Killer Queen
25 Rainha Inevitável
Notas iniciais

— Que baderna... – Sakura comentou quando entraram nas ruas de um bairro residencial, estava bastante movimentado na frente da maioria das casas, as pessoas se revezavam entre tarefas de decoração nas fachadas de suas residências.
— O Halloween, está chegando. — Matsuri comentou, bastante empolgada, exceto quando praticamente exalava feromônios perto de uma mulher bonita, parecia quase uma adolescente.
— Gosta do Halloween? Porque você ainda tem cara de quem vai buscar doces.
Era estranho (chato e caro) não usar mais do carro de Sasuke, ter que dirigir o próprio, e principalmente não ter mais a presença dele, sem reclamações sobre as notícias de rádio, discussões sobre sexo (nem morta entraria nesse assunto com a tampinha depravada ali), reclamações e antigos podres da época do colégio sendo jogados na cara vez ou outra. O cheiro dele que parecia tão comum ao redor, a voz rouca preguiçosa ou mal-humorada foram substituídos por um cheiro floral amadeirado, e uma voz fina sempre enérgica.
— Não tem mais tanta graça, mas levo meus irmãos mais novos pra buscar doces.
— Tem irmãos?
— Quatro, um de vinte e quatro, um de vinte, um de doze e um de seis.
— Todos homens?
— Minha mãe cumpre bem as promessas que faz. – A jovem suspirou. Sakura não entendeu mas não fez questão mais de saber, pois já chegavam a casa da vítima de um assassinato perto de um famoso estúdio de produção de filmes.
O cara era um mero contra regra, então ou foi morto por ameaçar soltar o podre de algum famoso, ou alguém só estava aproveitando o melhor momento para mata-lo com três tiros no peito.
Estacionou o carro em frente a uma casa onde três crianças entre seis e dez anos brincavam entre os enfeites de uma caixa. Elas desceram do veículo e se aproximaram pelo gramado, o mais velho das crianças correu para a casa não muito bonita em comparação as outras da rua, com tinta descascando e grama precisando de aparo.
Uma mulher saiu pela porta de vidro sujo, vestimenta simples, a blusa por cima da regata manchada por algum molho, os cabelos loiros necessitavam de hidratação ou pelo menos um pente, e no rosto desgastado, havia mais do que marcas de cansaço pela rotina materna, havia marcas de violência.
Sakura e Matsuri se entreolharam, talvez o Sr. Kurt Mandrake não fosse um homem trabalhador tão digno e respeitável assim.
*
— Acha que ela o matou? – Sasuke indagou, quase cedendo a vontade de abaixar queixo e encara-la, mas se o fizesse, certamente seria o rosto dela a última coisa que veria.
— É um palpite forte, ela obviamente sabia quando o marido saía do trabalho, mesmo que fosse tarde, bastava por as crianças para dormirem. O motivo poderia ser facilmente o belo hematoma que ela tinha no olho e no queixo além de três crianças muito assustadas. Só faltaria saber de onde ela teria tirado uma arma.
— Hm...
Ele sabia que era um bom palpite, vítimas de violência domestica poderiam acabar reagindo de maneira extrema quando finalmente chegassem ao ápice do estresse e da humilhação.
Mas a morte não teria sido por um estopim de raiva ou necessidade de reagir e se resguardar, se a esposa de Mandrake tivesse resolvido pegar uma arma e ir matar o marido na saída do trabalho, no estacionamento vazio e sem câmeras.
— Pergunte a mais pessoas, e familiares se existe um histórico de violência realmente, ela negou quando você perguntou se foi ele?
Sakura maneou a cabeça, focada em deslizar a afiada lâmina pelo queixo dele, raspando a camada de espuma e pelo.
— Ela ficou muito abalada quando comunicamos da morte dele. Tentei ser delicada, mas ela só repetia que ele era um bom pai e tudo mais.
Ela afastou a lâmina e a molhou e lavou na pia, Sasuke a fitou ainda com um lado do queixo e pescoço coberto de espuma de barbear.
