Killer Queen
18 Rainha Fragmentada

Um mês depois.
Sasuke bufou pela quinta vez, movendo os olhos para as escadas e não vendo nem sombra ou som dos passos de Sakura.
Não sabia se ficava feliz ou mais puto.
Ter uma parceira mulher tinha tudo de bom até chegar ao fato de que seria uma parceira mulher, com suas crises de espinha, indecisão sobre roupas, maquiagem fora de momento, língua afiada e claro, aquele momento do mês em que o diabo resolver brincar de ser mulher e possuir elas, a maldita TPM.
Apesar de já morar com Ino e Karin a algum tempo, e ter sido obrigado a gastar com chocolates e sorvete vez ou outra, pra conseguir entrar em casa sem levar um tiro, ele não esperava que Sakura fosse ser um level tão fodido, na verdade era até estranho imaginar ela com TPM, porque ela já era uma TPM ambulante: Mal humorada, arisca, ás vezes muito emocional e implicante, ás vezes uma pedra de gelo.
Mas eleve isso a dez e misture todo numa coqueteleira.
E o próprio rei do inferno assume aquele corpo.
Nos últimos meses desde que ela veio morar com eles, ela sempre era apática nesses dias, suas cólicas eram bem duras e então ele a deixava na delegacia, onde poderia descansar melhor e ia trabalhar sozinho, o que até apreciava, ela comprava um mega pote de sorvete e reclamava da vida, do ex, dos vizinhos, dos outros inquilinos, dele, enfim, nada novo sob o sol, nesse ponto.
Mas esse mês não, ele não sabia se ainda era por conta daquela semana horrível no casamento da irmã, algo que ele ainda queria esquecer tanto quanto ela, ou se o “coisa ruim” realmente resolvera usar seu corpinho mesmo.
Um guardanapo dobrado errado era o bastante para deixa-la irada, a fazer sair xingando tudo e todos, Sasuke já imaginava que os degraus de sua escada estavam marcados pelos saltos dela. Ficou ainda mais neurótica com a limpeza, e todo mundo preferia se jogar pela janela do que cruzar seu caminho. Gibs e Augustine se uniram em prol da sobrevivência e usavam um cantinho entre uma estante e um sofá de madeira pra se esconder.
Já ele, estava afim de pega-la pela traseira e encher de tapas, posto que não era viável joga-la na cama e arrancar seu mau humor na base do orgasmo. Ele não gostava de gente gritado com ele, e Sakura era especialista, uma major, ótima pra gritar com recrutas e cuspir ordens.
Ah, e claro, ainda havia a surpresinha que tivera de Ino quando haviam finalmente chego do inferno, parecia que era a vez de Sasuke ser o torturado, porquê sua adorável pingentinho loiro resolveu adotar um cão, e não era da espécie que ele gostava, longe disso.
Sai estava hospedado num dos outros quartos vagos da casa, Ino o chamou depois que ele precisou sair do lugar que morava.
Sinceramente não sabia o que se passava na cabeça daquela coisinha de peitos deliciosos pra achar que havia alguma possibilidade de ele e Sai conviverem sob o mesmo teto, havia trocado de parceiro porque não o suportava.
Se não fosse o foco em Sakura, já o teria expulsado, Sai parecia tão afim de cair fora quanto ele de o ver longe. Mas já devia saber que ele era moleque demais pra dispensar a chance de fazer provocações, e Sasuke iria descontar cada uma em seu aluguel.
Sakura nunca foi tanto ao terapeuta como nesse mês, e ele ainda teve que quebrar o chip dela ele mesmo, não suportando vê-la ter crises de choro ou de raiva toda vez que alguém da família tentava contato. Ela parecia tão assustadoramente bem quando foram embora no meio da festa, que ele quase se convenceu de que ela ficaria melhor, mas ela só estava reunindo o ultimo suspiro de força pra sair daquele lugar de cabeça erguida, depois de ter cumprido sua parte da melhor maneira possível.
Talvez no fim ela tivesse perdido, mas ela continuaria imaculada pela pureza de suas condutas para com eles a vida inteira. Não importava se ela odiava a própria mãe que nem conhecia, ou a irmã super protegida ás custas de sua felicidade, ela não devia nada de bom para eles, mas não merecia carregar mais nada de ruim.
Precisava cortar absolutamente tudo sobre eles pelo máximo de tempo possível, se limpar, se filtrar, revigorar.
Mas ainda estava tomando remédios para dormir, e ele descobriu porque sempre acordava sozinho depois de fazer sexo com ela, enquanto estavam no rancho. Sakura evitava dormir com ele porque era ciente dos pesadelos, dos ataques de pânico que vinham com eles, o instinto matador se acionando e a tornando violenta durante o sono.
Havia deitado com ela para acalma-la, e impedi-la de dormir mais uma noite com remédios, no fim, adormeceu junto e despertou com suas mãos em torno do pescoço enquanto ela resmungava e rosnava em alguma língua árabe. Só escapou porque gritou com ela, rolou por cima dela e os dois baquearam no chão, sabia que se tentasse lutar, teria morte certa. Sakura era uma perita, ele só tinha o próprio peso como vantagem e mais lucidez.
Ela acordou zonza, mas não demorou a entender o que houve, nada foi dito, ela apenas se arrastou para debaixo da coberta, se embolando nela o bastante para negar companhia, e ele foi pra poltrona, onde ficou até ter certeza de nenhum pesadelo.
Não falaram nada depois disso, ele sabia que ela estava mais arisca ainda consigo, distante e emburrada, o evitando mesmo que ele visse em seus olhos aquele olhar desesperado que ela o deu no escritório de Kizashi.
Mas ela não dizia as palavras.
“— Por favor, me ajuda, eu não consigo mais.”
E era isso o que mais o incomodava. Ela fugir dele quando foi o único a ajudá-la, o empurrar fora quando deveria usa-lo de coberta emocional. Ele não estava reclamando, nem reclamaria, havia escolhido se meter mais do que devia e iria até o fim, mas ela estava escapando até de seu olhar, como se não estivesse sofrendo tanto quanto realmente estava.
O tique dos saltos soou do andar de cima cada vez mais alto.
— Juro que se encontrar outro rastro de água nesse corredor, vou afogar alguém no sanitário... Bando de filho da puta que não sabe usar nem uma toalha...- Os resmungos, claro.
Ele revirou os olhos.
— Bom dia, flor do dia. – Desdenhou, Sakura parou nos degraus mais acima, usava saia lápis até as canelas, preta e uma blusa de seda branca, onde as correntes com o distintivo e as dogtags pendiam. Novamente retesou, arisca com ele, não arriscou mais que uma olhada evasiva de três segundos antes de empinar o nariz e voltar a descer.
