Killer Queen
17 Rainha por sua causa
Notas iniciais
As mulheres saíram correndo do quarto aos gritos, Sasuke tentou intervir, mas sinceramente, nem queria, desde que Sakura não atacasse ninguém, era seu direito cuspir toda a merda.
— Pelo amor de deus! Pare ela! – Delilah protestou, ele a fitou de lado.
— Que quer eu faça? Provoca a fera e não dá conta? Se eu fosse você, cairia fora antes que ela queira seu pescoço entre aquelas mãos matadoras.
Delilah avermelhou de raiva e bateu o pé.
— Que ridículo! Quanta infantilidade!
— Falou quem tentou pisar no calo primeiro, não é? Aposto cem paus que estaria fazendo pior se uma certa ex do seu marido aparecesse. – Ele rebateu, ácido.
Sakura acertou um grande estojo de maquiagens na parede, uma nuvem colorida de pó se formou ali, e Delilah saiu aos berros, chamando os irmãos de Sakura ou qualquer um que quisesse arriscar contê-la.
— Sakura, chega, tudo bem. – Ele tentou de novo, vendo-a rasgar as cortinas na base da unha. Se aproximou dela e segurou-a pelos ombros, depois pela cintura, murmurando contra sua nuca e sentindo-a fincar as unhas em seus braços. — Calma, Sakura, chega, chega!
— Oh, meu deus... – Elizabeth balbuciou, na porta, junto ao noivo, pálida de assombro com o quarto destruído, ela moveu seus olhos azuis para Sakura e a fitou na mais pura incredulidade e mágoa. — Porque fez isso?
Sasuke achou que a fera tinha adormecido, ela parecia até cansada, mas tão logo encarou a irmã, seu corpo inteiro reascendeu e ela lutou como se quisesse ir pra cima dela, ele a apertou contra si.
— VAI PRO INFERNO!!! – Ela rugiu, Elizabeth saiu aos prantos.
— Papai! Papai! Faça ela parar! Está estragando tudo, papai!
— VAI SE FODER, VOCÊ E SUA EXISTÊNCIA, MALDITA!
Simon se aproximou, furioso e indignado.
— O que pensa que está fazendo?! Está louca?! É a sua irmã, cacete!
— Vai pro inferno! – Ela cuspiu, Sasuke andou pra trás se afastando e girando para tira-la do caminho dele, o mandou um olhar mortal.
— Melhor ficar na sua, garoto, não se meta no que não sabe.
— Essa maluca está destruindo meu casamento!
— Ah, vai se foder, essa merda foi adiantada? Cai fora daqui!
— Então tire essa maluca descontrolada daqui! Já devia saber que ela traria problemas, todo mundo diz que traz!
Sasuke a soltou e nem percebeu, só sabia que já tinha ele pela gola.
— Olha aqui, seu pirralho de merda, mais uma palavra e eu estrago esse casamento de vez, capando você. – O soltou e seguiu até onde achou que Sakura estava, mas só viu o vulto verde escapar pela porta. — Porra.
Saiu correndo do quarto rumo as escadas, e ao ouvir gritos vindos do escritório, deu meia volta e seguiu até lá.
— Meu solta, me soltaaa! – Sakura rugia, sendo contida por dois dos irmãos ainda na entrada, ele parou na porta, vendo Delilah e as cunhadas reclamando indignadas, e Liza chorando nos braços do pai.
— Ela está louca, louca! – Delilah protestou, furiosa.
— Liza! – Simon entrou indo abraça-la, Kizashi esfregou as têmporas, mais cansado do que irritado, como se só houvessem crianças em seu entorno, fazendo birra.
— Me solta, seu merda! – Sakura rugiu para os irmãos. — Diz pra ele, Delilah, diz pra ele o que você fez que me deixou louca! Diz, sua vaca!
— Eu não fiz nada!
— Fala pra ele quem está lá fora, montando acampamento junto com a vagabundinha!
Kizashi estreitou o olhar, gelado e se voltou para a esposa.
— Quem chegou aí? — Interrogou, afiadamente, ela abriu e fechou a boca como um peixe até que o outro irmão de Sakura passou pela porta, esse era Damon, e ele mandou um olhar frio e enojado para a madrasta e irmã mais nova.
— Vocês tiveram cara de convidar o porco do Hidan?
Delilah empalideceu diante o olhar fulminante do marido e Liza balançou a cabeça, atordoada.
— Eu não, porque faria isso?! Nunca convidaria um homem baixo desses, ainda mais pro meu casamento! Papai, eu juro.
