Killer Queen

32 Rainha Natalina


Notas iniciais
Finalmente terão o que desejaram para o Natal (?)

Semana de Natal.

Sakura não apenas gostava do Natal, ela amava.

Não era só uma coisa supérflua e fútil, motivada apenas pela beleza e consumismo, não era só fazer a decoração mais cara ou mais bonita ou mais iluminada como parecia ser para os vizinhos dele, que colocavam até renas no telhado e enchiam o gramado com duendes ajudantes de papai noel mas que na prática, mal olhavam na fuça de um morador de rua durante todo o ano.

Os olhos dela brilhavam refletindo os enfeites, melindrosa, estudava cada artigo de decoração e também reverenciava cada símbolo religioso.

Ele não achou que ela fosse religiosa, na verdade, achou que ela já tivesse perdido a fé em algo maior, e não poderia julga-la, os dois estavam em profissões que mostravam as vezes as faces mais animalescas e pérfidas do ser humano.

Mas talvez para ela, isso reafirmasse a fé, enquanto para ele, ás vezes a abalava.

De qualquer forma, poderia passar horas sentado observando-a escolher cada bolota cintilante para pendurar na árvore, cada bibelô, boneco ou pisca-pisca.

Que bom, pois não tinha escolha mesmo.

Sakura voltou segurando uma pilha de caixas com pisca-piscas, e Sasuke sentiu aquela velha dor no bolso só de imaginar o preço da última conta de luz do ano.

— Onde você estava? Achei que tivesse saído. – Ela reclamou, sorridente, pousando as caixas na cesta de plástico que a loja disponibilizava, sobre o banco ao lado dele.

— Eu? Estive aqui o tempo todo. – Sasuke deu de ombros. — Não me viu porque andou pela loja inteira.

Ela revirou os olhos, as mãos na cintura, estendeu uma para ele.

— Vamos indo então, se está com pressa.

— Pra ir embora, sim, outra loja, não.

Sakura riu e ele se ergueu, trazendo a cesta, seguiu com ela até o caixa.

— Com fome? Podemos passar na praça de alimentação. Tem até foto com o Papai Noel. – Sugeriu ele.

— Ownt, quer tirar foto com o Papai Noel?

— Achei que você iria querer. Está quase pra comprar uma roupa de Mamãe Noel.

Sakura piscou para ele.

— Você iria adorar ter essa sorte, malandro.

Ele pensou naquela fantasia de Halloween e suas calças concordaram totalmente.

— Se continuar com isso, terei que te pedir em casamento. – Avisou, ela gargalhou enquanto chegavam ao caixa e começavam a passar as compras.

— Deus me livre! Porque não me oferece um porshe?

Sasuke deu de ombros, com uma cara quase triste, se não fosse falsa.

— Eu queria, mas o salário...

Sakura revirou os olhos.

— Tão dissimulado. Não sei o que o faz achar que um casamento, comigo, custaria menos que um porshe.

Sasuke deu de ombros, rindo, embora quisesse segurar.

— Casando eu tenho o bônus de sexo quente, te dando um porshe eu só torraria minha grana rala com as multas de trânsito, considerando como você dirige...

Nem terminou pois ela já estava o socando no ombro.

— Vai se foder! Escroto, eu pago minhas dívidas então passo por cima de um tanque com meu carro, viu?!

— Tá vendo? Torraria meu juízo então. Não tem como ficar sossegado com você no volante de um esportivo, querida.

— Ah, cara, vai se foder. – Sakura pegou as compras já em sacolas e seguiu para saída. Ele pegou as últimas e a seguiu, rindo de seu nariz apontado pra cima e apreciando seu traseiro naquela saia lápis apertada.

— Eu dirijo. – Avisou. — Até porque ainda vamos comprar o peru e você sempre precisa brigar ou correr pra comprar essas coisas.

— Eu dirijo, é o meu carro, lembra?

— E depois vamos a uma capela.

— Morre, diabo.

Como ele já previra, ela tinha que brigar pelo peru maior, ou mais perfeito e carnoso, sabe-se lá por quantos mil critérios, e claro, correr de volta pra casa pra evitar a hora do rush.

Não era que ele fosse um santinho no trânsito, já dera muito dedo do meio e mandou gente ir tomar naquele lugar, além de uma multa ou outra por excesso de velocidade quando esquecia de pôr a porcaria da sirene no teto do carro ao ir perseguir algum suspeito, mas Sakura era e sempre seria louca nessas situações.

Ela nem percebia o quanto gostava de adrenalina, acelerava acima e achava normal, era impaciente com qualquer demora ou engarrafamento, e aquela boquinha suja quando entrava em bate boca com gordões motoristas de caminhões e assalariados estressados...

Antes, ele achava só engraçado o quanto a rainha de gelo da escola podia ser louca, bruta e nem um pouco cortês. Mas percebera que começara a se preocupar com essas coisas também. Mesmo que fossem só detalhes bobos ou defeitos que qualquer um teria.

Afinal, quem nunca bateu o carro, ainda haverá de bater, ou se irritou com outro motorista, ou caiu da escada do quintal por que era impaciente demais para esperar a outra pessoa chegar e ajudar arrumar um problema no telhado, ou que se cortou com a própria faca porque esqueceu ela numa bolsa velha. Ou que quase rolou a escada da sala enquanto brincava com os cães...

Enfim, quem nunca foi Sakura estabanada e bruta na vida? Apenas ninguém nunca era Sakura o tempo todo como Sakura era. E isso que o preocupava ultimamente, ou talvez desde que eles começaram a namorar sério e houve a operação na boate que terminou com uma policial baleada.