Com a navalha limpa, voltou ao serviço mas ele a interrompeu.
— Veja bem, ela disse “bom pai”, não, “bom marido”. – Avisou. Sakura refletiu e suspirou.
— Vou passar isso pra Matsuri.
Sasuke riu suavemente.
— E como está indo?
— Exceto quando ela está me perguntando se não tenho “curiosidade sobre lesbianismo”, até que é gente boa.
— Ah, e você não tem? – Ele se calou ao receber um olhar que o avisava que ela tinha seu pescoço na ponta de uma navalha, no momento.
— Querido, o dia que eu tiver vontade de lamber boceta, vai ser quando eu tiver um pau de verdade pra enfiar nela, então, não nesta vida. – Explicou, enquanto raspava o resto, puxou a toalha do ombro dele e limpou o resto de espuma e pelo. — Prontinho. – Pegou um espelho pequeno na gaveta e pôs na frente dele. — Ficou muito bom, não? Eu devia cobrar dos meninos da casa.
Sasuke esfregou a pele agora lisa e macia do rosto, pensativo.
— Bom, nenhum corte exposto, nem bife...
— Quer raspar o das bolas?
— Eu cuido das minhas bolas, obrigado. Posso deixar você lamber todo o conjunto, mas nada de coisas afiadas perto dos carinhas, deixa eles assustados.
Sakura riu, e ele agarrou suas cochas e se levantou da cadeira, levando-a e sentando-a sobre a beira da pia. Ela ajeitou o robe no corpo pronta pra ir dormir cedo outra vez.
— Agora que já deixei sua cara decente pra festa, que tal pagar uma pizza pra eu e os meninos comermos vendo filmes de terror, siiim? O Halloween, está chegandooo.
Sasuke suspirou e se recostou na pia ao lado dela. Era hora do último round.
— Que tal você arrumar essa cara de zumbi, ir pegar o belo vestido que eu te comprei e irmos pra festa juntos, hm? – Contrapôs.
Sakura abriu a boca para contestar ou pedir desculpas, mas arregalou os olhos e o encarou de novo.
— Comprou um vestido pra mim?
Ele deu de ombros.
— E talvez um daqueles pares de sapato fodedores, também. Tipo aqueles que me fazem querer foder você usando eles.
— E sapatos?! – Ela guinchou, disparando pra fora do banheiro, Sasuke a seguiu e jogou na frente do armário quando ela o abriu e já ia com as mãos na caixa cor de creme nas prateleiras acima do cabideiro.
— Opa, calminha, majestade. Ou temos trato, ou sem vestido. – Decretou.
— Seu filho da puta! Deixa eu ver isso, deixa eu ver essa caixa, Sasuke!
— Vai ver caralho nenhum, querida, é pegar ou largar.
— Isso é chantagem! E porque eu aceitaria? Pode muito bem haver uma fantasia de galinha aí!
— Opa, opa, o que será isso aqui? – Ele provocou, empurrando a caixa para o lado e revelando outra mais atrás, com uma logo que ela jamais desconheceria.
Voltou a tentar subir nele e chegar nas caixas.
— Filho de uma chocadeira, são Louis Vuilton?! Fodido!
— Hey, não vale arranhar, estou de toalha! Aceita logo, porra.
— Não vou! – Sakura deu a volta e sentou na cama, braços cruzados. — E você vai ter de sair daí se quiser uma festa, então eu vou ver o que tem aí agora ou mais tarde.
— Ou, eu posso levar no carro e presentear alguma bonitona que não faça cu doce e vá apreciar muito me acompanhar...
Sakura voou da cama até ele, e ele não soube se temia deixar a toalha cair de vez ou que ela arrancasse sua cabeça. A proteção de ambas as cabeças era importante afinal.
— O caralho, o caralho que você vai dar meu vestido pra qualquer piranha entendeu?!
Sasuke sorriu, como se tivesse ganho.
— Mesmo se for uma fantasia de galinha? – Indagou, oferecendo-lhe ambas as caixas, ela relutou como se fosse Eva batendo cabeça atentada pela serpente. Eva relutou menos pra fazer aquela baita cagada, ele tinha certeza.
