Kingdom Hearts: Motherland
18 Nas asas da esperança
–Ora, por que tanta surpresa? – Erinia exibia um sorriso imenso, enquanto Sora e Riku sentiam-se empalidecer – Você não pensou realmente que eu não estaria aqui para me garantir pessoalmente de que você revelaria a Fonte para mim, não é?
Ela tinha uma lança longa, vermelha e prateada. Sora podia ver a própria imagem em todos os espelhos. Daquela forma, não poderia atacar. Qualquer ataque, em qualquer lugar, seria visto por ela. E também não teria tempo de selar a Fonte. Era uma batalha muito injusta. Mesmo assim, não tinha escolha: teria que derrotá-la, de alguma forma, e ainda ter forças suficientes para selar a Fonte depois disso. Com um gesto, invocou a Mother’s Promise e preparou-se para atacar.
–Quem diria que as gentis sacerdotisas do Templo de Shiva voltariam a usar seus talentos para fabricar uma arma contra mim – disse Erinia – Isso é inútil, rapaz. Revele a Fonte de uma vez, e poupe a si mesmo de mais dor.
–Ah, claro – ele disse, tentando imprimir cinismo à voz fraca – E depois você usa esse poder e cria um universo à sua imagem e semelhança. Sim, realmente precisamos de mais escuridão no mundo.
–Vejo que todos trabalham rápido para denegrir a minha imagem – murmurou a feiticeira – Eu quero recriar esse universo de dor, sim. Quero libertar essas pobres almas. Sim... realmente será um universo de escuridão. Mas a escuridão por si só não é libertadora?
–Eu vou ter que discordar disso, madame – disse Riku, também preparando a Way to the Dawn para o ataque – Já estive lá por tempo suficiente para saber que não tem nada de libertador.
–Ah, sim... Riku, o jovem cavaleiro que luta ao lado do mestre da Keyblade – ela abriu um sorriso maldoso – Você é forte e destemido... sem dúvida faria uma excelente adição às minhas fileiras. Eu só preciso alcançar a cicatriz que a escuridão deixou em seu coração e abri-la outra vez...
–Não se atreva a falar disso outra vez, maldita – ele sibilou – Ou acabo com você. Eu juro.
–Não, você não fará nada – ela riu – Agora, Sora... revele a Fonte.
–De jeito nenhum! – ele respondeu, raivoso – Não para alguém como você!
–Isso não é um pedido – o sorriso dela permaneceu – É uma ordem. E você irá me obedecer! Senão, tenho um contingente enorme de Heartless apenas esperando pela minha ordem para varrer da existência todo e qualquer mundo que se opuser a mim. Claro, eu esperava já ter a Fonte em mãos para fazer isso, mas já que você prefere negociar...
“Isso é... um pesadelo...” Sora sentiu o ar lhe fugir dos pulmões por um instante. O que iria fazer, agora? Se revelasse a Fonte, ela a obteria de uma vez, e tudo estaria perdido. Se não obedecesse, porém, ele também seria o responsável pela destruição de tudo o que amava. Tudo. Iria perder tudo, independente do que escolhesse.
Aquela luta já estava perdida desde o começo? E eles apenas tinham sido ingênuos em não ver?
–SORA, NÃO RESPONDA! – então, a voz de Riku o chamou de volta à realidade, antes que ele cedesse completamente ao desespero – ELA ESTÁ BLEFANDO!
–Blefando? Eu? – e então, ela deu uma risada alta – Certo, menino cético. Você nem sequer deveria estar aqui. Por que não vai lá para baixo ser um bom menino e morrer junto com seus amigos na luta estúpida que eles insistem em levar adiante contra mim?
–Até parece – ele respondeu, entredentes – Nenhum de nós tem planos de morrer essa noite.
–Está bem, então, se você quer do jeito mais difícil... acho que posso lhe mostrar algo interessante.
Os dois engoliram em seco, imaginando como poderia ficar pior.
–A esta hora, meus servos devem estar lidando com os outros de dentro do castelo – ela disse – E, em breve, minha parceira Maleficent irá cuidar de todos os tolos lá fora. Então, para compensar o seu esforço em chegar até aqui, irei trazer uma das minhas armas mais poderosas para lhe dar um fim suficientemente digno... – então, fincou a lança no chão, e olhando para cima, bradou – VENHA ATÉ MIM, BAHAMUT, O GRANDE REI DOS DRAGÕES!
Então, arrebentando completamente a abóbada de vidro, surgiu a criatura mais imponente e assustadora que os dois já viram. Bahamut era muito maior que Kohryu. Coberto por escamas negras e reluzentes como ônix, e com olhos vermelhos sanguinários, ele sacudia as asas ameaçadoramente na direção deles. Não havia como cuidar dele e de Erinia ao mesmo tempo.
–Sora, eu cuido dele – disse Riku – Cuide da bruxa, está bem?
Não havia muito o que fazer quanto a isso. Os dois estavam numa desvantagem gigantesca. Mas, por alguma razão, Sora sentia-se mais ameaçado. Talvez eles conseguissem convencer Bahamut a não atacá-los, como fizeram com Kohryu. Mas havia algo que fizesse com que ela desistisse de atacar?
Então, surgiu a oportunidade. Era àquele momento que Lulu se referia.
Ele bateu a Keyblade no chão, murmurando um encantamento que a Tsukihana havia ensinado. Imediatamente, a partir daquele ponto, uma cúpula dourada surgiu e começou a se expandir, até atingir um certo tamanho que isolasse Erinia e ele do resto. Riku percebeu, incrédulo, e disse:
–Ficou louco? E se você precisar de ajuda?
–Não posso deixar você se envolver nessa luta – ele disse, a voz indefinível – Preciso terminar isso sozinho. Cuide do dragão, enquanto eu termino o que tenho que fazer.
–Mas... – a voz de Riku foi morrendo – E se... e se... – então, ele começou a gritar – Não pode me deixar de fora! E se algo te acontecer? Não posso ficar para trás outra vez! Não posso...
–Até mais, Riku – ele o cortou. Riku leu aquele olhar, e sentiu o chão sumir sob seus pés.
Sora sabia como aquilo ia terminar. E estava deixando tudo nas mãos dele.
–Muito sábio da sua parte manter Riku fora do nosso pequeno interlúdio – disse Erinia – Mas saiba que isso não vai salvá-lo. Não subestime Bahamut como um dos monstros que vocês enfrentam.
–É melhor você também não subestimar o meu amigo – retrucou Sora – Ele vai se sair bem.
Riku, agora, estava completamente separado do outro lado da cúpula. Ele sabia que aquilo ia terminar mal, droga! Desde o começo, ele sabia que as chances dos dois eram mínimas. E, agora, Sora estava sozinho, enfrentando-a. Era terrível.
