Kiss Me
14 Desculpas
Acordo com a luz do sol a entrar pela janela.
Pestanejo repetidamente antes de olhar em frente e dar com o Tiago de boxers pretos e cabelos ruivos despenteados pelo vento com as mãos nos beirais da janela.
– Bom dia alegria – diz ele com um sorriso enviesado, daqueles que pedem um sorriso em resposta, mas eu não lhe consigo sorrir, não depois do que ele me fez ontem.
Nem sequer me apetece dizer-lhe o que quer que seja, mas o sorriso dele é tão contagiante que acabo por resmungar:
– Acordaste-me.
Ele aproxima-se de mim e senta-se na minha cama.
– Desculpa, era essa a minha intensão, mas não sabia que tinhas o sono assim tão leve, tinha planeado acordar-te com cocegas depois de abrir a janela.
– Peço desculpa se estraguei o teu plano e eu não tenho cocegas. O mais provável era levares um estalo mal eu acordasse.
– Então ainda bem que foi assim.
Ele está a olhar para mim e eu estou a olhar para ele. Devia responder-lhe, mas não sei o que dizer e não me apetece pensar. Sou mesmo horrível com pessoas.
Só de tentar imaginar o meu aspeto morro de vergonha e pensar que ele me está a fixar assim ainda é pior. Devo ter o cabelo todo despenteado em várias direções, a t-shirt larga de mais e torta, maquiagem borratada, cúmulo dos cúmulos era ter um fio de baba a escorrer-me da boca. Passo a mão pelo queixo para me assegurar que está limpo ao mesmo tempo que ele se levanta, puxa o edredão e se deita ao meu lado.
– Posso, não posso? – pergunta depois de se cobrir.
– Já estás deitado e já.
– Mas se quiseres eu saio.
– Não… eu não quero que te vás embora – digo, meia embaraçada, virando-lhe as costas.
Porque é que eu estou a dizer isto? Porquê?
Isto nem sequer é verdade, pois não?
Não pode ser verdade…
Eu não me posso estar a apaixonar por ele. Não posso!!
– Eu também não me queria ir embora – responde, passando um braço por baixo da minha cintura e outro por cima e abraçando-me por trás.
E ficamos assim em silêncio no que me pareceu uma eternidade. A sentir a respiração dele no meu pescoço e o nariz dele na minha nuca, uma mão dele a agarra-me pela cintura, puxando-me contra ele e a outra a fazer-me festas no pescoço. Também lhe quero tocar. Também o quero agarrar. Também quero passar as minhas mãos por aquele cabelo de fogo, mas forço-me a mim mesma a relembrar-me do que ele me fez ontem.
Ele dá-me um beijo no pescoço, daqueles suaves e doces. Tem os lábios tão quentes. Não sei como reagir. Não sei o que fazer.
Ele dá-me outro e outro e outro e entre cada um deles vai murmurando:
– Desculpa… Desculpa… ontem não te devia ter deixado sozinha, não te devia ter ignorado, quando dei pela tua falta já tinhas completamente desaparecido. Eu queria mesmo passar a tarde contigo, mas não podia deixar os meus amigos sozinhos.
“Quando dei pela tua falta já tinhas completamente desaparecido”… Sou assim tão invisível? Tão insignificante? E o que ele diz nem sentido faz, como é que ele ia deixar sozinhos os amigos se eles estavam na companhia uns dos outros? Nunca percebi estas coisas…
Corro os dedos pelas cicatrizes do meu braço esquerdo antes de me virar para ele e acabar com o meu nariz colado ao dele.
Nunca tinha reparado mas ele tem pequenas sardas de um castanho alaranjado. Tão fofas…
Quero afastar-me, mas ele segura a minha cabeça com os dedos entrelaçados nos meus caracóis.
Tenho de lhe responder, mas não consigo. Não tenho coragem. Quero falar mas as palavras não saem, ficam presas na minha garganta e recusam-se a vir cá para fora, entranhando-se cada vez mais nas profundezas do meu ser.
– Desculpa… — volta a repetir, aproximando-se ainda mais e ficando com os olhos a parcos centímetros dos meus.
A única coisa que vejo é esta imensidão de cinzento raiada de branco tão morta. Sim, os olhos dele têm aquele brilho especial, ou então a ausência dele, não sei bem, que os faz parecer distantes, como que estivessem presos num outro mundo. São tão poderosos que chega a doer-me o coração só de olhar para eles, como se a tristeza que neles habita se refugiasse no meu corpo.
Não consigo encará-lo mais e acabo por fechar os olhos.
Sabe bem estar assim, nos braços dele, a ouvir a sua respiração, a senti-la nos meus lábios.
Mas estamos simplesmente demasiado próximos, demasiado íntimos, ainda mais do que quando dormimos juntos.
Quero fugir.
Não sei porquê mas tenho de me afastar.
Abro os olhos a tempo de o ver aproximar-se ainda mais e beijar-me.
