca?
– Toca? – esta conversa está a demorar mais do que aquilo que eu tinha previsto, ele devia ter simplesmente indicado a direção em vez de se pôr aqui a enrolar… tenho de acabar com ela depressa.
– Sim, é o nome que lhe damos. Nunca te tinha visto por lá.
– E eu nunca tinha ouvido isso, só entrei este ano.
– Ah... então é normal. É por ali – e apontou para trás de si, afinal eu sempre estava a ir no bom caminho.
– Obrigada, vemo-nos por aí.
– Sim, vamo-nos voltar a encontrar.
Sorri, ou pelo menos acho que sorri e retomei a minha deambulação.
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