Killer Queen
37 Rainha Inconstante
Notas iniciais

Sasuke entrou em casa, acenando rapidamente aos policiais na entrada, Sui verificava cada janela e Sakura estava na cozinha, com uma cara mais que impaciente, ao lado da mãe dele e de Lídia, que pareciam tentar mantê-la calma.
Ela se levantou de uma vez e foi até ele, corando de raiva.
— Que diabo está acontecendo, Sasuke? Porque porra você sumiu, e porque porra essa gente está pela casa inteira?
Ele estava um tanto exausto demais para discutir com ela, brigar com Sakura exigia muita energia e disposição, mas não podia culpa-la de querer respostas.
Tirou uma embalagem da perícia, que estava com várias fotos. Sakura franziu o cenho, tocando o saco, vendo a si mesma na foto que parecia ter sido tirada do lado de fora de seu quintal, posto que era pega enquanto estava na janela da cozinha tomando chá e acariciando o pelo de um grande gato preto que aparecia de vez em quando na vizinhança e ficava pelas árvores, provocando Gibs e Augustine.
O bichano era tão ousado que já entrava na casa atrás de algo pra comer, caso nenhum dos cães o notasse. Ela acabou que dava umas sardinhas pra ele, quando aparecia. Sasuke até disse para ela parar e que isso era uma traição ao Gibs, declarado arqui inimigo desse gato.
E não o via a várias semanas, recordou.
— Que porra é essa, Sasuke?
Sasuke largou o saco sobre a mesinha de centro.
— Parece que encontramos a “base secreta” do assassino do caso Green eyes, Sakura. Isso estava lá, você era um alvo.
Sakura sentiu uma tontura, incapaz de processar ou aceitar isso, de ver sentido nisto, nem sentia medo realmente, mas esta coisa era mirabolante demais para processar.
— Querida, por favor sente! – Mikoto pediu, quando viu, Sasuke já estava puxando para o sofá, e Lídia veio com um copo de água.
— Sossegue, menina! Não pode se exaltar no seu estado.
Sakura recusou o copo, não sentia que podia engolir nada ainda.
— O que você está dizendo? Como isso é possível?
Sasuke suspirou nervoso, esfregando as costas dela.
— Eu não faço ideia de quando ele te viu, meu bem. O lugar era um cômodo num prédio abandonado.
— Onde?
— Ao lado da construção que te falei. Onde aquele bilhete pedia que você fosse.
Ela o encarou de novo.
— Tá me sacaneando? Diga que pegou o verme.
— O verme provavelmente foi quem me acertou ontem com a barra de ferro. Ele fugiu sem pensar duas vezes, mas provavelmente não achou que iriamos procurar ao redor. Bom, foi um golpe de sorte. A questão é, já deve saber que achamos a toca, o problema é que não tem nada lá que indique quem ele é, e para onde pode ter ido.
— Só pode ser piada. Piada.
— Eu queria que fosse, Sakura. Você não pode mais ficar sozinha.
— Ah, vão pra casa do... – Sakura se levantou, com ânsia de vômito, foi direto para a pia da cozinha. Lídia a seguiu, desesperada e Mikoto se voltou para ele.
— Se é tão perigoso assim. Não é melhor ela sair da cidade? Até mesmo viajar? Seria melhor assim, não seria? Querido, ela está grávida.
Sasuke a fitou, cansado e desolado.
— Mãe, é da Sakura que estamos falando.
— Ele quer vir pra cima de mim? Pois que venha que eu vou encher o saco daquele merdinha de bala! – Sakura passou como um foguete subindo as escadas, Lídia já estava ficando histérica.
— Menina! Suba de devagar! Deus de misericórdia!
Sasuke deixou a cabeça cair para trás, nada surpreso.
—... Filho de uma chocadeira, pervertido desgraçado, pensa que está lidando com pouca merda? Eu vou atirar no saco dele, e enfiar isso aqui no rabo dele! – Ela voltou, descendo e portando sua adorada sniper que mantinha guardada no quarto dela e só tirava para limpar ou usar no estande de tiro da polícia. — E depois eu vou cortar as bolas dele e enfiar na boca dele e empalar ele pelo rabo! – Rugia pela casa, indo de uma janela a outra e verificando ela mesma. — Sai da frente, pirralho. – Empurrou Suigetsu longe e posicionou a arma em frente a janela. — Deixa esse cuzão pisar aqui que vai ser recebido com bala de chumbo.
