Está tudo escuro.

Não vejo nada a não ser um enorme vazio sem fim.

Apenas ouço um zumbido muito leve, que vai aumentando gradualmente como se, aos poucos me estivesse a aproximar de uma enorme queda de água.

Não sinto nada, parece que estou a flutuar algures, sem destino, perdida nos confins da minha mente.

Apesar de tudo é um estado agradável, pelo menos para mim, e, por isso, deixei-me vaguear nele, no que me pareceu ser uma eternidade.

Mas como eu não tenho sorte nenhuma, até este estado de dormência teve de acabar.

O zumbido tornou-se insuportável e transformou-se numa voz desesperada a gritar palavras indistintas. Sinto umas mãos fortes a agarrarem-me os braços, quais pinças afiadas a abanarem-me, como se me quisessem acordar. Tento resistir, mas já é tarde de mais e a minha visão começa a clarear.

Aos poucos vejo-o, inclinado sobre mim, com o rosto a escaços centímetros do meu, a abanar-me e a gritar, mas o meu cérebro ainda está lento e não consigo perceber o que ele diz.

Na cara dele consigo ler o pânico total e compreendo que ele ainda não percebeu que eu já abri os olhos. Lentamente, mexo ligeiramente os meus braços de modo a tocar com a minha mão direita na dele.

Ao sentir o meu toque o Artur sobressaltou-se, mas um sorriso iluminou-lhe o rosto. Suspirou de alívio e olhando-me nos olhos, com aqueles magníficos olhos azuis, tomou-me nos seus braços e abraçou-me.

– Está tudo bem… — sussurrou-me ao ouvido enquanto me afagava o cabelo.

– Ai está? – pergunto-lhe a custo.

– Está… Desmaiaste mas já acordaste… Por isso sim, está…

– Quanto tempo?

– Desculpa.

– Quanto tempo estive inconsciente?

– Ahh... Cerca de um quarto te hora, talvez mais um pouco… Mas assustaste-me tanto… Pensei…

– Pensaste que eu tivesse morrido.

Não era uma pergunta, mas mesmo assim ele assentiu com a cabeça, continuando abraçado a mim, sem fazer muita força, com medo de me magoar.

Porquê? Porquê? Esta pergunta não me sai da cabeça. Porquê? Porquê que depois de me ignorar durante tanto tempo, depois de me dar com os pés tantas vezes, depois de me fazer sofrer tanto, ele está assim? Ele está aqui a abraçar-me, preocupado comigo, porquê?

Lentamente afasto-me dele, ignorando o seu olhar relutante e a enorme vontade que tenho de continuar abraçada a ele. Tenho de falar mas não consigo. Tenho a garganta presa e as lágrimas nos olhos. À terceira tentativa consigo pronunciar uma palavra que me sai a custo:

– Porquê?

Ele encolhe os ombros. Abraça-me uma última vez, agora com força, tanta força que me tira o folgo. Beija-me a testa e vai-se embora, sem olhar para trás, deixando-me ali, sozinha e desamparada no meio do nada, no meio da rua com lágrimas a escorrerem-me pela face. O dia ainda só vai a meio, mas esta já deve ser a sétima vez que choro hoje… Que merda! Porque é que sou assim? Porque é que sou tão frágil? Porquê? Estou farta desta pergunta!

Tento acalmar-me, mas quando me apercebo que tal é impossível dou meia volta e retomo as minhas deambulações pela cidade.

Já é tarde, estou a andar há tanto tempo que me doem as pernas e o sol está-se quase a pôr. Está-se a aproximar a hora de jantar e eu ainda estou em jejum, mas não tenho fome, não tenho fome nenhuma e, ao passar pelos restaurantes e esplanadas até tenho vontade de vomitar. Sinto-me tão mal… A minha visão está a ficar turva, não posso desmaiar outra vez, não no meio da rua.

Ao passar pela vitrina de um restaurante vejo um reflexo distorcido do que eu sou. Detesto-me! Detesto-me tanto! Sou horrível! Estou horrível! Cabelo desgrenhado com caracóis meios desfeitos de eu o puxar; camisa engelhada e mangas puxadas até aos cotovelos mostrando ao mundo os meus cortes, antigos e recentes; calças de ganga pretas um pouco justas que mostram as minhas coxas muito gordas e realçam o meu rabo enorme e a minha quase meia centena de quilos; e por fim a cara… estou tão pálida… tenho o nariz vermelho, os lábios roxos, os olhos inchados e uma torrente de lágrimas a sair constantemente e a um ritmo cada vez mais preocupante.

A minha visão está a ficar negra… tenho um súbito ataque e os vómitos sobem-me à boca.

Através da vitrina vejo um rapaz, deve ter mais ou menos a minha idade, a olhar para mim com uma cara preocupada, um pouco perturbada, mas preocupada. Não tenho tempo para prestar atenção aos pormenores do gajinho, tirando o facto de ter um longo cabelo loiro, pois tenho mesmo de vomitar.