Mas seja como for, também sabia que aquela louca desvairada detestava que lhe impusessem limites, afinal limites a deformaram e machucaram ao longo da vida, e entendia isso. Sabia que ela não queria agir feito louca, ela era apenas ela mesma, louca.

Então só restava ficar na cola dela e evitar que fizesse loucura demais de vez em quando. Pois por mais que Sakura fosse um furacão, não era um furacão novo, imprudente e tolo, só um furacão maduro, determinado, genioso e que por isso, talvez, que fosse mais devastadora.

Quando ele viu que conseguiu amenizar a passagem do furacão Sakura neste dia de tanta empolgação para ela, ficou bem mais tranquilo por si mesmo, a acompanhou até em casa, deixou-a lá e voltou ao trabalho.

Ela certamente ficaria boa parte do tempo pensando em como decoraria o pinheiro e a casa, prepararia o peru antes dele ir ao forno e depois sairia para trabalhar com Matsuri. E mesmo que Matsuri fosse o tipo louca que adoraria voar nos ventos do furacão Sakura, sabia que ela acalmaria sua ventania, sempre prudente em se tratando de seus parceiros de trabalho. Isso ela nunca deixaria de ser.

Sasuke estava sossegado, ao menos por hora.

Era estranho sentir-se tão afetado com tudo isso. Um lado seu insistia em achar natural ser tão chato assim, mesmo ela reclamando, e outro, que ele não tinha mais certeza ser o racional, alertava que a estava sufocando e que não estava sabendo lidar com esta coisa de: relacionamento a longo prazo, totalmente monogâmico, morar com ela, trabalhar com ela, conhecer tudo não se tratando apenas do corpo ou de como ela gostava de transar, e principalmente, gostar tanto dela.

Só sabia que a estava chateando um pouco quando reclamava do jeito dela, ou quando perguntava muito se ela estava bem, se ela comeu, se ela queria marcar uma sessão adiantada com a terapeuta, se tomou os remédios direito, ou sendo muito cuidadoso ao falar com ela de alguns assuntos.

Talvez chateando muito.

E como Sakura era do tipo que te mandava ir pastar sem cerimônia quando a enchia o saco. Ela o estar apenas repelindo com resmungos, ou bufando, ou ignorando, também não era bom.

Ela não queria magoar ele por achar ruim como ele estava agindo ultimamente e ele não queria magoa-la achando ruim que ela achasse ruim como a estava tratando.

Eles estavam pisando em ovos um com o outro, e relevando ao máximo o que incomodavam um no outro para não se atingirem, mas ele estava de saco cheio disso.

Tudo bem que as coisas jamais seriam como eram antes, e sentia que jamais trocaria, mas precisava achar uma porra de equilíbrio logo, ou as coisas simplesmente não se sustentariam, não com eles juntos.

Teriam de se afastar, e Sasuke sabia que não suportaria gostar dela a distância, como ela tinha que fazer com o pai, ou com Noein e o bebê que eles perderam, e principalmente, sabia que não suportaria se tornar mais uma pessoa para ela ter que gostar a distância.

Ou mesmo de esquecer de vez.

Por isso, resolveu recorrer a melhor pessoa que achava que havia, ou que conhecia, em se tratando de lidar com mulheres.

Encontrou Fugaku no restaurante ao lado do prédio onde a empresa ficava, ele sentou a sua frente com sua habitual expressão severa que assustava qualquer estranho, e agora intrigada.

— Nenhum cliente meu andou matando a esposa, andou? – Perguntou logo.

Sasuke riu um pouco, seu pai morria de medo de ele aparecer na empresa chutando a porta, apontando a arma para algum cliente e dando voz de prisão.

Ele não negava que seria divertido, mas presava o funcionamento do coração do velho.

— Nada de trabalho, garanto.

— Hm, menos mal. Mas devo confessar que estou com uma atriz tão insuportável que já não duvido que você corra o risco de aparecer lá, para me prender. – O velho bufou, servindo-se da bebida que Sasuke já pedira.

Trabalhar com estrelas de Hollywood, podia render muita grana e estresse, ás vezes mais um do que outro. Mais um motivo pra Sasuke nunca ter se interessado em trabalhar no ramo. Puxar saco de gente mesquinha nunca seria seu forte.

— Traga a mamãe em uma reunião com essa atriz. Garanto que ela a deixa doce como um pardalzinho. – Brincou.

— Sua mãe é que seria presa. A garota é insuportável. Não quer fazer a própria cobertura e não quer nada no catálogo.

— Ué, então manda ela ir procurar outra imobiliária.

— Se fosse tão fácil... Mas enfim, o que quer falar?

Sasuke inspirou, pegando o copo.

— Sakura... Sinceramente, não sei como lidar com ela.

Fugaku piscou a vista, bastante surpreso, apoiando os cotovelos na mesa, se aproximou mais e o encarou.

— Isso é mesmo o que estou pensando?

— Hum?

— Você está mesmo me pedindo conselhos sobre mulheres?

— Ah, para, pai.

— Deus! Eu achei que iria morrer sem isso.

— Não me sacaneia! É sério!

Fugaku se ergueu, pegando a maleta e o terno sobre a cadeira ao lado.

— Eu esperei quarenta anos por isso. Pelo bom e velho ritual de pai e filho, Itachi veio para mim numa boa, mas você não, e achei que nunca viria. Até Izuna já foi ao fodido do Madara, mas você não. Tire esse rabo de cadeira. Não se fala de mulheres em restaurantes, garoto.