— Me poupe dessa porcalhada! — Sakura rosnou finalmente sendo solta pelos irmãos.
— Mais respeito, menina. – Tia Constance trovejou. — Se Liza disse que não fez, então não fez!
— Cala essa boca, sua cadela jurássica! Eu to foda-se pro que você acha!
A mulher gaguejou, pálida de choque.
— Você convidou esse verme? – Kizashi indagou a esposa. — Está ficando louca? Quando eu disse que queria esse homem aqui?
— E-eu só estava pensando no-no bem estar de todos, Hidan ainda é nosso sócio, temos parte na imobiliária, não achei que ele viria e que ainda traria a nova esposa.
— Vadia! É isso que as duas são! Você fez foi se identificar! Simpatizar! Eu quero esse dois fora daqui, agora! AGORA, OU QUEM VAI EMBORA DESSE LIXO, SOU EU! – Sakura decretou.
— Sakura, por favor, eu nunca compactuaria com isso. – Liza implorou, se aproximando dela. — Só fique calma, não estrague mais nada...
Sakura se afastou dela com um olhar de repúdio, seguiu até a estante e pegou um relógio, o atirando no chão.
— FODA-SE! Eu já disse, quero esse malditos fora daqui!
— Sakura, não seja mimada! – Delilah reclamou. — Kizashi, pelo amor de deus!
— Dane-se, ela tem toda razão. – A voz frívola de Damon encheu o cômodo. — Você foi ridícula, Delilah, o cúmulo da baixaria, eu mesmo vou por esse merda pra fora daqui.
Dito isso, eu deu a volta, seguindo para fora, Sasuke faria questão de se juntar a ele.
— Não vai a lugar algum, Damon. – Kizashi cortou, todos os olhares recaindo sobre ele. — Eu não quero mais nenhum escândalo, resolveremos isso depois do casamento, Hidan vai ter o que é dele logo.
Damon estreitou o olhar para ele.
— Diga que está brincando.
— Eu pareço brincar? Ajam como adultos. – Ele jogou os olhos para uma Sakura pálida e apagada. — Se sabe que é uma provocação, sabe que deve ignorar, agir como uma mulher histérica só piora as coisas pro seu lado, e também deve ser menos egoísta, Liza não tem que pagar por nada disso.
— Oh, papai. – Liza o abraçou, ele apenas passou o braço em volta dela, olhos ainda presos na outra, e piscou, aturdido, ao ver grossas lágrimas escorrerem de deus olhos, pela primeira vez desde que ela era uma criança de colo.
Eu não cometerei
Os mesmos erros que você
Eu mesma não me deixarei
Causar tanto sofrimento ao meu coração
Ela piscou, afastando-se atordoada, seu sangue corria como um veneno, inflamado seu corpo em dor, ressentimento e angústia.
Esfregou o rosto, repuxou os cabelos, completamente frustrada, exausta, acabada.
— Meu deus, o que eu fiz...? – Balbuciou, puxando do colo um colar e apertando o próprio pescoço, preferindo sufocar a si mesma do que aquele desgosto. — O que eu fiz pra você me odiar tanto?
Indagou, encarando-o abismada, encarando a todos, desesperada.
Precisava saber, tinha que saber, tinha que ter um motivo, um único erro, nem que uma única birra, nem que um objeto quebrado, ou uma mentirinha de infância.
Tinha que ter um motivo.
Ela não podia ser tão amaldiçoada assim, podia?
— Fique calma, está se exaltando demais. – Ele ordenou, ele era incapaz de sequer pedir.
De sequer dar.
Sakura sacudiu a cabeça em negação, soltando o ar pelas narinas, ficando vermelha e tremendo com soluços.
Correu o olhar até encontrar Sasuke e mal conseguiu gaguejar.
— Por favor, me ajuda, eu não consigo mais. – Soltou, quase sem que houvesse ar para isso.
Sasuke sentiu a mente e o corpo reativarem, estava tão embasbacado em descrença, que ainda achava que só poderia ser um delírio.
Eu não vou me permitir
O jeito que você fez, você se machucou profundamente
Eu aprendi da maneira difícil, a nunca me deixar chegar nesse ponto.
Mas eles estavam, ele, estava praticamente matando-a.
Sakura se abaixou, arranhando o próprio rosto, depois o vestido em si, como que tentando arranca-lo pata ter ar.
— Seu bastardo maldito! – Ele rugiu, tomando a atenção. — Seu malditos. SAIAM DAQUI, BASTARDOS!