— Não me enche o saco, tô com fome. – Avisou seguindo direto pra cozinha.
Ele encarou suas costas com ironia. Claro, ah, se comida resolvesse tudo mesmo.
A blusa de frente única deixava suas costas bastante visíveis e ela improvisara um coque no cabelo curto e meio opaco, fios soltavam-se acariciando a nuca que ele tanto beijara, mordera e chupara naquele maldito rancho.
Aquele lugar se tornara uma lembrança agridoce, pela maravilha que era o sexo deles, como sua química parecia uma bomba nuclear, e as coisas que contribuíram para que nada mais rolasse até agora.
Bomba totalmente desarmada...
Sakura encheu uma xícara com café, sem lá muita paciência, ela jogou duas colheres cheias de açúcar dentro dela (ele havia feito o café, e ele ignorava o açúcar), seguiu até a geladeira e pegou um frasco de glacê, sob o olhar embasbacado dele, ela despejou uma montanha de glacê dentro da xícara, jogou canela em pó, e só então se sentou pegando o jornal e abrindo.
Sasuke contornou a mesa e se sentou, cansado e já afim de dormir de novo, sentindo que lidar com ela se tornara algo maçante pros dois, ultimamente.
— Ainda vai na festa do Boruto? – Indagou.
Sakura mudou a folha, inspirando. Ele desistiu da resposta e catou um pedaço de bacon no prato.
— É hoje, certo? Não me deixe esquecer de comprar o presente.
Sasuke se recostou, fitando apenas o topo de sua cabeça.
— É, certo. Também tenho que comprar, podemos ir juntos, quem sabe? – Arriscou.
— Quem sabe. – Ela retorquiu, sem interesse, ele suspirou já se perguntando porque havia esperado que a guarda estivesse mais baixa. Ela estava evitando até cruzar com ele, não iria prolongar qualquer contato além do que já tinham no trabalho.
Sasuke se ocupou de comer algo, não demorou para o resto do pessoal descer. Com Sakura e ele como assistente na direção da cozinha, todos acordavam uns minutos mais tarde tranquilos de encontrar o café pronto.
Ino veio já preparada pra cutucar corpos, calça jeans preta, uma blusa preta de uniforme da perícia, botinas e um boné, além de toda se achando com um par de luvas de couro de dedos cortados.
Agora ela também tinha carro, finalmente os pais dela, ricos organizadores de eventos e de uma floricultura, liberaram a grana do fundo de estudo dela.
Como eles queriam que ela seguisse o ramo da família, retiraram seus mimos e fecharam sua conta para os estudos, negando-se a auxilia-la na faculdade de medicina legal, ainda mais depois que resolvera trabalhar na polícia.
Ela se virou na época da faculdade com trabalhos de meio período desde garçonete á modelo, veio morar com Sasuke logo que conseguiu a vaga, e agora ele tinha orgulho de vê-la usufruir da aposta vencida com aqueles esnobes.
Eles apostaram que ela não ficaria dois anos no trabalho com corpos e crimes, e se ela perdesse, voltaria pra casa e assumiria o trabalho da família ao lado do irmão, se ganhasse, o dinheiro que lhe fora negado, seria todo seu para fazer o que quisesse.
Bom, a aposta venceu a uns dias, e agora ela estava de carro novo, armário renovado, deu presentes até para os cachorros e Sasuke teve que lhe prometer uma surra na bunda para que contivesse sua alegria e o cartão de crédito.
Ela tinha que guardar sua grana para o futuro dali em diante, em vez de gastar com bobageiras (não que tivesse desgostado da bela carteira nova que ganhou). Mas ele sabia que ela só estava feliz, não só pelo dinheiro, mas por conquistar o respeito e aceitação dos pais.
E esse sentimento ele conhecia.
— Por que já estão com essas caras de bunda tão cedo? – Ela indagou, saltitando como o bambi pela cozinha.
— Porque está saltitando tão cedo, bambi? – Sakura indagou, mudando a folha do jornal. Sasuke parou a xícara em direção a boca e encarou-a com olhar estreito.
— Credo, ai, querida, ainda está no ciclo? Oh, que dó. Quer um remedinho?
Sakura suspirou abaixando o jornal e separando as folhas como parecia ter se acostumado a fazer, Juugo sentou ao seu lado e ela deu-lhe a folha com as notícias policiais, Sui sentou do outro e recebeu a de quadrinhos, ela se levantou e seguiu para a pia onde deixou a xícara e ofereceu a parte de fofocas para a loira.
— Estou melhor, valeu, e aproveitando que as bonecas estão juntas, melhor lembrarem que a noite vou fazer compras com o PA, e como é quarta, nada de sumir depois do jantar, vamos ter reunião, agora que temos carne nova no pedaço. – Indicou Sai que acabava de entrar com o queixo.
Ele tinha cara de babaca até quando acordava, Sasuke perdeu a fome só de lembrar que teria de ver por um bom tempo, e se levantou levando prato e xícara para a pia e Ino já estava agoniada, como sempre que os dois entravam no mesmo cômodo. Sakura estava tão interessada que bocejou ante toda a tensão instalada.
— Whoah, sou tão importante assim pra fazerem uma reunião só pra mim? Tragam cerveja e Cheetos então.
— É uma reunião, não uma festa, filhote, mas se quiser pagar as bebidas, a gente aceita na humildade. — Sakura debochou. — Seguinte, como deve ter percebido, todo mundo aqui faz sua parte, e você também vai ter seu rabo utilizado.
— Prefiro pagar uma empregada. – Ele deu de ombros, sentando-se.
— Aproveita e paga uma casa também. É assim que funciona, não gostou, rala peito. – Foi sucinta, ele a encarou enviesado.
Ele não estava acostumado a ter seu rabo cortado toda vez que era cínico, Sasuke concluiu, com satisfação. Sakura era um Boss, que o pirralho ralaria até cansar e nunca passaria, afinal, irritá-la nunca era a melhor opção.
Ele jogou seu olhar venenoso para Sasuke.
— Pensei que você fosse o dono da casa. – Debochou, Sakura revirou os olhos e Sasuke devolveu um olhar despreocupado.
— Ela é uma dor no rabo, mas essa boquinha é bem útil, acredite. Concordo em número, gênero e grau. Não gostou, rala peito. – Deu de ombros.
— Ih, mermão, nem tenta. Esses dois se odeiam mas se unem pra serem tiranos com a gente. – Suigetsu avisou logo, Ino concordou prontamente. — Sasuke paga de reizinho e ela virou a general dele.
