Kiss Me

15 Pedras, conchas e sangue


Já se passou uma semana desde que aquilo aconteceu e, para ser sincera, cortei-me todos os dias e passei-os a fugir dele e a evitá-lo o que não foi muito fácil porque dormimos no mesmo quarto. Na verdade fiquei um pouco desiludida por ele não me procurar, mas deve estar mais ocupado com as amiguinhas dele… nem sei porque é que não o afastei… mas a partir de hoje vai ser diferente! Tive a semana toda para me decidir e vou parar de o evitar e vou falar com ele! Eu sei que não vou fazer isso, sei que a coragem me vai faltar, mas tenho de pensar positivamente porque hoje é sábado e estou finalmente de fim-de-semana e com tempo para descansar.

Uma das coisas boas daqui é que ao fim de semana, como não há aulas, não temos de usar o uniforme, por isso toda a gente anda como bem lhe apetece (dentro do aceitável, é claro). Se fosse um colégio normal era neste dias que nos apercebíamos da variedade de culturas dos alunos, mas aqui só há dois tipos: “os ricos” e “os outros”, ou então “os na moda” e “os outros”. Claro que eu faço parte dos outros, que, só para constatar, constituem uma misera minoria.

Mas esta semana de, digamos, isolamento social, fez com que eu agora me estivesse numa de me estar a cagar (um pouco) para o que os outros pensam de mim e com agora estou-me a referir apenas e só a este preciso momento em concreto, enquanto visto uns calções pretos que deixam ver o estado miserável das minhas pernas e uma camisa sem mangas azul e branca um pouco retro que me valeu uma boa doze de críticas no ano passado por ser demasiado retro.

Como o Tiago já não estava no quarto quando acordei parece que a nossa “conversa” vai ter de ser adiada, por isso agarro na minha mala de praia, numa toalha, calço as All Stars sem meias, ponho o maço no bolço de trás direito e fecho a porta do quarto, deitando um ultimo olhar à cama e perguntando-me como é que tenho conseguido dormir lá.

Tiro uma sandes do frigorífico e uma garrafa de água e um pacote de bolachas de manteiga de um armário e saio do edifício Petúnia ignorando toda a gente dirigindo-me para a praia. Não sei porque é que levo tanta comida, sei que vou acabar por não comer nada.

Descalço-me, coloco as sapatilhas ao pescoço e ando com a água pelos tornozelos. Esta horrivelmente fria, mas mesmo assim continuo. Passado algum tempo até sabe bem, à medida que as ondas vão chegando fazendo-me cócegas e arrepios, como as mãos dele. Não posso pensar nisso, por isso afasto-me e ando pelo meio da areia, sentindo os pequenos grãos entre os meus dedos.

Eu adoro isto.

Adoro a água fria do mar e o barulho das ondas.

Adoro as algas castanhas e as limas verdes espalhadas pela areia branca.

Adoro sentira briza fresca e o cheiro a sal.

Adoro tudo o que tem a ver com o mar e a água.

Tudo. Tudo, especialmente as pequenas coisas, como as conchas e as pedras que pintam a areia em vários tons de vermelho e laranja.

Não sei porquê mas sou completamente maluca por isto. Talvez porque é das poucas coisas que me faz sentir bem… não sei…

Inconscientemente dou por mim a apanhar centenas de conchas e a guardá-las na minha mala. A cada uma que apanho penso “esta é a última”, mas depois vem outra e outra e mais outra e quando me apercebo já tenho quase dois quilos de conchas comigo e os pés em ferida por estar a pisar conchas partidas há tanto tempo.

Já me afastei bastante da escola, talvez uns 5 quilómetros, mas continuo a andar e só para quando vejo um pequeno aglomerado de casas a umas centenas de metros.

Estendo a minha toalha na areia seca, mas não muito longe do mar e sento-me para comer.

Comer… heis a única coisa que não gosto de fazer na praia. O único senão da praia é mesmo este, comer. Não dá para comer na praia, é impossível! Quer dizer, impossível não é, mas acabasse por se ter sempre um ingrediente extra, algo que não devia estar na comida… sim, estou a falar da areia. Basicamente, comendo na praia comemos areia.

Dou a primeira trinca na sandes.

Atum…

A sério?

Porque é que tinha de ser atum?

De todas as sandes que havia tinha logo de trazer a que eu comi com ele?

Detesto tanto coincidências!