–Seu oponente sou eu – disse Bahamut, numa voz grave e assustadora – Será rápido, eu prometo.
–De jeito nenhum! – sibilou Riku. Bahamut, então, começou a atacá-lo, investindo contra ele com a cauda e as asas. Riku só conseguia se esquivar, sem encontrar nenhuma brecha para um contra-ataque. De vez em quando, ele também lançava chamas na direção dele.
Enquanto isso, a luta entre Erinia e Sora também seguia. A feiticeira era inacreditavelmente ágil e forte, e manejava sua lança com uma destreza incomum. Sora tentava atacá-la com a Keyblade, mas ora ela esquivava, ora bloqueava seus ataques. Mesmo seus melhores golpes nem sequer a atingiam. Ela, porém, não parecia disposta a feri-lo. Pelo contrário, até agora não o havia atacado nenhuma vez.
–Quando vai parar de brincar e lutar a sério? – rosnou ele, por fim.
–Lutar a sério? Oras, me poupe! – ela riu – Você é meu pequeno sacrifício, Sora. Preciso de você vivo e inteiro para revelar a Fonte. E, depois disso, tenha a certeza de que serei piedosa o bastante para eliminá-lo antes da destruição completa de toda essa resistência inútil, assim você não precisará lamentar a perda dos seus amigos tolos.
–Não me trate como uma ferramenta – grunhiu Sora, sem saber o motivo pelo qual essa última constatação o deixou tão nervoso – Não vou revelar essa Fonte coisa nenhuma.
–Então pelo visto terei que convencê-lo – ela riu outra vez – Sabe, Sora, na verdade eu não preciso exatamente que você queira revelar a Fonte. Eu só preciso do seu coração, e ele me dará o controle da Keyblade. E você já deve saber que sou especialista em tomar corações...
–Não vai pegar meu coração – foi a vez de Sora abrir um sorriso feroz – E vai se arrepender se tentar.
–Tolo – o sorriso dela desapareceu – Por que vocês, mestres da Keyblade, sempre escolhem o caminho mais doloroso para seguir...? Enfim, se esse é o seu desejo, é o que farei. Lutaremos a sério, então.
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No exterior do castelo, a batalha se intensificava.
Yuna já não podia mais ficar no ar, e foi obrigada a pousar e dispensar Valefor. Logo em seguida, ela e Cloud se separaram, ambos engolidos pela batalha. Pelo visto, teria que abrir caminho por terra. E já sabia exatamente quem chamar para isso...
–Agora é a sua vez... venha me ajudar, Ixion!
Em seguida, surgiu um unicórnio cujo chifre dourado era envolto por raios elétricos. Ela o montou, e começou a correr por aquele espaço, abrindo trilhas entre os Heartless e Nobodies. Aquilo já era uma ajuda, e dava aos outros mais espaço para lutar. Mesmo assim, não era o suficiente. Eles precisavam de velocidade, precisavam de algo que pudesse andar rápido e abrir caminho.
Então, uma solução inesperada surgiu.
Ao longe, puderam ser ouvidos assobios familiares e excitados. A primeira a se virar na direção do som foi Lulu, murmurando:
–Essa não, ele não... – então, ela viu alguns vultos grandes e amarelos correndo na direção deles – Era só o que faltava, mesmo! O que ele pensa que está fazendo?
Então, os vultos foram se aproximando e tomando forma, até que finalmente todos puderam enxergá-los. Eram chocobos amarelos, completamente paramentados para combate. Havia alguns rapazes montados neles, todos parecendo jovens e usando uniformes da Central de Comunicações. E, à frente deles, estava Zell, com um olhar feroz.
–O que está fazendo aqui, Dincht? – disse Lulu, irada – É perigoso demais, volte agora mesmo!
–Viemos ajudar, é claro! – ele disse – E não vamos embora.
Ela não tinha paciência nem tempo para discutir. Tudo o que pôde fazer foi dizer:
–Fique fora do caminho e, em nome de Shiva, não faça nada estúpido! Yuna precisa de ajuda, tentem abrir caminho em meio a esses monstros.
No segundo seguinte, os chocobos partiram entre eles. A presença das aves era imponente o bastante, e eles eram realmente rápidos e ferozes. Podiam não ser tão habilidosos ou experientes em batalha quanto os outros, mas eram inegavelmente úteis. Além do mais, o reforço inesperado deu novo ânimo a todos.
O ânimo, porém, durou pouco.
De repente, em meio a uma névoa esverdeada, surgiu exatamente a última pessoa que todos eles queriam encontrar ali.
Maleficent.
Por um instante, todos congelaram em suas posições. Assim que apareceu, ela lançou um olhar de desprezo ao redor. Até mesmo os Heartless pareceram parar de se mover na presença dela. Com ela ali em pessoa, significava que as coisas realmente haviam atingido um ponto crítico. Por alguns instantes, tudo ficou estático, mudo, como se até mesmo o ar tivesse parado. Por fim, ela disse:
–Então terei que lidar com um contratempo tão patético quanto esse. E, nesse lugar amaldiçoado, não posso invocar Heartless. Mas isso não será problema. Posso cuidar disso eu mesma.
E então, a rajada de feitiços começou.
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No castelo, a luta contra o dragão negro continuava. Rikku e Kairi observavam Leene de relance, ansiosa. O que quer que a loura estivesse planejando, era melhor começar, e rápido.
–Ei, coisa feia, olha pra mim! – então, ela começou, saltitando na frente dele para provocá-lo – Olhe aqui, venha me pegar!
–Você é idiota ou o quê? – grasnou Kairi, ao ver o dragão avançando ameaçadoramente para ela. Leene, porém, não parecia ter intenção nenhuma de parar:
–Como é ser o cãozinho de estimação da bruxa velha, hein? Deve ser humilhante, não é? Todo o orgulho dos dragões jogado fora dessa forma...
–Há! Como se eu ligasse! – para surpresa dela, porém, o dragão riu com desprezo – Ela me deixa fazer o que eu quiser. E, agora, eu quero muito trucidar algumas humanas idiotas. Aliás, só para que vocês saibam... meu nome é Hyne, e no momento estou muito feliz com a minha condição atual.
–Então por que não tenta, bicho feio? – rosnou Rikku.
–Então, não importa quem te coloque uma coleira, contanto que você possa causar tanto caos quanto quiser, é isso? – sibilou Leene, irada – Isso é ridículo e humilhante! Você é o único dragão daqui?
–É claro que não – ele respondeu – Há outros, só esperando pelas ordens de Erinia. A essa hora, seus amiguinhos idiotas já devem ter servido de lanche para o Kohryu... nah, não para aquele idiota de coração mole metido a moralista. Agora o Bahamut, por outro lado, jamais deixaria a chance passar.
Nesse momento, Leene abriu um sorrisinho.