Sakura soltou um novo rugido, de um animal em agonia. Ele sentiu algo rasgar dentro de si, ao avançar e se jogar sobre ela, tentando conter suas mãos e salvar sua sanidade.
— Sakura, Sakura.
— O que eu fiz?! O que eu fiz?! – Ela guinchava. — O que eu fiz pra você me odiar?! O que eu fiz pra não me amar?! Por que é tão diferente pra ela?!
Kizashi se desvencilhou das mulheres, se aproximando do chão onde ela se desfazia.
— Vocês não são diferentes... – Ecoou.
— MENTIRA! Para de mentir!
Por sua causa
Eu nunca ando muito longe da calçada
Por sua causa
Aprendi a jogar do lado seguro assim eu não me machuco
Por sua causa
Acho difícil confiar não só em mim, mas em todos ao meu redor
Por sua causa, eu tenho medo
— Melhor saírem. – Damon pareceu ter dito, Sasuke não prestou atenção, apenas afastou Sakura do toque daquele homem.
— Saia de perto dela, seu fodido hipócrita! Não é preciso meia hora na presença de vocês pra saber quão escrotos são! Saia de perto dela, você só sabe feri-la!
Delilah guinchou por ser expulsa pelos enteados, Damon empurrou-a pra fora e deu um olhar odioso para a irmã mais nova que saiu muito atordoada, junto ao noivo, Constance e Verbena saíram, mudas, e lá fora, o resto da família estava em polvorosa para entender o que se passava.
Sasuke ainda ouviu o velho Eduard, aos berros no andar de baixo, exigindo uma arma e saber quem estava machucando a neta.
Damon fechou a porta, deixando também os irmãos de fora.
Então só ficaram os gritos e o choro dela preenchendo o quarto e seu desespero pra livrar-se do vestido, de tudo, pra sair daquele piche, antes que se afogasse, e morresse de vez.
Eu perco meu caminho
E não leva muito até você mencionar isso
Eu não posso chorar
Porque eu sei que isso é fraqueza aos seus olhos
— Tira isso de mim, tira isso de mim. – Ela suplicou, sufocando no choro tentando alcançar o zíper do vestido.
Sasuke tateou tão desesperado quanto ela, cada segundo se preenchendo mais de ódio de si mesmo por ter incentivando-a a vir. Por ter agido como se soubesse o que era a família dela por ter uma um tanto grudenta e que também fora problemática, por dizer que eles não eram monstros quando a estavam enchendo de traumas e afogando-a em pânico.
— Shh, eu vou tirar, vou tirar, respire, querida, respire. – Puxou o zíper e deslizou a peça por suas pernas, Sakura já havia dilacerado a manga de tecido fino, as rosas bordadas estavam pelo chão de modo que a roupa saiu de si sem problemas, deixando-a apenas de sutiã e calcinha, cinta-liga e saltos, tão indefesa como uma criança.
Como a criança que ficava no canto ouvindo os murmúrios desgostosos.
Como a menininha que aprendeu a fazer bolo com oito anos, pra entregar um de aniversário ao pai, e que passou a tarde inteira sentada no canto do escritório, esperando ele desligar o telefone e dar atenção ao esforço.
Mas que terminou assistindo a tia jogar o pequeno bolo na lixeira sob o olhar compadecido da empregada e a zombaria dos primos.
Eu sou forçada a fingir um sorriso, uma risada todos os dias da minha vida
Meu coração não pode quebrar
Quando não estava inteiro pra começar
Como a jovenzinha que vira uma criança ser amada pela primeira vez.
E só podia assistir.
Ela se contorceu de dentro pra fora, incapaz de segurar, ou conter aquilo tudo, sendo arrastada e exposta em carne viva.
Sasuke afagou suas costas, desesperado que ela tivesse uma síncope ou pior.
Kizashi observou completamente estático, incapaz de processar a intensidade desse sofrimento, golpeado pela incapacidade de fazê-la parar.
Como se ela escorregasse de seus dedos.
Puxou-a para si, bruscamente, tentando segurar seus pulsos e impedi-la de se ferir mais, e Sakura lutou contra ele, por que só sentia qualquer aproximação sua como uma ameaça, e qualquer toque ou palavra dele era como uma agulha quente em sua carne aberta.
Lutou como uma criança, ele apertou seus pulsos com uma mão, e então envolvendo seu tronco com o outro braço, e apartando-a, Sasuke segurou suas pernas, temendo que se machucasse mais.
