Há dias em que me pergunto porque é que construíram um colégio destes, um dos melhores do país, se não mesmo o melhor, num recanto sombrio à beira mar e não no meio de uma cidade importante, como dita a norma.

Mas pelo menos há um lado positivo, um não, para mim há vários, para outos nenhum. Mas o lado positivo a que me estou a referir é ao facto de, durante os nossos furos ou horas livres, nos deixarem vir até à praia.

E é lá que estou agora.

É sexta à tarde, a única altura em que o meu horário coincide com o do Tiago em termos de tempo livre. Ele convidou-me para vir dar uma volta mais uns amigos e após muita insistência por parte dele eu vim… mas como sempre fui deixada de lado…

Acabei por, lentamente, me afastar deles, seguindo por outro caminho, e eles sem darem conta, como se nem notassem a minha falta, foram-se afastando cada vez mais e mais…

Um pouco desiludida ponho-me a andar sem rumo e quando dou por mim encontro-me em frente a um caminho com cinco metros de largura e que entra uns cento e cinquenta metros dentro do mar.

Mais entediada do que movida pela curiosidade avanço. O vento fresco de finais de setembro roça na minha camisa, levanta as pregas da saia do uniforme e faz os meus caracóis voarem em todas as direções.

Ao fim de três quartos do caminho este transforma-se num aglomerado de enormes pedras soltas, amontoadas umas nas outras, como se um gigante de uma outra era se tivesse divertido a construir uma ponte para a gente pequena. Continuo a avançar, com os olhos postos no chão para não tropeçar por engano e cair para a morte, não que isso fosse muito mau.

Quando chego a uma rocha, quase no limiar do caminho, olho em frente e fico embasbacada.

O mar é enorme, de um azul tão profundo que se vai esfumando para um verde água perto da praia, como um degradé ou a variação da cor das escamas de um dragão, e tem uns reflexos dourados lançados pelo sol do final da tarde e alguma espuma branca perto da zona onde as ondas embatem nas últimas pedras do caminho. A maré está baixa, expondo rochas cobertas de limas e algas, verdes e negras, onde poucas as ondas que esmorecem, se transformando em espuma que é projetada vários metros no ar e brilha com os reflexos do sol. Apesar do vento a maré está relativamente calma e, por isso, as ondas morrem tão silenciosa e lentamente. Algures lá em baixo, nas últimas pedras está um pescador, entretido e empenhado na sua tarefa, aparentemente alheio à minha presença, mas que de vez em quando me lança olhares acusadores.

Ao olhar para a praia vejo o Tiago e os amigos a pousarem as suas coisas na areia. Ouvem-se os gritos estridentes de uma das suas amiguinhas mas não consigo perceber o que ela diz por causa da constante melodia que o mar canta. Após minutos de insistência das gajas, o Tiago faz como todos os outros e despe-se até ficar só de roupa interior. Então, todos os outros se juntam e empurram-no para a água gelada. O murmúrio do mar não consegue encobrir os seus risos e as lágrimas escorrem-me pelo rosto ao perceber que não deram pela minha falta, que não se importam comigo e que não querem saber de mim… que ele não quer saber de mim…

Com os dedos tremules tiro o maço do bolso interior do casaco e acendo um cigarro.

Não lhes devia dar importância, não devia, mas dou... Perdi todos os meus amigos ao mudar-me para esta escola e os que arranjei aqui revelaram-se, mais uma vez, uma farsa. Estou outra vez sozinha… sozinha como sempre estive e sempre estarei…

Passados uns minutos ouço paços a aproximarem-se.

Não me apetece olhar para trás para ver quem é e duvido que quem quer que seja se dê ao trabalho de vir até aqui à frente e arriscar-se a cair ao mar para vir ter comigo.

Ouço uns pés a aterrarem de um salto, seguidos de um suspiro e de alguém a sentar-se ao meu lado.

Quero saber quem é que se sentou, mas não quero desviar os olhos do mar para não se verem as minhas lágrimas que ainda continuam a escorrer abundantemente.

– Estás sozinha? – é a voz dum rapaz, vagamente familiar.

Esta é uma daquelas perguntas de resposta mais que evidente que se faz quando se quer meter conversa com alguém mas que não se sabe como, ou então quando se vê qualquer coisa óbvia, mas que mesmo assim se quer ter a certeza, ou ainda quando se é mesmo estúpido, como por exemplo perguntar a uma pessoa que está no meio do chão se caiu ou então a alguém que tem aparelho se usa aparelho, por vezes mereciam que lhe respondessem “não, estava só a dormir” e “não, foram os meus pais que me puseram arame nos dentes para não mos roubarem”.

