Kiss Me

16 Gasolina


Outra vez esta sensação de estar perdida entre o espaço e o tempo.

Outra vez esta sensação de estar a ser engolida pelo universo.

Já estou demasiado familiarizada com os desmaios.

Demasiado para o meu gosto, mas desde que não aconteçam à frente de outras pessoas não há problema. Só não posso é parecer fraca.

Aos poucos sinto os sentidos a voltarem.

Primeiro frio, muito frio. Depois uma leve onda de calor.

Sinto algo mole debaixo das minhas costas.

A minha boca está seca e com um sabor estranho e não consigo emitir mais que um leve gemido.

A única coisa que me chega aos ouvidos é um emaranhado de sons sem fim alternado com um silêncio de morte.

Isto é tão confuso.

Se ao menos pudesse abrir os olhos, mas não, as minhas pálpebras estão pesadas como pedras, parecem chumbo e eu não as consigo mexer.

Não consigo fazer nada.

Isto é tão irrealista, como é que isto é possível?

É verdade que já li numa revista que há casos de pacientes em coma que conseguem ouvir e aperceber-se do que se está a passa à sua vota, mas eu não posso estar em coma. Não posso. Não posso, pois não?

Claro que não.

Meu deus, isto é tão estúpido!

Mesmo “inconsciente” continuo paranoica. Fantástico.

Isto é tão frustrante que só me apetece gritar!

Mas eu não sei gritar e mesmo que soubesse não podia porque não consigo.

Quer dizer, eu nem tento, assumo logo que não dá. Sou tão estúpida. Mesmo assim sou ridícula…

Se continuar assim não vou a lado nenhum.

Eu tento gritar, tento mesmo, juro, mas não sai nada a não ser mais uns gemidos.

E acho que esses gemidos bastaram pois sinto uma mão nas minhas costas e caem-me algumas gotas de água para os lábios gretados que eu tento beber.

Sinto água a cair-me nos olhos e umas mãos a massagearem-mos e lentamente consigo abri-los.

Tenho alguma dificuldade em adaptar-me à luz, prece que anoiteceu.

A primeira coisa que vejo é um teto decrépito, todo manchado e húmido e iluminado pelo que me parece ser um pequeno fogo.

Devo estar numa cabana abandonada algures no meio da aldeia fantasma e quem quer que seja que me tenha trazido cá para dentro está a segurar-me.

Devia olhar para cima para ver quem é e lhe agradecer, mas na verdade não preciso de fazer isso… este cheiro é-me demasiado familiar.

Este é o mesmo cheiro que invade a casa de banho todas as manhãs, mas ele não pode estar aqui. Não pode ser ele. Não pode!

Mas é…

Olho para cima e vejo os seus cabelos ruivos ainda mais ruivos que o normal e os seus olhos cinzentos ainda mais frios que o normal.

Não sei o que fazer… não sei…

Eu tinha decidido falar com ele, mas ele apareceu cedo de mais e eu ainda não estou pronta!

Volto a fechar os olhos. Posso sempre fingir que ainda estou mal e assim evito a conversa crucial.

As mãos dele que tinham estado na minha cara até agora descem para o meu pescoço. São tão suaves. Ele pressiona levemente o lado esquerdo.

Wow…que sensação de déja vu tão grande! Onde é que foi que isto já me aconteceu? Mas não… não pode ser ele.

– Relaxa, tens o ritmo cardíaco muito acelerado, parece que o teu coração vai rebentar.

Não… não pode ser ele, não pode… se não pode então porque é que está a dizer as mesmas coisas?! Porquê?!

– Para…- murmuro.

– O quê?

– Para… Para. Para! PARA! Para de ser como ele! Para de agir como ele! Para! Tu não és ele, por isso para!!!

– Ele quem?

– Ele… Não sei… Ele… o rapaz do restaurante…

Merda… merda, merda, merda…

Não devia ter dito isto… eu não lhe queria falar nele, mas deixei-me levar pelas emoções. Odeio quando isto me acontece.

– Rapaz do restaurante?

– Nada… esquece… não é nada, eu não queria dizer isto.

Ele sai de trás de mim e senta-se mesmo à minha frente, colocando as mãos nos meus ombros.

– Espera, tu disseste rapaz do restaurante, certo? – assinto com a cabeça e ele começa a rir-se – então és tu!

– Sou eu o quê?

– Tu és aquela rapariguinha assustada que eu salvei.

– Que tu salvaste? Mas eu só te conheci agora.

– Sim, sim, mas tu também admitiste que a minha cara não te era estranha.

Então é ele…

Eu sempre tive razão nas minhas suspeitas. Parece que no meu íntimo eu sempre o soube, só não queria era aceitar a realidade.

Mas o que é suposto eu fazer agora?

Normalmente a conversa com ele é fácil, mas desde que aquilo aconteceu as coisas andam estranhas.

Tento mexer-me, mas para além de me doer tudo, ele impede-me.

– Não te mexas. Estás toda cheia de feridas… cortaste-te toda quando caíste, mas eu consegui tirar todos os vidros que se tinham espetado.

Só me apetece rir. Diz que foi de cair as feridas que tenho, diz… se ao menos ele soubesse a verdade…

– Hm… obrigada… foi muito querido da tua parte – ele fica a olhar para mim com ar expectante, deve estar à espera que eu diga algo… mas o quê? – Hm… como é que me encontraste?

– Eu estava a andar de skate quando ouvi um barulho e dei contigo no meio do chão. Ao inicio pensei que estivesses morta – diz, apontando para um skate que está encostado a uma parede.