Ela era incapaz de reconhecer um abraço do pai, porque sequer se lembrava do último, se ao menos houve algum. Não conhecia sua proteção, muito menos carinho, calor.
Era sempre muito impessoal, como dois estranhos, apenas palavras polidas, um olhar baixo ante o outro. Distância.
Ela perdeu a consciência, e também a batalha.
Estava esgotada, não havia mais o que doar, nem bom, nem ruim.
Apenas nada, só vazio.
Seus olhos permaneceram abertos e caídos, a vida fugiu deles, e tornou-se uma boneca. A mente bloqueou e apagou, para suportar a dor, tal qual fizera no inferno da guerra.
Por sua causa
Eu nunca ando muito longe da calçada
Por sua causa
Aprendi a jogar do lado seguro assim eu não me machuco
Por sua causa
Acho difícil confiar não só em mim, mas em todos ao meu redor
Por sua causa, eu tenho medo
Sasuke a tomou, puxando-a de seus braços sem qualquer delicadeza, enquanto o direcionava um olhar sangrento.
— Não a toque mais. Vou levá-la.
Kizashi encarou as mãos vazias e uma lembrança atacou sua mente.
“O choro de Sakura preenchia o espaço da pequena pista de pouso particular, assustada com o barulho dos motores de avião.
Logo que vira o pai na entrada do avião, Mebuki se voltou para ele, apertando a criança nos braços, seu rosto formoso e olhos caramelados contorcendo-se de incredulidade e dor.
— Não veio se despedir... – Ciciou, e ele inspirou profundamente.
— Apenas de você...
E assim, puxou a menina de seus braços, como se ela fosse uma boneca, incapaz de lutar contra ele, esgotada e desacreditada demais.
Um dos seguranças do pai dela se aproximou, puxando-a pelo braço até a escada, ela caminhou aos tropeços ainda segurando uma boneca de pano e rosto de porcelana na mão vazia, sussurrando aos poucos, os olhos pregados na criança num bufante vestido de babados e com uma graciosa tiara na cabeça repleta de fios róseos, que estendeu a mão rechonchuda, pedindo seu colo, pois não estava acostumada ao do pai, nem nunca teria chance para tal.
— Espere... Meu bebê, Kizashi... meu bebê, vai levar meu bebê? Vai tomar de mim? Não pode leva-la de mim.
Ela foi posta dentro do avião, ele não trocou mais nenhuma palavra com o pai de Mebuki, apenas deu as costas, e deixou-a assisti-lo levar a filha dela”.
— Não pode leva-la... – Ele ecoou, desnorteado, os dedos vazios.
Eu assisti você morrer
Eu ouvi você chorar toda noite no seu sono
Eu era tão jovem
Você deveria saber mais do que apenas contar comigo
Você nunca pensou nos outros
Você só viu sua dor
E agora eu choro no meio da noite
Pelo mesmo maldito motivo
Sasuke o encarou de volta, com frieza, enquanto enroscava Sakura em si, para se erguer com ela.
Apenas avisou.
— Me assista fazer.
Por sua causa
Eu nunca ando muito longe da calçada
Por sua causa
Aprendi a jogar do lado seguro assim eu não me machuco
Por sua causa
Eu dou o meu melhor, apenas para
Esquecer tudo
Sasuke se ergueu, com ela no colo, cortou o escritório e passou pela porta aberta por Damon, o corredor perto da escada, estava atulhado de gente, e ele apenas seguiu ao quarto dela, entrou com ajuda de Lídia que já tinha o rosto inchado de lágrimas, deitou Sakura na cama e cobriu-a com uma coberta.
Jogou os olhos para a empregada e avisou.
— Arrume as coisas dela, vamos embora.
*
Mas não foram.
Sakura quis ficar, ainda que enfurnada naquele quarto, completamente fora de estação por conta dos remédios.
Sasuke tampouco conseguiu sair ou força-la a algo, estava mais preocupado que ela ingerisse mais remédios do que devia, mexeu nas coisas dela até encontrar o cartão da terapeuta e conseguir alguma paz de espírito, sabendo exatamente o que e o quanto ela podia ou não ingerir.
Como já deveria esperar, os preparativos do casamento correram normalmente, e já podia ver a decoração do espaço onde a cerimônia seria realizada.