Sakura puxou as caixas e empinou o nariz, seguindo para a porta do quarto.
— Já vai valer a pena só por você ter gastado seu dinheiro comigo, humpf.
— Seeei. Você tem trinta minutos, querida acompanhante.
— Estarei pronta em quarenta, e se for uma fantasia ridícula, você estará morto em menos tempo.
Ele apenas riu e se voltou ao armário para tirar o terno, Sakura seguiu para dentro do próprio quarto, jogou as caixas na cama e saltou para cima dela, arrancou as tampas e xingou alto, então disparou para o banheiro, tinha que dar um jeito naquela cara e cabelo.
Sasuke se olhou no espelho sem muita paciência, odiava se arrumar para esses eventos, camisa pra dentro, abotoaduras, porra de gravata.
— Uau, está incrível. – Karin disse, da porta, ele a fitou de lado, deslumbrante num vestido azul escuro com algumas extremidades em faixas brancas. O cabelo num coque alto e volumoso.
— Já falei sobre entrar sem bater.
Ela revirou os olhos, e entrou, fechando a porta.
— Queria fazer uma pergunta, e já que você é velho pode responder.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Como quer sua pergunta respondida chamando os outros de velho logo em seguida?
— Aff, foi um elogio!
— Elogio? Elogio é dizer “sábio”, “experiente”, isso é elogio, “velho”? Humpf, só o que me faltava...
Ela o encarou com tédio e os dois riram, Karin suspirou, com a cabeça baixa e dedilhando o anel que tinha no dedo.
— O que você faz... Quando magoa alguém mesmo sem querer... E não quer pedir desculpas, mas sabe que deveria.... Ou que deveria se sentir culpado, mas não sente realmente.
Sasuke a observou longamente, e suspirou, desistindo da gravata, pôs as mãos nos bolsos e encarou o teto por um momento.
— Querida... toda a minha vida eu só sabia duas coisas, não, eu achava que só existiam esses dois polos: Ser eu o culpado, ou outra pessoa ser. Pronto, sem tirar nem por, mas aí você leva um soco, e você olha pro outro, e você e ele... E você e essa pessoa, só querem apontar um para o outro e o culpar.... Mas...
Ela ergueu os olhos e o fitou, curiosa e receosa com seus grandes olhos carmim por detrás dos óculos.
— Mas?
Ele a fitou, os olhos baixos, e apenas cansados, um sorriso curto puxado de lado, que parecia dizer que apesar da dor, alguma coisa boa foi tirada, ou haveria de ser.
E foi quando ela vislumbrou o que era Sabedoria pela primeira vez.
— Mas aí, você descobre que não é culpa de ninguém. E acredite, eu cheguei a pensar: “Isso é bom, não ter que levar o peso da culpa nem o do rancor”, só que chega o momento que percebe, que alguém tem que pedir desculpas, querida.
— Por quê? — Ela indagou.
Sasuke deu de ombros.
— É aí que está, porque se desculpar com algo que era inevitável? É como se desculpar pela queda da chuva no dia de um casamento...
— Bastaria ver o noticiário do tempo...
— Eu não sei como é esta coisa de casar, mas imagino que se eu quisesse casar numa data, não iria querer adiar por nada, e se você sair rumo a igreja vendo um sol deslumbrante no céu, então fodasse se no final do dia estará todo mundo ensopado.
— Você foi abduzido, não é?
— Entre isso e maconha, sabe que prefiro viagens psicodélicas. – Ele piscou. — O que quero dizer é que coisas inevitáveis estão aí para nos magoar e nos fazer sentir uma merda. Vai rolar, o que você deve se atentar é, se a outra pessoa merece passar pelo mesmo tanto quanto você. Claro, realmente foi inevitável? – Indagou-a, observando com atenção.
Karin baixou a cabeça, e deu de ombros em sua habitual teimosia.
Apesar que, desta vez ela parecia mais dividida.
