Killing Loneliness
1 Capítulo I
- Eu não me importo de fazer isso, é um tanto quanto divertido.
O olhar da menina estava fixo em um objeto. Trancada no quarto a mais de 48 horas, ninguém mais lhe importunava. O pijama que não era tirado a dois dias estava amassado, a cama bagunçada e em cima a máquina de fotos ligada. Era incrível como a bateria ainda não havia se desgastado por completo. Como em um turbilhão de redemoinhos sua mente se encontrava naquele momento. Seu olhar era carregado do sentimento desconhecido que lhe brotava olheiras profundas. E o olhar fixo em um único objeto.
Memórias, afiadas como adagas, perfuram a pele do presente.
Seu olhar desceu até sua panturrilha descoberta pelo pijama. Os profundos cortes deixavam fios de sangue rolar pela cama já manchada. Com o canivete em mãos, deslizava-o pela pele nua vermelha, acima do calcanhar. A medida que a lâmina escorregava pela superfície, era retomada por uma pequena poça de um vermelho escuro em volta da lesão provocada. Após retirar o canivete que grudava com os outros cortes coagulados, uma lágrima lhe desceu pelo rosto. Eu tinha aprendido a amar! Ele era o único, o único!
Flash Back ON
A uma semana decidiu ir com seus pais passarem um feriado de verão numa praia da cidade. Já previa o passeio como todos os outros: enquanto seus pais se divertiriam num bar, ela ficaria na areia lendo algum livro.
A poucos metros se encontrava um garoto de óculos que observava a praia quase vazia. Com o costume de falar de Deus e igrejas para as pessoas, era sua primeira reação ao ver alguém. Percebendo uma menina com um livro em mãos, se aproximou já iniciando uma conversa educadamente.
- Será que eu poderia tomar um pouco do seu tempo?
A jovem olhara de relance para o rapaz que continha um sorriso em seu rosto. Retornando à leitura, sua voz era ríspida.
- Não.
Com uma das mãos ele apoiou-se na areia, sentando próximo a desconhecida, que o observou discretamente. Este retirou do bolso interior da jaqueta uma bíblia de mão, abrindo-a em uma página marcada.
- Não acredito nisso — a garota dissera sem levantar os olhos do livro que lia, folheando-o na página seguinte.
- Pois deveria.
Com a página marcada do livro, o garoto citara um certo trecho com uma voz calma. A garota desviara o olhar agora para a bíblia, prestando a atenção nas frases que o rapaz citava.
Flash Back OFF
O seu olhar se fechava após o último indício de lágrimas. Não tinha mais forças para chorar. Se dormisse, seria pega por uma trovoada de sonhos ruins que imaginava como seriam. Sonhos que desejava estar dentro para acordar e a realidade pudesse estar presente novamente. Mas não era possível. Ele mentiu. E se não tivesse, mudaria algo?
Flash Back ON
De repente o garoto parara de citar o trecho e lhe lançou um olhar duvidoso. A jovem inerte nas palavras foi despertada com a voz calma do desconhecido.
- Me pareceu interessada.
Ela franziu o cenho, retornando a leitura silenciosa. Seu olhar era mantido fixo no livro de Stephen King. Porém a mão estendida do garoto lhe tirava novamente a atenção.
- Joseph — ele falara em bom tom, com seus olhos fixos no mar agitado.
- Drika.
Hesitando, pegou levemente na mão do estranho religioso. Nem sabia ao certo se ele era confiável ou não.
- Drika me parece um apelido — seu sorriso era notável.
- Não iria querer saber o meu nome.
Ele arqueou uma das sobrancelhas e lhe fitara. Estava com uma expressão admirável. Drika não pode deixar de lhe devolver outro sorriso.
- Você é engraçado — disse, enquanto fechava o livro repousando-o na areia.
- Ah, mas eu nem fiz nada — Joseph forçou um bico com os lábios, rindo em seguida.
- Deve ser por isso — ela rira junto.
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