Notas iniciais
este primeiro capitulo não está grande coisa, mas espero que gostem!

4 ou 5 meses antes...

Eu tinha uma vida normal, quer dizer, quase normal…

Levantava-me todos os dias para ir para a escola, era o meu pai que me acordava, mas por vezes era uma mensagem. Levantava-me. Vestia-me. Tomava o pequeno-almoço, só uma caneca de leite (uma caneca dos U2), nem sei como pois detesto leite. Penteava-me, ou melhor, tentava pentear-me, mas nunca conseguia domar os meus caracóis e acabava por só molhar o cabelo. Lavava os dentes com pasta de mentol. Lavava a cara. Ia buscar a minha pasta, o meu relógio e o casaco. Calçava as minhas All Star pretas. O meu pai levava-me para a cidade.

Mal chegasse lá ia para o “ponto de encontro nº1” esperar pela Violeta.

Quando ela vinha ter comigo íamos para a escola. Pelo caminho falávamos de coisas, muitas vezes sem nexo, ou então seguíamos em silêncio. Eu costumava andar às mensagens com o André, o meu namorado, ou com o Pierre, um amigo, ou como eu costumava dizer, um dos meus pacientes, porque eu era a psicóloga da “zona” (apesar de ser possivelmente a mais perturbada).

Eu estava sempre a pensar em muita coisa (ainda penso), mas, geralmente, durante estes passeios, se lhe podemos chamar assim, pensava em como detestava todas e todos os adolescentes, sempre a conspirar nas costas uns dos outros e dispostos a tudo para terem o que querem, dispostos a acabarem amizades por um gajo, a traírem-se uns aos outros para se divertirem. Tudo isto com um objetivo… ou melhor dois. O primeiro, que nem sempre era o pretendido, era uma ilusão de felicidade, mas que eles achavam bem real. O segundo era a popularidade… Ridículo! Era o que eu pensava… Ridículo! A Violeta pensava o mesmo…

Quando chegávamos à sala íamos ter com o nosso grupo (sim, eu primeiro pertencia a um grupo… agora…). Eramos o ‘Grupo da Sueca’, por sermos quatro e por estarmos sempre a jogar a esse jogo. Era eu, a Violeta, a Inês e o Paulo. Eramos um grupo muito estranho. Os nossos colegas estavam sempre a falar mal de nós, diziam que não fazíamos nada, mas estranhamente eramos os melhores da turma (e eu sei que muitos deles tinham inveja nossa) …

[A Inês era, possivelmente, a melhor, era boa a todas as disciplinas, especialmente a ciências e a português. Tinha o cabelo castanho, uns centímetros acima dos ombros e uma, digamos, ‘doença’ genética que fazia com que tivesse só dois incisivos (geralmente temos quatro), era magra e uns centímetros mais alta que eu, mas estava sempre a dizer que era baixa e gorda.

O Paulo (ou Paulinho, como nós por vezes lhe chamávamos) era o melhor a matemática. Era muito alto e crescia de dia para dia a olhos vistos, nessa altura tinha quase mais vinte centímetros que eu…, tinha o cabelo, como dizia, loiro cinza e uns olhos cor de âmbar.

A Violeta era muito boa a artes e a inglês. Tinha um cabelo castanho claro, a fugir para o dourado, ondulado e pelo meio das costas, a mesma altura que a Inês e um sorriso adorável.

Eu, bem, era a melhor aluna a francês e a física (muito possivelmente a melhor do meu ano) … Tinha (ainda tenho) um cabelo preto encaracolado e uns olhos enormes… Mas era a mais baixa do grupo, a mais gorda e a mais feia também…]

As aulas, sinceramente, não sei dizer se eram ou não normais… a minha turma era muito pequena, só eramos quinze, ao contrário das outras turmas que tinham quase o dobro… e eramos todos músicos. Eramos todos excelentes alunos mas ao longo dos três anos do 3º ciclo eles mudaram tanto…

Mudaram tanto…

Viraram adolescentes normais, gananciosos, mimados e infantis… Começaram a gozar com todos… Com os amigos, com os colegas, com os funcionários, com os professores…, influenciados uns pelos outros e na tentativa de se superarem. Mas com isto só conseguiram com que a nossa turma se desintegrasse e isso afetou-me muito… Afastei-me da maioria dos meus amigos, se lhes podia chamar isso…

Todos os dias tentava estar um bocadinho com o André, antes de ir para casa, mas muitas vezes só conseguia estar com ele no autocarro.

