Notas iniciais
está a melhorar um pouco... acho eu!!!

Hoje acordei muito mal, não dormi quase nada: estive a falar com o Pierre até às três da manhã e depois tive um pesadelo muito estranho em que toda a gente em que eu tocava morria seguidamente a umas convulsões violentas que faziam o seu peito explodir, salpicando-me de sangue… Não sei se lhe posso chamar de pesadelo porque gostei… eu até gostei…!

Depois de acordar, como ainda era cedo, estive algum tempo deitada na cama, com o quarto escuro, negro, sem um vestígio de luz e onde o único som que se ouvia era do da minha respiração oscilante, trémula, a pensar. A pensar na vida… A pensar na morte…

Estranhamente fartei-me depressa disso e levantei-me para ir abrir as portadas. Fiquei ainda mais deprimida quando vi que o sol brilhava no céu azul sem nuvens e que ia ser mais um típico dia de agosto… Ia morrer de calor em casa porque os meus pais ainda não me deixavam sair.

“Por uma vez podia chover! Podia haver trovoada!” penso, voltando para a cama. Apesar de já estar um dia quente, eu estou gelada, a tremer…, enfiada na cama com os cobertores até ao nariz, agarrada a um panda de peluche que o André me deu há muito tempo.

Quem quer que entrasse no meu quarto e olhasse para a minha cama, apenas via dois olhos muito abertos e uma nuvem de caracóis pretos no meio de um edredão azul. E se essa pessoa se designasse a olhar para o resto do quarto via duas paredes azul campestre com alguns quadros feitos por mim. Via uma parede azul neptuno com uma estante a abarrotar de livros, CD’s e discos de vinil. Via uma estante cheia de gravatas ao lado de uma secretária toda desarrumada, cheia de rascunhos de desenhos e livros de mangás[1]. Via a minha mesinha de cabeceira com um monte de livros começados para eu ler. Via um armário com as portas aberta e com a roupa quase a cair para o chão de parquê castanho acinzentado; a um canto, um cavalete com um desenho começado e deixado a meio, esquecido pelo tempo. Via a ultima parede repleta de desenhos meus, desde olhos de mangá a pássaros, passando por jarras, sereias, raparigas, desenhos, uns abstratos, outros psicóticos, barcos e até caveiras. E, por último, via o meu estojo aberto com a minha guitarra.

De repente o meu telemóvel tocou e eu assustei-me tanto que até saltei, só não bati na estante porque sou pequena. Era apenas uma mensagem do Pierre a dizer bom dia e a perguntar se tinha dormido bem, o normal…

O problema foi que reparei na data de hoje e quando a vi senti um nó no estomago e na garganta… 14 de agosto… Eu e o André fazemos cinco meses… e é horrível! Passou tão rápido e ao mesmo tempo tão devagar…

E é horrível por minha causa… Enquanto estive a pensar apercebi-me que eu não gosto dele e que nunca gostei… Apercebi-me que cada vez que estou com ele já não fico super feliz como ficava no início…, pelo contrário, por vezes fico mesmo triste, tão triste que o comecei a evitar, a preferir estar com a Violeta ou o Pierre… Apercebi-me que a cada dia que passa a vontade que tenho de matar o Artur aumenta consideravelmente e cada vez que o vejo gosto mais dele…

Apercebi-me de tanta coisa que parece informação a mais para a minha mente. Acho que vou precisar de algum tempo para assimilar e resolver isto, talvez uma hora, nem tanto.

Tudo o que senti, ou sinto (o que é muito pouco provável), pelo André foi psicológico. Era tudo psicológico…

Psicológico porque nós temos tendência para gostar de uma pessoa se ela gostar de nós, mas na verdade não gostamos… No início pode estar tudo bem, tudo parece perfeito, mas à medida que o tempo vai passando o nosso sonho transforma-se num pesadelo, mais cedo ou mais tarde o céu ganha nuvens, chove, troveja, ouvem-se relâmpagos.

Tenho de me levantar. Se ficar assim por mais um segundo que seja vou dar em maluca, não que já não seja…

Saio da cama. Saio do quarto e vou para a sala que encontro vazia. Pergunto-me onde estarão todos.

Nem sequer tomo pequeno-almoço e quando volto para o quarto vejo que tenho uma mensagem do André a dizer:

“Bom dia meu amor, espero que tenhas dormido bem :)

Hoje fazemos 5 meses amor :) Espero estar contigo.

Tenho muitas saudades tuas.

Amo-te tanto, mas tanto :) muitos beijinhos meu amor”

Ao ler isto as lágrimas escorrem-me pela cara. Estão quentes, salgadas.

E não, não estou a chorar de felicidade, muito pelo contrário! Estou a chorar de tristeza, de sofrimento, de dor… Ele gosta de mim e eu… Eu… Eu… bem, eu não gosto dele.

Não sei o que responder…

Não sei o que fazer…

Decido ignorar a mensagem, como ultimamente tenho feito com quase todas as mensagens dele.

A tremer abro o meu caderno e procuro desesperadamente pelo meu ‘amigo secreto’. Os meus dedos hesitantes encontram-no embrulhado em papel que rasgo sem o menor cuidado. Segurando-o entre o polegar e o indicador, encosto um dos gumes ao antebraço esquerdo. Arrepio-me só de sentir a pequena e afiada lâmina de metal fria contra a minha pele. Pressiono levemente e faço a lâmina deslisar uns centímetros. Tiro-a. Uns segundos depois aparece uma linha vermelha muito fina, tão fina que o sangue não sai…

Volto a cortar-me.

Outra vez…

E mais uma…

E outra…

Obrigo-me a parar ao fim de seis cortes.