Eu estava tão bem, tinha-me distraído completamente e agora tinha de comer a merda da sandes para me lembrar dele…

Atum…

Nem me dou ao trabalho de comer mais. Arrumo as coisas na mala e caminho o mais rápido que consigo em direção às casas para as explorar e para deitar isto fora. Tudo isto para não me obrigar a vomitar.

Tenho de desanuviar a cabeça.

Tenho de parar de pensar no que quer que seja e concentrar-me no som das ondas, no azul do céu, nos grãos de areia entre os meus dedos e na briza com cheiro a maresia mas o sabor a atum não se vai embora…

Isto ao longe parecia uma pequena aldeia piscatória, mas agora que estou a poucos metros vejo que é na realidade uma aldeia fantasma, com casas abandonadas, paredes desfeitas, muros caídos, portas arrancadas e vidros partidos espalhados por todo o lado.

Gosto disto.

Faz-me lembrar uma casa abandonada que há na minha cidade ao lado da estação de comboios, que, por acaso, também está abandonada. Eu costumava ir lá passear ou só passar o tempo no silencio até um dia encontrar as coisas de um sem-abrigo e me vir embora a correr. Nunca mais lá fui…

E agora aqui estou eu, a apertar os cordões para ir a uma vila fantasma. Se fosse católica acho que estava a rezar para não encontrar nenhum vagabundo, mas como não sou limito-me a resmungar comigo mesma.

Isto é uma confusão… e eu avanço calma e silenciosamente entre ela, vendo bem onde ponho os pés para não me perder no meio do caus. Avanço entre a destruição onde reina a natureza e a natureza ama o caus. A natureza é o caus. A natureza grama o caus (citando o que o meu professor de geometria disse na primeira aula). Apesar de estarmos à beira mar há ervas que me dão pelo joelho, musgo que me faz escorregar e raízes que me fazem tropeçar. E é em alturas como esta que eu desejo ser um pouco mais cuidadosa e saber andar em condições.

Mas não há nada a fazer e um gato passa a correr à minha frente e eu por pouco que não grito e só não caio porque tinha uma parede a trás de mim. Assustei-me com um gato… a sério… eu estou cada vez pior. A minha reação foi tão patética que me estou a rir de mim mesma. Isto é tão deprimente e quanto mais penso mais me rio. Não consigo parar e isto nem sequer tem piada. Era só um gato. Um gato que já se foi e me deixou sozinha.

Continuo a andar tentando manter-me de pé e não me cortar em lado nenhum.

Tiro um cigarro da mala e acendo-o. Dou um grande travo. Um travo demasiado longo. Um daqueles em que parece que os nossos pulmões se transformam em fumo e que a nossa garganta começa a arder e temos aquela sensação de que vamos explodir mas a única coisa que nos acontece é ficarmos um pouco tontos, como quando fumamos o primeiro cigarro.

Continuo a andar, atenta a tudo enquanto procuro um sítio para me sentar. Se há coisa que odeio é fumar de pé e o ódio é um sentimento tão forte que é raro eu senti-lo.

Tenho de parar porque ouço barulho. Deve ser outro gato, mas se calhar e melhor voltar para trás.

Tento focar mais a audição.

Parecem rodas de skate.

Deve ser só a minha imaginação. Isto está deserto e a cair de podre, ninguém ia andar quilómetros para vir para aqui andar de skate. Mas se vermos bem as coisas eu fiz mais ou menos a mesma coisa.

Sento-me num banco todo grafitado e tento abstrair-me do som enquanto tento, em vão, fazer argolinhas com o fumo.

Isto não está a funcionar e as rodas a rolar no chão entre os vidros estão-me a irritar profundamente.

Isto irrita-me tanto!

Normalmente sou uma pessoa calma mas esta merda está a tirar-me do sério.

Chega.

Não aguento mais.

Vou-me embora.

Levanto-me tão repentinamente que me sinto meia tonta. Na verdade sinto-me mais tonta do que o que me deveria sentir.

Isto não faz sentido.

Está tudo turvo.

Não consigo ver nada.

Tento dar um passo mas tropeço, não conseguindo recuperar o equilíbrio, acabando por me estatelar no chão, cravando alguns vidros um pouco por todo o corpo.

Não me consigo levantar.

Está tudo a ficar negro.

Estou sozinha aqui…

Ninguém me vai encontrar…

Também ninguém me vai procurar…

Ninguém vai dar pela minha falta…

Vou acabar por morrer aqui…

Sinceramente não me importo.

A última coisa que ouço são as irritantes rodas de skate a aproximarem-se cada vez mais.