— Que diabos...- Sasuke se levantou, deixando uma nota na mesa e quase correu para segui-lo.

— Se fala de mulheres em um bom bar, com cerveja e o jogo dos Giants, vamos. – O velho avisou.

Sasuke só o seguiu, talvez devesse mesmo ter feito isso a tempos.

*

O cheiro do peru já enchia o recinto e só recordava Sakura de que teria de se apressar pois logo as pessoas começariam a chegar, mal tinha terminado com a árvore, ou posto os presentes e ainda tinha uma bagunça esperando lá em cima.

Retornou a cozinha olhando a comida rapidamente, e então subiu as escadas, foi ao quarto de Sasuke e parou olhando as caixas desarrumadas em frente o closet, suspirou e começou a empilha-las no canto e por algumas nas prateleiras superiores.

Uma delas não entrava, com alguma tralha no caminho. Ela ficou na ponta dos pés e puxou, sentindo uma forma que estranhou, recuou trazendo um taco de basebol na mão e parou, sentando-se na cama, segurou entre as mãos e reconheceu. Quando percebeu, já estava chorando de novo, e se perguntou quando realmente iria superar alguma coisa, ou se só era capaz de enfiar tudo num buraco escuro e torcer para não tropeçar sobre ele.

Ouviu passos no corredor assim como os rosnados empolgados dos cães e fungou tentando se acalmar rápido.

— Hey, onde está todo mundo? – Foi Juugo quem disse, aparecendo na porta, e ela não sabia se voltava a chorar de alívio por não ser Sasuke ou se continuava tentando se recompor.

— Sakura? – Ele se aproximou, sentando na beira da cama e pousando a palma em suas costas. — Hey, está chorando, o que houve?

Sakura esfregou os olhos, negando e fungando, ainda incapaz de falar. Ele pegou o taco em seu colo e não reconheceu de primeira, mas havia um nome talhado ao longo do cabo com ponta de faca e também com caneta preta em outras partes, alguns desenhos bastante bonitos de jogadores de basebol, a logo dos Dodgers e também dos Giants.

— Tenho certeza que ele teria levado se pudesse. – Disse. — E que teria ficado também, sinto muito que não tenha sido assim.

— Tu-tudo bem. Só-só não diga nada, nada ao Sasuke. Ele já anda muito estressado, eu só estou sendo ridícula de novo.

— Ele anda mesmo, mas não precisa ficar se contendo por isso. Se ainda precisa chorar, chore, tem outros ombros amigos aqui, certo?

Sakura encolheu os ombros, fitando os pés.

— Certo...

— Sasuke deve tê-lo guardado porque também quer que o menino o tenha de volta. – Juugo presumiu e ela engoliu o choro e soluçou, ele esfregou suas costas e se levantou. — Porque não vai tomar um banho e se aprontar? Eu dou um jeito nas caixas e Ino já está a caminho e pode impedir que o peru queime, ao menos.

Ela queria negar, mas já se sentia constrangida o suficiente e apenas concordou, se levantando e seguindo para o outro quarto.

Juugo observou-a sair e depois encarou o taco. Se ergueu e o guardou no fundo do guarda-roupa, terminando o trabalho de empilhar as caixas lá e desobstruir o espaço.

Agora tinha total certeza de que havia acontecido algo muito ruim entre Sakura e Sasuke, mas também que eles estavam superando de pouco em pouco, na verdade, tinha certeza que eles dariam passos mais largos se olhassem para frente e seguissem adiante, e não se tratassem tanto como fossem de vidro. Precisavam confiar um pouquinho mais na força um do outro.

*

Sasuke não estava bêbado, mas certamente necessitava um banho e uma aspirina. Também não era como se houvesse encontrado a fórmula para todos os problemas, mas conseguira perceber melhor como cada um deles se encaixava na situação atual.

Seu pai já tinha quase cinquenta anos de casado, ele sinceramente não achava que houvesse tanto para ele saber sobre um relacionamento, talvez apenas sobre como começa-los, ou terminá-los, mas não que havia tanto a se saber sobre como mantê-los. E ele manteve o dele por quase meio século, fez várias merdas e moveu céus e terras para arruma-las, conseguiu umas, outras ainda podiam causar um atrito aqui ou ali. Mikoto também o magoara, e também tentara arrumar as coisas, mas eles sabiam que valia a pena e continuavam fazendo o “jeito certo” dar certo a cada dia.

Não havia felizes para sempre, havia um dia de cada vez e a certeza que queriam continuar avançando cada um deles.

Percebeu que Naruto e a família já haviam chegado, assim como Shikamaru, e também que o resto dos moradores de sua casa já devia estar lá. Sakura provavelmente arrancaria suas orelhas por ser um péssimo anfitrião.

Ao entrar em casa, até estranhou não ser derrubado pelos cães mas eles corriam pela sala seguidos por Boruto, Shikadai e Chouchou. Himawari já dava seus passinhos, querendo acompanhar a trupe e Hinata a seguia sempre atenta e conversando com as mulheres em torno da árvore decorada predominantemente de vermelho e branco, e agora perto da mesa que ficava na cozinha, os móveis da sala foram reorganizados para abrir mais espaço.

Suigetsu contava alguma piada ridícula na cozinha, junto com os caras, mas Sasuke preferiu subir logo as escadas e procurar o chuveiro.

— Ah, você chegou. – Juugo disse, interceptando-o no segundo andar.