Então era ele… outra vez… porque é que é sempre ele?! Porquê?!

Estou tão farta destas perguntas sem resposta… o problema é que não as posso fazer… Não lhe posso dizer, não lhe posso dizer nada.

Sem saber o que fazer agora olho para o meu corpo e vejo que estou coberta de pequenos cortes, são tão inofensivos.

Tento levantar-me, mas mais uma vez ele não me deixa.

– Não podes, estás aleijada, isso vai doer.

Mas não dói, nem vai doer.

Apetece-me tanto responder-lhe.

Apetece-me tanto dizer que isto não é nada comparado com o que eu suporto todos os dias e com o que eu suportei no passado.

Então porque é que não o faço?

Por vergonha? Por medo da sua reação? Por medo da rejeição?

Sou tão ridícula.

Sou tão estúpida.

Meto nojo a mim mesma.

Cada vez me torno pior e a cada dia que passa estou mais parva.

Sou mesmo uma autêntica merda.

Tenho de ganhar coragem e confiança e levantar o rabo para fazer alguma coisa por mim, se não vou acabar por me atirar de um sítio qualquer. Verdade seja que tenho de admitir que até gosto dessa ideia.

A ideia de desistir de tudo.

A ideia de dormir e nunca mais acordar.

A ideia de parar de desiludir toda a gente.

A ideia de parar de atrapalhar.

A ideia de parar de sentir e de nunca mais me magoar.

Mas então olho para ele e lembro-me dos lábios dele nos meus e em quão viva eu me senti, mais viva do que quando tenho sangue a escorrer-me por todo o lado, e lembro-me que quero continuar, quero continuar a sentir-me assim, a sentir-me viva… embora duvide muito que isso volte a acontecer.

Estou a martirizar-me tanto psicologicamente que sinto as lágrimas a escorrerem-me pela cara e sinto os braços dele a envolverem-me.

– O que é que se passa Ann?

Não sei o que responder, mas também não consigo. Não paro de soluçar. Nem sei porque é que continuo a chorar que nem uma Madalena arrependida. Isto é simplesmente ridículo.

Pouso a cabeça no seu ombro enquanto ele me sussurra:

– Está tudo bem, pequenina, eu vou-te proteger.

– Pequenina? Não gozes comigo… — digo, apesar de saber que ele não está a gozar, continuando com a cara enterrada no peito dele.

– Não estou a gozar, estava só a tentar ser fofo contigo.

Sem me afastar coloca mais madeira na fogueira e faz-me festas na cabeça. Pergunto-me como é que a acendeu, onde é que encontrou a madeira e há quanto tempo está a arder, mas mantenho tudo dentro de mim. Estas coisas não interessam para nada apesar de darem para voltar a ter com conversa normal com ele.

– Não funcionou, pois não?

– Hã? O quê?

– Chamar-te pequenina, não foi fofo, pois não?

Afasto-me e olho-o nos olhos com os meus olhos vermelhos e inchados por ainda estar a chorar.

Ele é tão… nem sei descrever… é de tirar o folgo.

Tento sorrir, mas não sai mais do que uma tentativa falhada de levantar o canto esquerdo da boca.

– Funcionou… — e antes de poder enterrar a cabeça outra vez no peito dele, ele segura-me o queixo com uma mão e encosta os lábios aos meus.

Eu não resisto.

Sinto a minha pele a arder no sítio onde ele me está a tocar.

Deixo-me levar por ele.

Não quero saber se isto está certo ou errado, só quero que aconteça.

Esqueço-me de tudo e concentro-me nos lábios dele, na boca dele, na língua dele a dançar com a minha.

– Tinha saudades tuas… — murmura-me ao ouvido ao fim de algum tempo. – Esta semana sem te ver custou tanto… Parecia que me estavas a evitar.

Bolas! Ele apercebeu-se… o que é que faço agora? É mais do que obvio que não lhe posso dizer que sim, mas a voz dele é tão doce, tão sexy que quase me sinto tentada em dizer-lhe a verdade.

– Hm… não… tive foi algumas coisas a fazer… hm… com uns colegas meus…

– Ai sim? E quem são esses teus colegas?

– Hm… um António, um Pedro e uma Filipa… não deves conhecer…

Sinto-me atordoada. As palavras custam a sair, parece que estou bêbada.

Porque é que ele começou com estas perguntas tipo interrogatório?

Agarro-me com mais força à camisola dele para não cair, mas mesmo assim ainda sinto leves tonturas e estremecimentos.

Ele não diz nada… Será que não acredita em mim? O que eu lhe disse pode não ser verdade, mas também não é completamente mentira. Eu posso ter feito tudo para o evitar, mas também fiz o esforço de me infiltrar num grupo qualquer para andar camuflada e ele não me ver.

– A sério? – responde beijando-me a testa.

– A sério…

Sentou-me ao colo dele e arrastou-se até uma parede, onde se encostou.

Eu voltei a enterrar a cabeça no seu peito e ele abraçou-me com mais força.

O cheiro dele é tão suave, tão revitalizante quer era capaz de o distinguir em qualquer lado. Cheira a tabaco, misturado com um perfume caro qualquer com um leve toque de gasolina.

Gasolina?

De onde terá vindo a gasolina?

Também não me interessa.

Esta “luz” está tão suave.

Os braços dele estão tão confortáveis.

Os meus olhos estão tão pesados que se vão fechando lentamente e eu acabo por adormecer.