Ele está a beijar-me.
Os lábios dele pressionam suavemente os meus. São tão quentes.
Porque é que ele está a fazer isto?
Eu não sei o que fazer.
Como é suposto eu reagir?
Não sei… não sei… porque é que estas coisas só me acontecem a mim? A única coisa que posso fazer e o que eu acho que uma pessoa normal faria: ou afastá-lo ou beijá-lo de volta… afastá-lo… eu devia afastá-lo, mas não quero… não quero e por isso beijo-o de volta e ele começa a beijar-me com mais intensidade. Os lábios dele queimam enquanto abrem caminho por entre os meus e não sei porquê mas eu quero mais. Passo-lhe as mãos nas costas e enterro-as no cabelo dele. Ele deita-me de costas e deita-se em cima de mim.
Entre beijos cada vez mais desesperados ele murmura:
– Desculpa… eu não aguentava mais.
Por momentos esqueço-me de ontem. Esqueço-me de tudo. Quero dizer-lhe que eu também não aguentava mais. Quero dizer-lhe que também quero isto. Mas não me saem as palavras e mesmo que saíssem acho que não as pronunciava. Os meus lábios não conseguem deixar os dele. Querem mais e mais e as minhas mãos estão cada vez mais desesperadas à procura da pele dele e as dele da minha.
Sinto-as no meu cabelo.
Sinto-as nos meus ombros.
Sinto-as nas minhas pernas.
Sinto-as a tirarem-me a camisola.
Sinto a pele dele a escaldar quando vai de encontro ao meu peito frio.
Sinto uma coisa dura, muito dura lá em baixo.
Eu quero-o tanto aqui e agora.
Quero estar mais próxima dele.
Estou cada vez mais ofegante, não posso hiperventilar, mas não estou a conseguir respirar.
Então ele começa a descer e a beijar-me o pescoço, a morder-mo, fazendo-me um enorme chupão ao pé da orelha esquerda. Desce ainda mais e chega aos meus ombros e clavículas, deixando-me a pele a arder. Isto sabe tão bem.
Quando ele me começa a beijar o peito o telemóvel dele toca.
Imploro-lhe mentalmente para não ir atender, para não me deixar, mas como sempre nunca sou ouvida.
– Desculpa… — murmura ele ao levantar-se.
Ele vai falar para a varanda deixando-me ali, sozinha, praticamente nua e com as cicatrizes todas à mostra, cicatrizes que ele ainda não viu. Os cortes de ontem à noite ainda não sararam e têm uma cor rosada. Parecem tão inofensivos, tão solitários que acho que precisão de companhia. Sim, eles anseiam por companhia e eu vou dar-lha.
Nem espero que o Tiago acabe o telefonema, levanto-me e fecho-me na casa de banho. Mal tranco a porta volto a ter dificuldades em respirar e acabo por me encostar à parede e escorregar para o chão com o corpo todo a tremer.
Levanto-me com muito esforço e abro a minha gaveta com demasiada força fazendo cair algumas coisas.
– Está tudo bem? – ouço o Tiago a perguntar.
– Sim – respondo com a voz mais calma que consigo fazer enquanto os meus dedos hesitantes tiram a minha melhor amiga do seu esconderijo e a dirigem ao primeiro pedaço de pele que encontram. Uma grande extensão do lado exterior da minha coxa direita, perfeito. Faço um corte, outro e mais outro, cada um mais profundo que o anterior ao mesmo tempo que do outro lado da porta, a uns míseros centímetros de mim ele diz:
– Desculpa, vou ter de ir, tinha um trabalho marcado para hoje à tarde mas eles querem começar agora de manhã. Não te chateias, pois não?
Que desculpa mais esfarrapada.
Tretas… Tretas!
Um trabalho logo na primeira semana? Que grande mentira.
As lágrimas começam a escorrer e os meus dedos trabalham mais depressa agora, enchendo as minhas costelas de pequenas marcas vermelhas.
– Claro que não, podes ir – digo antes de tapar a boca com a mão esquerda para me impedir de gritar de dor. Continuo assim durante cinco minutos e quando me olho ao espelho não consigo evitar um sorriso sádico.
Isto deixa-me muito mais feliz do que o que é suposto. Não consigo evitar e passo o meu indicador pelos cortes e depois levo-o à boca cheio de sangue. Sabe tão bem, bem de mais, tem aquele sabor a vida e a morte, aquela mistura de açúcar e ferro que nos faz desejar mais.
Sorvo praticamente cada gota do meu sangue como já não fazia à muito tempo antes de entrar para o chuveiro.
Tomo um banho demorado para sentir durante muito tempo a dor provocada pela água entrar nos cortes.
A dor é simplesmente o melhor sentimento do mundo, digo isto não por ser talvez aquele com que estou mais familiarizada, mas porque a dor é o motor de tudo, sem dor não há nada e havendo as outras coisas há dor.
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