— Mais respeito, eu sou major. – Sakura avisou, rindo um pouco e seguindo até a geladeira onde deixou a lista que deveria ser preenchida bem como o pote onde deveriam deixar sua contribuição para as compras.
Acostumado, Sasuke pegou a jaqueta na cadeira, pois sabia que já estava na hora de irem. Eram os primeiros a levantar e a sair de casa.
— Tá mais pra rainha postiça. – O tom sardônico e seco de Karin ressoou pela cozinha, Sasuke quase torceu pra que Sakura nem tivesse ouvido, como ela sempre faz para lidar com a imaturidade de Karin ou qualquer outra pessoa quando sabia que era perca de tempo, ainda mais sabendo que teria de conviver com ela de todo jeito.
Apesar de chata, autoritária e agressiva, Sakura era mais diplomática do que ele imaginara, e ele entendeu porque, se ela fosse explodir a cada provocação ou injustiça que sofresse nas mãos da família, estaria num manicômio e não na Marinha.
No entanto, todo mundo resolveu calar a boca justo nessa hora, Sakura seguiu até a sala onde pegou as chaves do carro de Sasuke e a própria jaqueta, voltou a cozinha enquanto a vestia e fitou a ruiva ainda de pijama, uma blusa preta de caveira, apenas, que comia uma maçã displicentemente.
Antes que ele tenta-se um sermão, ou puxar a coroa, esta apenas seguiu para a porta da cozinha dando um olhar superior e provocativo a cada passo daqueles quadris arrasadores.
O que por si só já deveria ser um abate injusto.
— O que você esperava de mim, franguinha? Não é óbvio? Estou muito mais pra rainha, do que uma mera concubina.
— Okay, vamos trabalhar. – Ele cantarolou, apressando o passo para fora, Sakura revirou os olhos.
— Reizinho frouxoooo. – Cantarolou, Sasuke bufou e cruzaram o gramado até a garagem.
— Porra, qual é a necessidade disso? – Resmungou, Sakura lhe deu um olhar irritado e gélido ao entrar no carro. Aborrecido, ele deu partida e ligou a porta automática da garagem. Manobrou até a saída e pegaram a rua, mais carros passavam, levando gente a trabalho e crianças pro colégio, ele gostava de observar isso, usar isso pra se motivar, manter as ruas seguras para essas crianças todas.
— Ela está me afrontando. – Sakura cortou. — Não finja que não percebe isso.
Ele inspirou, apertando o volante.
Desde que a situação psicológica de Sakura foi exposta após aquele ataque de raiva, Karin ficou ainda mais avessa á ela, claro que os outros também ficaram mordidos pela omissão.
Mas não era da conta deles, não era nem da de Sasuke, ele sabia que ela estava ainda mais incomodada de estar exposta assim. Sakura tinha alma de soldado, se expor assim era como pedir um tiro na testa em meio a guerra. Então ela tem estado o mais na dela o possível, pra ninguém ter razão de reclamar dela. Mas Karin não estava ajudando.
E ele já havia entendido que não era ele o X da questão. Achara que ela só estava zangada por ele ter uma parceira gostosa depois de terminar o lance com ela, mas conversando com Ino, que era mais próxima da ruiva e menos tolinha do que podia aparentar, entendeu melhor.
Karin fora o tipo de menininha criada para ser sempre o centro, só tivera meninos ao seu redor então era a princesinha de todos da família. E Sasuke sabia bem como os Uzumakis eram grudentos e adoravam mimar os seus, Naruto se tornou bem mais maduro depois que namorou Hinata, ela fora criada cheia de exigências, amadureceu rápido demais até.
Já para Karin, tudo estava sempre bem desde que não tirassem o brinquedo favorito dela ou seu holofote, com Ino que era adepta do total desapego, ela nunca se importara de competir mesmo sabendo das transas casuais com ele pois sabia que Ino queria experimentar de tudo, apenas.
Já com Sakura, ela desconfiava que Sasuke havia a trocado por sua nova inquilina, mas principalmente, percebeu que Sakura não era uma mulher que chamava pouca atenção.
Era mais velha, então todo tipo de cara tinha um olho, era bem sucedida, carreira consolidada, era espetacularmente linda, elegante, refinada mesmo xingando tanto, e bem articulava-se sobre qualquer assunto que pusessem em pauta, era rabugenta, mas até era seu charme.
Ino a definia como uma meta de: “Vou estar feliz em ser metade dela quando crescer” para qualquer mulher.
Para ele era exagero, Sakura estava longe de ser perfeita, e suas qualidades não eram talhadas por capricho ou mimos, mas ás duras penas, metade dessas qualidades eram uma casca protegendo-a, mas ele sabia que era inegável o quão atrativo era pra quem não sabia da missa a metade.
Ela era uma rainha, fodida da vida, mas rainha.
Ou seja, Karin estava intimidada e arisca pois tinha ciência de que Sakura roubava qualquer holofote, era superior em quase todos os aspectos femininos que se podia reparar numa mulher. E todo mundo sempre estava ao redor dela de um jeito ou outro, ela era chata mas já tinha o mesmo trejeito de velho que ele estava pegando também: Dar conselhos, orientar, e aborrecer-se com as burradas dos mais novos.
Logo tanto ele quanto ela estariam dizendo algo como: “No meu tempo...”.
Era engraçado e depressivo ao mesmo tempo. Porra, ele faria quarenta em duas semanas. A essa altura já conseguia pensar apenas em se teria a sorte de não pegar nenhum caso que fodesse a possibilidade de ir comemorar tomando umas cervejas no Owen, e indo pra cama dormir enroscado em alguma belezoca carinhosa.
Oh, sim, nem precisava ser uma safada, um docinho pra lhe fazer cafuné e um boquete lento e manhoso já estaria ótimo.
Seria a crise dos quarenta?
Preferia focar agora no iminente embate de gostosas de gerações diferentes que sua sala seria palco, se não fizesse algo logo.
— Olha, relaxa. Sabe como ela é espinhosa, e imatura, Sakura, eles são novos, ainda querem afrontar qualquer adulto, okay? É natural...
Sakura bufou, aborrecida e já vendo que ele era incapaz de pensar com a cabeça de cima. Não achava Karin imatura quando a fodia, tinha certeza.
Homens.
Ela estava pouco se fodendo, só passaria por cima.
Ele estacionou em frente a delegacia, Sakura catou o coldre axilar sobre o painel e abriu a porta. Ele bufou percebendo seu gelo outra vez.
— Só estou dizendo que bater de frente com ela não vai fazer diferença...
— Bater de frente? Acha mesmo que estou?
— Sakura...
