Kingdom Hearts: Motherland
17 Otherworld
Riku e Sora não precisaram se distanciar muito do grupo para já serem cercados por uma imensa horda de Nobodies.
–Não podemos perder tempo com essas coisas – disse Riku – Precisamos chegar até a torre sul, não é?
–Sim... ah, droga, STRIKE RAID! – Sora lançou a Keyblade dele na direção de um grupo de Nobodies que se aproximava – Eles estão concentrados ao redor da porta, como vamos passar?
–Vá jogando a Keyblade neles até ter uma abertura – respondeu o outro.
Os dois fizeram isso. Strike Raid era realmente um golpe útil, nesse tipo de situação, mas não forte o bastante para deixar o caminho completamente livre. Eles se aproximavam da porta. Sora, à distância, destrancou-a com a Mother’s Promise, enquanto a Way to the Dawn de Riku continuava rasgando-os pelo caminho. Por fim, alcançaram-na, e com um empurrão, os dois conseguiram abri-la, entraram rapidamente e a fecharam atrás de si.
Por um momento, permitiram-se parar e respirar. Depois, olharam o castelo.
Sora ficou completamente sem ar. Era exatamente como nas memórias de Seth, sem mudar um único milímetro! Tudo era vidro, granito branco e prata. As tapeçarias pelas paredes, os vitrais pela janela, tudo estava completamente intacto. Duas escadas conduziam aos andares superiores, e uma porta levava a um corredor central.
Mas algo estava errado. Sora podia sentir isso.
–Tá fácil demais... – Riku colocou em palavras os temores do outro – Tem que ter alguma armadilha...
“Cada jornada dá origem a encontros
E cada encontro faz nascer uma despedida.
Quando uma despedida leva a uma jornada,
Os mundos abrem seus corações.
Aqueles escolhidos pela luz,
Ou enlaçados pela escuridão.
Amigos que compartilham os mesmos laços,
Apesar de seus caminhos talvez serem diferentes.
Quando duvidar do caminho trilhado até aqui,
Quando a mão que você segurava estiver perdida para você,
Olhe outra vez para o coração que um dia foi...
Pois todas as respostas estão lá dentro.”
Era a mesma voz do Claustro de Testes, que agora reverberava pelas paredes do castelo. Não havia dúvida disso.
Era assustador, mas ainda assim dava uma certa sensação de calma. E uma impressão de familiaridade, também. Sora e Riku se encararam por um instante. O que quer que aquilo fosse, soava como uma espécie de aviso, ou conselho.
E – Sora também percebeu isso – aquelas palavras também eram para Seth.
Foi então que eles ouviram passos na sua direção. Passos pesados.
Os dois se viraram com um sobressalto na direção do corredor central. Uma criatura estranha caminhava na direção deles. Vista de longe, parecia-se com a silhueta de uma pessoa. Mas, à medida que foi se aproximando, eles puderam perceber o que realmente era: um Heartless, que se parecia com algum tipo de fantasma.
E, então, sem que eles se dessem conta, outros tantos, iguais ao primeiro, começaram a surgir pelo saguão de entrada, bloqueando a passagem, subindo pelas escadas. Um arrepio gelado percorreu a espinha de Riku. Se já havia Heartless lá dentro, então a Fonte já estava seriamente ameaçada. Sora, por sua vez, estava intrigado com a forma daqueles Heartless. Por que justamente os de dentro do Mooncastle tinham que se parecer com fantasmas?
–Para que lado é a torre sul? – sussurrou Riku – Você estava pesquisando sobre o castelo, deve saber.
–Seguindo o corredor central – respondeu Sora – Tem uma terceira escada ao final dele. Mas o caminho tá completamente cercado.
–Ah, então é só abrir uma passagem! – respondeu o primeiro.
E, já no instante seguinte, os dois corriam na direção da passagem. Uma massa mais densa de Heartless estava bem em frente ao portal. Então, Riku pensou rápido e teve uma idéia: parou bruscamente em frente aos Heartless, e com as mãos deu um apoio para que Sora subisse. A partir daí, Sora saltou, e começou a girar a Keyblade no ar, enquanto caía. Quando atingiu o solo, o caminho estava quase completamente livre, e Riku se encarregou de cortar as últimas pontas soltas.
Eles olharam para trás um instante, antes de continuarem correndo em direção à escada. Ainda estavam muito longe do seu objetivo, e não tinham nenhuma idéia do que ainda os aguardava pelo castelo. Enquanto subiam a escada, Sora lançou um olhar suplicante à lua, vista de uma das grandes janelas. E, em silêncio, implorou por proteção. Se Shiva realmente estivesse ali, protegendo aquele castelo, aquela cidade... ele desejava com todo o coração que ela também pudesse protegê-los ali.
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Kairi não sabia explicar o que estava sentindo quando viu as portas do castelo se fechando.