–Estranho... – ela começou a dizer – Sim, Bahamut é o grande rei dos dragões, e é natural que Erinia tenha transformado-o no poodle de estimação dela. Agora você acabou de dizer que o Kohryu é um moralista. Não seria melhor você vigiando a porta da torre, ao invés dele?
–Se está tentando me manipular, perdeu seu tempo – respondeu Hyne – Eu não dou a mínima para quem vencer essa luta... contanto que eu possa fazer o que quiser durante ela.
–E te deixaram logo dentro do castelo, com três míseras garotas – ela continuou – Sendo que lá fora tem um monte de gente. Garanto que seria bem mais divertido lá.
–JÁ DISSE PARA PARAR COM ESSAS BOBAGENS! – ele urrou, investindo contra elas outra vez.
Agora, tudo o que as três podiam fazer era tentar se esquivar dos golpes cada vez mais rápidos e mais freqüentes do dragão. Não havia brechas para o contra-ataque, a criatura era um verdadeiro tanque de guerra. Em questão de minutos, o salão estava em ruínas, e elas estavam entrincheiradas atrás de uma pilha de escombros.
–Se alguém tiver alguma idéia milagrosa, essa é a hora de dizer – disse Rikku.
–Como será que os garotos estão? – murmurou Kairi, acabrunhada – Eles devem estar lutando lá em cima com tudo o que têm... e nós aqui, inúteis, contra esse dragão. Não é justo.
–Mas o que mais podemos fazer? – o tom de Rikku era desanimado – Estamos dando tudo ali e mesmo assim não conseguimos nem arranhá-lo. Não... não acho que há muito mais o que fazer...
Leene não dizia nada. Seus olhos estavam fixos no chão. Ela queria vencer. Ela queria terminar logo aquilo e correr até Riku e Sora para ajudá-los, mas... se não conseguia passar pelo dragão, não conseguiria nem mesmo chegar perto de Erinia.
Foi então que ela mesma se decidiu. Levantou-se, e disse:
–Você está certa, Kairi – seu punho estava cerrado em volta do punho da adaga – Os garotos estão lá, dando o melhor de si. E precisam de nós. Então – ela girou as adagas, preparando-as para o ataque – não iremos ficar aqui esperando tudo acontecer.
–Mas como vamos enfrentar aquela coisa? – Kairi não estava nem um pouco convencida – Já tentamos todas as armas e feitiços que sabíamos...
–Então teremos que ser criativas – a outra abriu um sorriso de desafio – Mas não vamos perder para ele. Não podemos perder. Os garotos estão contando conosco.
–É hora de uma formação – ela disse – Se atacarmos juntas, ele nem vai saber o que o atingiu.
–Ei... – então, Kairi invocou a Moonbeam, e também ficou de pé – Eu tenho uma idéia. Mas só teremos uma chance, então não podemos errar – sua mão estava firmemente fechada ao redor do punho da Keyblade, enquanto os olhos mantinham-se fixos no dragão – Venham. Vamos terminar isso.
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E Maleficent continuou atacando o exterior do castelo. Era quase impossível dividir as atenções entre ela e o exército de Heartless e Nobodies que continuava tentando atravessar a proteção do castelo. Yuna continuava conduzindo Valefor através do campo de batalha, abrindo caminho e tentando criar espaço para os outros lutarem. Enquanto isso, Zell e os outros garotos da Central de Comunicações vinham montados em seu chocobos, também tentando abrir caminho e acertando tudo o que estivesse pela frente.
Mas, pouco a pouco, todos foram começando a perceber que aquela era uma luta em vão.
A exaustão já começava a tomar conta deles. O ataque era intenso e constante, por todas as frentes. A própria Maleficent disparava seus feitiços pelo caminho. Os outros tentavam revidar e bloquear os ataques dela, mas não conseguiam pará-la.
E, mais uma vez, Leon estava encolhido contra uma pilastra. Exatamente como em Twilight Town. Suas mãos tremiam pelo cansaço. Apoiado sobre sua Gunblade cravada no chão, sua memória percorria aquele dia terrível... a luz do pôr-do-sol derramando-se como sangue sobre as ruínas da cidade... as pyreflies... e entre elas...
Não. Se pensasse nisso, não conseguiria se levantar.
Suas costas doíam, e ele podia sentir a camisa grudando em sua pele por causa do sangue. Provavelmente, seus movimentos não seriam mais tão rápidos. Resumindo, havia se tornado inútil...
–Ei, pegue isso – então, alguém atirou uma garrafa de poção na sua direção – Vai se sentir melhor.
–Cloud? – ele murmurou, surpreso – Está tudo bem?
–Tão bem quanto possível – ele disse, sarcástico. Depois, ficou em silêncio por um instante, antes de dizer, com a voz sem emoção – As coisas estão feias para nós.
–Eu sei... – respondeu o outro – Mas não temos muita escolha, a essa altura. Precisamos... – ele tentou se levantar, mas se desequilibrou e caiu apoiado sobre a Gunblade de novo – ...precisamos continuar.
–Você está ferido, Leon – respondeu Cloud – Se voltar para lá, só vai se ferir mais. Fique aqui.
–Eu não posso ficar aqui – retorquiu o outro – E estou bem o bastante para continuar lutando.
–Não seja teimoso – o primeiro rebateu – Se tentar lutar assim, estará acabado em pouco tempo.
–Tanto faz – ele deu de ombros – Não é da sua conta.
Ele rasgou um pedaço da camisa que não estava manchado de sangue, embebeu-o em poção e improvisou um curativo sobre o ferimento nas costas. A poção ardia como lava sobre o ferimento, mas ele podia sentir o sangramento diminuir aos poucos. Aquilo teria que ser o suficiente até o fim daquela noite. Se, depois de tudo, desmoronasse em algum lugar e não fosse mais capaz nem de ficar de pé, não fazia diferença. Mas, até aquela batalha terminar, precisava se manter firme.
Tentou se levantar, mais uma vez. Dessa vez, aparentemente, a poção havia ajudado. Seus passos pareciam mais firmes e seguros. Talvez, com aquilo, ficaria inteiro por mais algumas horas. Ele podia sentir o olhar de desaprovação de Cloud, mas não havia nada que pudesse fazer em relação a isso. Não tinha escolha além de se levantar e...
Mas não se levantou.
Seus joelhos perderam a força de uma vez, lançando-o ao chão. Seu corpo não o obedecia. As mãos apoiadas no chão, a cabeça baixa, a chuva caindo em sua cabeça, escorrendo entre seus cabelos... ele sabia que aquela era uma imagem deprimente, sem dúvida. Deprimente e humilhante. Então era isso? Ele era mesmo tão fraco assim?