— Eu não tenho mais saco nem idade pra perder tempo “batendo de frente” com ninguém, Sasuke. Ela quer atirar em mim? Eu vou fuzilar ela. — Avisou, antes de sair e bater a porta.
Sasuke recostou no banco, esfregando a nuca, frustrado.
Por fim olhou para o porta-luvas e o abriu, vasculhando até encontrar um cartão, o dedilhou pensativo.
Talvez fosse melhor arriscar cortar um fio errado, do que nem tentar desarmar esta bomba de fragmentos de si mesma, que Sakura estava se tornando.
*
— Já tem o nome? – Sasuke indagou antes de atravessar as faixas amarelas que isolavam aquela parte do parque.
Olhou em volta avaliando o local da óbvia desova do corpo, enquanto Sakura já circulava com seus saltos pelo gramado em torno da mulher morta que Ino e Karui investigavam e fotografavam.
O policial retornou com uma carteira feminina nas mãos enluvadas e ele espiou a foto de uma mulher loira na faixa dos vinte cinco a trinta anos, pele bronzeada, cachos e exuberantes olhos verde caribenhos.
— Shonda Peterson, vinte e sete anos, já mandaram alguém ir até o apartamento dela.
— Okay. – Ele pegou um par de luvas e seguiu até o corpo, a pele antes bronzeada de Shonda agora apresentava a palidez da morte, usava uma saia fina da cor de seus olhos ainda abertos, uma blusa de botões também leve e com um rasgo no canto, amarrada a cintura expondo a barriga magra e o maiô que usava por baixo.
— O Kakashi vai gostar nada disso. – Sakura comentou, os braços cruzados. Ele mordeu a bochecha, entendendo onde ela queria chegar.
Há cerca seis meses, outras duas mulheres foram encontradas em situação semelhante a de Shonda, desovadas em locais discretos de pontos públicos de Los Angeles, mas entre si, elas só apresentavam essa ligação mórbida, Shonda era linda, e parecia gostar de ir a praia, a última garota antes dela era quase uma inversão sua, baixinha, gordinha, morena, pouco sociável e já na faixa dos trinta anos.
A primeira garota, tampouco parecia com as duas, uma jovem universitária de porte comum. As duas primeiras, mortas por esganadura e múltiplos golpes na cabeça, Shonda parecia ter sido apenas esganada, ela era esbelta, mas não o tipo que oferecia ameaça, duvidava que tivesse lutado muito. Todas pareciam ter sido pegas de surpresa.
— Algo sob as unhas? – Indagou, vendo que as dela eram longas e poderiam conter material genético do assassino.
Ino catou a mão dela e observou meticulosamente.
— Hm, acho que tem areia, vou saber no laboratório. – Declarou já catando o material de coleta.
Sasuke já imaginava que haveria areia, agora vai saber de que praia... eles não estavam exatamente próximos de lá. Se o fodido a pegou na praia mais perto, pegou sete quilômetros para desovar seu corpo ali.
— Hã... Sasuke. – Karui chamou, com um suspiro pesado. — Teremos um tempo ruim daqui em diante. Acho que ela foi estuprada.
Ele encarou-a aturdido, sentindo gelo e fogo nas veias tamanho o nojo e a revolta que o dominaram, as coxas de Shonda estava feridas e sujas de sangue seco.
Ele jogou os olhos para Sakura que o encarou tão aturdida quanto ele.
Ótimo, agora não tinham só um assassino serial cujo padrão de escolha das vítimas não conheciam ainda, o filho da puta também era estuprador.
E ele já sentia que as coisas estavam longe de melhorar.
Pois as duas primeiras vítimas foram feitas num intervalo de três dias entre si, e então passaram-se seis meses para que Shonda fosse a próxima. Se o desgraçado seguiria a própria cartilha, eles tinham apenas setenta e duas horas para achar o culpado, ou haveria uma quarta vítima logo.
*
— Quero imagens de todas as câmeras num raio de pelo menos três quilômetros da desova do corpo! – Kakashi esbravejou pela sala.
Sasuke estava ao telefone esperando Ino lhe passar os resultados preliminares enquanto Sai e Kiba estudavam o quadro de pistas com amostras dos dois casos anteriores ao de Shonda Peterson, definitivamente loucos para abocanhar o caso.
No que dependeria de Sasuke, eles só abocanhariam um chute.
Sakura estava diante da mesa repleta de fotos das cenas de crime, pistas, evidências e dos corpos, analisando-as como sublime atenção.
Ele não achava que ela conseguiria sacar algo, ela tinha experiência com casos de alta tensão e situações de risco eminente, como assaltos e sequestros. Ainda estava aprendendo a cartilha de investigador, revendo leis e tudo mais. Seguir os passos de um Serial Killer estava fora de seu campo de atuação. Mas admirou o esforço dela.
— Acha que deveríamos soltar algo para a imprensa? – Naruto indagou.
— Não enquanto eu não tiver algo além de três garotas mortas, quero qualquer pista desse filho da puta, de preferência um retrato falado ou uma imagem de câmera.
— Não seria melhor focar na autópsia? – Sai questionou.
— Ino disse que não encontraram material genético do cara na Shonda, o agressor usou algum objeto, mas pode haver algo sob as unhas dela. – Sasuke disse. — Acho que devíamos rever algo nos três casos, tem que haver um padrão entre as garotas.
— Talvez o padrão seja elas terem dado um bom fora nele. – Kiba opinou.
— Se houve um fora, alguém tem que ter visto. Ou ele é invisível? Se não houve, então as escolheu por algum motivo. – Kakashi declarou.
Kiba deu de ombros e olhou de esguelha para Sakura, entretida nas fotos.
— Com dificuldades aí, madame? – Indagou.
— Não tanto quanto suas bolas nessa calça apertada, cara. – Ela devolveu, sem perder o foco, o resto dos homens reparou suas calças jeans um tanto justas demais.
— Roubou essas calças do seu irmão de dezesseis anos? – Sasuke indagou, risonho, Naruto bateu em seu ombro, gargalhando.
— Ou talvez ele faça parte de uma daquelas boybands coreanas que as pirralhas adoram.
— Aquelas com uns setenta membros?
— Foco, vocês todos. – Kakashi avisou, embora menos ríspido que o esperado. Kiba se afastou com um olhar mortal, e Sai preferiu não tomar partido.
Konohamaru, o jovem parceiro de Naruto, adentrou a sala muito esbaforido portando o celular.
— Acabei de receber isso! – Apertou a tela do aparelho, logo um vídeo de câmera de segurança, mostrou Shonda caminhando pela calçada, cerca de duas horas da madrugada, o andar trôpego indicava que estava influenciada por alguma substância, provavelmente álcool.