Ainda tinha o gosto da boca de Sora na sua. Havia algo estranho naquele beijo, algo amargo. Era como se aquele fosse sabidamente o último. E ela não era capaz de aceitar isso, nem nunca seria. Naquele momento, sentia-se tremer, mas logo forçou-se a controlar seu medo. E, sem desviar os olhos do castelo, invocou a Moonbeam.
–Entraremos daqui a pouco no castelo – disse Rikku – Você está pronta?
–É claro que estou – até ela ficou surpresa pela decisão em sua voz – Vamos acabar logo com isso.
Rikku lançou um olhar ao castelo, e as outras a imitaram.
–Garotas, por favor, tomem cuidado lá dentro – pediu o rei – Precisamos que vocês dêem suporte ao Sora e ao Riku, e não sabemos o que tem lá dentro.
–Pode deixar, majestade – disse Rikku – Vamos ficar todas bem.
Então, um som, parecido com o de um grunhido, foi ouvido por todos. Distante a princípio, foi se tornando mais alto e mais próximo, até que eles percebessem um enorme enxame de naves contra a luz da lua. A quantidade era ainda maior do que a que atacou Twilight Town. Os olhos de todos ficaram congelados naquela cena, estáticos, até que por fim Yuna disse:
–Entrem no castelo AGORA! Os outros, assumam suas posições!
Kairi ficou observando, abismada, a imensa massa de naves que se aproximava do castelo, e foi preciso que Rikku a puxasse em direção ao castelo. Mais Nobodies apareceram, mas Leene, à distância, ia abrindo caminho com magias, até que as três chegassem ao castelo e entrassem.
–Tentem colocar uma cúpula ao redor do castelo – comandou Lulu – Temos que manter essas criaturas o mais longe possível da torre pelo máximo possível de tempo.
As Iniciadas, sob o comando dela, começaram a conjurar uma cúpula ao redor do castelo. Quistis observava o esforço delas, apreensiva, ao mesmo tempo em que acompanhava o progresso das naves. Não iria dar tempo, essa era a pior parte...
–THUNDAGA! – era a voz de Donald, com certeza. Agora as naves estavam dentro do alcance de ataque dos seus feitiços, e ele disparava uma chuva de raios atrás da outra. A cada raio, uma nave caía, fulminada. Mesmo assim, ainda não era o suficiente para atrasar o progresso deles.
Yuna engoliu em seco. Estava na hora de pedir por uma ajuda especial.
E, então, pegou seu báculo e começou a descrever movimentos rápidos e cadenciados, até que por fim tocou no chão. Com os olhos fechados e uma expressão de concentração no rosto, murmurou:
–Já faz muito tempo, meu amigo. Agora preciso que me empreste sua força mais uma vez. Venha até mim... Valefor.
E então, surgiu uma enorme águia vermelha ao lado dela, em meio a um clarão. Os outros lançaram um olhar surpreso na direção de Yuna, enquanto ela encarava o pássaro. Ele acenou a cabeça de forma submissa a ela, e ela subiu em suas costas. Logo depois, a águia levantou vôo, indo na direção das naves. O olhar de surpresa logo evoluiu para o choque completo.
–Ela é louca? – disse Quistis, exasperada – Enfrentar todas aquelas naves sozinha é suicídio!
–Ela sabe o que está fazendo – respondeu Lulu – Não vejo invocadoras como ela há um bom tempo. A garota deve ter algum plano, tenho certeza disso.
Valefor era muito veloz, e em segundos já estava próximo das naves. A situação era mesmo preocupante. Havia naves demais, e elas eram velozes. Felizmente, porém, elas não pareciam estar munidas com canhões, o que facilitava o trabalho dela. Nessa hora, ela tirou suas pistolas dos coldres e, lançando um olhar rápido às naves, murmurou:
–Um presentinho para vocês... TRIGGER HAPPY!
Então, começou a disparar uma saraivada de tiros na direção das naves, sem a menor hesitação. Elas foram caindo uma após a outra, e os feitiços disparados em terra ainda a ajudavam. Não se arriscou a olhar para baixo. Na verdade, estava decidida a pensar o mínimo possível no que estava fazendo. Apenas concentrou-se em continuar disparando, até que o tempo de duração de sua técnica terminasse.
“Isso não é o suficiente”, ela pensou, tensa. “Preciso de algo mais... forte.”
Como se Valefor lesse a sua mente, então, ele afastou boa parte dos inimigos com uma onda criada por uma batida das suas asas, e sem parar, continuou seguindo entre eles, enquanto Yuna preparava uma segunda rodada de Trigger Happy. Mesmo assim, algumas naves fugiam do cerco aéreo, e conseguiam pousar.
–É, parece que agora é a nossa vez – havia um sorriso feroz nos lábios de Yuffie, enquanto ela começava a atirar shurikens na direção dos primeiros Soldiers que desembarcavam das naves.
–A cúpula ao redor das naves não vai durar muito, agora que voltamos a nossa atenção para a cúpula do castelo – avisou Lulu – Preparem-se para combater alguns Nobodies.
