Killer Queen

13 Rainha abortada


Notas iniciais
Preparem os lencinhos pq a viagem vai ser depressiva

— Vocês são malucos. – Ino disse, enquanto afagava as orelhas de Gibson e lhe dava pedaços da pizza já fria que comeram a pouco.

Sasuke decidiu que o cão não apreciava excessivamente apenas companhia feminina canina, mas qualquer companhia feminina, estava no paraíso deitando no colo dela e recebendo afagos e pizza.

A vida do cão estava melhor que a sua...

Jogou os olhos para a Augustine, deitada em sua poltrona como se fosse a dona dela. A cadela de adorável só tinha a pose, era hostil com qualquer um que se aproximava, apesar que provavelmente sua maior irritação era a atração desenfreada que Gibs tinha por ela.

Hora o outra o cão a olhava quase sonhador enquanto ela mantinha-se num cochilo de princesa ou assistindo a tv.

Ela nem gostava de pizza.

De todo mundo, Karin e Juugo foram os únicos a desaprovar a presença dos cães, ou a optar que apenas um ficasse na casa.

Bem, ele poderia vencer se quisesse, mas não queria admitir que Augustine tinha um charme bastante efetivo com caras que não tinham quatro patas. Suigetsu a adorou até demais, embora umas mordidas nos dedos o mantivessem afastado.

E assim passaram-se duas semanas, e os cães se inseriram bem no ambiente, ou quase...

Sakura veio da cozinha usando um robe de cor champanhe e tecido bem fino que emoldurou seu traseiro quando ela seguiu para as escadas levando apenas uma grande xícara de chá, um bolo de correspondências que lhe correspondiam.

— Já vou deitar, boa noite pra quem fica.

— Já? – Ino disse. — Ainda nem passou o noticiário.

— Dor de cabeça. – Sakura avisou. — Augustine? Hora de deitar.

A cadela saltou da poltrona e subiu as escadas atrás dela.

Gibson ergueu a cabeça e as orelhas interessado, Sasuke se perguntou se as ancas de Augustine eram tão atraentes para ele quanto o traseiro arrogante de Sakura era para Sasuke, mas o cortou logo.

— Gibs, nem pensar. – Avisou.

O cão ganiu baixo, voltando a baixar a cabeça, Ino riu.

— Own, tadinho, está gamadinho nela, não é?

— Pois é melhor ele desgamar logo, aquela lá é tão metida quanto a dona. – Ele resmungou, Ino ignorou, afagando o cão.

— Está apaixonado, é? Bem louquinho? Veja, pelo menos você admite. – Cochichou com o peludo.

*

Sakura deixou a cadela entrar e ir se instalar na poltrona perto da janela. Sakura deixou a xícara sobre o criado, e se sentou na beira da cama, folheando os envelopes entre os dedos.

Por fim, eram algumas faturas de cartão de crédito e telefone, suspirou já pronta para se deitar quando notou um envelope de tom lilás suave, lacrado com uma gota de cera vermelha e um laço.

Largou o resto sobre a cama e direcionou a atenção para ele, havia apenas seu novo endereço nele, e seu nome, abriu-o e puxou um cartão dele, também lilás, com letras vermelhas escuro.

— Está convidada... – Leu, o ar sumindo de seus pulmões aos poucos enquanto memórias amargas e frias preenchiam sua mente.

“— Co-como assim não posso convidar todo mundo? Pai, é o meu casamento.

— Não precisa se preocupar com isso, as pessoas certas virão, e já decidimos que será um evento simples, não?

Não.

Nunca.

Eles nunca decidiram nada juntos.

Sempre ele.”

Sakura se levantou, da cama, e seguiu até a porta do quarto, abriu-a e assoviou, chamando a atenção de Augustine.

— Para fora, menininha, para fora. – Augustine saltou graciosamente da cadeira e saiu, parando no corredor a fitando, curiosa, Sakura fechou a porta, trancou, e a cadela arranhou a madeira, ganindo.

Ela se afastou da porta, amassando o convite entre os dedos, o cabelo entre os dedos, o ar faltava demasiadamente, muito para que pudesse conter o acesso de raiva que encheu seu sangue. Sakura se balançou, e repuxou os cabelos numa busca desesperada para não se deixar ir, seu peito palpitava, a adrenalina que geralmente apreciava sentir dominou seu sangue de maneira sombria, e ela queria poder chorar, o que era impossível, tudo se perdeu num segundo e ela não foi capaz de perceber nem em que momento o primeiro objeto chegou a sua mão, ou quando o atingiu a parede com ele.

*

Se estivessem vendo algum filme de ação, talvez não houvessem percebido, no segundo estrondo, todos saltaram do sofá, Gibson disparou escada acima e eles o seguiram.

