Killer Queen
3 Rainha Traumática
Notas iniciais
Havia um corpo num beco entre um supermercado e uma loja logo pela manhã.
Sasuke se moveu de casa direto para lá, a noite tinha sido desconfortável e um pouco sufocante.
Passou numa lanchonete e comprou pretzels e um copo com café forte, chegou na rua um pouco cheia de curiosos, desceu do carro e caminhou até o beco agora bloqueado por faixas amarelas e onde apenas a polícia e perícia passavam.
— Hey, Sasuke? – Ino acenou, o longo cabelo preso para trás, usando boné e colete com o nome do departamento de perícia criminal, as mãos envolvidas em luvas grossas de borracha azul que ele evitou na hora em que vieram pra cima de sua comida – Qual foi?
— Tava pegando em defunto e vem pegar na minha comida? – Ela se encolheu um pouco, as bochechas corando como uma garotinha.
— Desculpa.
— Nojentinha.
— Eu só medi a temperatura tá?!
Sasuke evitou-a mesmo assim, passou por baixo das faixas e olhou em volta, já percebendo que estava ainda sozinho.
Não sabia se achava bom ou ruim. Não queria lidar, o que foi egoísta até.
Ele sabia que era egoísta.
— O que temos aqui? – Indagou, parando perto do corpo, um homem largado no chão sobre a barriga, calça jeans, camisa xadreza, rosto pálido e lábios roxos, uma grande poça de sangue se formava no chão, minando do buraco em sua cabeça e peito.
Karui, colega de perícia de Ino, se abaixou ponto uma placa com um número perto de um cartucho de bala, e fotografando.
— Homem latino, ferimento a bala na cabeça e no peito, morte por volta das duas da manhã. Levaram a toda a grana da carteira, só acharam o corpo pela manhã quando foram atirar o lixo fora.
Sasuke assentiu, olhando em volta e estudando o local e foi quando viu Sakura se abaixar e passar por baixo das faixas. Ela usava um jeans azul claro que deixava suas pernas fantásticas, e botas militares bem sujas, uma blusa regata branca e casaco militar estilo camuflado, mas em padrão de cores azul e cinza escuro, com capuz, em seu colo tilintavam as dog tags e ele sentiu náusea de novo.
Seu cabelo estava uma bagunça, e no quadril pode ver o brilho do distintivo e o coldre.
— Atrasada. – Disse, embora tivesse soado menos exigente do que gostaria, ela o fitou de lado, aborrecida e sonolenta.
— Trânsito ruim.– Rebateu, também não muito interessada em ser grossa, voltou os olhos para o corpo e ergueu o queixo, indicando – O que o rapaz aprontou?
— Aparentemente estava no lugar errado, na hora errada e com grana – Sasuke disse, e então encarou-a ao vê-la pegar um pretzel da sua caixinha e mastigar.
— Que foi?
Ele suspirou, e se voltou para ela.
— Muito bem, vamos começar, e começar do jeito certo.
— Lá vem merda...- Ela suspirou, mastigando outro pedaço.
— Olha, começamos com o pé ruim, tá? Já nos conhecíamos e achamos que podíamos falar merda como antigamente, mas somos adultos, não? Vamos agir como adultos, e fazer nosso trabalho, vou ter que contar com você e você comigo, não tem jeito, sim?
Sakura suspirou, assentindo e revirando os olhos.
— Tá, só não me fica enchendo o saco, eu preciso ao menos do primeiro salário, então se quiser um tiro no rabo vai ter que esperar um pouco mais – Sasuke riu da sua petulância.
— E eu não quero ir pra uma unidade mais longe de casa ainda, então se quiser umas palmadas peça, não provoque, okay, majestade?
Sakura o olhou de lado, obviamente continuava a odiar que a chamasse de rainha ou tratasse desdenhosamente como tal.
Então forçou um sorriso falso.
— Claro, parceiro, ah, e obrigado.
— Pelo quê? – Ela puxou o copo de sua mão e se afastou.
— Pelo café, que gentileza, nem parece você, malandro.
Sasuke sorriu falsamente de volta, com a mão livre, só queria apertar o pescoço dela e soltou o ar, Sakura se abaixou perto do corpo e analisou enquanto tomava café, como se estivesse lendo um jornal ou vendo TV.
Karui a fitou de lado enquanto recolhia evidências na roupa da vítima.
— Oi, sou Karui.
— Percebi.