–Mais um dia comum para o Comitê de Restauração de Radiant Garden – disse Tifa – Esses caras não são novidade nenhuma para nós.
Enfim, a cúpula ao redor do Mooncastle foi concluída. E, nesse momento, a que estava ao redor deles desapareceu. Os Nobodies, antes acumulados ao redor dela, agora partiam para cima deles a toda. Foi a deixa para Cloud e Leon entrarem na luta, e começarem a abrir trilhas entre os Nobodies com suas espadas. Enquanto isso, Donald, Goofy e o rei Mickey davam cobertura aos dois, e Quistis, Tifa e Yuffie protegiam as naves. De vez em quando, eles voltavam suas atenções ao céu. As naves continuavam aparecendo, e Yuna continuava tentando atrasá-las o máximo possível.
–Ela não vai conseguir fazer isso por muito tempo – murmurou Lulu, tensa – Alguém precisa ajudá-la, mas... como?
–YUNA! AQUI! – Cloud berrou o nome dela, enquanto estendia a mão para o alto. Ela o viu, e então mergulhou em direção ao chão, também estendendo a sua mão. Então, quando estava quase atingindo o chão, ela agarrou a mão dele e voltou a levantar vôo, puxando-o para o dorso de Valefor também.
–Mas o que diabos... – Leon murmurou, distraindo-se por um segundo, antes de voltar-se outra vez para a luta. Com sua visão periférica, ele podia ver os destroços das naves caindo, mas isso não mudava o fato de que elas continuavam vindo sem parar.
O tempo se escoava lentamente. E o que quer que eles estivessem fazendo dentro do castelo, precisavam terminar rápido.
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Enquanto subiam as escadas, Sora e Riku ouviram a porta se abrir.
–Pelo visto as garotas chegaram – murmurou o primeiro – Tomara que elas fiquem bem.
–Ah, elas vão ficar – disse Riku – Você já viu a Rikku e a Leene lutando. E a Kairi melhorou muito, também, as três vão saber se virar.
Sora engoliu em seco, enquanto seguia pelo corredor deserto. O castelo tinha uma aura ancestral e até mesmo um pouco fantasmagórica. Havia imensas portas dos dois lados do corredor, e tapeçarias e armaduras completavam a decoração. Não havia nenhuma fonte de luz visível, mas era como no Claustro de Testes: uma luz fraca e difusa que parecia não partir de lugar nenhum e os guiava por ali.
–Isso tá fácil demais – sussurrou Riku, segurando o cabo da Way to the Dawn com uma força desnecessária – Eu os sinto, eles estão aqui nos observando, mas... por que não atacam?
–Se eles não nos atacam, não vamos fazer o primeiro movimento também – retrucou Sora – Precisamos seguir sem interrupções até a torre.
Os dois seguiram em silêncio. Sora tinha a impressão de que quase conseguia ouvir as batidas aceleradas do seu coração reverberando nas paredes do corredor. Eles tentavam caminhar sem fazer barulho, mas o silêncio e a tensão do ambiente amplificavam qualquer som que fizessem, por mais baixo que fosse.
Então, pararam em frente a uma porta de mogno. Nela, havia o entalhe de uma rosa e dois corações sobrepostos. Na mesma hora, Sora a reconheceu, e murmurou, abismado:
–Então foi aqui... Seth... você já esteve aqui... – ele começou a percorrer todo o entalhe da porta com os olhos, lembrando-se da primeira visão que Seth lhe mostrou. Selene estava ao lado dele, quando aconteceu. O destino dele havia sido selado quando ele tocou aquele símbolo. Ele pôde sentir o olhar de Riku fixo nele, enquanto aproximava a mão do símbolo, preparando-se para tocá-lo também.
Então, a voz retornou. E começou a narrar o interlúdio daquela história.
“Um longo sonho.
Um triste adeus, suspenso no ar
Naquele “mundo entre os mundos”.
O que é realidade? O que é ilusão?
O caminho escolhido pelo jovem garoto
Leva às memórias dele.
Quando for pego na correnteza dos dias e noites que passaram,
Olhe novamente para os seus passos...
Pois aí toda a confusão irá terminar.”
–Essa voz... – murmurou Riku – Você acha que é...
–Eu não sei – Sora respondeu rápido – Mas ela está contando uma história. A nossa história. Minha, sua, do Seth... do Roxas... De certa forma, todas as histórias que se cruzaram até aqui.
–Mas por que ela está nos dizendo isso? E dessa forma, ainda por cima? – insistiu Riku.
–Ela quer nos dizer algo. Uma... pista, eu acho. Seth nunca me contou tudo o que ele sabia, mas talvez essa voz possa... – Sora fechou os olhos – Estamos perto. Vamos acabar logo com isso.
E então, tocou o símbolo. E os dois desapareceram em meio a um facho de luz.
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Mal entraram no castelo, e Rikku, Leene e Kairi já se depararam com um comitê de recepção não muito agradável.