Ela passou por um homem alto num casaco escuro de capuz, com um símbolo difícil de distinguir na imagem.
Ele passou por ela apenas observando-a quase desatento, no entanto, quando quase se trombaram, ele encarou seu rosto e congelou no lugar. Shonda continuou seu caminho atrapalhado enquanto o homem parecia inquieto no lugar, esfregando a cabeça, mas sem baixar o capuz, por fim, deu a volta a passo largo, apenas verificando o entorno ermo e seguindo os passos de Shonda.
Outro ângulo de câmera, mostrou ele empurrar a mulher para um beco. Eles já sabiam o que viria depois.
Kakashi encarou o jovem.
— Mande logo para a perícia, qualquer coisa logo.
— Okay!
— Vocês vão pra rua, perguntem á todo mundo.
Eles concordaram e Sasuke se voltou para Sakura, ela se ergueu da atraente posição em que estava antes, debruçada sobre a mesa, segurando três fotos e encarando com certa descrença.
— Verdes. – Exclamou.
— Hã?
— O que você notou? – Kakashi indagou, se aproximando dela ávido por uma dica. Sakura mostrou as três fotos que segurava para eles. Todas eram das garotas mortas ainda em vida.
— Só eu notei, que os olhos delas, das três, são verdes?
O olhar deles rapidamente pregou nas fotos, Kakashi as pegou de sua mão.
Leona Davies, a primeira vítima, tinha olhos verdes claros, com um toque de dourado, os de Alice O’Brien, eram escuros, quase cinzentos, mas perceptivelmente verdes para quem reparasse com atenção. E os de Shonda, um exuberante verde caribenho.
Eles olharam para os olhos verdes de Sakura, eles eram aquele verde vivo, claramente perceptível, vibrantes, que espelhavam perfeitamente sua personalidade altiva e reinante.
Só puderam concluir que fazia muito sentido se atrair por olhos dessa cor, bem como muitos se atraiam por loiras ou por olhos azuis.
Mas Sasuke só conseguia pensar que queria Sakura fora do caso, imediatamente.
*
— Você é muito idiota, na boa.
— Foda-se. Só estava preocupado. – Sasuke rosnou, pondo o cinto de qualquer maneira, Sakura riu meneando a cabeça.
— Está é paranoico...
— Não enche, Sakura.
— Ué, admita, você querer me tirar do caso por que tenho olhos verdes, é muito sem noção.
— Segundo a sua própria teoria, nem tanto. – Ele rebateu, ácido. Sakura revirou os olhos.
— Primeiro, é só uma teoria, segundo, sendo ou não, é risível você esperar que o assassino chegue em mim, quando tem milhares de garotas com olhos verdes por aí. Seria muita coincidência, não?
Sasuke bufou, inconformado, não negava que seria azar demais ela se tornar um alvo. Mas sabia que deveria esperar tudo do perfil indefinido de um serial, ele poderia ser tanto um babaca aproveitador, como um psicopata extremamente calculista e que inclusive estivesse assistindo o trabalho da polícia bem de perto, seja por precaução ou apenas por desdém. Ele não era o tipo que deixava uma mensagem, seu foco poderia ser realmente garotas de bonitos olhos verdes, como a dedução de Sakura sugeria, ou poderia ser outra coisa, ou outra mensagem que eles não foram capazes de captar ainda.
— Tanto faz, vamos dar o fora. – Sakura deu de ombros, embora até preferisse um pouco ficar mais tempo trabalhando, Sasuke a arrastaria pra uma festa de criança. Nem mesmo lembrava a última vez que esteve em uma, talvez quando ela própria ainda era uma criança.
— Você já comprou o presente? – Sasuke indagou, ela assentiu, havia comprado um no intervalo do almoço.
— Tá no seu porta-malas. – Sasuke lhe mandou um olhar aborrecido. Já devia esperar que ela daria um jeito de esquivar.
Mas vingou-se fazendo-a acompanha-lo até uma loja para comprar outro presente, não que tivesse perdido muito tempo de todo jeito, comprou um conjunto de taco de baseball de plástico e bolas além de uma camisa infantil dos Dodgers e um boné.
Seguiram direto para casa, por mais que fossem chegar atrasados, nenhum dos dois estava com disposição para encarar Boruto e uma possível horda de pestinhas semelhantes logo depois do trabalho.
Tomaram um banho rápido, já na sala, ele aguardou a senhorita perfeição, enquanto recebia mensagens de cobrança por sua presença.
— Ainda esperando? Eu poderia ir no meu carro. – Sakura comentou, enquanto descia escadas colocando um par de argolas douradas, finas e não muito grandes.
Ele guardou o celular, fazendo uma carranca e logo desmanchando-a para admirar seu modelito não muito esperado para uma festa de criança.
Ela vestia uma calça jeans justa, preta e, muito provavelmente um daqueles tais bodys, vermelho escuro bem como o batom, bem justo também, de alças finas e decote reto com bojo. Um fino cordão de ouro com um pingente de pedra em formato de rosa, pendia de seu pescoço bonito. E sandálias vermelhas de salto elevavam sua postura.
— Tudo isso? – Sakura o fitou aborrecida.
— Ah, sério que tá exagerado? Como eu deveria ir? Com roupa de princesa Disney ou coisa assim?
— Você não consegue escolher nada que não esteja entre agradar os pirralhos ou os pais dos pirralhos?
Sakura gargalhou e seguiu para a porta, catando a jaqueta e a carteira. Ela realmente não se trocaria? O que ela realmente queria? Fazer da festa um clube de luta livre entre donas de casa e pais de família?
Ela era tão sem noção ás vezes.
Sakura penteou o cabelo ainda molhado entre os dedos ao entrarem no carro, abaixou o vidro da janela para que o ar da noite ajudasse a seca-lo e Sasuke ligou o carro.
Os dois suspiraram de dó ao ouvirem os latidos e ganidos de Augustine e Gibson vindos do fundo do quintal. Até pensaram em leva-los para entreterem as crianças mas, sabiam que esse tipo de coisa alimentava nelas a vontade de ter um cão, e não queriam olhares mal-humorados dos pais delas.
Certamente se o pessoal da perícia técnica e científica conseguissem algo ainda hoje, eles poderiam deixar a festa mais cedo e voltar a caça ao assassino.
Incomodava-o deixar o trabalho num momento desses, para ir em festas, mas Kakashi garantiu que não poderiam fazer muito ainda com base em suposições, tinham de aguardar os resultados dos exames feitos e análises colhidas para terem algo mais concreto para montar esse quebra-cabeça.
Nem mesmo a teoria de Sakura, ainda que se comprovada, poderia ajudar muito. Afinal, a cidade estava cheia de mulheres de olhos verdes, ou pelo menos o bastante para que a possível próxima vítima fosse como uma agulha em palheiro.
