Kiseki

1 Entre Marés e Memórias


Notas iniciais
A inspiração para essa fanfiction vem da música It Was Always You da banda Maroon 5, que fala de um amor construído sobre a amizade, onde uma das pessoas, com o passar do tempo, descobre que está apaixonada. Indicação da música do capítulo - This Love - Taylor Swift. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=mvxQYPR4lmU

P R Ó L O G O:

Entre Marés e Memórias

Uchiha Itachi caminhava pelas ruelas tranquilas de Okinawa, cumprimentando com um leve sorriso os moradores que ainda o reconheciam, e a nostalgia o envolvia a cada saudação. Gestos simples, mas cheios de significado, que lhe recordavam quem ele era e de onde vinha. O cheiro salgado do mar misturava-se ao aroma das árvores de hibisco e buganvílias coloridas, enquanto o som rítmico das ondas quebrando suavemente na costa trazia-lhe uma paz esquecida, uma conexão viva e vibrante com suas raízes.

Aos vinte e quatro anos, sua presença imponente chamava atenção de uma maneira única. Ele não exibia músculos volumosos, mas uma elegância firme e discreta, reforçada pela inteligência afiada em seus olhos negros. Seus cabelos escuros, presos em um rabo de cavalo baixo, caíam com naturalidade sobre os ombros, compondo uma figura marcada pelo magnetismo natural de alguém que conhece sua própria força e serenidade.

Agora, de volta após anos longe, Itachi sentia como se o tempo não tivesse mudado a cidade. As praias de águas cristalinas e as vilas de pescadores ainda guardavam o mesmo charme rústico, preservado nas tabuletas envelhecidas e nas barracas de comida que ofereciam goya champuru e soki soba, pratos tradicionais da ilha. Essas bancas, rodeadas pelo burburinho da comunidade, traziam-lhe à memória os dias simples da infância, em que tudo o que precisava era de uma tigela de soba, amigos e o som das ondas para sentir-se completo.

Nas paisagens serenas e no ritmo pacato da ilha, Itachi recordava as tardes de pesca ao lado dos amigos. Nohara Izumi e Yamada Shisui, seus amigos de infância, sempre estiveram ao seu lado, e as brincadeiras na praia, as conversas profundas ao pôr do sol, todos esses momentos permaneciam tão vivos na sua memória que era quase doloroso lembrar como a vida os afastou. Especialmente Izumi.

A mudança para Tóquio, quando decidiu estudar Direito, trouxe a distância física e emocional entre ele e Izumi. Na tentativa de enterrar seus sentimentos por ela, Itachi envolveu-se com Yamanaka Ino, uma colega de curso com personalidade marcante. Ino, no entanto, percebia o vínculo entre Itachi e Izumi como uma ameaça, e a tensão constante levou Izumi a se afastar. Após seis meses de uma relação insustentável com Ino, saturada por noites de estudo e o peso de uma dedicação exaustiva, Itachi pôs fim ao namoro. Era claro que a ausência de Izumi deixava um vazio, e assim, ele lançou-se mais profundamente na carreira, determinado a esquecer os sentimentos que o assombravam.

Durante sua temporada em Tóquio, Itachi mergulhara profundamente nos estudos. Destacou-se rapidamente, sendo selecionado para programas de prática jurídica que incluíam atuações como tutor, participação em júris e um estágio de dois anos na Defensoria Pública. O talento que o fazia se destacar também chamou a atenção de um renomado escritório da cidade, o Akatsuki, onde ele foi contratado logo após a formatura. Lá, começou a trabalhar ao lado de Kisame, um advogado criminalista experiente, mas pouco colaborativo.

A rotina no Akatsuki era sufocante. Kisame, impressionado pelo talento de Itachi, delegava-lhe o trabalho pesado: pesquisa minuciosa, análise de jurisprudência e esboços de argumentos que ele mesmo apresentava, colhendo os créditos. A pressão e o excesso de tarefas consumiam Itachi, e o salário de advogado recém-formado mal compensava o estresse, a solidão e o cansaço.

O estopim para seu retorno a Okinawa veio durante uma audiência. Itachi representava uma mulher de 35 anos, acusada de portar ilegalmente uma arma branca e reagir em legítima defesa contra um assaltante. Ele alegou autodefesa e, mesmo o promotor, Takahashi Deidara, concordou com uma pena reduzida. Contudo, o juiz do caso, Himura Madara, conhecido por suas ligações suspeitas, condenou a mulher a três anos de reclusão por lesão corporal grave e porte ilegal de arma, numa aparente tentativa de proteger o assaltante, que era seu sobrinho, Nagato. Indignado, Itachi não conteve a frustração e acertou um soco no juiz, o que lhe custou seis meses de suspensão pela Ordem dos Advogados.