— Então, cheguei a conclusão de que havia mais um ponto a me preocupar, e isso era pior, pois eu poderia confundir o Inevitável com a minha vontade de culpar não apenas alguém, mas algo, para me sentir melhor. Então, Karin, se você magoou essa pessoa, estude melhor a situação, você se sentir menos culpada ou livre de culpa, não muda que é culpada, se for o caso, prendemos muita gente que não está dando uma foda pelas merdas que fez a outros. Você não quer ser um deles.
Karin o encarou, relutante e aborrecida.
— É que eu só... Sou desse jeito, entende? Sempre fui. Eu não quero mudar por ninguém!
— E nem deve até que sinta que as pessoas merecem, Karin, mas principalmente até que sinta que quer ser uma pessoa mais diferente ou melhor, por si mesma. Quero dizer que, okay, tudo bem que não sinta realmente culpa e que a outra pessoa está exagerando, mas você não pode ignorar que querendo ou não, causa um impacto. E isso querendo ou não é sua culpa, e isso, é diferente de ser...
— O polo inevitável....
— É.
— Então... Eu tenho que pedir desculpas?
Sasuke suspirou e pôs um braço sobre o ombro dela, os dois seguiram para a porta e saíram pelo corredor.
— Não faça algo que não quer, Karin.
— Mas isso geraria impacto...
— Sim, então apenas reflita, vale a pena deixar de pedir desculpas e deixar isso estragar todo o resto? Não estamos mais falando de culpa, mas de mostrar que se importa ao menos o bastante para pedir desculpas. Lembra do polo inevitável?
— Hum.
Sasuke parou ao pé da escada, e a fitou com aquele olhar de dor, resignação e aprendizado que deveria ser a fórmula da Sabedoria.
— Não foi culpa de ninguém, e parecia que assim, não tinha como remendar os pedaços. Ainda parece que não mas... Pedir desculpas, foi o bastante para ao menos dar uma força pra tentar recomeçar.
Karin o fitou, as sobrancelhas franzidas.
— Do que está falando, Sasuke?
Ele suspirou e a soltou.
— Da vida. Agora vá ver se aquele pingentinho já está pronto ou a levo no bolso mesmo.
Karin subiu as escadas calada, Sasuke se recostou no corrimão sentindo-se cansado e lamentavelmente sentimental.
Ouviu o quique de saltos no piso, ergueu os olhos e deparou-se com Sakura descendo os degraus, ajeitando alguns anéis nos dedos, a seda de tom champanhe deslizava atrás dela numa cauda mediana, que cobria uma das pernas e exibia a outra completamente.
Ela sorriu empolgada e parou um degrau acima dele.
— E então?
— Desculpe, por tudo. – Sakura franziu o cenho.
— Hã?
— Tudo mesmo, não devia te forçar a ir, sobre os meus pais, não conversei com eles, mas...
Ela segurou seu queixo, e o encarou.
O Inevitável atacou novamente e ele se perguntou desde quando estavam sendo alvo deste poder invisível. Sakura plantou um beijo em sua boca, baixou a cabeça, e o abraçou, suspirando.
— Que seja, desculpe também. Só... Só dorme comigo essa noite?
Ele entendeu o que ela queria, dando o permissão, finalmente, para que ele se abrisse com alguém importante, mesmo que não houvesse negado realmente ou diretamente. Os dois sabiam agora, que ele não conseguia dar esse passo sem permissão, e apenas adiava e adiava.
Em troca, ela só queria uma noite longe, pra se preparar e lidar com isso.
Sasuke a abraçou e beijou sua cabeça, alisando suas costas nucas, sentindo as marcas de guerra, decidiu que era hora de tratar as feridas que haviam agora. E era isso que poderia fazer por ela.
— Vamos marcar uma hora com a sua terapeuta, tá? Os dois, quando você quiser.
Sakura respirou fundo, engolindo qualquer choro e apenas assentiu.
— Sim... Nós vamos.
— Okay.
E talvez o Inevitável pudesse se tornar bom, começando por um simples pedido de desculpas.
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