A garota piscou, confusa.
Sakura suspirou e indicou seu colete.
— Mas aqui só tem primeira letra e sobrenome.
— Hum, você tem cara de Karui.
— Oh, jura? Mas é um nome tão estranho.
— Por isso mesmo. – Ela disse, já em tom de que queria cortar o assunto. – O que aconteceu com ele?
— Provavelmente assalto, ele reagiu, o cara estava sem paciência e claro, nenhuma humanidade...
Sakura se levantou, contornando o corpo, tirou as chaves do bolso da calça, e mexeu na gola da camisa do rapaz, afastando-a um pouco.
— Só levou a carteira?
— A carteira ficou, apenas o dinheiro e celular.
— Qual o nome dele?
— James José, latino e por enquanto, sem ficha criminal – Sasuke disse, já com as mãos enluvadas e segurando a carteira do cara – Sem tatuagem de gangue?
— Nada visível ainda – Ino disse, retornando – Hey! Você é a fuzileira?! Prazer, Ino Yamanaka!
— Oi.
— Credo, curta e grossa mesmo – Ino riu.
— Faz seu trabalho, Yamanaka – Sasuke cortou, e ela deu-lhe uma cotovelada.
— Não enche o saco, senhorio! Ah, e como está indo com esse cara aqui, hein? Espero que ele não te tire do sério também – Alfinetou, Sasuke revirou os olhos, e mandou um olhar cínico para Sakura ainda ocupada visualizando o corpo.
— Sakura me conhece bem, acho que vamos nos dar muito melhor do que imaginávamos, né, majestade?
Ino o fitou impressionada.
— Você tratando uma mulher assim? – Ele fechou a cara.
— Não, enche, pirralha, é apelido de escola, estudamos juntos.
— Oh? Jura! Que maneiro! Aposto que transaram pacas, hein?
Karui tossiu, e Sasuke bufou enquanto Sakura, foi a única a achar alguma graça.
— Com esse poço de DSTs?
— Hein?
— Vai se foder, Haruno.
— Não com você. – Ela desdenhou – Hey, procure a família do cara, tem merda em baixo desse tapete. – Disse, se aproximando dele.
— O que foi?
— Como um cara assalta e leva apenas a grana?
— Oh, levaram os cartões também! – Ino disse, empolgada.
Sakura meneou a cabeça, e depois coçou-a.
— Eu ando meio por fora da moda... Mas aqueles tênis são chamativos e me parecem caros. – Apontou, Ino logo contornou até o corpo e se abaixou, espiando junto com Clair.
— Whoah, falsificados? – Karui exclamou, Ino negou.
— Não mesmo.
— E ele tem uma correntinha de ouro.
— Talvez estivesse com pressa demais. – Sasuke opinou, dando de ombros.
— Eu te aponto a minha arma, cara, eu te deixo pelado se quiser. – Sakura declarou.
— É um convite, uma ameaça? – Ele provocou, as duas mulheres riram e ela apontou o dedo em forma de arma pra cara dele.
Sasuke logo sentiu ímpeto de amassar o dedo dela. Esse tipo de coisa o tirava do sério fácil. Qualquer intimidação o deixava fulo, mas apontarem o dedo em sua cara era pedir um olho roxo.
— Olhe em volta, o que você faz? – Ela disse ele inspirou, contendo o gênio.
Ela era um robô, ela estava focando no trabalho, foque também, pensou.
Não estavam mais no colegial.
E não podiam desdenhar e diminuir a opinião um do outro.
Fez o que ela pediu, e entrando na encenação, ergueu as mãos.
— Olhe de novo, está escuro. – Ela disse.
— Está?
— Duas da manhã é dia pra você?
— Okay, não.
— O poste da frente é uma merda, a luz dali da porta dos fundos é muito fraca.
— Como diabos sabe disso?
— Bati uns papos antes de chegar aqui.
— Que lindo, fez o trabalho mesmo?
— Eu vou meter uma bala no seu rabo, malandro.
— Prossiga, Sherlock. – Sasuke falou, cruzando os braços.
Ela inspirou e olhou em volta.
— Luz fraca, não dava pra ele identificar, mas acho que o fez sim, o tiro foi bem certeiro, cabeça e coração.
— O cara tinha experiencia? Os caras são bem malvados por aqui e não faz pouco tempo.
— Se tinha tempo pra bancar o matador profissional, tinha pra ganhar mais, os tênis são caros pra cacete, tem uma corrente de ouro, e só deu ao trabalho de levar a grana da carteira?