Também havia prometido a Naruto e ao pirralho que estaria lá. E como suas vidas pessoais já eram bastante distintas, Sasuke não queria se distanciar mais do que já fazia, pelo próprio egoísmo e preconceito. Já lhe bastava o quão merda já se sentia por se manter tão afastado da própria família.
Havia ido visitar os pais uma semana depois que chegara do rancho com Sakura, foi como tirar um peso do peito, que nem sabia que havia, talvez fosse o temor de ter se tornado dispensável, que estivessem acostumados com sua distância e nem fizessem mais questão.
Mas sua mãe comemorou até demais e perguntou até demais o motivo de sua aparição repentina. Então ele passou a tarde falando amenidades com ela, olhando velhos álbuns de família e cada rosto nas dezenas de porta-retratos que haviam pela sala. Mikoto cozinhou o jantar ela mesma, uma surpresa que agradou o pai dele, Itachi, e sua rechonchuda Izumi. A galera inteira reunida para cobrar um compromisso amoroso dele.
Sasuke já deveria esperar que a vinda do primeiro neto não deixaria sua mãe satisfeita. Ela veio de família grande, nenhum irmão mas muitos primos e primas, amava ter crianças em volta. Nem bem Izumi se recuperasse do bebê que estaria dando as caras em algumas semanas, já teria a sogra cobrando mais.
Itachi tinha quarenta e cinco anos, Izumi trinta e um e essa diferença de idade incomodara muitos no começo. As pessoas sempre tendem a esperar interesse financeiro dessas relações. Ele também imaginou isso antes de conhecê-la.
Mas Izumi era a louca mais feminista que ele já conhecera na vida, tanto é que ele duvidou que daria certo justamente por Itachi, em contrapartida, ser um ultra conservador romântico. O tipo que adorava mimar sua esposa, pagar a conta do restaurante, e sustentar a casa.
Quase não casaram porque ela exigiu pagar metade de tudo. E ficaram separados dois meses quando ele insistiu que queria bancar o investimento para escritório de contabilidade dela.
Izumi era excessivamente teimosa e exagerada para se mostrar independente de Itachi ou qualquer homem, isso magoava seu irmão bastante, mas Sasuke entedia que esse exagero era também por ela não suportar a ideia de que achassem que estava interessada apenas no dinheiro de um homem quinze anos mais velho. Por isso acreditava que ela amava Itachi piamente.
Já ele mesmo, estava bem como estava, mais uma vez desapontando a mãe, só que ela estava muito feliz de vê-lo por lá para se demorar com cobranças.
Ele ia passar lá para comer uma lasanha ainda nesse fim de semana, mas temia que o caso novo o atrapalhasse, então ligaria para ela. Era chato desaponta-la agora que se dera conta de quanta falta fazia para ela. Mas tinha que lidar com o que ele mesmo provocou ao entrar nessa de policial.
A casa de Naruto não ficava muito longe, as boas condições das famílias de ambos, e que fizeram questão de presenteá-los com a casa, era espaçosa e acolhedora, numa rua segura em Echo Park, Naruto não era o marido mais rico da região, mas Hinata com seu trabalho de fotógrafa, era bastante requisitada.
A rua já estava bem apertada de tantos carros, os dois pararam a alguns metros da frente da casa, já podiam ouvir a gritaria das crianças e Sakura gemeu em desgosto resmungando algo sobre ele poder ir em frente dali em diante com os presentes. O que ele prontamente negou, mas cogitou deixarem os presentes na porta e sair de fininho.
— Vamos lá, ele não são tão ruins. – Incentivou, Sakura suspirou, tirando o cinto e saindo do carro, ele pegou o embrulho com o presente no banco de trás e destravou o porta para que ela pegasse o outro. Desceu do carro e se deparou com uma grande caixa com papel de presente vermelho e um laço branco.
— Que diabo você comprou? Um carro? Um Transformer?
— Trans- o quê?
— E ainda tenho que te levar no cinema... Vamos logo.
Os dois passaram pra calçada, caminhando ao longo dela, pararam diante do portão de ferro fechado, e Sasuke tocou a campainha.
— Oi, quem é?— A voz de Naruto soou do interfone intercalada com vozes numerosas e agudas, talvez TV ou música.
— Sasuke, idiota.
— Sasuke, o idiota?! Ah, claro! Já vai!— Sasuke bufou enquanto Sakura riu da sua pequena patada.
Não demorou muito para Naruto chegar e os receber com um chapéu de papel estampado coma cara de um bicho amarelo na cabeça.
— Fala, vagabundo! Pera, opa, é isso mesmo que estou vendo? Você trouxe mesmo a rainha pra minha humilde festinha? Pode entrar, majestade! – Ele fez toda uma reverência tosca, Sakura adentrou, revirando os olhos, cumprimentando-o cordialmente e Naruto encarou Sasuke com os olhos arregalados, depois que ela passou.
— Como diabos fez isso?! – Ciciou, Sasuke deu de ombros, não foi grande coisa. Eles já haviam combinado desde o casamento de Liza. Mas admitia que era estranho ver vossa majestade ali.
Iria era aproveitar para ver como ela se saía nessa.
— Eu sou demais. – Gabou-se, Naruto o fitou com desconfiança, pois sabia que pelo menos em se tratando de Sakura, não era o charme dele que garantia vantagem.
Seguiram para a entrada, todo o gramado em torno da bela casa de desenho modernista e cores pastéis estava bem iluminado. A sala de Naruto não estava diferente do habitual, apenas mais densa em população de pentelhos. Por mais organizada que Hinata fosse, com duas crianças pequenas e um marido com o cérebro de uma azeitona, não havia muito o que se fazer.
Sakura era muito elegante para demonstrar que queria dar a volta torcendo o nariz para aquela algazarra. A sala ampla estava abarrotada de brinquedos, a TV em volume alto passando Bob Esponja com uma horda de pirralhos entre quatro e sete anos sentados no tapete e no sofá com os olhos atentos, alguns narizes escorrendo e bocas sujas de pipoca.
No canto da sala onde ficava o bar, havia um escorregador de plástico colorido e uma pequena cabana montados onde as crianças escorregavam até uma pequena piscina de bolinhas que tinha mais bolas espalhadas fora do que dentro.
— Bem vindos ao paraíso. – Naruto avisou, risonho. Sakura encarou Sasuke com um “Paraíso pra quem?” no olhar. Ele deu de ombros e procurou pela cabeça loira do capetinha mor.