— Oi, estava com meu velho, aconteceu alguma coisa?

Juugo deu de ombros.

— Só seja gentil com a Sakura hoje, ela me parece um pouco... sensível.

Sasuke vincou o cenho, alarmado.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Ela só parece sensível, ou o Natal talvez a deixe assim. De qualquer forma, fique leve e tranquilo com ela, só não a... cerque demais.

Sasuke suspirou, entendendo.

— Putz... Eu estou tão merda assim?

Juugo apertou seu ombro, sorrindo gentilmente.

— É o que dizem por aí, a gente sempre passa vergonha no primeiro namoro. Achou que escaparia?

— Vai se foder, cara. Onde ela está?

— Não sei, acho que lá em baixo. Só disse o que disse porque vocês estão meio tensos um com o outro ultimamente e sei que estão tentando se entender direito depois de alguma coisa que não querem nos falar.

— Ah, sobre isso...

— Não tem que me dizer. Só escute Sakura, você quer deixar ela bem mas tem que ouvi-la quando ela quiser falar. Até mesmo quando dizemos muito que a pessoa pode se abrir, ela se fecha. Não ponha tanta expectativa sobre ela. Ela vai se abrir com você e deixar você participar.

— Certo, valeu.

— Conte sempre comigo, cara.

— Vou te dar um presentão de Natal.

— Eu vou cobrar. — Juugo avisou, descendo as escadas. Sasuke foi tomar banho, sabendo que ele estava certo. Queria tanto que Sakura se abrisse e o deixasse participar de tudo que ela sentia, saber de tudo e se preocupando, que ela estava se sentindo sufocada e estressada com ele por o ver se estressar com ela e o trabalho.

Seu pai dizia que elas eram como rios, que só devem segui-las a partir de sua nascente e deixá-las chegarem aonde querem, pois eram mais fortes e persuasivas que se podia imaginar.

Poderiam correr tranquilas e plácidas num momento, noutro se tornarem caudalosas e perigosas, gerar vida ao redor, se jogar de grandes alturas, como cachoeiras, ou se ocultar por baixo da terra até.

Era só deixar ela ir e tentar acompanhar e apreciar a viajem, sem se afogar muito.

Vestiu um jeans, camisa e blazer pretos, e olhou para o presente que seria de Sakura, deixado sobre a cabeceira. Ela estivera tão distraída com a decoração que nem lembrara de o sondar sobre o que ganharia. E haviam tantos presentes pela casa, graças ao número de moradores, que ela nem dera atenção para aquele, posto que poderia ser o de qualquer outra pessoa.

Desceu as escadas com o embrulho e o pousou entre os outros presentes abaixo da árvore.

Esta lhe passava todo aquela sensação familiar ele sô lembrava de sentir em casa. Quase se imaginava indo espiar a sala de madrugada para ver se o velho de vermelho tinha vindo trazer um game novo.

— Hey, chegou cedo até. – Naruto o cumprimentou com um abraço.

— Estava numa reunião com meu velho.

— Seu pai? Entendo, de todo modo, obrigado por estender o convite pra essa festa adiantada. – Naruto suspirou, observando a espora brincar com a filhinha. — A família da Hinata insistiu para passarmos o Natal com eles e já prevejo que não será o melhor de todos...

Sasuke concordou, batendo em seu ombro.

— Não tem problema. Quanto mais melhor, eu também acho que vou precisar me aproveitar desse adiantamento, vou ter que levar a patroa pra passar o Natal com a família também.

— Haha, você não presta, cara. Mas sabe como é, deixe elas felizes e elas te fazem mais ainda, daquele jeitinho.

— Amo o Natal.

— Melhor aniversário, já dizia o padre...

Os dois riram como idiotas que admitiam que eram.

Sasuke seguiu para a cozinha finalmente falando com os rapazes e pegando uma taça de vinho enquanto discutiam sobre o jogo daquela tarde.

Ouviu a voz de Sakura da sala e retornou, até ela, encontrou-a perto da lareira, ainda arrumando alguns bibelôs, a corrente de meias graúdas e de bengalas de doce.

Ela usava um vestido vermelho, as costas abertas e um laço suave acima.

Parou ao lado dela e passou o braço em torno de sua cintura.

— Oi? – Ela se empertigou e o fitou, desviando os olhos, desconcertada ainda que mais animada.

— Oi.

Perguntar se ela estava bem foi a primeira coisa que ele sentiu na ponta da língua. Mas engoliu de volta e tentou seguir os conselhos que recebeu.

Seu pai o fez ver que precisava fazer de outro modo e ser mais sutil, tentar ver não só quando ela precisava de ajuda, mas quando era preciso dar sem ela pedir. E Juugo o fez ver que realmente a estava cercando demais e isso já estava aparente para terceiros.

Suspirou e olhou em volta, pensando em algo melhor pra dizer. Então segurou uma das meias, era vermelha com a barra xadreza.

— A decoração...- Começou. — Está incrível, hein?

Sakura o fitou, primeiro desconcertada, mas depois sorriu e encolheu os ombros acanhada. Provavelmente queria ser presunçosa e se gabar, mas acabou ficando apenas ruborizada e muito feliz.

Ele se perguntou quantas vezes ela havia se esforçado tanto sem receber sequer um “ficou bom”, então quis aperta-la toda e mimá-la, e então viu que ia começar a cercá-la de novo, e se conteve.

— Você acha? Não está exagerado? Pensei em fazer algo mais Clean, mas preferi ir pelo tradicional, pra não ter muito erro, e a sala já é bem mais rústica também...