Apressadamente entro dentro do restaurante, quase tropeçando ao entrar e, com os olhos do rapaz colados em mim, dirijo-me à casa de banho, onde chego mesmo a tempo.

Detesto o cheiro a vómito!

Detesto!

Dá-me ainda mais vontade de vomitar e volto mesmo a fazê-lo.

Estou sentada no chão da casa de banho, com a cabeça encostada à sanita, tentando desesperadamente respirar quando ouço passos. Deve ser uma velha qualquer, mas no lugar de uma velha snob entra o tal rapaz acompanhado de um empregado de mesa.

– Peço desculpa por…- ia eu a dizer, mas vem-me o cheiro a comida e volto a vomitar.-… ter usado a casa de banho sem pedir.- acrescento quando parei e voltei a encostar a cara à sanita.

– Não há problema! A menina está bem? Está branca como cal. Quer um chá?- pergunta-me o empregado, estendendo-me uma toalha.

–Não… obrigada…- digo a tentar agarrá-la- está tudo bem…- continuo, esticando ainda mais o braço para a agarrar, mas este nunca alcança o seu alvo pois para a meio, eu vejo tudo negro e volto a desmaiar.

.-.

Volto a ouvir um monte de palavras distorcidas e sinto qualquer coisa fresca na cara. Aos poucos abro os olhos e vejo o teto ligeiramente abobadado e amarelo claro da casa de banho feminina do restaurante. Tenho a cabeça pousada numa coisa macia e confortável e uma toalha molhada na testa. Umas mãos seguram-me o rosto para eu não desviar o olhar do teto.

O empregado volta a entrar, desta vez acompanhado por um monte de gente a acotovelarem-se para me ver, como se eu fosse algum bicho esquisito. Não quero estar aqui. Quero desaparecer. Só me quero enfiar num buraco escuro qualquer longe de toda esta gente, de toda esta gente que me olha com um ar superior, como se eu não valesse nada e que, quando por acaso, os seus olhos curiosos caem sobre os meus cortes ainda sem crosta fica lívida e engole em seco.

– Ela já deu sinal de vida?- pergunta o empregado a quem quer me esteja a segurar.

Ouço um suspiro seguido por uma tentativa de conter o riso. Depois, muito suavemente, responde.

– Caso não tenha reparado ela respira, logo sim, já deu sinais de vida e ainda por demais, devem ser todos cegos porque ela tem os olhos abertos. Podem deixar-nos a sós para eu ver se ela está bem?

– Não!- diz uma mulher alta e ricamente enfeitada.- Filho, não o vou permitir. Faça o favor de deixar essa rapariga e de vir já terminar o jantar.

O rapaz não se move (sim, já cheguei a quem me está a segurar a cabeça. A resposta era tão obvia! Como é que demorei tanto a perceber?)

– Por favor! Não me obrigue a ir aí!- continua a mulher num tom cada vez mais estridente.- Nós não nos damos com gente dessa laia! Deixe-a aí e venha, é o que ela merece.- disse olhando com desdém para os meus cortes. Quero desaparecer. Tento levantar-me mas as mãos do rapaz não me deixam, abro a boca para falar mas não sai nenhum som.- Patética. Patética é o que ela é. Não devíamos perder tempo com esta gente.- e saiu da casa de banho com as restantes pessoas, deixando-me ali com o rapaz, como ele tinha pedido.

Finalmente as mãos dele descem da minha face para o pescoço. São tão suaves. Ele pressiona levemente o lado esquerdo e após algum tempo diz:

– Relaxa, tens o ritmo cardíaco muito acelerado, parece que o teu coração vai rebentar. Desculpa a minha mãe. Ela é, como dizer, um pouco…

– Preconceituosa? Conservadora?- interrompo-o.

– Sim, isso. Desculpa lá. Não é por mal, mas acho que ninguém reage bem a isso – disse, apontando com os olhos para os meus cortes e dirigindo-se para a porta que, para meu espanto, tranca.- Assim não nos incomodam, não é?

Assinto com a cabeça, olhando para ele com atenção pela primeira vez. É alto, bastante alto e magro. Veste-se bem, uma camisola da Drop Dead e uns calções da Levi’s, que deixam ver o corpo bem tratado e ligeiramente musculado. Tem cabelo, na verdade, loiro arruivado, mais para o ruivo, pelos ombros e volumoso, mas não tanto como o meu, um nariz fino e uma boca bem definida e uns expressivos olhos cinzentos claro. Ao olhá-lo nos olhos reparo que ele também me observa. Baixo o olhar, envergonhada. Ele continua a observar-me. O que faço? Detesto isto. Detesto que olhem para mim. Sinto as minhas faces a ficarem quentes, só me faltava estar a corar, como se já não fosse vergonhoso demais ele estar a olhar para mim e a sorrir. Alguém me tire daqui! Estou a começar a hiperventilar quando lhe resolvo perguntar:

– Que foi?

