Faz exatamente hoje catorze dias que fiz o exame e que os meus pais andam em stress porque os resultado nunca mais chegam, ou melhor, acabaram de chegar.

A carta está em cima da mesa e nós à volta, em silêncio. O meu irmão está fechado no quarto dele a jogar wii. Já tentei chegar ao envelope, mas levei um estalo antes de o conseguir.

Porque é que ninguém lhe toca?

Porque é que ninguém o abre?

Porquê?

Estou a começar a ficar nervosa. Talvez seja esse o objetivo dos meus pais. Ninguém sabe disto. Depois de virmos do exame os meus pais insistiram em guardar segredo porque não queriam “desapontar” toda a gente. Acho que fizeram bem porque eu sou uma merda e aposto com quem quiser que os resultados também o vão ser.

Já nem sei há quanto tempo é que aqui estamos a olhar para a merda do envelope, entre paredes bordeaux e peças de mobília contemporânea. Já me dói o corpo de estar sentada na porcaria da cadeira há tanto tempo.

Finalmente (sim! Finalmente!) o meu pai decide pegar no envelope.

Abre-o com o maior dos cuidados, como se se fosse desfazer ao mínimo toque.

Lentamente, retira a carta de dentro.

Não sei se é para fazer suspense ou porque está com medo dos resultados mas está mesmo a enervar-me.

– Então? – pergunta a minha mãe.

– Calma. Bem… — tosse e olha perplexo para a primeira folha. – A primeira só diz o nome da escola e o resto está em branco.

Passa à segunda que lê rapidamente.

Rapidamente… com quem diz. Na verdade leva mais de um minuto.

– Bem, parece que a escola agradece a tua participação na realização dos exames.

– Mais nada? – pergunta a minha mãe, não parecendo nada surpreendida.

– Não. Nesta folha não.

– Quer dizer que há mais?

– Há.

– Então lê homem!

Estou atónita.

São os MEUS resultados dos MEUS exames, para EU entrar numa escola de merda qualquer e eles estão a discutir como se eu não estivesse cá ou simplesmente não existisse.

Entretanto, o meu pai que terminou de ler outra página diz:

– Ah ah! Aqui estão os resultados: cinco na entrevista, cinco no exame e cento e trinta e oito no teste de QI.

– As notas são de quanto a quanto?

– Deixa-me procurar... zero a cinco, acho eu.

– Passa-me cá isso. Vê-se logo onde é que a tua filha foi buscar o seu lado inútil. – ao ouvir isto o meu pai ficou um pouco ofendido, mas mesmo assim fez o que a minha mãe lhe disse.

Após examinar metodicamente cada folha A4 da carta.

Após ler cada palavra e cada número.

Após ler e reler, finalmente anuncia, ainda que um pouco incrédula:

– Parece que foste aceite, não sei como. Podes começar a fazer as malas e a despedires-te de toda a gente, não que eles vão sentir a tua falta. Dentro de quatro dias partes para o colégio, de onde só deves voltar nas férias, se tiveres sorte.

– O…o…o… q…quê? – gaguejo eu pela primeira vez. Acho que não estou a perceber bem.

– Vais para um colégio interno. Agora enfia todas, mas todas as tuas porcarias dentro de caixas que dentro de três dias o teu quarto tem de estar limpo. Estamos entendidas?

Quero protestar, mas simplesmente limito-me a acenar com a cabeça. Pelos visto o pouco prazer que tive a ver a cara da minha mãe quando fui aceite na escola foi agora apagado pela novidade de que é um colégio interno.

– Ainda bem. Agora vai para o teu quarto e não saias de lá.

Mal entro nele tranco a porta e sento-me no chão.

Estou em estado de choque e as lagrimas correm-me pela cara.

Eu sei que prometi a mim mesma que nunca o ia fazer em casa, mas tem mesmo de ser. Abro a minha janela e tiro o meu maço de Marlboro da pasta. Acendo um cigarro ao mesmo tempo que procuro as lâminas.

Ainda não comi nada hoje.

Acho que me vou divertir no resto do dia e durante a noite.

Vou libertar toda a merda que tenho dentro de mim em mim.

Vou-me foder toda, mas estou-me completamente a cagar para isso agora.