Ele beijou a cabeça dela, não fazia ideia do que diabos era uma “Decoração Clean”, mas se esforçou para elogiar e deixa-la confortável.

— Está incrível, pra caramba. Ficou muito nostálgico, me lembrei da infância. – Declarou, tocando novamente as meias. — Minha mãe amaria, haha.

Sakura sorriu ainda mais, pondo bengalas de doces dentro das meias.

Então parou, um pouco insegura, e o fitou de lado, com olhar apreensivo.

— Eu pensei sobre aquilo. – Sasuke ergueu as sobrancelhas e então se empertigou, nervoso. — E-eu... Sei que deveria ter te consultado, mas foi meio repentino e não quis te atrapalhar mais hoje...

Tudo bem— Ele afirmou, afagando suas costas e vendo-a soltar o ar direito outra vez. — Só me mostre, certo?

Sakura aquiesceu, e pegou uma pequena sacola deixada no banco almofadado ao lado, e tirou dela, duas meias, uma era grande, típica das usadas em decoração, apesar que azul e branca, já a outra, era pequena, e diria até que normal, toda branca, uma renda simples na barra, nada mais.

Sasuke observou ambas, entendendo não só a intenção na pequena meia branca, mas na azul também.

Então fitou-a, vendo-a toda apreensiva e sorriu, de lado e concordando.

— Pra mim está ótimo, porque não pendura?

Sakura olhou para as meias, não pretendia realmente pendurar, afinal a Dra. dissera que já bastava que houvesse um símbolo. Mas, tradições eram o que davam força e poder a estes símbolos, certo?

Pendurar talvez fosse o melhor jeito de dar algum poder a essa coisa toda, talvez não de fazer ser como queriam que fosse, mas de curar.

Pendurou ambas, sentindo o nariz formigar um pouco, deixou alguns doces dentro de cada uma e Sasuke passou o braço em volta dela novamente, e os dois ficaram calados observando a meias, apenas.

Ter algo palpável a esse nível foi um pouco estranho. Ela as guardaria para sempre, certamente, talvez continuasse pendurando-as a cada Natal, ou mantendo escondidas num bom lugar. Mas só ao saber que as tinha agora, o que significavam tomou mais forma e pareceu ter mais sentido e soar menos assustador ou cruel.

Uma lembrancinha apenas espantou os fantasmas que ainda a assombravam e a fez ver mais luz.

— Hey, casal? Quando vamos comer, hein? – Sui se intrometeu na bolha deles, não por maldade mas por curiosidade e para afastar a melancolia deles um pouco, apenas. Todo mundo estava notando, praticamente. E não deixaram de encarar as meias com curiosidade quando os dois se viraram, sorrindo.

— Tem razão! Vou olhar o peru!

— Eu estou morrendo de fome... Hey! Olha essa bonequinha! – Sasuke exclamou, deparando-se com Hima, ela andava meio trôpega, parecia o Naruto quando estava bêbado, usava um vestidinho xadrez vermelho e verde escuro. A pegou e ergueu. — A princesinha da baba agora anda, hein?

— Você não presta. – Sakura avisou, apertando as bochechinhas dela. — E você? Quer praticar mais com essas pernocas agora que descobriu como são úteis, não é? Deixe-a andar, Sasuke. – Ralhou com ele, antes de ir para a cozinha.

Sasuke pôs a menina no chão pois ela já se debatia para correr atrás dos cachorros.

Pegou novamente a taça de vinho e viu Boruto pegar uma caixa um pouco grande de debaixo da árvore, derrubando as outras, e seguindo para a cozinha, até Sakura, todo cheio de pompa.

Ela se virou, depois de espiar fogão e se abaixou fitando o menino e segurando a caixa com um sorriso enorme que o deixou todo vaidoso.

— Boruto? Agora não! E olhe a bagunça que fez! – Naruto foi reclamar.

Boruto já queria dar logo o presente dela, certamente ainda não estava feliz com Sasuke por ele ter roubado a futura esposa dele. E Sasuke quase se sentia mal porque o pirralho realmente nem estava o olhando na cara.

Sakura correspondeu dando um bom beijo na bochecha dele, que a marcou com o batom vermelho que ela usava, e prometeu também que seria o primeiro presente que abriria.

Satisfeito, Boruto levou a caixa de volta, fazendo questão, claro, de deixá-la o mais visível possível na pilha.

As mulheres finalmente começaram a servir a mesa, Sakura trouxe aquele fodendo peru com o mesmo cheiro do peru que ela fizera na ação de graças, e ele quase quis sentar o bumbum lindo dela num altar por isso.

Todos á volta da mesa, pratos e travessas sendo passados pela mesa, até Sai resolveu aparecer, e ficou sentado calado, comendo e observando junto das crianças.

As conversas soavam alto, gargalhadas e chorinho de criança, piadas ridículas e histórias velhas, alfinetadas e debates. Era como o Natal de verdade, mesmo que só fosse acontecer oficialmente dali a dois dias.

Sasuke não era de se sentir abençoado, não que se achasse menos afortunado que um bocado de pessoas, ou desprezasse a vida como a tinha.

Mas percebeu que não era de reparar quanta sorte tinha, pessoas por aí sequer sabiam o que era Natal, ou desprezavam, ou tinham a oportunidade de vivê-lo, ele tinha tanto Natal que podia dividi-lo em dois, adiantar uma parte com um monte de gente que adorava e admirava, e até amava ou aturava ((no caso de Sai), e depois iria vivê-lo de novo com sua família de sangue e sua bela mulher.