–Esses caras não se cansam, não é? – murmurou Rikku, entredentes, enquanto saltava sobre um grupo de Heartless-fantasmas e os rasgava com suas adagas, sendo logo imitada por Leene. Kairi foi logo depois.
Ela já não era a mesma desajeitada de The Land of Dragons. Não, agora ela tinha muito mais domínio dos próprios movimentos e desenvoltura. A Moonbeam agora se movimentava leve, e ela passava por entre os monstros de uma forma ao mesmo tempo graciosa e mortal. Ainda não era tão habilidosa quanto os garotos, disso ela sabia, mas agora realmente podia lutar.
–Os meninos foram na direção da torre sul – disse Kairi – Temos que explorar o resto do castelo, e nos certificar de que está tudo limpo. Com o castelo selado, esses Heartless devem estar vindo de algum lugar. Além do mais... – olhou para cima – Duvido que essa seja a única coisa com que se preocupar aqui dentro.
Elas subiram as escadas principais. O palácio era realmente muito bonito. Por um momento, Leene imaginou como seriam os reis e rainhas do passado que o habitaram. Aquele era o passado de Waterfall City, um passado que parecia ter sido glorioso e belo. Ela engoliu em seco. Se pudesse fazer a cidade recuperar o brilho de antes...
Então, uma voz soou...
–Quem ousa invadir os domínios de mestra Erinia?
A voz não parecia ser humana. Ela tinha um quê sobrenatural, algo estranho e assustador.
–Domínios da mestra Erinia uma ova! – retrucou Rikku – O castelo pertence aos moradores de Waterfall City, e essa bruxa maldita é só uma invasora!
–Shhhh, não faça isso! – sussurrou Kairi – Não sabemos quem mais está aqui...
–Quem é você? – perguntou Leene, mantendo as mãos convenientemente próximas das adagas para uma reação rápida – Esse castelo não pertence a Erinia, e sim aos reis de Waterfall City.
–Um castelo como esse desperdiçado com reis mortos de uma cidade morta – a voz estava cheia de desprezo – Vocês não tem condições de aproveitar o poder que está encerrado nessas paredes.
–Então você teria mais condições? – Leene insistiu – Mostre a sua cara de uma vez!
Então, elas ouviram o som de asas pesadas batendo, e prepararam as suas armas. Então, o dono da voz apareceu. Elas emudeceram, pasmas. Na frente delas, estava uma criatura enorme, com grandes asas, pele escamosa e escura, dentes enormes, olhos verdes e uma imagem intimidadora.
Um dragão.
–Ah, dá um tempo... – murmurou Rikku – O que essa coisa está fazendo aqui?
–Então as lendas são verdadeiras... – murmurou Leene para si mesma – Você serve Erinia?
–Sim – respondeu o dragão – E vocês pagarão pela insolência de terem entrado aqui. A essa hora, meus companheiros já devem estar cuidando dos seus amigos na torre.
“O quê?”, o pavor sufocou Kairi. Ela percebeu que Leene também estremeceu ao ouvir aquilo, mas os olhos dela permaneceram fixos na criatura, enquanto ela dizia:
–Então é verdade que o Rei dos Dragões se curvou diante dela?
–Sim – respondeu o dragão – Ele a serve. E nós servimos a ambos. E temos ordens para destruir qualquer um que interfira nos planos de mestra Erinia.
–Sinto muito, mas nenhum de nós tem planos de morrer nesse castelo – então, para o choque das outras duas, Leene sorriu, feroz, enquanto sacava as adagas – E vamos chutar você e qualquer um dos seus amigos que aparecer na nossa frente.
As três se prepararam para atacar. O dragão abriu as asas de forma ameaçadora, mas elas mantiveram suas posições. O medo delas estava entorpecido, por alguma razão. E isso dava a elas clareza para pensar num plano. Não foram necessárias palavras. No segundo seguinte, as três correram em direções opostas, e Kairi ficou cara a cara com o monstro.
–Mestra Erinia nos falou sobre as crianças com as chaves – disse ele – Mas você é apenas uma menina humana frágil. Ainda assim, ousa me encarar?
–Sugiro que não subestime as “crianças com chaves” – ela disse, apontando a Moonbeam para ele, o olhar decidido – Muitos já fizeram isso, e todos se deram mal.
–Belas palavras, criança – respondeu ele – Mas você acha que está preparada para enfrentar qualquer coisa, mas não está. Você ainda não tem o olhar de alguém pronto para as conseqüências da batalha.
–Então por que não vem testar? – ela sibilou, por fim.
Então, finalmente, o dragão investiu. Kairi correu na direção dele, a Moonbeam pronta para o ataque. Seria uma colisão direta, se na última hora ela não tivesse apontado a Keyblade para o alto e conjurado uma corrente de ar. No segundo seguinte, ela própria usou essa corrente para ascender e, depois, aterrissar sobre o dorso do monstro.