–Fique e descanse, eu já disse – para sua surpresa, não havia pena ou acusação na voz de Cloud, que estava simplesmente suave e neutra – Vai acabar se matando se insistir nisso.
–Vamos ser realistas, todos vamos acabar nos matando aqui – ele respondeu, a cabeça ainda baixa – Só estou tentando fazer valer a pena.
–Então isso é uma tentativa deliberada de suicídio – não foi uma pergunta – Você é mesmo um imbecil.
–Não é nada disso – sibilou o outro – É que... não posso deixar de lutar. Não agora.
Cloud o encarou. Talvez ele entendesse o outro bem até demais.
–E... – nesse momento, a voz de Leon ficou mais baixa. Ele apertou os olhos, lutando contra aquelas palavras – Eu sei que provavelmente não vamos vencer essa batalha. Mas... se eu não continuar... depois do que aconteceu em Twilight Town... – e então, a voz dele ficou sufocada e repleta de uma dor profunda – ...como vou poder encarar todos, do outro lado?
Então era isso. Ele queria ficar de pé até o último segundo. Cloud não podia culpá-lo.
Se aquela era mesmo uma batalha perdida... então eles cairiam, também. Mas cairiam lutando.
Foi por isso que Cloud estendeu a mão a Leon. A princípio, ele ficou surpreso, mas depois apoiou-se na mão do outro e se levantou. Depois, usou o resto da poção para curar as feridas mais profundas, antes de encarar o outro e perguntar:
–Por que está fazendo isso?
–Também tenho pessoas a quem devo satisfações, do outro lado – respondeu ele – Então, considerando que provavelmente vamos todos encontrá-las lá hoje, acho que é melhor também fazer valer a pena.
Leon acenou afirmativamente com a cabeça. Ainda andava lentamente, mas já se sentia um pouco melhor por causa da poção. E os dois caminharam de volta para o foco da batalha. Quistis estava lá, tentando ainda abrir caminho e lançando feitiços de proteção em todos. Assim que a viu, perguntou:
–Instrutora, você tem algum feitiço para nos deixar mais fortes, mesmo que apenas por uns instantes?
–Mais fortes, não – ela respondeu, enquanto afastava alguns Heartless com o chicote – O máximo que posso fazer é torná-los mais rápidos.
–Vai ter que servir... – murmurou Cloud – Pode nos lançar esse feitiço? Alguém vai ter que encarar Maleficent de uma vez.
–Vocês ficaram loucos? – ela disse – E se...
–Não temos tempo para isso – Leon a cortou – Por favor, nos ajude.
–Droga, está bem – ela disse, encarando-os reprovadora – Tentem não fazer nada estúpido... HASTE!
Imediatamente, uma onda de energia formigante percorreu os corpos dos dois. Seus movimentos, de repente, ficaram muito acelerados, como se estivessem em fast-forward. Os dois trocaram um olhar fugaz, antes de correr na direção de Maleficent e atacá-la frontalmente. A feiticeira tentava bloquear os ataques com o seu cajado, ao mesmo tempo em que contra-atacava com feitiços. Eles conseguiam acertá-la, mas ainda assim não era o suficiente.
–Vocês tolos acham mesmo que um pouco mais de velocidade será o suficiente contra mim? – ela dizia, com uma risada de deboche. Os dois engoliam em seco, enquanto insistiam nos ataques. Os ferimentos de ambos, porém, já começavam a dificultar as coisas.
Nessa hora, Tifa e Yuffie perceberam o que os dois estavam fazendo, e correram para ajudá-los. Leon, porém, ao perceber isso, gritou:
–Vocês fiquem aí mesmo! – e, com um rosnado – Essa luta é nossa.
Tifa os encarou como se os dois fossem retardados mentais. Afinal de contas, o que eles pretendiam, enfrentando Maleficent sozinhos? Mas havia algo no olhar dele, uma chama, que as impediu de insistir. Em vez disso, elas voltaram a concentrar seus esforços contra os Heartless. Cloud ficou aliviado ao perceber isso. “Ótimo, duas a menos para se machucar aqui”, ele pensou.
–Isso termina agora – disse Maleficent, por fim, os olhos frios encarando os dois. Nesse momento, ela começou a se transfigurar, até se tornar um enorme dragão negro de olhos verdes cruéis, que os observava cheio de ódio.
Os dois estavam parados na frente dele, encarando-o. Isso tornava tudo mais difícil.
–Última chance de fugir, Strife – sussurrou Leon, com um sorrisinho de deboche – Aproveite.
–Aproveite-a você, Squall – ele devolveu – Porque eu não vou a lugar algum.
–Um feitiço Haste não dura muito tempo – disse o primeiro – Terá que ser um ataque único, preciso e devastador. Você tem algo nessa categoria?
–Pode apostar que eu tenho – o outro respondeu – Então... vamos.
Então, os dois voltaram a correr na direção dela, lado a lado. Naqueles segundos, não havia dor, não havia chuva, não havia nada. Havia apenas os dois de um lado, e Maleficent do outro. E suas armas estavam preparadas, a Buster Sword de um lado e a Gunblade do outro. Apenas uma chance... uma chance que tinha que ser aproveitada...
E então, ao mesmo tempo...
–RENZOKUKEN!
–OMNISLASH!
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No topo da torre sul, a luta também seguia, intensa.
Se antes Erinia era uma oponente difícil, agora ela era muito pior. Sora não conseguia uma brecha para contra-atacar, e apenas defendia-se como podia. Enquanto isso, Riku também enfrentava Bahamut, sem muito sucesso.
–Vê? É inútil! – ela disse – Por que não evita mais dor? Apenas revele a Fonte para mim, será tudo mais fácil assim!
–Você não disse que precisa apenas do meu coração para isso? – desafiou Sora – Então venha pegar!
–Sim... mestres da Keyblade são mesmo admiráveis – ela riu – Mesmo em toda a sua tolice, sua determinação e coragem são imensas. Para vocês, o sacrifício é algo natural, não é? A idéia de abrir mão da própria existência em nome da existência de outros é tão fácil de aceitar...
–Poupe-me dos joguinhos, sua bruxa – ele rosnou, preparando-se para atacar.
–Seria fácil demais matá-lo – murmurou ela – Fácil demais... sem falar que revelar a Fonte por mim mesma, mesmo com o seu coração, seria um trabalho e tanto. Não... farei diferente.
Então, ela se virou na direção de Bahamut, e disse:
–Sim, essa barreira é mesmo problemática, mas não será um empecilho tão grande. Bahamut! – o dragão se virou na direção dela, à menção do seu nome – Pelo visto o jovem Sora precisa de algo mais persuasivo para nos ajudar. Então, talvez ajudaria se você colocasse um fim ao sofrimento do jovem Riku, que tal?
