Kiss Me

8 Primeira impressão


Cá fora o ar está quente, mas como estamos à beira mar sopra uma leve brisa com cheiro a maresia, o que torna o calor suportável.

Onde será o edifício Petúnia?

Não faço a mínima ideia, mas também não vou voltar a entrar no hall. É melhor sair daqui antes que os meus pais saiam.

Começo a percorrer o campus. Para além do edifício principal devem haver mais seis ou sete.

Já ando a vaguear há mais de dez minutos quando reparo que os edifícios têm uma placa com o seu nome.

O edifício Petúnia é o que se encontra mais perto do mar. O seu estilo é na mesma vitoriano, com colunas e assimetrias e, evidentemente, bay windows, mas encontra-se um pouco mais deteriorado, talvez pela sua maior exposição aos elementos.

Subo um degrau e empurro a pesada porta de entrada.

Cá dentro está escuro e cheira um pouco a mofo. Devem ter deixado isto fechado durante o verão todo.

Acho que estou numa espécie de corredor que vai dar a outro corredor, este último ladeado de portas, e termina num arco.

Atravesso o arco e subo as escadas que estão no canto esquerdo da sala a que fui ter, quase tropeçando pelo caminho pois ela está mergulhada na escuridão.

Continuo a subir até ao terceiro e último piso.

Agora é o quarto sete.

Ainda demoro um bocado a abrir a porta. Nunca tive muito jeito com chaves. Sinceramente, não sei se se tem de rodar para o lado direito ou para o esquerdo. É uma confusão.

E confusão é a palavra perfeita para descrever o quarto.

Está uma grande confusão.

Até parece grande, quer dizer, pequeno não é de certeza.

Com duas camas uma ao lado da outra separadas por menos de metro e meio e em frente a uma janela com varanda voltada para o mar, duas secretárias uma ao lado da outra a um canto, algumas estantes, um armário embutido na parede, uma outra porta e as minhas e outras caixas pousadas em tudo quanto é lado, tudo isto entre paredes azuis claras, um teto branco e um chão de madeira.

Não sei o que fazer por isso abro a janela para deixar entrar o ar e ver se este cheiro horrível sai daqui.

Na cama da direita está pousada uma mala aberta, possivelmente a marcar território, seja com quem for que vou partilhar o quarto essa pessoa já deve ter chegado e escolhido a sua cama. Então eu fico com a da esquerda, onde pouso a minha Eastpak.

Acabo de tirar um cigarro e de o acender quando a tal outra porta se abre e sai de lá um rapaz ruivo.

Outro ruivo?

A sério?!

Dou uma grande passa enquanto olho para ele e ele olha para mim. Este tem o cabelo curto, quase rapado dos lados e com cerca de cinco centímetros em cima, mas em tudo o resto é muito parecido ao rapaz do restaurante, mesmo muito.

Não pode ser ele… ou pode?

Acabo de fumar o cigarro na varanda.

Não sei o que fazer.

E ainda por cima tenho vergonha.

Estava deitada em cima da minha cama há quinze minutos a ouvir música e a olhar discretamente para ele quando, de repente e finalmente, ele diz qualquer coisa. Eu não ouço, mas vejo os seus lábios a mexerem-se, por isso tiro os fones e digo:

– Desculpa, disseste alguma coisa?

– Só te perguntei o que estavas a ouvir.

– É que não ouvi por causa da música – continuo ao mesmo tempo que ele.

– Não faz…

– Chili Peppers? Conheces? – interrompo-o.

– Red Hot Chili Peppers? – repetiu ele começando a gaguejar e sentando-se na beira da sua cama. – Quem não conhece?

– Muita gente, infelizmente… — respondo com a voz a esmorecer, fixando o olhar no teto.

Ele olha para mim com uma cara preocupada, acentuando as parecenças com o rapaz do restaurante e sobressalta-se quando a minha postura muda drasticamente.

– Queres ouvir? – pergunto, virando-me para ele.

– Ouvir o quê?

– Red Hot, Californication.

– Isso pergunta-se? – diz ele enquanto se ri e eu tiro os fones e ponho o volume no máximo, espalhando a música pelo quarto. – A propósito, sou o Tiago.

– Ana.

– Parece que vamos partilhar o quarto, não é?

– É. Não achas estranho que nos ponham a partilhar quartos mistos?

– Um pouco, este ano é o primeiro em que fazem isso. Dizem que é um novo método para melhorar o desempenho.

Começamos ambos a rir baixinho.

– Melhorar o desempenhos, pois pois. Deve ser, mas não me parece que seja o escolar.

– OH MEU DEUS! No que tu foste pensar! – ele finge uma cara surpreendida.

Parece que nos conhecemos há anos.

– Desculpa, desculpa – pela primeira vez em meses consigo sorrir sem dificuldade.

– Parece que nos vamos divertir bastante juntos.

– Ai vamos? – pergunto tirando outro cigarro.

– No que estás a pensar?

– Não sei, não conheço as regras daqui, sou nova.