Ele não havia pedido nada disso ao Papai Noel ou ao Aniversariante, no ano passado, mas por um momento, agradeceu muito. E se não fizera por merecer esse ano, então pagaria no próximo, ao menos.

— Tudo bem? – Sakura quem indagou, ainda sorrindo, ele apertou sua mão sobre a mesa e assentiu.

— Mais que bem.

Ela ficou satisfeita e voltou a conversar, ele voltou a comer, e a agradecer também por ela ser boa de cama e de cozinha. Achou que também era justo...

Depois do jantar, já era bem tarde, eles emendaram um jogo de cartas e também virão os programas de Natal, as crianças já estavam exaustas depois da troca de presentes, papel de embrulho ainda espalhado pelo chão, e já cochilavam no sofá.

Sakura desceu as escadas acompanhada de Karui e Ino, trazendo cobertas grossas e almofadas extras.

— Isso deve servir. – Sakura disse, ajudando Hinata estender as cobertas sobre o tapete logo abaixo da árvore, também as almofadas.

— Vai servir muito. – Temari declarou, deitando Shikadai já tombado de sono sobre uma parte da coberta, Hinata acomodou Boruto e Chochou, Himawari ficou na ponta, toda espalhada e se recusando a soltar seu travesseirinho em forma de unicórnio.

Sakura cobriu todos com a mesma coberta e ficou sentada ao lado, acariciando o cabelo dourado de Boruto.

— Olhe só para eles, nem parece que devoraram uma travessa inteira de torta de chocolate...

— Houve esse barulho de nada? É o melhor barulho do mundo. Quando finalmente dormem. – Karui disse, se esticando sentada no sofá.

— Isso quando ainda não roncam como o pai. – Termari resmungou, também sentando e Hinata concordou dessa vez.

Sakura voltou os olhos para as crianças, e por um lado, pensar que esses pedacinhos de carne poderiam dar tana exaustão a assombrou, mas inevitavelmente, a fascinou também.

Sorriu curvando-se e deixando um beijo cabeleira de Boruto.

— Obrigado pelo presente. – Sussurrou, antes de se levantar. Afinal tinha que agradecer em algum momento, pois na hora que abriu a caixa, ficara tão chocada que mal dissera que havia gostado para não decepcionar o garotinho.

Um pijama-fantasia de Pikachu não era algo que ela esperaria ganhar nem se tivesse a idade de Boruto, na verdade nem lembrava direito de que coisas infantis que gostava na época. Sabia que quando tinha dez anos, havia sonhando em ganhar um pônei, não que isso tivesse acontecido. Não com ela.

De qualquer forma a coisa era grande como um saco com zíper, fodendamente amarela e com um capuz de orelhas. Sasuke riu tanto que chegou a se contorcer de dor de barriga. Ela chutaria a barriga dele mais tarde pra doer mais um pouquinho.

Bem, se ela já desconfiava que o presente que dera para Boruto quando ele fez aniversário não havia agradado muito seus pais, agora tinha certeza...

Mas não reclamou, até atearia fogo depois mas seria cobrada sobre usar o item, tinha certeza. O jeito era guardar.

Também cansada, tirou os sapatos e se sentou, passando a afagar as cabeças de Gibson e Tinny, ambos tão empanturrados de bifes de Natal e exaustos de correr das crianças que só queriam fechar os olhos e apreciar o cafuné.

O pessoal conversou mais um tempo, então todo mundo se despediu e foi indo dormir ou para casa.

Sakura chegou ao quarto já cansada de bocejar, esticou os braços para cima, se estirando e então sentiu Sasuke abraça-la por trás e cheirar seu pescoço.

— Olhe só para você, com esse lacinho, parece até um presente de Natal também. – Ele comparou, com voz rouca e lenta.

Sakura sorriu um pouco, deliciada com os beijos que recebia pela nuca.

— Então desembrulhe e aproveite, ora.

E foi exatamente o que ele fez.

*

A pequena cidade de Mamomoth Lakes era um ótimo lugar para passar o Natal, com toda neve, pinheiros, lugares para esquiar, patinar e andar de snowcars que se poderia querer.

A família Uchiha tinha uma bela cabana lá, embora não fossem todos os anos.

Sakura adorou estar lá, adorou ajudar Mikoto a enfeitar a árvore de Natal de lá e fazer a comida farta, Madara e Fugaku discutiam sobre marcas de carros antigos, Izuna havia saído para se esquentar provavelmente entre as coxas de alguma turista, Sasuke e Itachi se pegaram na boa e velha disputa de jogo de botões, bilhar e xadrez que sempre faziam desde pequenos, e Izumi ajudava as mulheres e se alternava em cuidar do pequeno Kenton.

Lá fora, na neve, Gibson e Augustine apreciavam correr atrás de todo bicho que se movimentava nos arbustos e árvores da floresta ao redor, não havia como deixá-los em casa já que não havia ninguém para ficar com eles.

Sasuke adoraria seguir o exemplo do primo e também se esquentar entre belas coxas mas sua mãe monopolizava sua namorada totalmente.

Restou aturar Itachi e perder umas partidas de xadrez, só porque estava sem prática, os dois sentados na varanda, com frio mesmo com várias camadas de roupa.

Era idiota ficar lá fora, mas eles sempre faziam isso, um desafio velado de quem amarelava para o frio primeiro e entrava. Faziam desde pirralhos e um sempre terminava passando a virada de ano com o nariz entupido.