–NÃO! – urrou Sora, correndo na direção dele. Por um momento, ele se esqueceu da barreira, atingindo-a em cheio e caindo de costas no chão. Erinia não fez nenhum movimento, e ficou apenas observando-o, de longe.
–Ah, pode tentar, lagartixa! – Riku tentava disfarçar o medo atrás de um sorriso de deboche.
A batalha entre eles recomeçou. Sora, então, arrependeu-se amargamente de ter conjurado aquela barreira. Ele precisava fazer alguma coisa, e rápido. Riku lutava com tudo o que tinha, mas Bahamut também ia se tornando mais e mais incisivo, avançando sobre ele cada vez mais rápido, até que...
–AAAAAAAHHHHHHHHHH! – ele derrubou Riku, pisando nele com força e impedindo seus movimentos. Os olhos de Sora estavam arregalados de pavor ante aquela cena – SAIA DE CIMA DE MIM, SACO DE ESCAMAS! SAIA AGORA MESMO!
Por um momento, o olhar dele e de Sora se encontraram. Riku estava tão apavorado quanto ele.
–Bem, acho que agora podemos conversar – Erinia finalmente se manifestou – Não será difícil para meu leal servo esmagar o seu amigo. Vê? Só mais um pouco de força, e Riku já sufocará até a morte. Não seria um fim cruel para ele, a essa hora?
–Não a escute, Sora! – ofegou Riku – Eu vou ficar bem... eu prometo...
–Eu não estaria tão certa disso... – a risada dela soou outra vez, gelada – Mas você entende o peso dessa decisão, não é? Precisa sacrificar um em nome de muitos, não é? Mesmo assim... – ela riu mais alto – Vai ser interessante ver o Mestre da Keyblade escolhendo entre trair a si mesmo e ao melhor amigo, ou trair a todos os mundos...
Ele não conseguiu nem se lembrar de respirar. Aquilo era demais para ele. Não podia tomar aquela decisão.
–Sora, tá tudo bem – a voz de Riku era mais ofegante – O que quer que aconteça, não a deixe colocar as mãos na Fonte!
–Não, Riku! – ele disse, quase sem voz – Eu vou... eu vou pensar em alguma coisa...
–Então é melhor pensar rápido, querido – disse a bruxa – Riku pode ser forte, mas quanto tempo mais ele será capaz de aguentar?
Então era isso.
Riku sabia como a mente do amigo funcionava. E, se seus cálculos estivessem corretos, ele tomaria a decisão mais estúpida possível, numa situação como aquela.
–Me escute, seu idiota – ele disse, lutando para respirar – Você precisa... proteger a Fonte... não importa o que aconteça... comigo...
–Não! – urrou Sora, sentindo a cabeça explodir em desespero – Eu vou pensar em alguma coisa!
–Leene vai ficar com raiva de mim... – então, Riku abriu um sorriso amargo, enquanto sentia a cabeça girar pela falta de ar – Acho que... não vou poder cumprir a promessa que fiz a ela...
Sora sentiu uma lágrima correndo pelo seu rosto, enquanto tomava consciência da situação.
Era daquele momento que sua visão se tratava. Daquela traição.
Por um segundo, ele ficou em silêncio. E, então, tomou sua decisão.
–Me perdoe, Riku... – ele murmurou – Me perdoe...
–Tá tudo bem, Sora – ele respondeu – Serei eu ou o resto do universo. Vá lá, não é uma escolha tão difícil assim. Só quero que me faça um favor... – e, então, forçou outro sorriso, enquanto lutava para conseguir respirar – Por favor... peça desculpas à Leene por mim.
E, então, Riku fechou os olhos, e parou de resistir. Estava tudo bem. Sora estava tomando a atitude certa.
Ou pelo menos... era o que ele pensava.
Porque, para seu choque, ele ouviu os passos do amigo caminhando na direção do centro do salão, e apontando a Keyblade para o chão. De repente, a fúria tomou conta dele. Que tipo de idiota era Sora, afinal? Ele tinha consciência do que estava fazendo? Ele tinha consciência do que estava jogando fora... por ele?
–Me perdoe, Riku – murmurou ele, enquanto apontava a Mother’s Promise para o chão – Não posso suportar vê-lo morrer aqui.
“SORA! O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?”, então ele ouviu a voz de Seth em sua cabeça, mas tentou ignorá-la, enquanto caminhava pelo salão e tentava imaginar qual seria o ponto preciso onde o portal para a Fonte estaria escondido. A voz, porém, continuou berrando. “QUAL É O SEU PROBLEMA? VAI MESMO ENTREGAR A FONTE A ELA, DEPOIS DE TUDO? DEPOIS DO QUE ELA FEZ A TWILIGHT TOWN?”
“E o que você espera que eu faça?”, ele respondeu. “Quer que eu o deixe morrer?”
“Eu não disse isso”, respondeu Seth. “Mas... tem que haver outro jeito.”
“Você ainda não entendeu, não é?”, disse Sora. “É com esse outro jeito que estou contando”.
Então, Sora cravou a Keyblade no chão. Um clarão intenso os envolveu, enquanto do chão surgia um portal enorme e prateado. Aquela visão fez com que Riku retomasse o controle. Pasmo, ele observava o portal surgindo, ao mesmo tempo que sentia uma onda de energia absurda emanando dali. Quando terminou, ele pôde enxergar, através do portal, o que parecia ser um salão escuro com uma passagem de vidro, como o Claustro de Testes. Ao contrário dos vitrais, porém, ele podia enxergar ao longe o que parecia ser um imenso fontanário entalhado delicadamente em cristal puro.
Aquela era a coisa mais bela que ele já havia visto. Mais bela... e mais terrível.
Algo que ultrapassava a dimensão de tudo o que eles pensavam existir.
A Fonte das Eras.
–Finalmente... – sussurrou Erinia, observando. Um som suave e límpido de água tamborilando nos cristais se sobrepunha ao som da chuva – A Fonte... será minha...
“Não...”, um murmúrio morreu nos lábios de Riku. “Não... depois de tudo...”
–E quem disse que isso fazia parte do acordo? – então, para surpresa dele, Sora abriu um sorriso de desafio – Eu precisava revelar a Fonte para poder selá-la de uma vez por todas. E vou fazer isso antes que você chegue perto dela.
–Com quem acha que está lidando, moleque? – sibilou ela – Agora não preciso mais de você. E quero vê-lo tentar me impedir.
Mas Sora não respondeu. Em vez disso, lançou um último olhar dentro do portal.
A Fonte era mesmo muito linda. E, agora, ficaria em segurança para sempre.
Então, com um movimento rápido, apontou a Keyblade para o centro do portal. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, porém, Erinia atacou-o, fazendo-o ter que se esquivar. Ela se aproximou perigosamente do portal, apontando a lança para a Fonte. Nesse momento, uma névoa prateada começou a envolvê-la, a partir da lança, mas Sora conseguiu afastá-la antes que conseguisse drenar mais energia.