–O que pensa que está fazendo? – ele disse – Isso é inútil.
–É o que veremos – então, ela sorriu – LEENE, RIKKU, AGORA!
As duas vieram, cada uma de um dos flancos do dragão, armas prontas. Com uma batida de asas dele, porém, as duas foram jogadas longe. O solavanco também fez com que Kairi se desequilibrasse, mas ela conseguiu se manter sobre o dorso dele. Então, ele levantou vôo. Agarrando-se com toda a força no pescoço dele, ela apertou os olhos, sentindo-se gelar.
–Ah, droga! – Leene se levantou – Por que a cúpula desse castelo tinha que ser tão alta? Agora, se eu tentar acertá-lo, posso acabar machucando a Kairi. E se...
Ela não terminou a frase, porque um jorro de chamas começou a vir na sua direção. Rikku e Leene só tiveram tempo de se esconder atrás das pilastras, e olhar para cima. O dragão voava em círculos, e Kairi continuava segurando-se em seu pescoço, sem poder fazer nada. Rikku o observava, procurando brechas para atacá-lo, sem conseguir encontrar.
–Você perguntou algo a respeito de um Rei dos Dragões – ela sussurrou – O que quer dizer isso?
–As lendas dizem que Erinia conseguiu derrotar Shiva no passado porque conseguiu se aliar ao Rei dos Dragões – respondeu Leene – Embora eu tenha uma teoria de que isso foi menos uma aliança e mais uma escravidão. Se isso é verdade... significa que talvez ele tenha voltado a ser o cão de guarda dela.
–Mas... como ela conseguiu dominar um rei?
–Enganando-o, chantageando-o, quem sabe? Mesmo o grande Rei dos Dragões cederia se seu reino fosse ameaçado por alguém como ela.
–E o que podemos fazer para salvar a Kairi e tirá-lo do nosso caminho?
Leene estudou a situação por um instante, antes de sorrir e dizer:
–Eu tenho um plano. Pelo visto teremos que ter uma conversinha com o nosso amigo de escamas...
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Agora, Yuna e Cloud voavam no dorso de Valefor, enquanto os outros lutavam em terra.
A águia continuava voando rápido entre as naves. Enquanto Yuna controlava a direção e disparava, Cloud atingia as naves que podia com sua Buster Sword. Mesmo assim, a dupla começava a demonstrar os primeiros sinais de fraqueza. Se Valefor fosse atingido, os dois despencariam de uma altura de dezenas de metros.
–Para uma invocadora, você até que é bem forte – disse ele, sem esconder um sorriso debochado. Ela, porém, devolveu no mesmo tom:
–Para um mercenário, você até que está sendo bem altruísta, aqui.
As naves continuavam a aparecer, mas seu número agora se mantinha constante. Eles conseguiam derrubar várias delas mas, mesmo assim, muitas delas haviam conseguido chegar ao castelo e despejar sobre ele gigantescas massas de Heartless. Yuna se preparava para pousar e ajudar quem estava em solo, mas Cloud a deteve, dizendo:
–Espere. Isso está fácil demais.
–Seu conceito de “fácil demais” é bem singular – ela respondeu, olhando para baixo.
–Isso não é nem a metade do que atacou Twilight Town – ele retorquiu – E Cid foi bem claro, a movimentação estava aumentando exponencialmente no que sobrou de The World that Never Was. A essa hora, o ataque devia ser mais intenso.
Yuna encarou o céu por um instante. Agora que Cloud havia dito, realmente o ataque não estava sendo assim tão intenso. Se fosse a mesma proporção de Twilight Town, ela jamais seria capaz de causar o estrago que estava causando com Valefor. Não fazia sentido algum. Além do mais, era muito provável que Erinia já soubesse que o que ela procurava estava dentro do castelo, e já tivesse preparado defesas ali. E ela também precisava manter o caminho dentro do castelo suficientemente livre...
Então, de repente, tudo fez muito sentido...
–Ela não está preparando tropas para atacar Waterfall City – a voz de Yuna desapareceu – Ela está... preparando tropas... para dominar os outros mundos!
Cloud engoliu em seco. Ele havia pensado naquela possibilidade, mas recusou-se a colocá-la em palavras.
–É claro, ela deve ter previsto que viríamos todos para cá... – ele murmurou – Mas ela não fará nada ainda. Não até conseguir o que quer aqui. Até lá, temos que manter o castelo o mais livre de monstros possível, e deixar os garotos lá dentro cuidarem do resto. Não é o ideal... – ele lançou um olhar tenso na direção do castelo – ...mas vai ter que ser o suficiente.
Yuna sabia disso. A imagem de Twilight Town ainda ardia em sua memória como a cicatriz de uma queimadura recente. Ela não podia permitir que aquilo continuasse se espalhando. E devia isso a muitas pessoas. Era nisso que ela pensava, enquanto sacava as armas e, mais uma vez, disparava uma intensa saraivada nas naves ao seu redor.