Dois grupos de fileiras de bancos de madeira brancos adornados com flores estavam em frente a casa, de costas para ela, um longo tapete branco com pétalas de rosa seguia até o altar com um arco arabescado de talos de flores, uma pista fora montada próxima ao rio, o som já estava sendo instalado, bem como as luzes, tochas iluminariam o resto do espaço, também voltado para a pista que serviria de palco para os tradicionais discursos de casamento, haviam as mesas para comer, e do bolo e demais guloseimas, claro.
Ele nunca quis tanto ser um delinquente de merda e estragar uma festa.
Algo que já ficou para trás a muito tempo.
E se ele tivesse estragado o casamento de Sakura? Ou se a tivesse puxado pra sala do zelador quando o pensamento de que pudesse haver uma química entre eles lhe passara pela mente?
Poderia, obviamente não seria o cara com quem ela ficaria pra sempre, mas poderia ter sido o cara que a faria amar a si mesma acima de tudo, e sua vida hoje seria mais digna, mesmo que nunca mais se cruzassem.
Mas eles eram só crianças de mundos diferentes, competindo pra preencher algum vazio, ele gostava de aparecer, e talvez sua vida fosse tão perfeita que houvesse necessitado criar um problema, e esse foi sua implicância com o jeito de Sakura. Enquanto ela, precisava de um bobo da corte, para irrita-la um pouco, e fazê-la esquecer que não estava vivendo, mas sobrevivendo a cada dia.
Mas o hoje era o hoje, o passado, inalterável. O futuro, incerto, angustiante.
Ele nunca achou que voltaria a sentir-se assim, com medo de encarar o amanhã, de não ser capaz de atravessar uma fase.
Sentiu que aprendeu a falta que um abraço e uma palavra de apoio poderiam fazer a uma pessoa. Sentiu que estava em mais falta com a própria família do que já imaginava.
Havia os decepcionado o bastante sobre sua escolha de vida, seu distanciamento do que era comum ao seu círculo, mas todos haviam compreendido e perdoado, aceitado seu caminho, respeitado suas escolhas, se orgulhado de suas conquistas.
E agora nem lembrava a última vez que apareceu em casa, no lugar onde crescera, que não fosse praticamente arrastado ou para uma ocasião especial, não lembrava a última vez que tinha abraçado sua mãe e ficado deitado com a cabeça no colo dela ouvindo-a cantarolar e bordar, ou quando saiu com o pai e o irmão pra ver um jogo.
E sabia, isso não era perdoável, Itachi tinha esposa e logo teria um filho, seu trabalho exigia viagens até pra fora do país e Sasuke era consciente da presença constante dele com os pais, inclusive sempre se sentia menos mal de comparecer por causa disso.
Havia escorado em Itachi uma responsabilidade que era dos dois, não bastando já ter deixado o peso dos negócios para ele.
Ele nunca saberia, e por causa destas pessoas maravilhosas, um quarto do que era crescer sendo ignorado, rebaixado, desprezado.
E sequer tinha tido a maturidade e gratidão de estar lá com eles com mais frequência.
Suspirou vendo toda a gente ir se sentar nos bancos, com olhares de expectativa voltados para a entrada da casa, de onde a noiva sairia logo atrás das damas, e resolveu ir até o quarto de Sakura, ver se ela já estava pronta e tentar convencê-la a apenas irem embora.
Passou, afagando a cabeça de Gibson e saiu no corredor vendo Ethan recostado na parede, fumando, o traje ainda um pouco em desalinho, os olhos avermelhados pelo efeito da maconha com uma expressão contemplativa e um tanto cínica, ele o fitou de lado.
— Ah, então você vai? – Indagou, quase zombeteiro, Sasuke adoraria lembra-lo que ainda era policial e que duvidava que essa maconha era pra uso medicinal, mas apenas suspirou, aborrecido.
— Não sozinho.
Ethan estreitou o olhar, captando a mensagem, e suspirou afastando o cigarro.
— Ela tem uma fibra do caralho mesmo. – Admitiu.
— Não tem mais nada, fibra alguma, ela só está seguindo seu roteiro. Ela cansou.
Ele balançou a cabeça, pensativo.
— Sempre seguindo o roteiro... Realmente cansa, cansa muito.
— Você também? – Sasuke zombou, sardônico. Ethan riu, achando mais graça ainda.
— Acha mesmo que somos diferentes? Também não somos filhos da Delilah, cara. Você acha que ter um pinto fez diferença? Você acha que eu sei o que é ser protegido? Fomos pra escola militar nem bem tínhamos pelo no saco. Ela não foi a única achar que se alistando, alguma coisa mudaria pra ele. – Ele ergueu a cabeça com ar cansado, e se abaixou pegando uma bolsa cilíndrica de estampa camuflagem, bem como as que Sakura tinha mas na cor verde, passou a alça sobre um ombro e seguiu pra escadas.