— Que diabos?! – Suigetsu foi o primeiro a tentar chutar a porta com os dois cães latindo ao redor.

Sasuke o afastou, movendo a maçaneta inutilmente.

— Sakura? Sakura?! Pega a minha arma! – Ordenou para Ino que correu para seu quarto, Juugo jogou o ombro contra a porta também. — Sakura?! Sakura?!

Só podiam ouvir verdadeiros gritos de ódio, e todo tipo de material quebrando lá dentro.

Ino retornou com a arma dele, Sasuke checou as balas ouvindo o som cessar quase que totalmente.

— Sakura?! Abre a porta! – Ino bateu sucessivamente, ele a afastou com o braço, Suigetsu com um vaso em mãos, e Karin também armada o esperavam atirar na porta e chuta-la, ele adentrou cuidadosamente encontrando o quarto destruído, as cortinas estavam totalmente arrancadas, nenhum móvel havia ficado ileso, a penteadeira estava pendendo sobre três pernas, a cadeira havia sido estilhaçada na tentativa de derruba-la.

Karin verificou as janelas e Sui adentrou o pequeno closet, Sasuke seguiu para o banheiro onde viu os dois cães entrarem.

Puxou Gibson pela coleira e entrou, encontrando Augustine choramingando sentada perto de Sakura, ela estava encolhida no canto entre a banheira e o móvel de toalhas, havia sangue respingando de seu braço, e ela esfregava um pedaço de papel duro no chão, ele se aproximou e sentiu pisar em algo de vidro, abaixou-se e pegou o que sobrara de um porta-retratos de metal, olhou para a mão de Sakura e encarou a imagem com o rosto dela, espremida entre seus dedos.

Se aproximou, de seu corpo encolhido e trêmulo contra a lateral da banheira.

— Vai embora. – Ela ordenou. Sasuke puxou a foto amassada de sua mão, e ela abraçou os joelhos, escondendo o rosto entre eles.

Ele desamassou a folha sentindo mais pesar do que imaginava ser capaz por ver uma foto tão bonita estragada, mas percebeu um cartão junto dela, e relanceou um olhar rápido sobre a mulher antes de ler.

“ ... Convidada para festejar a união de Elisabeth Rosewood Haruno...”. Leu.

“— .... E então ela apareceu, quando eu tinha quatorze anos, ela era um bebê... Eu lembro que nunca vi meu pai tão diferente... Ele nunca foi aquele tipo de pai pra mim... Nem nunca seria...”

O convite era bonito, efusivo e delicado, o material do papel era caro e refinado, o palavreado pomposo era o bastante para dar certeza de que seria uma grande festa.

E principalmente, era um convite formal e nada intimista, muito simples e direto, considerando que era dirigido à irmã da noiva.

Quando Itachi anunciou que se casaria, Sasuke foi o primeiro a saber, e definitivamente não foi com ele que gastaram papel de convite.

Suspirou pesadamente, e a puxou daquele canto gelado, quase como se arrancasse algo enraizado lá, mesmo ela não lutando com ele, apenas tentando desaparecer naquele canto patético.

A puxou para si até envolver no colo, e se levantou.

— O que aconteceu? – Ino indagou, agoniada.

— Agora não, ela precisa descansar.

— Mas...

— Depois desse estrago, precisa mesmo. – Sui comentou.

Sasuke saiu do quarto, levando-a para o próprio, até a deixaria noutro quarto desocupado, mas estes provavelmente não estavam em condição de receber alguém mesmo que por uma noite, estavam fechados, empoeirados e abafados.

Deixou-a de um lado da cama e seguiu para fora, vendo os outros ainda olhando o quarto muito embasbacados.

— O que aconteceu aqui? – Karin lhe indagou.

— Ino, olhe o armário do banheiro, e veja se encontra algum remédio.

— Okay...? – Ela seguiu para lá.

— Ela teve uma crise. – Ele explicou.

— Crise de...? – Juugo disse.

— Acho que de raiva, não sei, ela tem um monte, uma porra de um monte de problemas. – Concluiu, sentando-se na cama exasperado.

— E como você sabe disso? – Karin indagou, cruzando os braços seriamente.

— Kakashi.

— Como é? – Sui disse, Ino voltou, segurando pelo menos três potes de remédios diferentes.

— Sasuke, o que é tudo isso?

— Ela não teve o melhor tempo nas forças especiais. – Sasuke confessou, agora se sentindo um tanto mal por ter escondido isso deles. Embora houvesse lido que as crises de TEI não eram premeditadas, ele havia ignorado que Sakura tinha capacidade real tanto de ferir a si mesma, quanto aos outros. — Transtorno pós-traumático, crises de raiva, depressão... Sei que acham que ela veio pra cá depois de sair do trabalho, mas pelo o que parece ser verdade, ela estava passando por acompanhamento antes de efetivamente sair e voltar pra cá.