Enquanto isso, muitos metros abaixo, a batalha também continuava intensa. E mais pessoas haviam percebido que havia algo terrivelmente errado acontecendo ali. Mickey mantinha os olhos fixos no céu, intrigado, tentando entender por que não havia tantos Heartless quanto esperavam, até que ele chegou à mesma conclusão de Cloud e Yuna.
–Ela está preparando um ataque monstruoso... – ele sussurrou para si mesmo – Fomos muito tolos, deixamos os outros mundos desprotegidos...
–Ainda não, Majestade – Donald disse, ao lado dele – Ela não fará nada ainda. Pelo menos não até conseguir a Fonte, e para isso ela depende do Sora. Se ela não tiver a Fonte, estará neutralizada.
–Não, não estará – disse o rei – Ela ainda tem muito poder. Acho que ela preparou essa tropa exatamente para o caso de conseguirmos atrasá-la. Será uma retaliação... – ele fechou os olhos, tentando não imaginar a destruição que se seguiria a isso.
Por um segundo, todos imaginaram o que aconteceria. Não havia ninguém que protegesse os mundos deles, agora. Traverse Town e Radiant Garden seriam os primeiros, sem dúvida. Disney Castle cairia logo depois. E, se ela tinha poder para derrubá-los, não seria difícil submeter Waterfall City também. Além do mais, Maleficent estava ao lado dela. Eram duas forças de maldade e destruição, que jamais poderiam ser ignoradas ou subestimadas.
–Ela terá que vir, não é? – então, Goofy rosnou – Não a deixaremos sair daqui. Sora cuida da fonte e nós cuidamos da bruxa, não era esse o plano?
–Sim, mas... – Donald hesitou, mas o outro o cortou:
–Então é exatamente isso que iremos fazer!
O mago e o rei o encararam. E, então, acenaram afirmativamente com a cabeça.
–Vocês se lembram da última vez em que lutamos os três, lado a lado? – então, Donald sorriu – Então, o que acham de mostrar a esses caras um pouquinho da velha escola de combate de Disney Castle?
–É você quem diz, amigo – Mickey imitou o sorriso, colocando-se em posição de ataque – AGORA!
E então, os três saltaram na direção dos Heartless que, agora, atacavam lado a lado com os Nobodies. Quistis continuava brandindo seu chicote, varrendo para longe todos os que conseguia alcançar. Ela tentava abrir caminho entre eles, para que os outros pudessem se movimentar melhor, mas a quantidade de monstros aumentava, tornando essa tarefa cada vez mais difícil.
–É como se ela estivesse brincando conosco – rosnou ela para Leon que, ao seu lado, tentava dar cobertura à instrutora – Ela não manda toda a força que tem, apenas o suficiente para nos neutralizar e nos manter ocupados... o que diabos ela pretende?
–Eu não sei – respondeu ele – Mas estou me cansando desse joguinho estúpido. Você poderia tentar usar alguma das suas técnicas?
–Não... – ela disse – Eu acabaria acertando um dos nossos. Não tenho nada preciso o suficiente.
Leon rosnou baixo, irritado. A batalha estava confinada a um espaço muito pequeno. E ele tinha a sensação de que o pior ainda estava por vir.
A confirmação veio depois, através de Lulu.
–Essa sensação... não pode ser! – ela arregalou os olhos – Mas era... era uma lenda... não...
–Do que está falando? – perguntou ele – Que lenda é essa?
–Erinia tem reforços dentro do castelo – a voz de Lulu saiu sufocada – Reforços poderosos. Precisamos tomar cuidado!
–Que tipo de reforços? – ele insistiu.
Lulu não respondeu. Ela não podia. Se o fizesse, acabaria deixando-os ainda mais preocupados.
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Quando conseguiram voltar a enxergar, Sora e Riku se depararam com um imenso corredor.
Não havia tapeçarias, armaduras ou portas, como nos outros corredores. Havia apenas vitrais e espelhos nas paredes, alternados. Os vitrais mostravam os símbolos de Waterfall City, e traziam a luz da lua para o corredor. Eles pararam um instante, em frente a um dos espelhos. Aquela imagem era definitivamente deles, disso não havia dúvida. Mesmo assim, algo parecia errado.
Sora viu o olhar triste de Roxas em seu reflexo.
E Riku viu o olhar maldoso de Ansem no seu.
–Vamos seguir em frente – disse o segundo, sem suportar continuar encarando aquele olhar frio na sua direção – Esse lugar parece querer mexer com a nossa cabeça.
–Sim, claro... – murmurou Sora, lançando um último olhar ao reflexo – Precisamos seguir.
Havia apenas uma porta, grande, no final daquele corredor. Provavelmente, era ela que daria acesso ao topo da torre sul. Sora e Riku mantinham as Keyblades em posição. Algo naquele corredor era opressivo, como se o que os aguardava no final dele os estivesse tentando bloquear.
E a voz apareceu, mais uma vez.