— Está indo embora?
— Todos estamos. Damon ficou tão puto que saiu ontem mesmo, mais um segundo e ele meteria bala na testa da Delilah. Ele teve um tempo ruim no Afeganistão, afetou a cabeça dele.
Sasuke já imaginava bem como.
— E você?
— Apenas seguindo, queria ver se algo mudaria no roteiro sem que tivesse de sair perdendo, mas, mais uma vez, ela venceu, e Liza agora tem tudo, oficialmente. Eu não volto aqui nem morto, Josh só vai ficar porque tá comendo uma das empregadas do buffet no celeiro, logo ele vaza também, então até mais.
— Muito longe dessa vez?
— Quanto mais, melhor. – Ele avisou, descendo as escadas. — Diga a Sakura que talvez eu apareça na Ação de graças, ela é chata mas tem o melhor recheio de peru.
Sasuke percebeu que isto era o mais perto que Ethan chegaria de dizer que gostava da irmã, e que eles eram tão fodidos para o amor quanto Sakura.
Seguiu até o quarto dela e bateu suavemente antes de entrar, Augustine estava na cama, mastigando uma cabeça de um boneco que provavelmente alguma criança esquecera lá fora.
Suas orelhas estavam enfeitadas com presilhas de flores, e estava mais perfumada que um bebê. Sorriu um pouco se aproximando para afaga-la.
— Hey, madame, você está muito bonita.
Sakura saiu do banheiro, e parou mais adiante, o fitando com os olhos aéreos e um sorriso frágil adornando os lábios tingidos de vermelho coral.
Seu cabelo estava penteado para trás, o vestido de corte sereia era vermelho profundo, sem alças, a cintura apertada, e uma suntuosa gargantilha de brilhantes adornava o colo nu, as orelhas e um dos dedos e pulso.
— E como estou? – Indagou, genuinamente interessada.
Ele enfiou a mão num dos bolsos, com uma cara desconcertada, quase constrangido.
Los Angeles era a terra das estrelas, onde ficava Hollywood, ele tirara fotos e fora a muitos eventos com estrelas do cinema e da música, tinha inclusive amizade de escola com um produtor musical de grande sucesso, e quando mais novo, foi affair de uma ou duas atrizes bastante conhecidas, isso ainda antes de mergulhar de vez na vida de policial e evitar aparecer nos grandes eventos que sua família participava.
Ainda assim, não se recordava de ter se sentido tão pra baixo, meio que um mero mortal, perto de nenhum grande nome que tivesse sua estrela na calçada da fama.
Mas aqui estava, nervoso que teria que de seguir até o altar junto dela, usando a droga do traje que usara no casamento do irmão, cinco anos atrás. Porra, estava na hora de renovar as roupas de gala para eventos como esse.
— Você está... — Inspirou. — Uau, realmente incrível.
Sakura se aproximou sorrindo suavemente e ajeitando sua gravata. Ele sentiu falta dela se gabar ou zombar, mas se conformou de ver um toque de divertimento em seus olhos apagados, o cansaço bem ocultado pela maquiagem, e acariciou seu queixo.
— Você está linda, chega a ser um desperdício...
— Porque? Quer me foder nele também?
Sasuke deslizou a mão por sua coluna e sorriu sensualmente.
— É uma proposta, majestade?
Sakura riu e ele a abraçou, então, foi como se os dois tivessem mesmo sobrevivido a uma guerra, com tanta coisa que ele percebeu sobre ela e sobre si mesmo, com a intensidade dos sentimentos e sensações que assistiram e dividiram.
Suaves batidas soaram na porta, e ele se afastou, puxando-a até lá.
— Está na hora, parceira.
— Okay, parceiro.
Lídia esperava do outro lado, num modesto vestido amarelo, o cabelo castanho ondulado agora solto lhe deixou mais jovial e seus olhos brilharam de admiração ao ver Sakura, ela pôs as duas mãos ao lado do rosto, emocionada.
— Oh, está tão linda, como uma estrela de cinema.
Sakura riu e ele concordou, Lídia suspirou, lamentando um pouco, ergueu o pequeno buquê de rosas brancas que a dama deveria levar.
— Já estão todos prontos lá em baixo, e vocês irão na frente. – Disse, em tom de desculpas, Sasuke assentiu, e fitou Sakura que aceitou buquê e por fim, o olhou de volta.