Aquilo deu novo ânimo a Riku, que começou a se debater com mais e mais força para se libertar das garras de Bahamut. Ele observava, de relance, a luta entre Sora e Erinia se tornar mais e mais violenta, enquanto ele tentava defender o portal. Por fim, Riku conseguiu se soltar, e começou a atacar Bahamut, surpreendendo-o.
Foi então que...
–MORRA DE UMA VEZ! – Erinia, já completamente furiosa, fez um movimento rápido, atravessando a barriga de Sora com a lança. Por um instante, tudo passou a se mover em câmera lenta. Riku pôde ver claramente a expressão de surpresa e dor do amigo, que caiu de joelhos, a mão pousada inutilmente sobre o ferimento.
–SORA, NÃO! – ele berrou, correndo na direção da barreira – SUA DESGRAÇADA!
Sora deixou a Keyblade cair. A cabeça girava em meio ao choque. A dor, inicialmente entorpecida pela adrenalina, começava a se manifestar pouco a pouco. Tocou de leve o ferimento, e sentiu uma fisgada violenta. Era imenso, e sangrava profusamente. Os olhos giravam, sem controle, a cabeça também se perdia em meio à confusão...
E, no meio disso tudo, ele pôde ver Erinia caminhando na direção da Fonte.
Tentou se levantar e se recompor, mas não conseguiu. Então, depois de tudo... terminaria daquela forma. Ele devia saber que aquele era um plano estúpido. E, agora, pagaria por isso. Ele morreria ali sozinho, e decepcionaria a todos os que contavam com ele, e...
Foi nessa hora que tocou o seu pingente de coroa. E se lembrou do presente de Lulu.
“Angel... Form?”. Ele pensou no que aquilo significava. Naquela hora, ele já não tinha mais nada a perder. Então, fez um esforço para se levantar, tentando não se contorcer com a dor imensa que se irradiava a partir daquele ferimento. Ele pôde perceber o olhar de Riku, mas não se virou. Em vez disso, pousou a mão direita sobre o colar e murmurou, de olhos fechados:
–Que seja uma forma para proteger a todos... ANGEL FORM!
De repente, seu corpo começou a formigar, como se uma onda de energia pura o varresse e o revigorasse. Começou a prestar atenção em si mesmo. A princípio, suas roupas se tingiram de vermelho, como a Valor. Depois, azul, como a Wisdom. Logo depois, amarelo, como a Master. E, por fim, branco, como a Final. Em cada uma dessas mudanças, era como se ele se tornasse mais e mais forte, como se cada uma delas lhe emprestasse forças.
E, quando essa energia atingiu seu máximo, foi como se algo em seu peito se rasgasse.
Ele podia sentir a camisa sendo feita em pedaços, e uma onda de luz o envolvendo. E sentiu também que algo surgia em suas costas. Uma segunda Keyblade também surgiu. Quando a luz diminuiu e ele pôde voltar a abrir os olhos, percebeu a real extensão da Angel Form, ao ver seu reflexo em um dos espelhos. Grandes asas luminosas agora repousavam em suas costas. E, na mão esquerda...
–Oathkeeper... – ele murmurou – Duas Keyblades com promessas a cumprir...
Erinia já drenava o poder da Fonte, que agora a envolvia completamente. Ela se virou na direção dele, encarando-o pasma. Na certa, não esperava mais que ele fosse se levantar. Preparou a lança mais uma vez, enquanto Sora também preparava a Oathkeeper e a Mother’s Promise para atacar.
E, então, no segundo seguinte, ele abriu suas asas e partiu para cima dela.
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Naquele momento, Leene, Kairi e Rikku compunham sua última formação.
Kairi estava na frente, ladeada pelas outras duas. Os olhos dela estavam fixos em Hyne, que as encarava com uma chama de interesse maldoso. Ela, porém, recusava-se a baixar o olhar. Seu coração estava disparado, e suas mãos tremiam com a adrenalina que corria pelas suas veias.
–Vocês não vão mesmo desistir, não é? – disse o dragão, com deboche na voz.
–Que bom que você entendeu – Leene abriu um sorrisinho maldoso – Você vai apanhar agora. Muito.
Kairi foi a primeira a se preparar para o ataque, apontando a Keyblade na direção de Hyne. Aquele era o sinal para que as outras duas também se preparassem para atacar. Se tudo corresse como o planejado, elas só precisariam de uma tentativa... uma tentativa...
–Isso vai ser legal... – murmurou Rikku, feroz – HORA DA FORMAÇÃO! AGORA!
Aquela foi a forma encontrada pelas três para combinar seus ataques. Leene e Rikku foram as primeiras a atacar: rápidas e ágeis, as duas partiram na direção de cada um dos flancos dele. Leene criou um orbe de raios em volta de cada uma de suas adagas, e lançou uma delas para Rikku. Então, ao mesmo tempo, as duas lançaram cada uma das armas em um dos olhos do monstro. Imediatamente, ele começou a se contorcer, cego e desorientado pela dor.
–É A SUA VEZ, KAIRI! – berrou Leene. Assim que ela disse isso, Kairi correu na direção da cabeça do monstro, golpeando-o com toda a força com a Moonbeam.
Ele continuava se debatendo, tentando acertá-las às cegas e berrando maldições para todos os lados. Kairi, porém, usava feitiços de ar para se movimentar de forma mais leve e mais rápida. E as três permaneciam se movimentando em direções diferentes para confundir a audição dele.
–SEGUNDA RODADA, AGORA! – comandou Rikku, enquanto atirava suas facas na direção de Leene. Mais uma vez, ela eletrizou-as, mas dessa vez ela própria saltou sobre o dragão, cravando-as em seu dorso. Rikku, então, saltou sobre ele e puxou-as de volta. Cada uma ao seu tempo, as três atacavam-no sem descanso.
Foi então que...
–JÁ CHEGA! – ele berrou, abrindo as asas e golpeando as três ao mesmo tempo, derrubando-as – VOCÊS IRÃO APRENDER A NÃO SE METER COM QUEM NÃO PODEM, SUAS INSIGNIFICANTES!
–Isso é o que vamos ver... – para surpresa dele, porém, havia deboche na voz de Kairi. No segundo seguinte, ela gritou – COMBINAÇÃO... ARASHI NO HIME!
A Princesa da Tempestade. A última chance.
A primeira a agir foi Kairi. Usando toda a força que tinha, ela começou a manipular o ar na sala, fazendo-o se movimentar cada vez mais rápido e mais rápido, até que se transformasse em um pequeno tornado. Ela o orientou até o dragão, fazendo-o erguê-lo. Ela concentrava toda a força em manter o tornado, mas já sentia-se tremer.