“Chegará o dia em que essa batalha,
Nascida da confusão, irá terminar?
São diferentes coisas para diferentes pessoas.
A realidade pode ser aquela que está escondida?
A razão é mera existência.
Ainda, pode-se acreditar nas memórias.
Não tenha medo.
Confie seu corpo às gentis ondas das suas memórias.
Pouco a pouco, seu descanso passageiro irá terminar...
...e tudo irá começar.”
–E mais enigmas... – murmurou Riku – Que tipo de lembranças são essas?
–Não são as minhas lembranças, ou as suas – Sora olhava em volta – Acho que... de certa forma, devo acessar as lembranças do Seth. Mas ainda não explica a nossa ligação. Por que isso é tão importante?
–O que quer que seja, está do outro lado daquela porta – disse o primeiro.
Sora observou a porta, e engoliu em seco. Estava perto demais. E, de repente, queria ainda estar longe, muito longe, e atrasar aquele momento o máximo possível.
Então, em silêncio, os dois continuaram andando, até que uma outra voz os deteve.
–Quem está aí?
–Ah, qual é! – protestou Riku, preparando-se para atacar – Quem é você?
–Qualquer um que se disponha a invadir os domínios de Mestra Erinia terá a punição devida – a voz disse, outra vez – Afastem-se agora mesmo.
–Erinia não é mestra de coisa nenhuma aqui – rosnou Sora – Você quer nos punir? Ótimo, então mostre a sua cara primeiro!
Sora se arrependeu dessas palavras. No segundo seguinte, um dragão aparecia arrebentando um dos vitrais. Os dois mantiveram suas posições, mas estavam completamente tomados pelo pavor. Uma coisa era enfrentar pilhas de Heartless e Nobodies, mas um dragão? Aquilo já era um pouco demais. Era uma criatura imponente, sem dúvida. Escamas douradas, olhos esverdeados, uma presença que inspirava grandeza e força...
Mas ele não parecia mal. Pelo menos não para Sora.
–Eu sou Kohryu – disse o dragão, numa voz grave, enquanto pousava os olhos verdes neles – Sirvo à mestra Erinia, e tenho ordens para trucidar qualquer intruso que se aproxime do salão preparado.
–Eu sou Sora – ele disse, um plano se delineando em sua mente – Você não quer me destruir. Sua mestra precisa de mim para conseguir algo naquela sala.
–Ah, sim – ele o observou – Você é o mestre da Keyblade. Eu fui informado sobre isso.
–Sora, seu idiota, o que está fazendo? – sussurrou Riku, no auge do desespero, mas Sora o cortou, com um gesto que dizia “eu sei o que estou fazendo”.
–Seu amigo também tem uma Keyblade – disse Kohryu – Mas apenas um revelará a Fonte. Você passará, mas ele não.
–Ah, quer apostar que eu vou? – Riku apontou a Way to the Dawn ameaçadoramente na direção do dragão – Não me diga o que eu faço ou deixo de fazer!
–Cale-se! – Kohryu o golpeou com o rabo, lançando-o longe. Aquilo fez o sangue de Sora ferver. Ele fez menção de atacar, mas a voz de Riku o deteve:
–Não, Sora. Ainda não.
Ele ficou de pé. Os dois pararam em frente a Kohryu, encarando-o. Eles percebiam que havia algo estranho na postura da criatura. Algo... errado. Como se ele hesitasse e realmente não fizesse aquilo por querer. Sora teve a tentação de baixar os olhos, mas manteve-se encarando-o.
–Não vai tocar no meu amigo outra vez – ele disse, a voz sem emoção – E não vou hesitar em lutar com você por isso.
Kohryu os analisou um instante, antes de investir outra vez. Sora e Riku se esquivaram, indo em direções opostas, depois os dois, ao mesmo tempo, partiram para cima do dragão. Os dois eram muito rápidos, mas o outro também era, e conseguiu levantar vôo e escapar dos ataques. Então, ele atacou outra vez, com um movimento rápido das asas. Dessa vez, os dois foram derrubados.
–Ah, qual é! – protestou Riku, enquanto se levantava – Vai parar de brincar e lutar de verdade ou não?
Eles tentaram de novo. Dessa vez, a luta foi mais feroz. Kohryu golpeava-os com a cauda e as asas, e eles revidavam com as Keyblades. Mesmo assim, ele não parecia atacá-los com tudo o que tinha. A sensação de que ele estava apenas hesitando e ganhando tempo se tornava mais e mais forte. Por fim, Riku conseguiu saltar sobre ele, apontando a Way to the Dawn diretamente para o seu pescoço e dizendo:
–Agora vai nos dizer por que está se segurando contra nós?
O dragão ficou em silêncio por um instante. Sora manteve a posição de ataque. Ele sabia que Kohryu não o atacaria porque ainda precisava dele para revelar a Fonte. Mas, se ele fizesse qualquer coisa a Riku, a história seria bem diferente. Então, para sua surpresa, a voz dele suavizou.