– És? A tua cara não me é estranha, mas sinceramente não me lembro de te ver por cá.

– Sou. Para dizer a verdade este é o meu primeiro ano num colégio interno.

– A sério?

Ele parece bastante surpreendido quando lhe aceno afirmativamente com a cabeça.

– Bem, há regras aqui e não fumar é uma delas.

Aproveito a deixa para lhe mandar com o fumo para a cara.

– És mesmo simpática, nem uma passa me ofereces enquanto eu te explico as regras da escola – continua com um sorriso sedutor.

– Pensava que não se podia fumar – digo, estendendo-lhe o cigarro.

O que é que nós estamos a fazer?

Não…

Nós só estamos a conversar.

Nem nos conhecemos e um rapaz como ele não se ia interessar por uma rapariga como eu.

Quando me volta a dar o cigarro prossegue:

– Como estava a dizer, não se pode fumar. Supostamente, é claro. Também não se pode beber ou usar drogas.

– E há quem cumpra essas regras?

– Praticamente toda a gente – esboçou um ténue sorriso.

– A sério?

– Ya. A única que desrespeitamos é a de fumar e mesmo assim somos poucos. Sabes como é…

– Filhos de senhores ricos. Meninos bem comportados, né?

– Mesmo. Está a olhar para um deles.

– Bem, tu não estás a olhar para uma – não sei porque é que estou a sorrir.

– Não?

– Nop – parece que ele não sabe nada sobre mim, mas pensando bem eu também não sei nada sobre ele. Do que é que eu estava à espera? Que lhe tivessem dado o relatório completo da minha vida para saber se ele aceitava partilhar o quarto comigo? Por favor… se assim tivesse sido ele não estava aqui de certeza absoluta. Ele interrompe-me os pensamentos quase de seguida:

– Então porque é que estás aqui?

– Talvez um dia te conte. E que mais regras há?

– Não é talvez, vais contar – diz avançando para mim. – Tu sabes, aquelas tretas do recolher obrigatório, nada de barulho depois das dez em dias de aulas, nada de perturbar as aulas, o uso obrigatório do uniforme durante a semana, só podes ir à cidade nos fins-de-semana. Coisas desse género.

– Estou a ver... – mas não estava, pelo menos não muito bem. – Sabes onde posso arranjar? – apontei para o maço.

– Há um café na praia que me vende, não muito longe daqui. Esta semana posso levar-te lá.

– És um querido, obrigada.

– Nada é gratuito, vai haver um preço – lá está ele com aquele sorriso sedutor.

Não!

Não posso pensar nisso.

Estamos SÓ a conversar!

Mas mesmo assim não resisto a perguntar:

– E que preço é esse?

– Depois vez… Devíamos ir arrumando isto, não devíamos?

– Devíamos, mas se pensas que vou arrumar as tuas coisas para me ires mostrar o tal café estás bem enganado.

Ele desata a rir. Está a rir-se do que eu disse. Ou estar-se-á a rir de mim?

– Não, o meu preço não é esse. Estou a pensar numa coisa muito melhor.

– No quê? Estou a começar a ficar com medo – e estou mesmo a ficar com medo. No que será que ele estará a pensar enquanto passa os seus dedos pelo cabelo ruivo e me olha de alto a baixo com aqueles olhos cinzentos.

– Depois vez, não tens de ficar. As camas já estão escolhidas, como fazemos com o resto?

– Não sei, vemos ao mesmo tempo que arrumamos as cenas.

Aos poucos, o quarto foi ficando mais vazio, enquanto misturávamos os nossos livros nas estantes e guardávamos a nossa roupa junta no armário, sem nos darmos ao trabalho de separar o que era meu do que era dele.

De repente, quando o quarto estava praticamente arrumado, o Tiago agarrou-me na mão e fez-me girar ao ritmo da música.

Estávamos a dançar.

Estamos a dançar.

Eu que não sei dançar estou a dançar, agarrada a um rapaz que não conheço ao som de Hotel California, ao mesmo tempo que ele me diz:

– Os dormitórios têm uma sala comum, não deves ter visto muita coisa dela porque estava tudo escuro, mas a maioria dos alunos fica fechado no quarto e raramente vai lá durante a semana.

– Então porque é que há uma sala comum?

– Para o convívio, é claro!

– Mas…

– Eu sei, eu sei – disse ele rindo-se e colocando as mãos na minha cintura. — E para se ir comer se se tiver fome quando se está no dormitório. No fim-de-semana até tem um pouco de movimento, no ano passado a tinha um ambiente fixe.

– Estavas neste dormitório o ano passado?

– Evidentemente. O edifício Petúnia… é o melhor dormitório de cá.

– Está a ser irónico?

– Não, claro que não – ele puxa-me ainda mais para ele quando muda para Can You Feel My Heart dos Bring Me The Horizon, que não é propriamente uma música calma e para dançar em slow como parece que nós estamos. – E para tua informação, aquela porta ali é a casa de banho.