— Um amigo meu do fórum comentou que iam arquivar aquele caso, o “Green eyes”. – Itachi comentou, enquanto pensava sobre qual peça mover.

Sasuke suspirou, soltando uma baforada de vapor antes de falar.

— Besteira, repercutiu até lá fora. As séries de TV deixaram as pessoas super atentas á Serial Killers. Mas já admitimos que o fodido pode ter fugido do estado, ele ficou assustado quando deixou uma das garotas escapar viva.

— Acha que tem chances de ele continuar, em outro lugar?

Sasuke meneou a cabeça, movendo uma peça.

— Eu não duvido, ele é muito impulsivo, não é capaz de se controlar por muito tempo, bem. Não se passaram seis meses desde o último ataque. Pode ter saído errado e ele ficado “com fome”, mas se ele vai arriscar, ainda vai demorar um pouco.

— Que doente.

— É uma merda admitir, muitas mulheres são assassinadas no país. E o perfil dele é um pouco específico mas não completamente oficializado. Já nos mandaram casos suspeitos de possíveis investidas deles e tem uma equipe junto ao FBI apurando.

— Então ele pode ter mudado a tática?

— Alguns mudam para se manter escondidos. Mas o caso dele envolve uma possível fixação por mulheres jovens de olhos verdes em estado ou momento de vulnerabilidade, sempre sozinhas ou entorpecidas demais para lutar muito. Enfim, ele dificilmente poderia mudar sua postura. A tática de abordagem, sim, o perfil das vítimas, difícil. Se ele escolher outros tipos de mulheres, aí teríamos que trabalhar com a premissa de que ele só quer subjugar, estuprar, dominar mulheres num todo. O que o torna o mesmo que uns 70% dos filhos da puta distribuídos pelo país ou só em Los Angeles.

— Vou te confessar uma coisa. – Itachi avisou, enquanto pegava sua peça e a erguia do tabuleiro rumo a outro ponto. — Sempre achei que tivesse entrado pra polícia porque achava que era um emprego fácil. – Então derrubou outra peça de Sasuke. — E xeque-mate também.

Sasuke bufou e revirou os olhos, Itachi riu e se levantou.

— Vamos sair dessa droga de frio.

Sasuke concordou, se levantando, Itachi entrou primeiro e ele assoviou, chamando os cães de volta para dentro.

— Vamos lá, chega de brincar na neve. Não estão com frio? – Riu, se aproximou da grande lareira e jogou alguns troncos no fogo para aumentar o calor. Gibson rolou pelo tapete, secando o pelo úmido de neve e Augustine sempre muito elegante, deitou num dos sofá e se lambeu toda, elegantemente.

— Porque não deixa esse cara gostosão aqui te lamber? – Sugeriu, indicando Gibs que pareceu olha-la com expectativa.

Tinny se limitou a ignora-los e Sasuke bateu de leve na cabeça do cão, com dó.

— Desculpe por não poder realizar seu pedido de Natal, garotão. – Lamentou.

Se levantou e seguiu para o quarto, para tirar parte daquela roupa toda, Sakura estava na cama, dobrando umas roupas na mala e também observando Kenton deitado ao lado abanando os braços e mãos.

— Ela não vai demorar, prometo. – Avisou.

Sasuke a abraçou por trás e ela resmungou com um arrepio.

— Pelo amor de deus, você está gelado, porra.

— Eu vim pra você me esquentar, ué. E encontro esse cara na minha cama?

Deitou ao lado do bebê, apertando seus pezinhos.

— A mãe dele se molhou com molho e resolveu tomar banho, desde que ele não chore, posso olhar um pouco.

— Nossa... Que cruel ela é, não é garotão?

Sakura inflou-se de indignação e vergonha, não quis dizer desta forma. Não era frescura ou repugnância, mas ficava muito nervosa com crianças chorando, bebês mais ainda.

Uma vez, numa operação na faixa de gaza, ela teve que ajudar um grupo a atravessar um terreno dominado por rebeldes, e se havia algo como o inferno, era como atravessar aquele lugar com dezenas de mulheres desesperadas com suas crianças berrando de terror, fome e sede pelos dias que ficaram isolados e escondidos.

Uma das mulheres havia sido acertada em cheio, e ela não pode fazer nada que não fosse prosseguir segurando uma metralhadora num braço e um bebê mais novo que Kenton no outro, mantendo-o apertado contra seu tronco, protegendo-o dos tiros com o colete caso fosse acertada, o choro alto e agudo pinicando seus ouvidos sem ela poder fazer nada para aplacar seu sofrimento, apenas mantê-lo vivo, e para quê? Até hoje se perguntava. Mais sofrimento?

Se ao menos fosse capaz de acalentar um bebê...

Ainda assim, assustava-a mais que essa soasse sua única desculpa para não tentar.

— Sakura? – Sasuke chamou-a, apertando seu braço, ela se espantou, olhando em volta, não vendo o bebê.

— O-onde está?

— Itachi acabou de levá-lo. Tudo bem?

Ela assentiu, suspirando.

Sasuke a puxou para a cama, já havia tirado o colete impermeável e o casaco, e foi ele que a esquentou.

Sakura se encolheu tentando acolher o presente, e aceitar que já estava ótimo. Que não precisava mais nada, e que nem era tão corajosa assim e poderia continuar usando os velhos fantasmas para evitar que sua vontade e anseio os vencesse, desta vez.

Pela primeira vez, ela esperou ser forte para perder e teve medo de ganhar.