— Ponha seu melhor sorriso de puto, malandro, pra deixar essas peruas que não sabem gozar sedentas.
Sasuke revirou os olhos e enlaçou o braço ao dela, os dois seguiram com Lídia logo atrás zelando pela curta cauda de seu vestido.
— A única perua que quero deixar molhada é você, querida.
Sakura não respondeu, eles alcançaram as escadas onde o burburinho ansioso se calou.
Todos os casais já estavam a espera, Elizabeth, no fim da fila, sairia sozinha da casa, e seguiria dali em diante até o altar de braço dado com o pai.
Verbena e Constance se calaram parando de desamarrotar seu vestido e véu, Sakura olhava como se nada visse, estava anestesiada pelos calmantes.
Vazia demais pra se importar, era quase libertador, como flutuar acima do abismo após se jogar.
Uma hora cairia de vez, mas não seria agora, não na frente deles, e nem veriam quando se ergueria novamente.
Atravessaram a sala e se postaram diante da porta da frente, ele inspirou, esperando os empregados abrirem-na, olhou Sakura de lado, respirando calmamente, os olhos secos e altos, quase transparecendo paz de espírito.
As portas se abriram, a marcha nupcial tocada por uma pequena orquestra de violinos encheu seus ouvidos no momento em que o sol bateu sobre eles. Um fotógrafo e um câmera-man os cercaram, documentando suas expressões.
Sasuke quase não se moveu ainda vendo o efeito disto no rosto dela, nas joias que a adornavam, em seus olhos que ainda não tinham aquele brilho feroz e autoritário, mas que tampouco perderam a altivez, a majestosidade que a resumia.
Sakura deu curto passo à frente, e ele voltou pra terra, passando a acompanhar seu passo, desceram as escadas da varanda, Kizashi aguardava a noiva bem ali ao lado, os olhos fixos em Sakura, contemplando reflexivo e estudioso.
Sasuke quase quis apressar o passo, ficar longe dele, vê-lo o fazia pensar nas vezes que julgou Fugaku como um mau pai por ter magoado sua mãe. Quando a falha dele como marido, não havia maculado seu lado paterno.
Fugaku nunca os negligenciara, na época em que teve aquele caso com uma antiga cliente, tanto os negócios da família como o lado conjugal estavam passando por uma fase difícil. Ele cedeu a tentação uma única vez, ele mesmo confessara para Mikoto, mas ele nunca havia pensado que não era mais pai, como havia esquecido, por um momento,da aliança no dedo.
Ele era um bom pai, ele aprendeu com os próprios erros, e ele os usou para ensinar aos filhos, e ele poderia dormir em paz toda noite, pois não falhara em nada, mesmo que ele ou Itachi viessem a ser ruins, eles os amara, guiara, ensinara, e por igual, seu amor foi dividido e multiplicado, tal como Mikoto.
Eles seriam os pais perfeitos para Sakura, a cercariam com tanto amor que ela sufocaria e se afogaria de bom grado.
Mas ele também não podia trocar de lugar com ela mais.
Apenas seguiu em frente, segurando o braço dela com firmeza, ignorando os olhares e palavras sussurradas, engolindo e abstraindo a presença de Hidan num dos bancos junto de uma baixinha de cabelo castanho e olhos azuis, com uma barriga de cerca de seis meses, talvez.
Sasuke passou os olhos rapidamente sobre ela, vendo-a estudar Sakura de perto provavelmente pela primeira vez, e por fim, concluindo.
Ela era um reles sete perto de um verdadeiro dez que Sakura era, independente da idade ou personalidade.
Sendo assim, seguiu em frente, enfim chegaram ao altar, onde seguiram para a direita, o lado que ficavam os convidados e familiares da noiva.
Delilah estava perto do padre, engolindo a seco a todo momento como se temesse um terremoto ou tempestade, focando apenas quando Elizabeth finalmente cruzou o tapete junto do pai com uma daminha de honra logo a frente, levando as alianças.
O resto da cerimônia foi quase um apagão para ele, basicamente só prestara atenção quando assistira Gibson de longe roubando canapés de uma das mesas, e correndo dos empregados do buffet, Sakura o havia dado uma olhada de lado e ele fingiu que não tinha cachorro.
Infelizmente não apareceu nenhuma stripper que fosse amante de Simon protestando contra o casamento dizendo que estava grávida. E Sasuke se arrependeu de não ter pago uma pra encenar isso. Tornaria as coisas mais divertidas e Sakura não seria mais o alvo do falatório geral.