— Tio Sasuke! – Boruto gritou, vindo da casinha, ele desceu as escadas curtas e veio seguido de mais dois garotos, um com cara de tédio idêntica a do pai, Shikamaru e uma garotinha rechonchuda de olhos dourados e pele chocolate, que ele se surpreendeu de ver, mesmo vendo a mãe dela com tanta frequência.
Sasuke se abaixou pegando o anticristo no braço, Boruto era Naruto cuspido até demais, não entendia como Hinata aguentava ver duas fuças assim todo santo dia. Ele usava uma roupa amarela, ou um pijama de coelho, algo com um capuz que parecia imitar as orelhas do bicho.
Era até engraçadinho.
— Olá, pestinha, olá pestinhas. – Cumprimentou os outros dois. — Achou que eu não fosse vir?
— Sim, porque ouvi a mamãe falando que você prefere ir num clube de Stri-Stri... Striii...
— Okay, já entendemos. – Naruto cortou. Enquanto Sasuke revirava os olhos e Sakura não estava nem um pouco surpresa. — Agradeça seu tio pela presença e pela moça bonita que ele trouxe. Diz olá aí, minha criança. Sakura essa é minha cria, lindão não é?
— É a sua cara... – Ela disse, não exatamente num tom de elogio, mas era Naruto e ele ainda assim se envaideceu.
Se envaidecia de cada coisinha besta que aquele seu pedaço de carne fazia ou descobria.
— Oi, eu sou Boruto. – O menino acenou, fitando-a todo curioso.
— Oi, Boruto, bela fantasia de... rato? Sou a Sakura.
— Não é um coelho? – Sasuke opinou. Boruto inflou as bochechas e ajeitou o capuz sobre a cabeça.
— É um Pokemon, tio Sasukeee.
— Ah... tá?
— É um pokemon super daora. – Naruto revirou os olhos, rindo.
Sasuke deu de ombros e deixou Boruto no chão, deu o presente pra ele logo antes que lhe ameaçasse com a faca de cortar o bolo.
— Aqui o seu presente, camarada.
— ÊBA! – Sakura quase saltou para longe quando todas as crianças vieram para cima dele para conferir o presente, o menino rasgou o embrulho tão vorazmente quanto um leão rasgava a pele de uma corça.
Okay, isso foi hilário. Sasuke queria ter gravado a carinha dela. Naruto se arriscou no meio das ferinhas para controlar a empolgação ou alguém se machucaria.
— Uau! Que maneiro, cara! – O menino exclamou ao descobrir o taco de baseball e o boné. Naruto desdobrou a camisa enquanto as crianças conferiam as bolas.
— Olha só que camisa linda, filhão. Não quer tirar a fantasia e experimentar?
Boruto pareceu realmente tentado, mas por fim negou e arrancou a camisa de sua mão indo para as escadas seguido da pequena horda. Sakura se escondeu atrás de Sasuke apenas por precaução mesmo.
Naruto se levantou, com um suspiro.
— Droga, não foi dessa vez.
— Tipo o aniversário de três anos?
— Aham...
— A Hinata deveria parar de deixar você cuidar da parte de higiene dessas crianças.
— Vai se ferrar.
Sasuke riu, no aniversário de três anos, o tema era os Power Rangers, e Boruto já sabia quando usar seus poderes diabólicos de birra. Ele passou quase uma semana dentro da fantasia de Ranger vermelho, agora definitivamente ele seria esse tal de pokemon pelo maior tempo possível.
Hinata veio da cozinha, com uma bandeja cheia de mais pipoca, até estranhou a falta das crianças e deixou a bandeja sobre a mesa de centro.
— Onde estão? Ah, oi Sasuke, achei que não viria. – Cumprimentou-o. Sasuke apertou sua mão sorrindo de lado.
— É, eu soube. – Naruto bufou e ela não entendeu, obviamente, mas voltou-se para Sakura com simpatia.
— Ah, prazer.
— Prazer, Sakura. – O aperto de mão de Sakura era sempre bem firme, quase violento, Hinata massageou a mão ligeiramente e sorriu.
Sasuke quis gargalhar do óbvio oposto que as duas eram. Uma tinha modos de fada, a outra tendia a ser uma ogra.
— Hinata, Naruto falou bem de você.
— Estou lisonjeada, até porque não faria isso por ele. – Ela alfinetou. Naruto também provocava a rainha, antigamente.
Hinata sabia da história e concordou.
— Justo. Ah, querem alguma coisa? Temos refrigerante e pipoca, mas umas cervejas também...
— Cerveja. – Sakura e Sasuke avisaram logo.
O barulho de passos nas escadas encheu a sala e lá veio a manada de novo.
— Manhêêê. A Himawari acordou!
— Ah, isso não me surpreende... – Hinata lamentou.
— Olha o meu presente! Foi o tio Sasuke!
— Uau, um taco de baseball, obrigada, Sasuke. Vai ser incrível...
— Eu sei que sou o melhor tio, mas veja só, a tia Sakura também trouxe um presente. – Ele a empurrou para as feras e ela já entregou logo a caixa nas mãozinhas ávidas como se temesse perder a vida.
Porra, porque Naruto não estava filmando?
— Valeu, tia Sakura! – Boruto avisou enquanto trucidava o embrulho. Uma caixa ampla se revelou e Naruto engasgou bem como Sasuke nem se surpreendeu muito, vindo dela, e Hinata abriu a fechou a boca como um peixe. — Que maneiro!
Ele rasgou a caixa como se fosse nada até tirar a arma de brinquedo, um troço colorido com várias partes de encaixe e “balas”.
Boruto já começou a aponta-la pros lados embora não estivesse engatilhada ou coisa do tipo.
— Que legal! Olha pai! Agora posso brincar de polícia também sem aquelas armas de água!
— As armas d’águas são ótimas... – Hinata contrapôs.
— Mas isso é muito mais legal, mamãe! Valeu tia Sakura! – Ele abraçou suas pernas e Sakura quase saltou pro teto.
— Okay, okay, já entendi, de nada, vai lá brincar vai.
— A senhora é muito gata vou casar com a senhora!
— Ele tem mesmo cinco anos ou só passou tempo demais com o Sasuke? – Ela teve que indagar para a mãe.
— Açúcar também. Falei pra não dar sorvete pra eles ainda. – Hinata avisou ao marido.
Boruto só largou as pernas de Sakura quando ela disse que casaria com ele. Então correu para a cozinha com os amiguinhos indo direto para o quintal.
— Preciso de cerveja. – Sakura avisou logo.
— Claro, Sra. Poke-sei-lá-quê.
Ela só não o mandou se foder porque não queria soar ainda mais inconveniente. Percebera que sua escolha de presente não agradou lá muito os pais. Talvez devesse ter consultado Sasuke que era, surpreendentemente, muito mais safo nessa.