*

Na manhã de Natal, Sakura sentou na varanda, e ficou observando Sasuke brincando com os cachorros. Izuna, o filho de Madara, passeava ao redor da propriedade junto de uma namoradinha. Ela não teve ânimo para sair como Mikoto, Izumi e Kenton para umas compras na cidade.

Sua cabeça queria explodir com ideias que considerava mirabolantes mas também tão ternas, perigosamente ternas.

Pela primeira vez em muito tempo, ela tinha a disposição uma boa realidade, uma que não queria desfazer. Sentia-se plena, e também completa, satisfeita consigo mesma e com o que conquistou, livre de cobranças e dona de si mesma.

Então porquê?

Não era como se faltasse mais um pedaço para completar, não sentia mais aquele vazio como algo ruim, estava conformada com a perda e ela já não a fazia se sentir mais tão infeliz consigo mesma, não minava mais sua auto estima.

Na verdade, acabou se tornando um sabor de descoberta, um pequeno sabor que foi tirado da boca com um corte que sangrou, mas agora o corte havia sarado e o que temera a vida toda aconteceu.

Queria voltar a sentir aquele gosto.

No entanto, arriscar o que tinha agora valeria isso?

Parecia tão certo e natural como nunca havia soado nem quando era uma jovem saudável e casada.

Isso tudo a estava deixando atormentada, e fomentando apenas mais esses desejos. Queria compartilhá-los mas temia as duas respostas que obviamente ouviria: Um incentivo a tentar, ou a desistir.

As duas coisas a assustavam, ir para frente ou para trás. E ficar empacada no meio do caminho parecia que iria enlouquecê-la.

Relanceando o olhar de volta para Sasuke e os cães, também via-se forçada a lembrar que não era apenas a si mesma que afetaria caso tomasse qualquer decisão. Angustiada, levantou-se do lugar e seguiu para dentro apressada, voltou até o quarto e catou a valise onde guardava a maquiagem, artigos de higiene e remédios, optando por tomar algo que ao menos a fizesse dormir um pouco, sem sonhos.

— A estadia está tão maçante assim? – Fugaku indagou, adentrando o aposento com o sorriso bem humorado que lembrava Sasuke, mas também muito paternal.

Sakura se encolheu, sentindo-se culpada.

Fugaku observou-a e estudou ligeiramente e estendeu a mão, pedindo o pequeno frasco.

— Venha aqui, me dê isso. O ruim desses médicos é que acabam te fazendo depender destas porcarias.

— Não é nada de mais... – Ela arriscou, já fungando, Fugaku afagou suas costas gentilmente e a fez sentar-se na cama, sentou ao lado dela e permaneceu afagando suas costas e deixando-a chorar baixinho e pensar e pensar.

Ela não queria pensar, mas chorando, libertou um pouco mais o medo que sentia de expressar-se em seus próprios pensamentos, ao menos.

Se perguntou se ele sabia disso, se era uma daquelas fórmulas de pais para cuidarem dos filhos. De qualquer forma, não estava mais chorando em pouco tempo, ainda que estivesse muito triste, afobada, esperançosa, assustada, ansiosa, muita coisa para digerir direito.

Ele só continuou lá, afagando suas costas e também pensando, talvez.

— Queria ter tido tempo para fazer com meu irmão... – Chegou a comentar, com um suspiro breve. — Mas você é bem mais forte que ele.

Sakura deitou encolhida na cama, apertando o travesseiro, Fugaku se levantou e pôs o remédio dentro da valise aberta sobre a cômoda.

Seguiu para fora, serenamente e Sakura ficou encarando a caixa preta quadrada e baixa que guardava o presente que Sasuke lhe dera. Uma tiara dourada, exuberante e claro, clichê, para ela se sentir verdadeiramente uma rainha e ter motivo para tanta banca, como ele mesmo disse.

— Chorando? – A voz de Sasuke veio do corredor, alarmada, ele não demorou a surgir no quarto, procurando-a. — Sakura? Sakura...

Sentou, puxando-a para si e apertando. Ela não chorava mais, mas os nariz vermelho assim como os olhos não mentiam.

— Ah, querida, o que foi? O que houve? Estava tudo tão bem...

Sakura concordou, se sentindo péssima e egoísta de novo, mas voltar a se negar ao que queria já parecia tão errado que doía no fundo do seu peito e ela se sentou, esfregando essa parte um pouco e o encarando. Sasuke apertou a palma lá, já temendo que ela estivesse passando mal.

— Querida, o que foi?

— Me desculpe, não quero assustar você, nem magoar, é só que... Está tudo indo tão bem que... parece injusto, eu sei que parece.

— Não entendo, o que é injusto?

— Eu começar a querer isso agora. – Ela soluçou. — Justo agora, depois do que passamos... É.. É injusto, mas eu não consigo, não sei porque mas não consigo...

— Não consegue...? – Sasuke se assustou, perguntando-se se ela se referia a não estar pronta para um relacionamento ou qualquer coisa do tipo, como estarem sérios ante a família dele.

Já temia que tivesse sido um pouco cedo ou forçado demais trazê-la para o meio do ninho, mas não queria outra coisa, talvez fosse egoísta.

Ela soluçou e fungou, tentando se articular sem voltar a chorar, o encarando verdadeiramente com medo da reação dele, mas os olhos brilhando algo que parecia maior que qualquer coisa, muito para conter.

— E-Eu... Eu quero tentar, de novo, digo, tentar de verdade. Sasuke... Eu quero ter um bebê.

Notas finais
Eita Preula