–Entendo – ele disse, e de certa forma parecia sorrir – Então vocês leram a minha traição.
–Você não a serve por vontade própria, não é? – disse Sora – O que houve?
–Ela escravizou meu verdadeiro mestre – respondeu Kohryu – Meu mestre, e meu amigo. Jurei lealdade e obediência a ele até o fim. Então, por isso, devo obedecê-la também. Mas sei que ela é o próprio mal, um mal que ficou adormecido por séculos... não sei como ela despertou, mas a primeira coisa que ela fez foi reclamar para si outra vez o controle sobre nós. E não posso desobedecê-la, ou ela poderá destruir meu mestre...
Sora e Riku se encararam. Agora tudo fazia sentido.
–Há outros como você por aqui? – perguntou Riku – E o seu mestre, onde está?
–Há outros pelo castelo – respondeu ele – Quanto ao meu mestre, provavelmente está com ela. Ela o leva para todos os lugares, quase como um cão de guarda. Isso é muito humilhante...
–Espero que você entenda que viemos aqui exatamente para acabar com ela – disse Sora, com uma expressão decidida – Se isso acontecer, vocês estarão livres. Ajude-nos, por favor.
–Sinto muito, jovem senhor mestre da Keyblade – respondeu ele – Vocês não têm chance alguma contra ela. E já fui escravo por tempo suficiente para não cultivar mais esperanças infundadas.
–Bom, é com essa “esperança infundada” que todos lá fora estão contando – retrucou ele – E, se quer saber... essa esperança é a única coisa à qual podemos nos agarrar agora.
O olhar de Kohryu era de pura incredulidade. Não era possível. Duas crianças se levantando contra Erinia? Eles não tinham chance alguma, por mais corajosos que fossem. Mas, por alguma razão absurda, de repente ele acreditava naquelas duas crianças! De repente... a esperança em dias livres não parecia mais tão infundada assim.
–Eu devo estar ficando louco... – então, ele deu uma risadinha – Mestre da Keyblade, você realmente acredita que pode pôr fim a um império de medo iniciado há centenas de anos?
–Foi para isso que eu vim – ele respondeu.
–A essa altura das coisas, já não tenho mais nada a perder – Kohryu os encarou – E quero ver meu mestre livre, de qualquer forma. Vocês podem passar. Acho que está na hora de alguém lembrar o lado certo para um dragão lutar.
Riku e Sora se encararam, surpresos. Seria tão fácil assim?
–Outros virão, se eu falhar em destruí-los – ele continuou – E sei que alguns de nós se sentem muito confortáveis servindo a Erinia. Não poderei ajudá-los, uma vez que passem essa porta. Mas... ninguém depois de vocês passará, também.
–Muito obrigado – disse Sora – Vamos vencer essa batalha.
–Assim espero, rapaz – o dragão acenou com a cabeça – Agora vão. Vocês têm pouco tempo.
Os dois garotos trocaram um olhar rápido, e depois seguiram em silêncio na direção da porta, caminhando rápido até pararem em frente a ela. Sora continuava lutando para manter toda a hesitação o mais afastada possível. Riku, porém, estava ao lado dele, encarando-o com um olhar determinado.
–Todos lá fora estão contando conosco, não estão? – murmurou Sora – Todos esperam que salvemos o dia outra vez.
–Sim – respondeu Riku – E estão todos lutando, também. Estamos juntos.
–Riku, espero que esteja consciente dos riscos – o primeiro começou a dizer, lentamente – Esta pode ser mesmo a nossa última batalha. Está preparado para isso?
–Depende – o outro – Se, para você, estar preparado é não ter medo, então eu não estou mesmo, porque estou completamente apavorado. Mas... se estar preparado é estar disposto a encarar qualquer coisa independente dos riscos ou do medo... – então, ele o encarou – ...pode apostar que eu estou pronto para o que vier.
Sora assentiu com a cabeça. A batalha que os aguardava seria árdua e muito perigosa.
–Ótimo – ele estalou os dedos, respirando fundo e reunindo em si toda a coragem que possuía, sem desviar os olhos da porta – Um outro mundo nos aguarda, agora.
Então, ele empurrou a porta. Havia um último lance de escadas além dela, que os dois subiram com passos rápidos. Ele levava a uma última porta. E além dela, havia uma plataforma cercada de espelhos, com um teto abobadado de vidro. O topo da torre, exatamente como nas lembranças de Seth.
Mas havia ali algo que eles não esperavam...
–Oh, olá, meus jovens convidados – aquela voz... aquela voz falsamente gentil e tão gelada que parecia querer congelar seus corpos... aquela voz terrivelmente familiar... – Eu estava esperando por vocês.
Os dois sentiram-se estremecer. Definitivamente, não esperavam que aquele confronto viesse tão cedo.
Era Erinia. E, naquele momento, ela estava parada de pé, no meio da plataforma, com um sorriso maldoso nos lábios.
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