— Pressa? – Sakura avançou um passo, deixando seu rosto, poucos centímetros mais baixo, de frente com o dele.
— Se estava com pressa, porque ainda tirou a grana e os cartões e deixou a carteira?
Ino e Karui que até então observavam como expectadoras ansiosas, pararam para encarar o corpo e refletir.
Sasuke manteve os olhos nos dela.
Bem como antigamente.
— Talvez ele mesmo tenha tirado para entregar...
— Ainda não bate com a suposta pressa do nosso amiguinho matador, certo?
Ele suspirou, tendo que concordar, era meio difícil, porque não estava acostumado a concordar com ela, sempre se resumiu em ir contra ela, mesmo quando ela estava certa e ele perdia, ele nunca aceitava a razão.
— Okay, o que sugere?
— Ele conhecia o assassino, o assassino não teve pressa, o assassino não queria o dinheiro.
— Levou pra despistar. – Ino concluiu.
— O bairro é violento, ninguém liga muito pra um latino morto num beco, certo?
— Se for de gangue então...- Sasuke suspirou.
— Ainda não sabemos se ele é, provavelmente já foi, aqui não tem boates, nem pontos de venda de droga, certo? – Ele assentiu. – Ele estava indo pra algum lugar, talvez uma festa, tava bem arrumadinho. – Sakura disse, voltando-se para o corpo – Ele era gente fina, ou pelo menos tentou ser, alguém continuou não gostando dele.
Sasuke se abaixou ao lado dela, e voltou a contar todos os fatos e possíveis circunstâncias.
Então suspirou, e se levantou, encarando Ino.
— Fotografe tudo, mande o corpo pro Shino o mais rápido possível. – Devolveu a carteira para ela – Me mande o endereço dele e mande checar os antecedentes de novo – Ela assentiu e ele se afastou – Vamos lá, majestade.
— Já vai vagabundar, malandro? – Sakura resmungou, ainda que o seguindo.
— A gente vagabundeia mais tarde, eu posso de ensinar, vamos falar com umas pessoinhas, parceira.
— Que vagabundo, você.
— Seu vagabundo favorito.
Ino observou os dois se afastarem e ultrapassarem as faixas, trocando xingamentos como se trocassem informações comuns, ou elogios.
As coisas iriam ficar mais interessantes do que imaginava. E adorou.
֍
Sakura largou o traseiro no banco do bar, de uma forma ruidosa que ele se perguntou se ela não sentira dor. Mas, lembrou que era um dos locais em que ela mais tinha carne para servir de proteção.
— Cansada? – Provocou, ela lhe mandou um olhar irritado.
— Vai sonhando, malandro, corria quilômetros por dia carregando peso pra cacete, acho que estou achando é leve demais. – Resmungou, ele assentiu, olhando o cardápio de bebidas.
— Deve ser um ritmo bem diferente mesmo, você saiu a quanto tempo...? – Jogou.
— Uns meses aí.
— Cada volta pra casa deve ser incrível.
Ela torceu um pouco a boca.
— Não é como ser policial, você volta pra casa feliz de voltar. Soldados só se sentem inúteis. Como ferramentas quebradas, tem cerveja?
— Tem sim. – Ele lhe passou o cardápio, Sakura o visualizou sem muita paciência.
De repente foi como se tivesse perdido a paciência, esfregou o rosto, se levantou largando a folha.
— Estou saindo me liga se tiver algo que preste pra fazer.
— Não vai tomar nenhuma? – Não era que ele fizesse grande questão, ainda era estranho se ver sentado num bar falando com Sakura Haruno, mas notara seu estado caótico melhor do que ela própria. – Bebe alguma coisa aí, daqui a pouco chega mais gente, certo?
Sakura quase voltou, mas de alguma forma, encarar o banco do bar a deixou perturbada, ela coçou a cabeça, xingou baixo e por fim negou, indo embora.
Sasuke observou-a passar pelas portas, se levantou e saiu lá fora, vendo-a sumir a passos rápidos na calçada entre toda aquela gente.
Inspirou, e seguiu para a entrada, pegou as chaves que deixara sobre o balcão e seguiu para a porta.
— Aí, já chegou?! – Suigetsu disse – Cadê a parceira?
Naruto estava com ele, bem como Ino que tagarelava com Karin, Juugo, e até Shikamaru.
