A Violeta já se foi embora há algum tempo, possivelmente há algumas horas, pois já tenho as pernas dormentes de estar na mesma posição toda a manhã.

Acabei por desligar o telemóvel, depois de pedir ao André para vir ter comigo, porque os meus pais não paravam de me ligar e eu estava farta. Quase a passar-me!

Ao olhar para o pequeno relvado nas traseiras da igreja lembro-me que foi para ali que eu levei o Pierre quando nos voltamos, digamos, a reencontrar. Nunca nos tínhamos deixado de ver, mas nunca tínhamos falado, desde que deixamos de ser da mesma turma.

Foi há 4/5 meses…

Eu sou uma pessoa tão fantástica que consegue por os outros a pensar na vida e em se ela tem algum sentido. Ele chegou à conclusão que não, que a vida dele não tinha sentido, e eu, com medo que ele fizesse algo estupido, pus fim à barreira do, digamos, convívio pessoal… Estivemos ali sentados, na relva, no meio de campas e sepulturas a falar, a falar, até que eu comecei a chorar porque não aguentava mais, porque tinha que libertar toda a tristeza que guardava dentro de mim há demasiado tempo, e ele me abraçou. Não disse nada… Apenas me apertou com muita força e encostou a minha cabeça aos seus cabelos loiros.

Quando voltei a mim tinha lágrimas nos olhos e um sabor amargo na boca. Lembrar-me disto deixou-me com um nó no estomago e o coração apertado. Nunca mais me abraçou… Nunca mais…

Tiro o relógio da pasta. Já é uma e meia. Eu devia ir comer, mas não tenho fome nenhuma. Estou sem apetite, a mera ideia de pensar em comida dá-me náuseas. Não me apetece fazer nada. Só morrer.

Obrigo-me a levantar e a caminhar vagarosamente para fora do cemitério, qual morta viva a deambular pelas ruas da cidade. Vejo as pessoas a olharem-me de lado, a empinarem o nariz, julgando-se superiores, mas se eles sentissem a minha dor… oh se sentissem…! É melhor parar com estes pensamentos macabros e para isso decido entrar numa pastelaria, a melhor da cidade. Ao passar pelas vitrinas cheias de bolos, que noutro dia qualquer me teriam feito suspirar de prazer, só me apetece vomitar. Peço um pão de água e saio o mais rapidamente dali.

Atravesso a avenida após me cruzar com uma excursão de velhinhos que pareciam tão felizes que só me apetecia matá-los a todos e vou sentar-me atrás da Sé. Sento-me encostada a um plátano centenário a ver os minutos, as horas a passarem, sem tocar no pão, à espera que o André chegue.

Não sei se devia ligar o telemóvel, mas apetece-me falar muito com o Pierre. Tenho mesmo de falar com ele para desabafar. Hesito, perplexa. Acabo por ceder à, digamos, tentação e tenho de admitir que não estava nada à espera do que vi. Há mais de três horas que não tenho uma única chamada dos meus pais; não tinha mais nenhuma mensagem do André, ele que me costumava bombardear de mensagens sempre que demorava mais de cinco minutos a responder-lhe; e porque, em vez disso, tinha montes de mensagens do Pierre a perguntar se estava tudo bem e se precisava de ajuda. Ele pode nunca mais me ter abraçado, mas pelo menos preocupa-se comigo, muito mais do que o parvo a que ainda chamo de namorado.

Depois de explicar o que estou prestes a fazer ao Pierre vejo as horas. O André está atrasado e eu vou começar a passar-me se ele não chegar nos próximos cinco minutos. É que quanto mais ele demorar, pior é para ele, porque eu vou perder a paciência e em vez de fazer as coisas com calma e sem o tentar magoar, vou fazê-lo pelo lado pior, vou ser rápida e frontal, sem querer saber se firo ou não os seus sentimentos.

Cinco. Dez. Quinze minutos. Nada

Dezoito minutos depois vejo-o entrar pelo portão da Sé com o seu andar estupido. Ainda está a quarto metros de mim, ou mais e eu já sinto o seu perfume horrível que me dá uma vontade ainda maior de vomitar.

– Olá a… — ia ele a dizer.

– Estás atrasado! — interrompo-o num tom monocórdico, sem sequer me dignar a olhar para ele.

– O que se passa amor?

– Não me chames isso! — digo num tom de voz mais ríspido do que pretendia e pela cara dele percebi que tinha demonstrado demasiado as minha emoções.

Ele sentou-se ao meu lado e quando me ia por a mão na perna, viro-me para ele e exclamo abrindo muito os olhos:

– Não me toques!

A cara dele é tão triste… Não me posso deixar afetar por isso! Já sofri demais com ele! Ele já me fez sofrer muito e não com o sofrimento que eu gosto, mas um bem diferente…

Ele suspira tão audivelmente e pergunta-me muito baixinho, quase que sussurrando:

– Já não gostas de mim, pois não?

– Nunca gostei. — respondo, voltando a adotar o mesmo tom monocórdico do início, distante, frio, insensível.

– A sério?

– Sim. Foram tudo palavras da boca para fora, tudo gestos sem sentido, atos sem emoção.

– Parece ironia. Tudo isto é irónico!- disse ele, entre risos que só me irritavam cada vez mais.

– Por favor não te rias, é irritante! E também devias deixar de pôr tanto perfume, cheira a léguas de distância.

– Mas é para isso que os perfumes servem, não é? Para cheirar?

– Sim, mas não tanto. É que, … ó pá, isso é enjoativo, empesta!- disse elevando cada vez mais a voz.

– Não tens de ser má…

– Eu, má?! Estou apenas a ser realista. E pode parecer ironia, mas não o é. Vou acabar com o meu sofrimento no sítio onde ele começou. Foi tudo planeado ao mais ínfimo pormenor.

– Vais acabar comigo?- pergunta ele quase a chorar.

– Nunca devia era ter começado!- dizendo isto levanto-me e vou-me embora, deixando-o sozinho, desamparado, mas ele merece.

Devia ir para casa, mas não me apetece. Olho para o pão ainda inteiro, dentro do seu saco castanho e deito-o no primeiro caixote que me aparece à frente.

Depois de dizer à Violeta e ao Pierre que já está, ponho-me a andar sem rumo pela cidade. Quando dou por mim estou a cinco metros do restaurante dos pais do Artur e para cúmulo ele está a sair de lá.

Paraliso automaticamente e ele também. Ficamos a olhar um para o outro durante não sei precisar quanto tempo ao certo. Já não nos falamos há quase um ano. Há meses que não nos cumprimentamos. Não quero recordar o último, digamos, contacto físico. Não me quero lembrar do nosso primeiro beijo e muito menos do último. Mas é tarde de mais e as lágrimas correm-me pelo rosto, molham-me a roupa.

Os olhos dele são tão intensos, de uns tons de azul claro tão intensos e estão cada vez mais perto. Cada vez mais perto.