– Estás é no presente, por isso não, não estou sozinha porque tu estás aqui. Se te estavas a referir a antes de tu chegares, teoricamente também não estava porque está um pescador lá em baixo, mas sim, praticamente estava sozinha, porque pronto, estou sempre sozinha… – respondo-lhe com a voz rouca e um pouco trémula.

– Sempre não, agora estás comigo.

– Pronto, quase sempre, salvo raras exceções – digo tentando sorrir, mesmo sabendo que ele não deve estar a ver a minha cara.

– Nas aulas também estás comigo.

– Estou? Bem me parecia que a tua voz me era familiar.

– Porque é que não olhas-te simplesmente para mim para ver quem eu era? – diz o Pedro.

Respondo a verdade ou minto-lhe? De qualquer das maneiras se ele olhar para a minha cara vai ver que está toda molhada e muito provavelmente com a maquilhagem borratada, por isso de que serve tentar esconder a verdade? De nada…

– Por duas razões: a) o mar está extremamente belo hoje e custa desviar os olhos dele e b) devo estar com um aspeto horrível – digo da maneira mais suave e calma que consigo.

– Porque é que dizes isso?

Não sei ao que é que ele se está a referir, mas decerto deve ser em relação a b), por isso viro-me para ele.

O Pedro está sentado à minha direita, como nas aulas, mas desta vez tem o olhar colado em mim e não dirigido para a frente. Acho que é a primeira vez que consigo olhar para os olhos dele durante mais do que uns breves segundos, são ainda mais bonitos do que o que eu me lembrava e até mais bonitos que o mar, são uma mistura de azul e verde com um ligeiro toque âmbar junto à iris. Não consigo tirar os meus olhos dos dele, apesar de saber que estou a começar a corar.

Sei que ele vai dizer qualquer coisa por isso preparo-me para outra pergunta estúpida, mas desta vez deve ser um “estás a chorar?”, mas em vez de perguntar isso ele coloca o braço dele sobre os meus ombros e pergunta:

– O que é que se passa?

Eu estou a chorar por estar sozinha, por ter sido deixada de lado por aqueles (aquele) que eu pensava que eram meus amigos, mas não lhe posso dizer isso, era simplesmente demasiado lamechas. Tenho de arranjar uma desculpa qualquer, mas não pode ser nada de demasiado extravagante, tem de ser algo simples e subtil que não levante desculpas, por isso digo a coisa mais óbvia que me vem à cabeça:

– Acho que estou com saudades de casa – não é nada verdade, mas pronto, deve funcionar.

– É normal, eu também tenho, não tens de ficar assim. Aposto o que quiseres que eles lá em tua casa também têm saudades tuas – disse ele fazendo um sorriso torto.

– É melhor não apostares nada porque eu vou ganhar essa aposta. Quando eu disse que tinha saudades de casa, não me estava a referir a casa casa, mas à minha cidade em geral…

– Hm… acho que também devo sentir um pouco a falta da minha cidade – ele está a tentar ser compreensivo, tentando mostrar-me que supostamente não sou a única a sentir falta das coisas. – Se não me engano tu disseste que eras de Vila Real, certo?

– Sim, tu também disseste que eras de lá, mas és de Vila Real mesmo ou Vila Real de Santo António? – eu sei que ele deve ser de Vila Real, mas não sabia que mais dizer.

– Vila Real mesmo, então somos da mesma cidade.

– Pelos vistos, mas eu nunca te vi.

– Também nunca te vi a ti, mas diz lá, do que é que tens saudades na nossa cidade? – pergunta ele tirando o braço de cima de mim.

Gostei da maneira como ele disse “nossa”.

Já não estou a chorar, mas volto a olhar para o mar, limpo a cara com a manga do casaco e então digo:

– Tenho saudades um pouco de tudo… da minha antiga escola, das ruas meias desertas, do conservatório e dos jardins escondidos, dos meus amigos e das coisas que fazíamos juntos, do parque florestal, do rio, da vila velha e do seu cemitério… de tanta coisa…

– Andavas onde? Espera, não digas, eu vou descobrir. Na S. Pedro não andavas porque nunca te vi lá e para falares na vila velha é porque andavas perto de lá, logo eras do Liceu, certo? – ele faz um grande sorriso, deve estar mesmo orgulhoso da sua dedução, apesar de não ser nada de mais porque só há três escolas lá e ninguém anda na terceira.

– Certo, mas o facto de eu ter falado na vila velha[1] não me condiciona a andar obrigatoriamente no Liceu.

– Eu sei, eu sei, mas tens de admitir que foi uma brilhante dedução.

– Ok, ok, eu admito, mas não vamos falar de escolas, por favor, porque tu sabes bem da rivalidade que há para lá – digo rindo-me um pouco, a companhia dele nem é nada má, podemos até dizer que é agradável estar aqui com ele, é agradável falar com alguém que é do mesmo sítio que eu e com quem posso discutir trivialidades sem ter de explicar o mínimo pormenor e para a nossa primeira conversa até está a correr razoavelmente bem.