No mesmo dia, ao descobrir que Kisame havia usado suas ideias para resolver um caso importante sem sequer mencionar seu nome, traído e exausto, Itachi se demitiu. Em busca de descanso e clareza, ele decidiu voltar a Okinawa. Contou a situação apenas ao amigo de infância, Shisui Yamada, e preparou-se para enfrentar o que o aguardava em sua cidade natal.

Ao retornar a Okinawa, Itachi encontrou-se em um misto de alívio e tensão.

A decisão de voltar para Okinawa foi tomada após uma série de frustrações profissionais que culminaram em um caso de injustiça que o abalou profundamente. Mesmo tendo sido um dos advogados mais promissores de seu escritório em Tóquio, o Uchiha sentia o peso da pressão e a solidão da cidade grande. Sua mãe, Mikoto, uma respeitada advogada civilista e professora de Direito Civil na Universidade Internacional de Okinawa, sempre o apoiou em sua trajetória, sabia que sua mãe, o acolheria com compreensão, mas temia a reação de seu pai, Fugaku, chefe da polícia local, que poderia ver o retorno como um fracasso.

Para seu irmão mais novo, Sasuke, Itachi era um exemplo. Determinado a seguir os passos do pai, Sasuke preparava-se para o vestibular, enquanto participava ativamente de um comitê juvenil ao lado de Uzumaki Naruto e de sua namorada, Haruno Sakura. Eles lutavam pela independência de Okinawa e pela retirada das bases americanas na ilha. O ressentimento pela ocupação militar, agravado por casos de violência que chocaram a população, o inflamava. Entre os incidentes mais notórios, o abuso de uma menina de 12 anos em 1995 por militares americanos ainda ecoava na ilha, e agora uma nova denúncia de violência contra uma amiga de Sasuke, Uzumaki Karin, de apenas 15 anos, reacendia a revolta de jovens e adultos. Sasuke tornava-se cada vez mais ativo nos protestos, convicto de que defender Okinawa era sua missão pessoal.

Ao relembrar tudo o que havia vivido em Tóquio, Itachi percebeu que seus sentimentos por Izumi ainda pulsavam com a mesma intensidade de antes, misturando-se à saudade da vida simples e verdadeira que ele abandonara. Rever o cais do velho barco de pesca, o Hibiki, era uma tentativa de encontrar tranquilidade, mas as lembranças de Izumi, sua amiga de infância e seu amor nunca declarado, invadiam-lhe a mente a cada passo. A imagem dos olhos castanho-avermelhados dela e as memórias dos momentos juntos lhe traziam uma sensação de arrependimento e esperança ao mesmo tempo, reacendendo um desejo silencioso de uma segunda chance para confessar o que sempre sentira. Em seu coração, ele sabia que o reencontro com ela traria à tona todos os sentimentos que sempre manteve escondidos.

Shisui Yamada, seu amigo de infância, sorriu ao vê-lo.

— Bem-vindo ao lar! — disse Shisui, abraçando-o calorosamente.

Itachi sorriu e bagunçou o cabelo de Shisui, como fazia na infância, e os dois seguiram, lado a lado, como se o tempo nunca tivesse passado. Shisui contou a Itachi que Izumi continuava em Okinawa, trabalhando como professora de literatura clássica japonesa e inglesa. Ela agora vivia em Yomitan, um bairro tranquilo e repleto de referências à cultura tradicional da ilha. Pensar em Izumi reavivava sentimentos que ele tinha deixado para trás, mas que agora pareciam mais fortes do que nunca.

Entre o reencontro com a família, o descanso e a esperança de rever Izumi, Itachi sentia que o retorno à ilha era também uma oportunidade de encarar o passado e, talvez, de finalmente expressar o que seu coração sempre quis dizer. Agora, diante do mar que tanto amava, ele sentiu a brisa tocar seu rosto e soube que estava pronto para recomeçar. Okinawa era seu lar, e talvez, dessa vez, ele tivesse a coragem de lutar por tudo aquilo que deixara para trás.

Notas finais
Para os curiosos de plantão como eu, gostaria de compartilhar a inspiração para o caso de Karin. Baseei-me em um incidente real ocorrido em 1995, que abordarei com mais detalhes ao longo dos capítulos. Segue as referências e fontes que consultei para trazer veracidade à narrativa. https://www3.nhk.or.jp/nhkworld/pt/news/backstories/2005/ https://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/06/manifestantes-no-japao-protestam-contra-presenca-militar-americana.html https://thediplomat.com/2024/07/in-okinawa-2-new-sexual-assault-cases-implicating-us-soldiers-fuel-public-anger/ Isso é tudo pessoal. Até mais!