Foi então a vez de Leene, que começou a concentrar nas mãos todo o poder elétrico que era capaz de conjurar. Ela foi criando uma bola de energia, e fazendo-a crescer e crescer até que, em um certo momento, arremessou-a na direção de Hyne, ao mesmo tempo em que Kairi terminava o feitiço de ar. O dragão emitiu um grunhido rouco de dor e ódio, enquanto caía.
Por fim, foi o turno de Rikku, a mais rápida das três. Enquanto Hyne ainda não se movia, ela saltou sobre ele, cravando as duas adagas diretamente no pescoço dele, rasgando-o, e saltando de volta para o chão, ao lado das outras duas.
–Bem, parece que as humanas fracas ganharam essa – disse Leene, com um sorriso.
–Ainda... não... – grunhiu Hyne, colocando-se de pé outra vez, com esforço – Agora... vou... matar... vocês... MALDITAS!
–Não vou conseguiu outro feitiço daqueles... – sussurrou Kairi.
–Nem eu – acrescentou Leene – Alguma idéia?
–Que tal o básico “corra e ataque”? – sugeriu Rikku – A essa hora, pode dar certo.
–É, é provável – concordou a primeira – RiLeeKai... FORMAÇÃO!
–RiLeeKai? De onde diabos você tirou isso? – Leene ergueu uma sobrancelha.
–Sei lá, só achei que soava legal – a outra deu de ombros.
–Que tal discutirmos isso depois? – cortou Rikku, por fim – Vamos acabar com essa luta!
Então, as três correram na direção de Hyne, as armas em punho, mais uma vez. Dessa vez, porém, não houve resistência. Mesmo que o dragão tentasse detê-las, ou afastá-las, seus movimentos não eram tão rápidos. E, em pouco tempo, ele jazia completamente inerte.
Quando as três se certificaram de que Hyne estava morto, se permitiram parar e descansar um instante. Nenhuma delas estava com ferimentos graves, apenas escoriações leves e hematomas. Rikku tinha os olhos fixos no dragão.
–É a primeira vez que eu luto depois do que aconteceu com a Paine – ela murmurou – Espero que ela tenha ficado feliz com o que viu, lá no Farplane.
–Farplane... é o paraíso? – perguntou Kairi, hesitante.
–De certa forma – Rikku abriu um sorrisinho fraco – Não achei que fôssemos vencer, na verdade... mas fico feliz por estar tão errada assim.
–Eu também – concordou Leene – E... acho que todos lá estão felizes, também.
–Mas ainda não terminou – observou Kairi – Sora e Riku precisam de nós. Não sabemos o que está acontecendo lá em cima, mas precisamos fazer o que pudermos.
As outras concordaram com um aceno de cabeça, e dirigiram seus passos agora na direção da torre sul. Uma batalha havia sido vencida. Mas a guerra continuava.
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Somente naquela hora, Cloud e Leon perceberam que tinham ataques parecidos.
Tanto o Omnislash do primeiro quanto o Renzokuken do segundo consistiam em uma seqüência veloz de ataques. A Buster Sword de Cloud ganhava em força, mas a Gunblade de Leon era mais precisa e rápida. E a combinação das duas gerava um ataque devastador.
Não havia sido combinado. Mesmo assim, o sincronismo dos dois era absoluto. Maleficent, em sua forma de dragão, havia aumentado a área para atacar, e mesmo que ela tentasse afastá-los com movimentos das asas e do pescoço, e tentasse lançar chamas neles, não conseguia acertá-los. E eles seguiam, acertando seu dorso, seu pescoço, suas pernas, com uma precisão imensa. Um golpe após o outro, nos lugares certos, no tempo certo... como se tivessem lutado a vida toda juntos.
Foi então que, finalmente, ela conseguiu acertar um deles. Com um golpe das asas, conseguiu arremessar Cloud longe. Leon viu, e fez menção de correr até ele, mas o próprio o impediu, dizendo:
–NADA DISSO! TERMINE O QUE VOCÊ COMEÇOU!
Ele se virou, intrigado, e olhou para Maleficent. O estrago que os dois haviam feito era visível, mas ainda não era o suficiente. Não, precisava de mais um passo, de mais um golpe...
–Ao meu sinal, então – ele rosnou – Se quiser tomar parte nisso, é melhor estar de pé quando eu terminar. LIONHEART!
Aquele era o ataque supremo de Leon. A lâmina da sua Gunblade começou a emitir uma luz azulada e tênue, enquanto ele corria na direção de Maleficent mais uma vez. Dessa vez, ele atacava sozinho, mas muito mais rápido e forte do que antes. Aquele era um ataque perigoso, que ele só conseguia usar quando já estava muito ferido. O desgaste que ele provocava, depois, era imenso. Mas, enquanto desferia um ataque após o outro, numa velocidade insana, não havia na sua mente espaço para pensar em nada. Era apenas a batalha, e ela guiava seus braços.
Um golpe, e outro, e outro, e outro... e, no final, ele a lançou para cima com um golpe de baixo para cima, acertando-a novamente no ar e a arremessando no chão. Por alguns instantes, ela ficou imóvel, enquanto ele apenas a observava, tenso, com a adrenalina ainda correndo em suas veias. Então, ela começou a se mexer e a tentar se arrastar na direção dele, grunhindo:
–Isso... ainda... não... acabou... insolentes...
–AGORA CHEGA! – então, Cloud saltou por trás dela, cravando a espada em seu pescoço e rasgando-o de cima a baixo. O sangue espirrou longe e respingou nos dois, enquanto ele saía de cima do dorso do dragão e caminhava até Leon. Este, por sua vez, a encarava, com desprezo, e dizia:
–Ah, vá falar com uma parede – nessa hora, os efeitos da batalha se abateram sobre ele de uma vez, que se desequilibrou e caiu de joelhos no chão, apoiando-se sobre a Gunblade – Argh...
–Essa doeu... – murmurou Cloud, a mão pousada sobre o ombro – Mas ela não nos incomodará mais.
Os dois observaram, por um instante, o corpo da bruxa se desfazer em pó e se dissolver em meio à chuva. Uma estranha sensação de alívio tomou os corações deles. A guerra ainda não havia terminado, mas pelo menos aquela batalha havia sido vencida.
–Eles devem estar precisando de nós – murmurou Leon – Vamos voltar para lá e...
–LEON! CLOUD! QUE DROGA, O QUE PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO? – então, eles ouviram a voz escandalosa de Yuffie enquanto ela corria na direção deles, trazendo poções – OLHE SÓ PRA VOCÊS DOIS! PODIAM TER MORRIDO ALI! POR QUE RECUSARAM NOSSA AJUDA?
–Tá tudo bem agora, Yuffie – Cloud abriu um meio-sorriso – Maleficent se foi. E nós vamos sobreviver, são apenas arranhões.
