Não me lembro da última refeição decente que tive nesta última semana ou de um banho de água quente com mais de dois minutos.

Passei os últimos sete dias fechada no meu quarto, mergulhada na escuridão, a, digamos, rever a matéria para hoje ir então fazer o estupido exame de admissão numa estupida escola qualquer. Sinceramente só me apetece errar em todas as perguntas propositadamente para não ser aceite, mas o que é que eles me fariam se tal acontecesse mesmo? Tenho medo de pensar… mais vale esforçar-me…

Após duas entediantes horas de viagem de carro com os fones enfiados nas orelhas e o volume do meu heavy metal no máximo para não ter de aturar os meus pais, chego a uma pequena cidade onde nunca estive antes. Não sei se lhe podemos chamar cidade, é mais uma vila, uma vila costeira por sinal. Não sei qual é o nome dela, não estive atenta durante a viagem, mas também não me atrevo a perguntar aos meus pais.

São dez da manhã e pelas ruas desertas passeia um leve nevoeiro com cheiro a maresia, ajuda mesmo a acalmar-me.

Dirigimo-nos a um chato e aborrecido edifício de uma década há muito passada, tipicamente tradicional, com a sua fachada caiada de branco com riscas azuis esverdeadas, tal e qual a casa de um pescador. Mal entramos uma rececionista loira e com um irritante sorriso de orelha a orelha cumprimenta-nos, pede o meu nome e recomenda-nos aguardar na sala de estar. Já estava a seguir os meus pais pela arcada quando a rececionista me volta a chamar e pergunta:

– É a primeira vez que fazes exames para seres admitida numa escola e teres uma bolsa, não é?

– Sim.

– E que idade tens? Dezasseis? Dezassete anos?

– Na verdade tenho quinze – respondo, ajeitando o cabelo.

– Tão nova – diz ela com um sorriso que, não sei porquê, me pareceu demasiado irónico – e a que escola é que te vais candidatar?

– Dom Manuel II.

– Oh! Essa é a mais rígida de todas. Os exames são muito duros. Boa sorte, vais precisar.

Quem é que ela é para pensar que eu preciso de sorte?! Mesmo assim digo obrigada e fico a olhar para ela durante uns segundos. Como ela não dizia mais nada, comecei a afastar-me.

– Espera, há mais uma coisa que te quero dizer.

Fico de novo a olhar para ela, desta vez com o sobrolho franzido à espera que ela continuasse.

– Eles não vão só avaliar o teu desempenho na prova. A tua postura também vai contar, a maneira com entras na sala, como falas, é muito importante. Tens de parecer confiante.

– Obrigada. – digo novamente e afasto-me. Atravesso o arco e vou ter com os meus pais, que estão sentados a um canto da sala a discutir em voz baixa, como sempre. Estão sempre a discutir.

Deixo-me afundar no pequeno sofá e volto a colocar os fones. Eu, parecer confiante? Aquela maldita rececionista só pode estar a gozar comigo. Como é que eu vou parecer confiante? Já estou a tremer. Lentamente aumento o volume até estar a ouvir Nirvana no máximo.

Passam-se dez, quinze, vinte minutos. Já ia na sétima música quando o meu pai me abana. Relutantemente tiro os fones e ouço-o dizer num tom grave:

– É a tua vez. Sobe as escadas, sala A.

Parecia que estava a anunciar que um médico me tinha chamado para fazer exames para determinar o resto dos meus dias de vida, e não é mais ou menos o que vou fazer?

Levanto-me e subo vagarosamente as escadas. Percorro o corredor branco, ladeado de portas de carvalho negro e com um tapete purpura a cobrir o chão de ébano a todo o comprimento. No fundo do corredor lá está ela, a porta A. Paro em frente dela e limpo o suor da minha testa.

Bato á porta.

Entro.

A sala é completamente branca, sem janelas, um único lustre a pender do teto sob a única mesa que lá está. A um canto encontra-se um jovem atraente, que presumo ser o professor que me vai vigiar.

– Bom dia – digo eu, dirigindo-me à cadeira que se encontra junto da mesa e sentando-me. Ele tem cabelos dourados e uns enormes olhos azuis.

– Bom dia. O exame vai consistir em três partes: a primeira é como uma entrevista, vou fazer-lhe algumas perguntas, nada de mais; a segunda é uma espécie de prova sobre os teus conhecimentos adquiridos em anos anteriores; e a terceira é um teste de QI.