— Eu tenho que ir.
— Ué, mas pra onde? Cadê ela? – Naruto disse – Ah, cara cê já furou comigo o bastante!
— Agora não, Naruto, tenho que resolver umas coisas.
— É sobre o caso de hoje? – Ino disse.
— Meu assunto é com o Kakashi, okay? Até logo. – Cortou, impaciente e seguindo para o carro.
— Não vai perder o emprego! – Sui gritou – Vamos beber, galera.
Sasuke destravou o alarme e entrou, ignorando Karin perto da porta, bem como ela fizera ultimamente.
— Está tudo bem? – Ela indagou, um pouco retraída e mal-humorada.
— Está. – Ele disse, fazendo o carro pegar.
— Está meio estranho, a briga com o Kakashi foi ruim? Ainda é sobre o Sai? A tal parceira é tão ruim...
— Eu tenho que ir, Karin.
Sasuke deu partida e seguiu em frente, contornou a esquina e deu uma volta no quarteirão, mas não viu Sakura pela rua, e desistiu, ela devia ter pego o metrô, ônibus ou taxi.
Ele tinha mesmo era que entender o que diabos Kakashi queria dele afinal.
֍
— Vai rápido, caralho, vai!
— Cala a boca, cacete!
Sakura parou, suspirando ao ver os dois vagabundinhos tentando arrombar a porta do velho Mustang 69. O que segurava um pé de cabra, quebrou a maçaneta da porta e ela sentiu novamente a impaciência lhe chegar ao pico e caminhou até eles.
— Ei, vagabundo. – Chamou, eles se afastaram do carro num salto, e o que estava com a ferramenta avançou nele, Sakura chutou seu joelho, e depois o joelho, desviando e o deixando cair na calçada, urrando de dor.
O outro, sacou um canivete avançou.
— Velha cade-...- Ela acertou a junta de seu ombro, o fazendo se afastar com um berro, e acertou seu nariz também, fazendo sangue esguichar.
— Vão infernizar a vida de outro infeliz, bando de merdinha. – Ordenou, os vendo se levantarem cambaleantes e se afastarem, um mancando e o outro segurando o nariz com uma expressão furiosa.
— Eu vou te matar sua cadela maldita, vou te matar!
— Não mata nem a fome, bostinha, aparece aqui de novo que te mando direito pro necrotério.
Eles sumiram na esquina aos gemidos e xingamentos, ela, se voltou para a porta e encarou o estrago com aborrecimento. Pegou o pé de cabra e entrou no carro, largando-o no banco da frente, tirou a jaqueta e ela foi seu travesseiro aquela noite, o banco de trás, a cama.
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— Pode entrar. – Kakashi disse, ao que ele batera na porta.
Sasuke entrou, vendo o homem de pouco mais de cinquenta anos, debruçado sobre relatórios e uma xícara de café ao lado.
— Sasuke? – Ele o encarou com estranheza – Algum problema?
Sasuke largou a pasta na mesa e o encarou.
— O que queria com essa?
Kakashi inspirou, pegando a pasta e guardando.
— Imagino que tenha lido tudo. Tenso, não?
— Tenso? Esta é uma merda enorme! Por que diabos trouxe-a pra cá? Como diabos a contratou? Ela tem TEPT! Sequer deveria ser contratada!
— Ela foi tão mal hoje? – Sasuke rosnou entredentes, se afastando da mesa antes que a chutasse.
— Essa não é a questão.
Kakashi sorriu mais que satisfeito.
— Ótimo! Eu sabia que ela era capaz, só precisava de uma chance, todos precisam.
— Não cabe a você! Cabe a especialistas...!
— Especialistas? – Kakashi o cortou, sombriamente. – Você quer dizer os mesmos que deixam ex fuzileiros desempregados, mutilados e doentes todos os anos mas são os primeiros a lavar a cabeça destas pessoas e as transformar em máquinas de matar? Os mesmos que deixaram seu tio Obito completamente perdido e amargurado? Que o deixaram se matar em nome de uma guerra que só enche os bolsos de gente podre que canta pela bandeira na TV todos os dias? Esses especialistas, Sasuke?
O Uchiha o encarou, estupefato.
Obito era um nome que ele não ouvia com frequência nem em seu meio familiar. Seu tio mais velho foi fuzileiro, lutou na guerra do Golfo, ganhou medalhas e mais medalhas, mas também marcas irreparáveis que, no campo de batalha eram sinônimo de orgulho, mas, na vida normal, de volta ao lar, no meio social comum, foram responsáveis por seu afastamento e isolamento e contribuíram para um quadro de depressão cada vez pior.