Isso o estava deixando puto.
Uma chuva de pétalas foi atirada sobre os noivos pelos convidados, e então todos começaram a se mover para as mesas ou para tentar uma foto com os noivos.
Sasuke estava ansioso para se sentar, e caminhou com Sakura até uma mesa perto da pista, ignorando a sessão de fotos da noiva com suas madrinhas e damas.
Ele relaxou na cadeira e repuxou a gravata, afrouxando-a e beliscando um canapé na pequena bandeja no centro da mesa.
Sakura permanecia encarando o nada com um sorriso vazio e curto como o de uma boneca, o buquê entre as mãos, sobre o colo.
Ela continuou observando o palco, onde um amigo de Simon, e seu padrinho, já subia portando uma taça de champanhe, provavelmente pronto para iniciar um discurso misturado a um show de comédia baseado na vida do noivo.
Ela se inclinou para o lado, na direção de Sasuke, e ainda com os olhos perdidos e o sorriso contracenado, murmurou para ele.
Sasuke a fitou quase sem acreditar.
— Sério?
Sakura assentiu suavemente encarando o nada e ele praticamente pulou da mesa, beijou seu rosto e saiu apontando.
— Fique aí, eu já volto!
E disparou para a casa, procurando apenas por Lídia.
Sakura acariciou as pétalas das flores, ouvindo o rangido característico da cadeira de rodas do avô.
Eduard se aproximou parando do lado dela, com um olhar pesaroso, ergueu a mão trêmula pela idade, e pousou sobre a dela.
— Minha querida...
Palavras suaves nunca foram o forte dele, nem tampouco Kizashi ou suas filhas aprenderam o que era gentileza e cuidado por mal terem conhecido a falecida mãe, também não buscou mais do que meras amantes ao longo da vida, e percebeu o erro nisso, quando Kizashi demonstrou nenhum controle da própria vida amorosa, focando-se apenas em uma mulher, entregando migalhas para as que lhe deram os gêmeos e Sakura. Talvez como pai, ele tivesse falhado em dar atenção por igual aos filhos, mas na posição de avô, amava todos os netos e observava seus defeitos e qualidades muito melhor que os pais deles.
Por sua causa
Havia tentado compensar um pouco com Sakura, mas o tempo acabando com sua constituição física e mental o tornara mais dependente e distante do que gostaria.
Agora a ultima mina finalmente explodiu, e ele só podia observar o estrago, sem sequer saber como dizer algo pra apaziguar as feridas e mutilações.
Afagou a mão dela carinhosamente, ainda procurando palavras.
— Eu... Eu sinto, sinto muito orgulho de você... querida. – Afirmou.
Eu não sei deixar alguém se aproximar de mim
O som da buzina do mustang novo de Sakura chamou a atenção de todos, interrompendo as risadas proporcionadas pelo padrinho dos noivos, e jogando a atenção para Sasuke, recostado no carro com as portas da frente abertas, no banco de trás, Gibs e Augustine já aguardavam.
Sakura inclinou-se na direção do avô e apenas murmurou, seus olhos sempre longe de qualquer um.
Por sua causa
— Eu sei. – Então se ergueu da cadeira, sua figura imediatamente tomando a atenção. — É o mínimo que podem fazer, é sua obrigação. – Completou, antes de contornar a cadeira dele, partindo com um breve aperto em seu ombro e cruzando o gramado na direção do carro. Deixou o buquê escorregar de seus dedos, sem a menor preocupação ou culpa, passou sobre ele.
Não havia mais nada ali para segura-la, e apenas o abismo abaixo de si.
Então apenas cairia e mais uma vez, tentaria sobreviver com o que sobrou.
Adentrou o carro mais uma vez, sem olhar diretamente para Sasuke.
E nem sabia se queria voltar a fazer isso um dia.
Ele já havia presenciado mais do que ela era capaz de expor.
Sentia-se desnuda da própria pele, sem casca ou armadura, o lado mais fragmentado e patético de si mesma, exposto como um show de circo.
Por sua causa estou envergonhada da minha vida
E mais uma vez, só lhe restava juntar os cacos de si mesma, tentar tira-los do piche.
E ir para o campo de confronto armada apenas com cacos, tentando fazer deles uma fórmula de coragem, uma arma de defesa.
Se é que conseguiria. Se é que ainda queria.
Por sua causa eu tenho medo
Por sua causa
Por sua causa
(Because of you – Kelly Clarkson)
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