Hinata foi para o andar de cima buscar a pentelha menor e Naruto os levou até a cozinha, deu-lhes cerveja e mostrou a decoração amarela montada ao lado da piscina, a mesa estava farta de doces e um belo bolo quadrado de dois andares com bonequinhos decorando, haviam balões por todo canto e mesas com cadeiras.
Praticamente só eles, dentre os adultos, haviam chegado, alguns pais deixaram os filhos e viriam mais tarde após um banho descente pois mal haviam chego do trabalho. Naruto aproveitou Sasuke para montarem uma cama elástica e Sakura acabou virando a nova garçonete dos pirralhos, pois Hinata fora ocupada pela filha mais nova.
Algumas horas depois e a densidade de criança por metro quadrado s casa estava excedendo os limites de forma preocupante.
O consumo de açúcar também e Sasuke já estava vendo a hora de ter pentelho andando no teto. E pronto para chamar um exorcista caso isso acontecesse.
Como Naruto lidava com isso? Mas seu amigo estava tão tranquilo que dava medo também, considerando que até Hinata estava meio estressada.
A melhor parte era ver Sakura ser praticamente perseguida pelas meninas por ter cabelo rosa, e os meninos queriam ser sobrinhos dela pra ganhar aquele presente também.
Podia apostar que ela só teria pesadelos com pipoca, algodão doce, sorvete e anãozinhos catarrentos por umas semanas.
Mas hey, ela estava indo bem, não pirou e não fugiu, e Himawari gostou dela o bastante para ficar em seu colo o tempo necessário para Hinata coordenar melhor as coisas.
— Porque diabos está aí? – Ele teve que perguntar quando a encontrou sentada dentro da piscina de bolinhas com Hima entre as pernas, a cabeça cheia de chapéus de papel, o pescoço com cordões coloridos que piscavam e um adesivo de estrela na ponte sobre o nariz.
Mas principalmente, muito reflexiva.
Sakura piscou distraidamente e o fitou, dando-se conta e se achando bem ridícula.
— Acho que...? – Ele suspirou, ajudando-a a levantar, riu e puxou o adesivo de seu nariz, ela bufou, aborrecida e frustrada. — Acho que fui abduzida.
— Essa versão que mandaram de volta é engraçadinha. Diria até fofinha.
— Palhaço. – Ela resmungou, se livrando da tralha sobre si e pegando Himawari. — Venha aqui, princesa da baba. Sasuke é normal isso, né?
— Não faço ideia, mas até que tem seu charme... – Como que pra comprovar, Hima deixou uma longa coluna de saliva escorregar dos lábios rechonchudos enquanto os observava como seus enormes olhos azuis, a baba brilhante caiu no carpete e eles se entreolharam, concluindo que o efeito foi oposto.
— Toma pra você, toma pra você. – Sakura empurrou a menina pra ele e ele de volta temendo uma nova onda de baba o atingir.
— Nah, ela está bem com você...
— Hora da foto! – Naruto exclamou vindo até eles. Sakura conseguiu deixar a menina na mão dele e agarrou Boruto e Shikadai os braços com todo gosto.
Sasuke bufou e segurou a babona da melhor forma possível pra foto não sair com ele brilhando de saliva infantil.
*
— Uau, que bela garçonete temos aqui. – Sasuke ronronou. Sakura se voltou para ele com um revirar dos olhos, observou seus olhos caídos e o sorriso ainda mais cafajeste e bufou, tomando a garrafa dele.
— Mas é um fodido. Quem disse que podia encher o rabo de álcool? Era pra você me levar pra casa. — Sasuke deu de ombros se recostando de lado na bancada quase conseguindo convencer de que o fazia por preguiça e não porque já estava zonzo.
— Claro que vou levar, amor, eu que te trouxe. – Ela fez mais um revirar ocular e ele puxou seu braço, trazendo-a perto de si, espalmando a base de sua coluna e com a outra mão, acarinhou sua pele do braço. Observando seus estupendos olhos verdes, o pescoço bonito e os lábios vermelhos numa linha desconfiada e presunçosa.
— Inclusive queria levar você um pouco mais longe hoje, tipo a minha cama. Você ainda não conheceu meu ninho de pecado.
— Pft, quem disse que quero? E na atual situação, eu até te daria uma chance, mas só se estivesse bem chapada. – Sasuke não se ofendeu, trazendo seu pulso para o rosto, beijou lentamente sua pulsação, absorvendo o perfume da pele. — Mas, como alguém vai ter que dirigir... Prefiro te deixar na seca e voltar viva pra casa.
— Que tal uma rapidinha na dispensa? – Sakura lhe mandou um olhar aborrecido e Sasuke a trouxe mais perto, apertando sua cintura e beijando os dedos.
— Não fique assim, tão arisca, só quero quebrar o gelo...
— Aham.
— E uma rapidinha também... Mas tinha que dar um jeito, você não fala mais comigo. – Comentou, quase casualmente, Sakura entreabriu os lábios para contradizer. — Está fugindo de mim. E eu não sei se fiz algo errado realmente, se é algo como isso. Porque você não tem culpa de como está se sentindo, eu não queria que passasse por aquilo, mas te empurrei para lá.
Sakura suspirou, vendo-o aborrecido como um menino, amuado. Lambeu os lábios suavemente, sem saber como realmente prosseguir, e surpresa não só por ver que ele se importava a esse ponto, mas por estar sentindo-se até consolada com isso.
Passou o outro braço em volta dele, ligeiramente o envolvendo num abraço quente, Sasuke aspirou seu perfume do cabelo sentindo-se verdadeiramente embriagado, Sakura se afastou apenas o bastante para olhar seus olhos e então plantar um beijo longo em seu maxilar.
Ele reconheceu esse toque bem como ela reconhecia quando beijava o pescoço dela, sobre aquela bonita pinta que ela tinha. E se perguntou como pudera acontecer tão rápido, essa familiarização toda.
Sakura se afastou, afagando ligeiramente seu rosto e cabelo.
— Me dá um tempo. Não vai demorar...
Ele a segurou antes que se afastasse.
— Não disse que quero que se apresse. – Declarou, enfastiado.
Sakura selou sua boca suavemente.
— Vou fazer sua festinha de aniversário. – Disse, ele não sabia se já estava era delirando em bebida, mas viu-a se afastar com aquele olhar que o fazia querer segui-la para qualquer aleia escura, balançando os quadris quase como uma dança, e a garrafa de cerveja na outra mão. — Vai ser meu favor, então nada mais de bebida até lá, malandro. Ou vai ficar sem presente.
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