Sasuke não lembrava muito do tio, sua personalidade antes do exército, era-lhe desconhecida, mas lembrava do homem com uma horrenda cicatriz de um lado do rosto, cujo outro lado sempre lhe dava um sorriso fraco, quando raramente aparecia, às vezes trazia um brinquedo, e então, de repente, havia parado de aparecer, todo mundo se reuniu e usou preto, falavam de coisas e termos que ele, talvez não entendesse mesmo agora, lamentavam e então, o deixaram lá atrás, no passado. E seu nome se tornou um tabu.
Sabia que Kakashi e Obito se conheciam, Kakashi até mesmo casou com a namorada de Obito, Rin, alguém que a família de Sasuke nutria enorme rancor e fora responsável pelo Hatake se afastar também.
De modo que, Sasuke, sempre achando que havia um conflito de triangulo amoroso, nunca imaginou que Kakashi sentisse tanto pela morte do amigo, tendo de certa forma, roubado a mulher dele, e contribuído para sua decisão de meter uma bala na própria cabeça.
Kakashi esfregou o rosto, exasperado. E guardou alguns papéis de modo mecânico.
— Seu tio amava servir, mas depois da dispensa, ele se sentiu sem chão, sem amigos, inútil, sem família.
— Isso não é verdade.
— Você era muito pequeno, era provavelmente a única criança que não tinha um acesso de desespero quando olhava pra ele... Ele amava crianças, tudo que ele amava estava se afastando, e era incapaz de procurar outra coisa, a cicatriz o tempo todo lá, o “trauma de guerra” toda noite, o fazendo sufocar Rin enquanto dormiam...
Sasuke se sentou, o encarando espantado.
— Como...?
— Ele amava a guerra, mas amava a paz de Rin, só que... Ela o amava bonito e perfeito, ela não foi capaz de lidar com o que guerra mandou de volta.
— Então você a pegou. – Kakashi deu uma risada amarga.
— “Peguei”, acho que foi algo mais como “aparar”.
— Ela se jogou pra você...?
— Eu achei que era uma fase ruim para os dois, fiquei o tempo todo ao lado, empurrando-os juntos e pra frente, mas Obito não conseguia sair da guerra, ainda lembrava de cada companheiro que ficou para trás, da explosão que fodeu o rosto dele, corpos de criança, mulheres. E Rin, Rin achou que eu podia ser sua nova chance... Obito percebeu primeiro que eu, ou talvez ela, então simplesmente a deixou. Achei que no fim, eles ficariam melhor separados, ela não deu conta da barra, e eu os queria felizes apesar de tudo. – Coçou a barba por fazer, e se recostou na cadeira, suspirando alto – Então ela veio quase seis meses depois com uma fodenda declaração, eu fiquei boiando, disse-lhe que não era nada do que ela achou que fosse, que nunca a vi desta forma e ela... Ela surtou.
— O que ela fez?
Kakashi o encarou.
— Eu não sei.
— Mas...
— Seu tio se matou menos de uma semana depois. Ele estava naquele trailer fazia tempo, todo mundo sabia. Talvez ele tenha avisado a ela sobre mim, antes de deixa-la, e ela se recusou a ouvir, quando eu falei por mim mesmo, ela surtou e foi descontar no mais fraco... Não tem como saber.
— Nunca perguntou a ela? Estão casados, cacete! Ela pode ter sido a porra do gatilho e você...
— Acredite, Rin sabe disso. – Kakashi afirmou, com uma certeza sinistra. – Se ela fez ou não, algo diretamente, ela sabe que ainda foi parte do gatilho, ela o deixou quando ele mais precisava, e por nada. Absolutamente, nada.
Sasuke se recostou na cadeira, coçando a nuca, como se sentisse um peso assombroso sair dos ombros e outro ainda maior cair. Sempre quisera saber mais sobre aquele tio, mas o assunto sempre era cortado e gerava desconforto em seu pai.
Da família dela, ninguém nunca se arriscara tanto além dele e Obito, eram uma família de empreiteiros, arquitetos e engenheiros, seu irmão assumira os negócios com gosto. E Sasuke, a ovelha negra, virou policial para surto geral dos Uchiha.