– Ahhh… — exclamo, olhando para a porta de onde ele saíra.

Sou tão pequena.

Sinto-me tão pequena.

A minha cabeça nem lhe chega ao ombro.

Tenho as minhas mãos nas costas dele e a minha cabeça encostada ao seu peito, ouvindo as batidas constantes do seu coração.

Ele tem as mãos dele na minha cintura, puxando-me contra ele, e o queixo apoiado na minha nuca.

Balançamo-nos melancolicamente a um ritmo mais lento que a música.

Porque é que ele está a fazer isto?

No que será que ele está a pensar neste momento?

Como é que eu poderia saber?

Gostava tanto de lhe poder ler os pensamentos.

O que é que será que o levou a agarrar na desconhecida com quem vai partilhar o quarto e a colar contra si e dançar com ele no meio do quarto onde vão estar sempre juntos?

Dava bastantes coisas para saber as respostas a estas perguntas.

Nós não nos conhecemos de lado nenhum.

E ele é tão parecido com o rapaz do restaurante.

No momento em que ia olhar para cima, para a cara dele, batem à porta.

Ele larga-me e vai abrir.

Um homem vestido de preto entra e pousa em cima da minha cama seis cabides protegidos por aquela espécie de sacos que lhes põem quando saem da lavandaria.

– Aqui tens os uniformes, Tiago, como habitualmente. Boa tarde.

– Obrigado senhor Fernandes – agradeceu e o homem saiu.

Parece que a entrada do homem, do tal senhor Fernandes, pôs fim à nossa dança.

Ele apressa-se a abrir um saco, tira de lá um cabide e mostra-mo sorrindo.

– Ann, apresento-te o que vais vestir todos os dias a partir da próxima semana.

Bem, não são maus, mas também não se comparam com os uniformes japoneses. Saia de pregas com o típico padrão escocês em tons de azul meia-noite acima do joelho, camisa branca, gravata preta, casaco estilo Tweed preto e camisola de malha preta, para o inverno, estes dois últimos com a insígnia da escola gravada no peito esquerdo. A única diferença entre o meu e o do Tiago era que o dele trazia calças em vez da saia.

– Waw... são… bastante escuros – digo por fim. – Nem são maus.

– Vais habituar-te.

– Pois vou. Vamos arrumar as outras coisas na casa de banho?

– Ainda não a viste, pois não?

Aceno negativamente.

– Nesse caso acho que vais ter uma surpresa – diz ele, rindo-se.

– Porquê? É enorme?

– Gigantesca! E cor-de-rosa choque! – e empurra-me para dento de um cubículo azul claro com pouco mais de quatro metros quadrados.

A um canto uma cabine de duche, um lavatório com um armário por baixo e um espelho por cima, alguns cabides e uma pequena estante com toalhas e, claro, uma sanita. Mais nada.

Ambos ficamos parados em frente ao espelho.

Somos tão diferentes.

Vimos de dois mundos completamente diferentes.

Como será que nos vamos dar?

Olho para o reflexo dele e para o meu.

Sinto a minha anca a latejar, sob os cortes que fiz quando descobri que isto era um colégio interno, quando ele pousa lá a mão sobressaltando-me e puxando-me para mais perto de si.

– És tão pequenina Ann.

– Eu sei que sou – digo tentando sorrir e afastar-me dele, mas não consigo fazer nem uma coisa nem outra. – Porque é que me chamas Ann?

– Sei lá, é fixe.

– Ai é?

– Por acaso é. Tinhas alcunha?

– Havia quem me chamasse Annie.

– Annie?

– Sim.

– É fofo, o nome.

– Eu sei – não consigo evitar um sorriso.

– Importas-te que te chame isso?

– Se for só entre nós não.

– Vai ser o nosso pequeno segredo então. O primeiro de muitos…

– Por mim tudo bem – olho para a cara um pouco triste dele e sorrio-lhe, aproximando-me mais dele.

– Mesmo?

Os olhos dele estão fixos em mim.

Este era o momento perfeito para o beijar se tivesse coragem para tal…

– Sim. Não há mais regras?

– Não, de importantes ou que te possam interessar acho que não.

Ele larga-me e começamos a arrumar as coisas.

– Então não há nenhuma sobre sexo? – pergunto quando arranjo coragem para tal.

– Não – responde, surpreendido pela pergunta. – Porquê?

– Porque isso prova que eu tinha razão, no que toca a um melhoramento de um certo desempenho.

– Ainda estás a pensar nisso?

– Yapst – respondo de dentro da cabine de duche enquanto arrumo os shampoos numa prateleira alta.

O riso dele chama-me à atenção.

– Acho que acabei de encontrar uma coisa que fortalece a tua teoria.

Quando pus a cabeça de fora da cabine ele mostra-me uma caixa de preservativos.

Não me consigo controlar e parto-me a rir, quase caindo ao chão.

– Muito bem – respondo entre risos.

Cada vez acho este colégio mais estranho e ainda só cá estou há umas horas.