Tenho de sair de casa! Tenho de sair daqui!

Agarro no telefone e ligo à Violeta:

– Olá- responde ela bocejando. — Quem é a estas horas? É bom que tenham uma boa razão para me acordarem!

– Vi! Sou eu…- digo entre soluços.

– Ahh. Está tudo bem?

– Não… Não está nada… Fiz asneiras…

– Vens ter comigo ou vou eu ter contigo? — pergunta num tom meio preocupado, meio quem já está habituada e não estranha, chegando quase a achar normal o meu estado de espírito.

– Não sei… Por causa dos meus pais… Mas eu preciso mesmo de sair de casa… — digo, suspirando.- Eu não sei… Não sei dos meus pais… Não sei o que fazer… Não sei de nada! Acho que me vou vestir e sair de casa…

– Okay.

– Té já então, Vi…

– Até já.

Desliguei a chamada e sentei-me na cama a ouvir The Eagls, Hotel California.

Passaram cinco, dez, quinze minutos, nada. Ninguém chegava.

Telefono-lhes. Ninguém atende.

Olho para os meus cortes. São tão superficiais! Tenho de me conter para não o fazer outra vez.

Visto-me o mais rapidamente possível. Agarro nas minhas coisas e ponho-as na minha pasta. Vou à casa de banho passar água e álcool nos cortes. Calço-me e saio de casa sem me dignar a ver se estou penteada, se a roupa combina ou não. Não me interessa! Não interessa! Ao contrário das outras miúdas, que passariam horas do seu tempo a cuidar do seu aspeto para fazerem boa figura nas ruas e causar boa impressão, a mim só me interessa sair de casa, deste casulo que me aprisiona cada vez mais e, não digo abrir as asas e voar, mas sim respirar um pouco de ar e entrar no caixão que eu sou.

Saio do portão.

Um carro aproxima-se, devem ser os meus pais. Continuo a andar. Passo pelo carro que para a meu lado e a minha mãe sai de lá. Começa a ‘falar’ comigo. E eu sigo em frente.

– Onde vais?- grita-me ela.

Eu só sussurro:

– Ter com a Violeta.

– E a quem pediste?

– A mim…- volto a sussurrar.

Continuo a andar sem olhar para a minha mãe que continua a gritar comigo:

– A onde é que pensas que vais?!

– Sair daqui- volto a sussurrar, mas já estou muito longe e ela não me ouve, mas também não faz nenhum esforço para me impedir.

Saio do meu bairro e passo pela paragem do autocarro, sei que não vai passar nenhum muito cedo, por isso contínuo a andar… é o que faz viver numa pequena cidade no norte de um pequeno país.

Estou cheia de calor.

As calças pretas apertam-me as pernas porque sou gorda e estão a ficar coladas devido ao calor e ao suor.

As mangas da camisa irritam-me, mas não as posso puxar para cima por causa dos cortes.

As All Star magoam-me os pés do uso.

Já estou a andar há vinte minutos a um ritmo frenético quando recebo outar mensagem do Pierre a dizer “Estás aí?”. Esquecera-me completamente de lhe responder…

Volto a ligar à Violeta e combinamos encontrar-nos no pelourinho, um antigo local de tortura para o povo.

Eu chego primeiro, para variar, e ponho-me a andar à volta daquilo, sem ligar à cara das pessoas que passam por mim e ignorando os seus comentários estúpidos, os olhares indiscretos, os sussurros demasiado altos…

Ela chega com um meio sorriso. Sem dizer nada e encaminhamo-nos para o cemitério, como num acordo mudo.

Estamos lá em menos de três minutos. Passamos os portões de ferro forjado, as campas iniciais e os mausoléus, passamos pela velha igreja de estilo romano e por um caminho ladeado de árvores (das quais não me recordo o nome, nem isso interessa). Sentamo-nos no mesmo banco coberto de musgo de sempre, encostado às grades e de frente para o pequeno relvado com algumas campas, uma aqui, outra ali, abandonadas e esquecidas pelo tempo, com lápides partidas e nomes esbotados, assim como qualquer memória em que eles entraram, perdida nas profundezas de cada um, esquecida pelo tempo.

Estamos à sombra, o que torna o calor um pouco mais suportável. Nenhuma de nós diz nada. Ouve-se, algures, um pássaro a cantar, outro a responder-lhe.

– Gostas dele? Responde sem pensar- pergunta-me ela do nada, passados dez minutos.

– Não- respondo instintivamente.

– Era o que eu pensava. O que vais fazer?

– Eu não sei- digo, colocando os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre os braços.

– Eu acho que devias fazer o que achas mais correto, o que te faria feliz.

– Então é acabar…

– Tens a certeza?- perguntou ela, colocando-me o braço nas costas.

– Tenho…- disse levantando-me e subindo para cima do banco e depois para o muro, para a seguir passar pelo meio de duas grades e ficar a olhar para o chão, a mais de quatro metros. Era tão fácil, fácil de mais…, mas digo:

– Quando?

– Não sei, mas quando mais cedo melhor- responde-me a Violeta juntando-se a mim.

– Então vai ser hoje- decido. — Mas o que lhe digo?

– A verdade.

– Toda?

– Todinha! Isto é uma ordem! — disse a rir-se para mim, com aquele meio sorriso que ela faz sempre e que é capaz de pôr qualquer um melhor, mas eu estou demasiado mal, demasiado triste para ligar ao sorriso dela e para ver todo o valor que ele tem.

– Obrigada… — sussurro, voltando a sentar-me como estava primeiro.

[1] Banda desenhada japonesa

Notas finais
espero que tenham gostado!!!!