Não faço mais que assentir com a cabeça, pois mal consigo respirar. O melhor é adotar o mesmo tom monocórdico de quando acabei com o André, pelo menos isso acalma-me.

Controlo a respiração.

Inspiro e expiro lentamente.

Eu sei que sou uma merda, sei que não valho nada, porque é que estou aqui a fazer esta estúpida entrevista?

Para ser humilhada?

Espera aí…!

Como é que eu posso ser humilhada?

Não posso, pois não?

Claro que não.

Ninguém sabe que estou aqui.

Porque é que os meus pais pensavam que não se iam interessar por mim?

Eu sei que eles me odeiam, mas têm-me assim em tão baixa consideração?

Pelos vistos sim…

Então a única coisa que posso fazer é provar-lhes que sou melhor que eles.

Posso ser a merda que sou, mas vou passar a porcaria deste exame só para ter o prazer de ver a estúpida cara que eles vão fazer quando os resultados chegarem.

Olho para o professor.

Ele tem os olhos cravados em mim, analisando cada centímetro do meu ser. Controlo-me para não corar e fico a olhar fixamente para ele.

– Bem – disse ele passado algum tempo – o meu nome é Rodrigo, Rodrigo Ferreira e tu és a Ana Canelas, certo?

– Certo – assinto num tom monocórdico.

– Que idade tens?

– Quinze, fiz em maio.

– Muito bem. Ou seja, vais para o décimo ano, não é?

– É…

– E que área escolheste?

– Ciências e tecnologias.

– Então escolheste como específicas matemática A, biologia e geologia e físico-química A.

– Não.

– Ai não?

– Não. Escolhi físico-química e geometria descritiva, para além de matemática.

– Interessante. Porquê?

– Porque detesto biologia e tudo o que é vivo, e porque gosto de desenhar.

– Mas sabes que geometria não é desenhar, não sabes?

– Sei… Não sou assim tão retardada. Mas com geometria posso entrar em design se quiser.

– E não queres?

– Neste momento estou mais inclinada para outra coisa.

– Posso saber qual?

– Astrofísica.

– Astrofísica? Muito interessante, mesmo muito. Gostava de continuar com as perguntas mas não posso, o nosso tempo acabou-se. Na carta que recebemos disseram que eras uma completa perda de tempo, mas eu discordo plenamente. Pela primeira vez consegui ter uma conversa minimamente decente. Vamos passar à segunda parte?

– Pode ser – anuo, enquanto ele me coloca à frente o dito teste e uma caneta azul bic nova. – Tens uma hora, boa sorte.

Não sei se devo começar a resolver já o teste ou se o devo ler primeiro.

Após optar pela segunda opção vejo que o exame é uma mistura de tudo o que dei nos anos anteriores desde a formação do universo aos constituintes da tabela periódica, de como surgiu o ser humano e como funciona o seu corpo à revolução industrial, as grandes guerras e os meios de comunicação, com rios, montanhas, equações, gramática e Camões pelo meio (e muito mais que não me apetece descrever agora), e, para terminar, uma composição sobre o que esperava desta escola.

Termino-o cinco minutos antes do prazo acabar.

Quando o professor vê que estou a olhar para ele sorri-me e pergunta:

– Já está?

– Sim, senhor.

– Vamos continuar, então?

– Claro.

Retira-me o teste e coloca-me outro.

– Este tem de ser cronometrado. Funciona assim: por um lado, quantas mais respostas corretas melhor; por outro lado, quanto mais rápido melhor também. Mas não te preocupes, este aqui não conta propriamente para a tua entrada na escola, pois só 0,3% da população o consegue resolver corretamente.

– Então porque é que a escola o faz?

– Digamos que é mais por uma questão de curiosidade que de outra coisa qualquer.

– Curiosidade… — murmuro.

– Podemos?

– Evidentemente.

Trinta e oito minutos depois já estava a sair da sala e a ir de encontro aos meus pais.

– É bom que tenha corrido bem – diz-me a minha mãe num tom muito pouco simpático.

– Bem não, muito bem – reformula o meu pai.

– Correu…

Ao sair voltamos a passar pela rececionista loira com o sorriso demasiado forçado, que informa os meus pais de quando os resultados vão chegar, mas eu não ouço porque já estou com os meus fones.