– Nada, nada.

– Então porque é que estás a olhar para mim assim?

– Assim como?

– Assim!- cada vez respiro com mais dificuldade. O olhar dele é tão intenso. Estou a começar a tremer.

– Vá lá, tem calma. Não há nada de estranho no meu olhar.- começou a aproximar-se, levando-me a recuar até ficar encostada à parede.- Não tens de ter medo. Eu só vou ver se estás bem.

– Mas eu estou bem!- digo, tentando respirar. Ele está quase colado a mim. Sinto a sua respiração na minha testa, as mãos dele a pousarem nos meus ombros.

– Ai estás?- o tom dele é mesmo de desafio, como se me quisesse provocar. O que é que ele está a pensar?! O que é que lhe está a passar pela cabeça?!

– Sim…

– Então não te deves importar que eu faça isto.

E com esta deixa começou a desapertar-me a camisa tão bruscamente, a passar as mãos pelo meu corpo, pela minha cintura, pelo meu peito, a tentar beijar-me. Não sei o que fazer! Tento debater-me, mas sou pequena demais e não tenho forças. Nem gritar consigo, mas do que é que isso me serviria como ajuda? Alguém viria em meu socorro? Alguém viria ao meu auxílio? Não. Tenho de ser muito idiota para sequer considerar essa hipótese.

De repente batem à porta. Ele não para, continua a tentar. Voltam a bater. Continuam a bater.

Continuam…

Ele para e vai ver o que se passa. Abre a porta e sai, voltando a fechá-la. Não ouço nada.

Passam quinze minutos, ele não volta. Ninguém volta…

Tenho de me ir embora. Volto a apertar a camisa, tento arranjar o cabelo e lavo a cara. Olhando para o chão saio do restaurante.

Não sei para onde ir.

Não me apetece ir para casa.

Para casa… Eu tenho casa? Mas eu tenho casa? Uma casa onde ninguém gosta de mim. Uma casa onde todos gozam comigo. Uma casa onde não me deixam ser como quero e me criticam por tentar ser como eles querem. Uma casa onde não me deixam fazer nada. Uma casa onde me obrigam a fazer o que não gosto. Uma casa onde estão todos demasiado preocupados com o que os outros pensam deles, com o que pensam de nós, para sequer me ligarem. A minha casa é tudo isto e muito mais mas tenho de voltar para lá ou então dormir na rua, sinceramente não sei qual delas é a pior. Mais cedo ou mais tarde vou ter de voltar.

Por isso, aos poucos, muito devagar e cambaleando, percorro o caminho que fiz esta manhã. Não tenho pressa em chegar. Os carros passam por mim e é tão irritante quando um condutor mais tocado pelo álcool põem a cabeça de fora ou buzina para mim.

.-.

Passada uma hora e meia estou em frente ao meu portão. É tarde. Não sei se eles ainda estão acordados. Engulo em seco e abro-o.

Entro pela garagem e subo as escadas. Paro em frente à porta preta que dá para a sala. Respiro fundo. Tenho de me acalmar. Conto até dez mas continuo a tremer. Parece que tenho suores frios, para além das tonturas. Não posso ser fraca agora. A tremer abro a porta e entro.

Os meus pais estão sentados num sofá, o meu irmão está deitado no outro. Estão todos a ver os “The Simpsons ”, mas mal a porta abre olham para mim. A minha mãe levanta-se e vem agarrar-me pelos pulsos para me sentar, enquanto o meu pai manda o meu irmão para o quarto.

– Onde é que estiveste?- pergunta-me ela depois de arranjar os seus caracóis ruivos.

– Na cidade…

– E posso saber o que é que foste lá fazer?

– Fui falar com a Violeta…

– Muito me mentes!- dizendo isto ela dá-me um estalo.- Mas eu e o teu pai temos a solução para isso – apontou para uns desdobráveis e papeis na mesa.

Tenho os olhos cheios de lágrimas e com as mãos a tremer agarro no primeiro desdobrável que me vem à mão, mas mal começo a ler, a minha mãe tira-mo e põem-me no lugar dele uma carta.

– Vinha em teu nome, mas como não estavas cá abrimos e já respondemos.

– O que é que é isto? – pergunto ao começar a ler.

– É uma daquelas escolas da qual já deves ter ouvido falar, convidaram-te a ir fazer os exames para obteres uma bolsa de estudo e fazeres lá o secundário.

– E nós respondemos a dizer que para a semana íamos lá – continuou o meu pai, falando pela primeira vez – e tens interesse em passar os exames. Até lá não sais de casa nem falas com ninguém. Já mandamos para lá os teus resultados no início das férias, mas não pensamos que se interessassem por alguém como tu, pelos vistos não és tão inútil como pareces.

– Agora vai para o teu quarto e para o teu bem é bom que não saias de lá tão cedo.