— E você escondeu isso da gente?!

— Não era meu assunto nem mesmo saber disso. Kakashi passou informação sigilosa, a verdade... A verdade é que com esse histórico ela não deveria nem estar trabalhando na polícia...

— E por que está? – Disse Juugo.

— Bem, Kakashi tem dificuldade em aceitar como esses soldados são negligenciados pelo governo depois que deixam de ser “uteis”, e eu sei que ela está fazendo tratamento ainda, embora tenha preferido não comentar.

— Não parece estar surtindo efeito. – Karin reclamou, eles começaram a discutir, Sasuke esfregou o rosto, e encarou Ino.

— Sabe como funciona?

— Ela só deve precisar desse agora. – Ino lhe entregou um dos vidros, Sasuke o pegou, concordando.

— Chega pessoal, de qualquer forma não é da nossa conta. – Ele cortou, se levantando.

— Não é da nossa conta?! Olha esse estrago! — A ruiva explodiu, indignada.

— Tenho que concordar dessa vez, Sasuke. – Suigetsu declarou.

— Não importa o estrago, esse quarto é dela de qualquer jeito, não? – Devolveu irritado.

— E o que vai fazer quando ela explodir na sala?!

Culpa-la é que não vou!— Ele rugiu irado. — Inferno! Acha que ela tem noção disso?! Sabem o que diabos é TEI?!

— Eu sei o que é...

— Então sabe que não dá pra controlar! Eu estou puto agora mas sei o que estou fazendo, ela não! Então ponham seus malditos rabos no lugar dela antes de reclamar. Ninguém aqui iria gostar de ser tratado como lixo depois que saísse da polícia.

Sasuke seguiu até a porta, bufando.

— Eu não estou obrigando ela a ficar, e nem a acolhendo como um cachorrinho, estou sendo humano. Sakura sai se quiser, e isso vale pra vocês também. – Avisou.

Ele adentro o próprio quarto se segurando para não bater a porta com força, mas se arrependeu de ter entrado, por alguns segundos.

Sakura estava sentada na cama, e ele nunca achou que ela era capaz de chorar da forma que a viu chorar agora.

Soltou o ar sentindo como se o peso da casa estivesse sobre si e seguiu até a cama, vendo-a soluçar com um olhar que não tinha nem mágoa, nem raiva, nem esperança. Só desespero, dor e pânico como se buscasse nele alguma coisa que a acolhesse e parasse aquele fluxo infindável de lágrimas.

Ela se levantou cambaleante, ele a puxou, abraçando-a.

— Me desculpe, me desculpe, me desculpe foi sem querer. – Ela implorou, suplicou e se esgoelou de chorar como uma criança abandonada. — Foi sem querer, fo-foi sem querer.

Sasuke inspirou profundamente seu perfume e apertou-a contra si esperando que passasse logo, mas não passou, foi como uma eternidade no inferno.

Uma noite que ele queria muito esquecer e talvez o marcasse para sempre.

Ele sempre tivera noção de que, apesar de apoiar muito a liberdade sexual feminina, ainda tinha muito do conservadorismo encravado dentro de si, questões como aborto, por exemplo lhe davam náusea e não sabia se seria capaz de lidar com uma mulher capaz disto apenas porque não queria engravidar.

Em situações como estupro, ficava tão dividido e indignado que preferia se manter longe, repudiava com todo seu ser o ato cometido contra a mulher, mas mesmo sabendo ou tendo tanta noção do impacto que causava nas vítimas, ainda não conseguia aceitar que uma criança pagasse pelo trauma cometido contra a mãe e pela desgraça que o pai era.

Uma criança era uma criança, para ele, vida era vida, não lhe importava quantos cientistas viessem dizer que era um amontoado de células e outras baboseiras.

Mas a questão era, nunca havia pensando nessas crianças, que por acaso, nasciam das mães que não queriam ser mães ou, apenas eram criadas por pais que não queriam ou sabiam ser pais.

De certa forma, pensava tanto que elas mereciam o direito à vida, que não pensava se era uma vida digna, com afeto, proteção, saúde e condições.

Agora sabia, que nem toda criança que tinha o direito à vida, tinha incluído o que também deveria vir sempre com ela.

Pois chegou a pensar que teria sido melhor para Sakura, se ela não tivesse nascido.

Pois não importava quão mais velha e viva ela estivesse em seus braços agora, ela era uma criança abortada, afetivamente, pela mãe e pelo pai. Uma criança que apenas nasceu, que ganhou a vida apenas por ganhar, um direito dado talvez até a contragosto, pois foi criada e mantida assim, como menos que nada.

Notas finais
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