– Toda a gente sabe, tudo junto contra o Liceu. Isto é estranho, sabes?

– Isto o quê? – deito um olhar à praia e vejo que eles já saíram da água e que estão todos deitados na areia. O Tiago tem duas raparigas agarradas a ele. Ignoro-os e volto a concentrar-me no Pedro.

– Isto, nós eramos da mesma cidade, nunca nos tínhamos visto e tivemos de vir para um colégio algures à beira mar para nos encontrarmos e até estamos na mesma turma e sentados um ao lado do outro, quem sabe até podemos ter amigos em comum.

– Quiçá, mas só estamos sentados juntos porque tu chegaste atrasado e o único lugar vazio era ao meu lado, pura coincidência.

– Chama-lhe coincidência que eu chamo-lhe obra do destino, estávamos predestinados a encontrar-nos – disse ele enquanto compunha o cabelo despenteado pelo vento.

– Predestinados? Tu acreditas nessas tretas do destino e assim?

– Não são tretas e sim, acredito.

– Desculpa, eu sei que tenho de respeitar as opiniões dos outros, mas isto é tão ilógico, não faz sentido nenhum. Agora que eu estava a começar a gostar de ti tinhas de vir com isto? Desceste consideravelmente na minha consideração – disse a brincar, por isso esforcei-me para tentar fazer um sorriso.

– Não te preocupes, tu também desceste na minha – disse ele devolvendo o sorriso.

– Mas eu estava a brincar contigo…

– Eu também estava – ele afagou-me a cabeça muito rapidamente, acho que se arrependeu de o ter começado a fazer. Está a começar a ficar frio, o sol está a baixar e projeta reflexos alaranjados no mar, mas não me quero ir embora, estou bem a falar com ele e a ver as estrelas aparecerem aos poucos. – E quanto a namorados, não tens? Não referiste nada sobre isso quando falaste do que tinhas saudades.

– Tinha um namorado, mas acabei com ele pouco antes de ir fazer os exames para entrar aqui – geralmente não gosto muito de falar sobre isto com ninguém sem ser a Violeta ou por vezes o Pierre, mas não me estou a importar de falar com ele. – E tu?

– Hm…não, não tenho – diz meio envergonhado. — Mas não me digas que acabaste com ele por vires para aqui?

– Não, não, quando acabei com ele nem sabia que ainda vinha para aqui. Não, eu acabei com ele porque não gostava dele, nunca gostei e eu estava a sentir-me cada vez pior ao namorar com ele, além de que ele fez-me coisas horríveis….

– Então se não gostavas dele porque é que começaste a namorar com ele?

– Sabes, eu tenho um grande defeito, não consigo dizer não às pessoas com medo de as magoar e prefiro sofrer eu em vez delas.

– Nesse caso dá-me vinte euros – disse ele com um sorriso enviesado ainda mais sedutor que o do Tiago.

– Não, porque é que haveria de dar?

– Pensava que não conseguias dizer não – ele levantou-se e estendeu-me a mão enquanto se ria. – Anda, é melhor irmos jantar.

Aceito a mão dele e encaminhamo-nos para o grande salão.

Pela segunda vez desde que cá cheguei janto com outra pessoa que não o Tiago ou a minha própria companhia.

Depois do jantar ele levou-me ao Edifício Petúnia antes de ir para o seu dormitório que nem fica muito longe.

Quando chego ao quarto o Tiago ainda não estava lá, fui tomar banho e fiquei uma eternidade a olhar para o sangue a escorrer das minhas ancas latejantes e quando voltei ao quarto ele ainda não tinha chegado. Vesti a camisola dele e fui para a varanda fumar um cigarro, não sei porquê mas não me apeteceu fazê-lo enquanto estava com o Pedro, como se a simples presença dele conseguisse atenuar a minha dor interior.

Agora que penso bem, não me lembro de ver o Tiago no jantar, talvez ele tenha ido mais tarde…

Não tenho sono nenhum, mas não me apetece falar com ele depois de me ter deixado sozinha por isso apago as luzes todas e deito-me.

Quando ele chegou já passava do recolher obrigatório, eu fingi que estava a dormir, mas mesmo assim vi-o a despir-se à luz do luar, quando ele olhou para mim eu fechei os olhos e abrandei a minha respiração, ele deu-me um beijo na testa e deitou-se na sua cama.

Porque é que me preocupo tanto com ele?

Eu abri os olhos e fiquei a olhar para ele até adormecer.

[1] Para quem não sabe a Vila Velha é a parte antiga da minha cidade onde só existem ruinas, uma taberna, um museu e um cemitério e que fica a menos de dez metros da minha antiga escola.