Todos os dias chegava mais triste e deprimida a casa.

Todos os dias o lado perturbado da minha mente aumentava…

Todos os dias o meu sofrimento aumentava, muitas vezes por causa dos meus pais, dos meus colegas, do Artur (o meu ex que nunca cheguei a esquecer, o meu primeiro amor), por vezes até por causa do André.

Sofria tanto que me comecei, primeiro, a arranhar e a espetar as unhas, as minhas unhas de guitarrista clássica que era; depois, com tampas de canetas, a deixar sulcos na pele; e, por último, a cortar-me…

Toda a gente me dizia que era errado e que eu tinha de parar, mas eu simplesmente não conseguia… Custava-me tanto…

Os meus pais não aprovavam o meu namoro e estavam sempre a pedir-me para acabar com ele, pedir não… a ordenar, a exigir… A minha mãe chegou mesmo a dar-me um prazo para o fazer… Quando souberam que eu namorava passaram-se, literalmente… Puseram-me de castigo… Tiraram-me o computador e em casa tinha de andar com o telemóvel desligado. Proibiram-me de sair de casa (sem ser para ir para a escola) e passaram a ser muito desconfiados… Deixaram de confiar em mim e ficaram muito chateados comigo… Tudo bem que eles não descobriram da melhor maneira, muito pelo contrário, mas eu achava (e acho) que a reação deles foi exagerada… muito exagerada…

Os meus colegas, esses acho que não há muito a dizer… estavam sempre a chatear-se uns com os outros, a armar confusão entre eles e isso sempre me afetou muito, porque eu gostava deles… gostava muito…

Quanto ao Artur, bem… sempre que passava por ele era como se o mundo me caísse em cima e me esmagasse. Apesar de namorar com o André eu nunca o esqueci, tentei várias vezes… mas em vão… De todos ele era o que mais me fazia sofrer… Por não reagir… Não me cumprimentar depois de o ter proposto… por não olhar para mim… por simplesmente me ter despedaçado, literalmente, o coração e depois me ignorar e agir como se eu não existisse…

E o André… coitado… Por me amar demasiado… por eu não o amar como ele me amava… Eu sabia que ele por vezes sofria e isso fazia-me triste, mesmo muito…

.-.

Mas a minha vida não se resumia só a isto!

Eu era muito boa nadadora e praticava alguns desportos pouco comuns, como o tiro com arco e esgrima… no oitavo ano queria entrar para o pugilismo mas os meus pais não me deixaram, para variar…

Eu nunca tinha sido muito de estudar, nunca precisara, mas como era o 9º ano era um ano de exames na escola e ainda por cima também de provas e recitais no conservatório decidi aplicar-me um pouco mais, mas parecia que os meus pais nunca estavam contentes com os meus resultados, era como se não tivessem orgulho nenhum em mim… Como se eu fosse um fracasso total… E sempre que tirava uma nota mais fraca eles culpavam logo o André… Mas a culpa não era dele…

Era minha…

Era minha por estar a sofrer…

Era minha por ainda ligar ao Artur…

Doía tanto, mas tanto… Que eu nem sei como é que aguentei com este buraco, este vazio durante tanto tempo… Doía-me tanto o peito… Era como se o meu coração tivesse sido arrancado sem qualquer preocupação em que a ferida sarasse… Era com se quem mo arrancou tivesse sentido um prazer quase perverso em me fazer sofrer para o resto da vida… Por isso usou toda a sua frieza para o despedaçar e depois colher os seus pedaços, deixando o meu peito vazio… Porque, tecnicamente, são dele… O meu coração é dele… Esteja lá onde estiver…

Notas finais
Espero que tenham gostado!!!