Ele não achava que fosse influência do tio, era um sonho de criança que ele resolveu seguir depois de perceber que não tinha qualquer tino para ser empreiteiro, e nem para advogado.
Rolava menos grana, mas era mais satisfatório e ficar mais longe dos holofotes que caiam sobre a ilustre família Uchiha, foi um adendo que ele amou.
Era bom até para conseguir sexo, nenhuma mulher iria querer engravidar de um mero investigador, mas em um herdeiro Uchiha, chovia golpistas. Ele tinha mais tranquilidade para transar sem paranoia de que uma delas iria furar as camisinhas ou o dopar para monta-lo e quando perguntavam se ele era um Uchiha, ele dizia que era apenas um cara com um sobrenome igual, mas não a conta bancária.
Era sempre um alívio, quando elas desistiam na hora, mesmo que as vezes fossem tentadoras o bastante para arriscar. Ele sempre tentava ser o mais prudente. Pois de uma coisa sempre teria certeza.
Mulher não faltaria.
— O que Sakura tem a ver com isso?
Kakashi soltou o ar, aborrecido com se ele fosse uma criança incapaz de aprender a tabuada do dois.
— É uma criança perdida, como seu tio, acho que todos aqueles diagnósticos mais o fato de ser uma mulher mais velha só vão contribuir para que se perca ainda mais, não?
— Como a encontrou? Como sabia a situação dela?
— Eu tenho minhas fontes, e sinceramente, já achava mesmo que esse departamento precisava de um pouco mais de disciplina.
— Realmente, você não tem mão pra nada.
— Quer fazer hora extra, Uchiha?
— Porque, melhor delegado do mundo? – Sorriu ele, Kakashi revirou os olhos.
— Graças a deus que você só gosta de boceta, ou eu já teria comido seu rabo, seu puxa-saco dissimulado do caralho.
— Jamais. – Sasuke rebateu, se levantando.
— Ajude a moça, Sasuke, eu desconfio que as coisas estejam mais complicadas do que se imagina pra ela.
— Porquê?
Kakashi meneou a cabeça, negando.
— Não sei, ela é arisca, não falou muito sobre a família... E nem sobre o serviço. Seu tio se sentia péssimo por ter sobrevivido ao ataque, era como uma culpa, Sakura parece estar bem com isso, mas não está feliz em ter deixado a unidade.
— Falta da adrenalina?
— Falta de se sentir incluída, e num campo que dominasse, de ser necessária...- Kakashi inspirou, desviando os olhos para a janela, havia começado a chover e grossos pingos de chuva deslizavam pelo vidro – De ser uma ferramenta.
֍
“– Mais granada, Queen! Eles tão chegando, eu vou explodir esses cachorros!
— Mais granada!”
“– Minhas balas acabaram.”
“– Não vai, Jay-jay!”
“– Diz pra minha filha, que eu amo ela?”
“– Volta! Gray! Graay!”
“– Deixa... Deixa...de ser mulherzinha... Haruno.”
“– Onde está a unidade doze?!”
“– Carrie, fica com a gente!
— Eu queria ser como você... Desculpa, desculpa, Queen”
“– CARRIE”
“– GRANADA”
“– ACORDA, ACORDA, JONAS”
“– ACORDA”
“– ACORDA”
“– QUEEN!"
“– ACORDA, HARUNO
“– ACORDA, SAKURA”
“– Sakura, morre! Morre!”
“– MORRE”
֍
Não havia ar, faltava, faltava tudo, só havia dor, desespero, os estrondos, os berros, o sangue.
Chutou o ar, sentindo o pé acertar algo, mexeu os braços protetoramente, defensivamente, tudo caótico, sentia a carne latejar, os ouvidos doerem, o gosto de sangue parecia real em sua garganta, afogava-se nele.
Mas era ar, havia ar.
Se sentou no banco, olhando em torno, ainda grogue o coração batendo como marteladas na caixa torácica, como explosões. A coberta de suor e arrepiada.
A janela da porta do banco de trás estava deixando a água da chuva começar a entrar, graças a ampla rachadura no vidro, que somou-se à lista de estragos da noite.
Sakura bufou, voltando se deitar, esfregou o rosto e deitou de lado.
Mas não dormiu mais.
As explosões continuavam reverberando em seus tímpanos.
“– Morre, Sakura, vamos, menina, morre, vai ser melhor, acredite, vai ser melhor, querida.”
Teria sido melhor mesmo.
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