–Você vai me deixar velha antes da hora, Squall – Quistis também foi na direção deles, lançando rapidamente um feitiço de cura nos dois – O que você pensava que estava fazendo?
–A gente só queria terminar isso logo – respondeu ele, a voz baixa mas compreensiva – E não me chame de... erm, quer dizer, deixa pra lá.
–Vocês virão para a tenda de primeiros socorros agora mesmo – sentenciou Yuffie – Nós podemos cuidar de meia dúzia de Heartless teimosos, mas vocês precisam se cuidar. E sem discussões.
–Sim, mamãe – murmuraram os dois, ao mesmo tempo.
Cloud mancava, mas podia andar. Leon, por sua vez, mal conseguia parar de pé. Sem dizer uma palavra, o primeiro fez o segundo se apoiar em seu ombro. Leon o encarou, surpreso, e sussurrou:
–Por que está fazendo isso?
–Você já me perguntou isso hoje – respondeu Cloud – E a resposta ainda é a mesma.
Leon ficou em silêncio por um instante. E, depois, deu um sorrisinho fraco, enquanto se arrastava, apoiado no ombro ileso do outro, na direção da tenda de primeiros socorros.
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Os pés de Sora não tocavam mais o chão.
Ele não precisou aprender a controlar as asas porque aquilo já lhe parecia muito natural. Ele voava de forma segura e ágil, controlando as grandes asas como se sempre as tivesse possuído. A Oathkeeper e a Mother’s Promise estavam apontadas para frente, enquanto ele ia na direção de Erinia. Por um instante, ela o encarou, chocada, mas conseguiu se esquivar antes de ser atingida.
–Um par de asas bonitas não irá salvá-lo, Sora – ela disse, a voz tensa – Pelo menos você já pode ir se acostumando com elas, porque em breve o mandarei a um lugar onde elas serão permanentes.
Ela continuava a alternar as esquivas com investidas da lança, saltando, desviando-se, mudando de direção. Sora, porém, tinha movimentos mais firmes e seguros do que antes, e conseguia rebater e se desviar dos golpes, contra-atacando-os. Havia uma determinação séria em seu olhar, algo que não estava lá antes.
Riku apenas observava, abismado, a transformação do amigo. O ferimento ainda estava aberto e ainda sangrava – ele percebeu isso pela nesga de vermelho que tingia as penas brancas das asas dele. A voz de Bahamut, porém, o trouxe de volta para a sua batalha.
–Seu oponente ainda sou eu – para sua surpresa, porém, a voz dele estava diferente, cansada, cheia de resignação – Vamos terminar isso de uma vez.
–Espere – aquela era a chance de Riku – Kohryu... ele era seu amigo, não é?
–Kohryu... sim, meu melhor amigo – respondeu ele.
–Ele quer vê-lo livre – continuou Riku – E o que estamos fazendo aqui pode libertá-los.
–Eu sei disso, jovem rapaz – disse Bahamut – E, como rei, é minha obrigação permitir que isso aconteça. Mas, se eu perder essa luta, Erinia irá punir meus irmãos, também. Esta é a forma que ela encontrou para me atingir e me controlar. Então... preciso continuar.
–Depois dessa noite, Erinia não irá mais importuná-los! – insistiu o primeiro – Ou a ninguém mais. Por favor, acredite em nós. Nos ajude...
Bahamut o encarou por um instante. Riku devolveu o olhar, observando-o intensamente.
–Vocês são mesmo estranhos. E valentes – então, ele sorriu – De qualquer forma, você precisará dar tempo ao seu amigo. Podemos continuar essa luta, até que o Mestre da Keyblade termine a dele.
–Parece bom para mim – Riku também sorriu, preparando a Way to the Dawn – Agora!
E os dois voltaram a lutar, embora de uma forma completamente diferente. Aquela seria uma luta sem perdedores, eles se garantiriam disso.
Enquanto isso, Sora continuava lutando contra Erinia, impedindo-a de chegar à Fonte. Ele não sabia quanto tempo aquela forma duraria, mas sabia que precisava terminar aquela luta, e rápido. A luta entre os dois se tornou muito mais próxima, as armas se chocando e se afastando, enquanto um tentava acertar o outro o mais rápido possível.
Então... ao mesmo tempo...
A lança de Erinia atingiu outro ponto do estômago de Sora, enquanto ele cravava a Mother’s Promise no coração dela. Os rostos dos dois quase se tocavam. Havia dor nos olhos da feiticeira, mas os de Sora permaneciam sérios e impassíveis. Ele posicionou as asas de forma a esconder o segundo ferimento de Riku.
–Sabe que não pode me matar... – sussurrou Erinia – Sabe que... eu sou imortal...
–Eu sei – ele respondeu, sério – É por isso que a arrastarei junto comigo.
Então, a Mother’s Promise começou a brilhar, e uma névoa intensa os envolveu completamente. Ela parecia partir do corpo de Erinia, varrendo-o, e atingindo o corpo de Sora, continuando assim até que aquele corpo desaparecesse completamente. Por fim, a lança caiu ao chão com um baque seco. Sora a observou por um instante fugaz, antes de voltar suas atenções à Fonte.
“Agora... o último ato”, ele pensou. Então, apontou a Mother’s Promise para a fonte, e com toda a força que tinha, começou a conjurar o encantamento para selá-la. A força daquele encantamento era inacreditável, e drenava-o com fúria. Em pouco tempo, já era difícil até se manter de pé. Mesmo assim, a barreira estava longe de terminar. Seu braço doía furiosamente, e já começava a fraquejar, quando...
–Ah, ainda não! Não com a gente tão perto!
Aquela voz... Seth?
Sim, era ele! Bem ali, parado ao seu lado. E, do outro lado...
–Vamos terminar isso juntos, agora – Roxas. Sim, Roxas! Ele também estava ali.
E os dois apoiaram o braço de Sora, enquanto a barreira era construída, até que por fim ela foi terminada, e o portal desapareceu. Nesse momento, ele deixou o seu braço cair. Por um instante, olhou para o lugar onde ficava a Fonte. Só então percebeu, vagamente consciente, que havia buracos no teto que estavam deixando a chuva passar.
–Conseguimos... – sussurrou ele, com um sorriso – Obrigado. Mas... por que vieram?
–Você precisava de ajuda – respondeu Roxas – E... de certa forma, somos parte de você.
–Era o que podíamos fazer – acrescentou Seth – Agora... está tudo terminado.
–Sim... – a voz de Sora fraquejava – Tudo terminado.
Então, ele apontou a Oathkeeper para a cúpula, dissolvendo-a.
O sol já começava a nascer. O céu estava ficando mais claro. Mas a chuva não parava.
E, no instante seguinte, a Angel Form se desfez.
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