— Sakura, claro que ele não vai pisar aqui com o quintal cheio de policiais...
— Então dispense essas topeiras! Eu quero que ele venha até mim! Até mim! E vai aprender o que acontece quando se brinca com a vida dos outros. Imundo desgraçado.
Sasuke se levantou e foi até ela, puxando a faca de caça que ela já mantinha ao lado e arma.
— Ele não vai vir até você, pois até que ele ouse eu espero já ter tudo o que é preciso pra localizar esse rato e por numa cela, entendeu? Largue essas coisas mulher, e para de gritar, vai assustar o bebê.
— O bebê está ótimo, é meu filho, esqueceu?
— É pra me tranquilizar ou assustar mais?
— Eu vou dar um tiro no seu rabo. – Sakura ameaçou, possessa e deu a volta rumo a escada. — Bando de arrombados, parem de me tratar como se eu fosse uma donzela, seus cuzões filhos da puta...
— Tenho medo das primeiras palavras desse bebê. – Suigetsu confessou.
Sasuke assentiu.
— Eu também.
*
A primeira medida que Sasuke tomou com a casa foi instalar um bom sistema de segurança e alarme, também mandou murar os fundos da casa, e pôs duas casinhas de madeira para os cães passarem mais tempo lá fora, mesmo sob os protestos de Sakura.
Instalou algumas câmeras na frente da casa, fundos e laterais, e sinceramente nem era como se fosse um exagero para ele, desde que com a vinda do filho, já pretendia fazer da casa mais segura de qualquer jeito.
Praticamente teve que arrastar Sakura para a casa dos pais enquanto estas pequenas reformas eram feitas, e mergulhou de vez na análise de cada pista nova que conseguiram naquele buraco de rato.
Mas, ao menos, eles entraram no quinto mês de gestação com alguma tranquilidade. Sua maior preocupação era que esta merda toda afetasse o bebê, Sakura estava irritadiça por ter se tornado parte do caso em vez de ajudar a resolvê-lo, e ele adiava o máximo de confrontos com ela, o que também era difícil, pois ultimamente não sabia se ela queria matá-lo ou transar, a libido dela estava quase triplicada.
Mas estava tendo ajuda para contornar, o quarto do bebê começou a ser repintado, Rachel e Mikoto a estavam ajudando com ideias para a decoração, Lídia vinha mimá-la com muita comida sempre que podia e todo mundo na casa era um anjo para evitar olhos roxos.
Sasuke trazia um pouco de trabalho para casa e ajudava ela a acelerar uma boa parte dos casos em que trabalha junto de Matsuri, mas já estava sentindo a dor de cabeça em imaginar que logo teria de lutar para convencer aquela louca a entrar de licença maternidade. Até torceria para o médico recomendar isso se não fosse por ele só o fazer caso a gravidez apresentasse um risco maior.
Sasuke dobrou algumas folhas e pôs na gaveta, abriu o notebook, até perceber a porta se escancarar um pouco mais, quase achou que era Gibs, mas estranhou ver Augustine adentrar o cômodo, muito quieta, e cheirando tudo pelo caminho.
Ela cheirou todas as estantes, então seguiu até a poltrona de visitas, subiu nela, cheirou, desceu, depois rodeou a mesa até ir para um canto entre uma estante e a parede onde ficavam as janelas, ali deitou, e ficou o encarando.
Sasuke geralmente ignoraria, mas ela não era de agir assim tão quietinha, sempre chegava se metendo, tentava subir na mesa, nas cadeiras, latia ou tentava tomar algum sapato e roer, era uma pentelha, mas além de tudo, Gibs era o único que vinha mais a esse cômodo, e quando Sasuke estava nele, Tinny ficava ao redor de Sakura, poie sempre arrancava um agrado dela assim, ou quando Sakura estava fora, ficava na sala ou lá fora, esperando-a.
Ela detestou ser expulsa de casa e ficar na casinha, mas se acostumou pelo menos a noite.
Ele se levantou, se perguntando se só estava cansado e entediado do trabalho para se atentar tanto os costumes de uma cadela, ou se ela realmente estava estranha.
Se aproximou se abaixando, e acariciando a orelha dela.
— Hey, o que a madame tem? Nunca curtiu esse pedaço... Hm? Está doente? Não deveria estar disputando os brinquedos com o Gibs? – Ela apenas ganiu um pouco, com manha e preguiça e se deitou de barriga pra cima, Sasuke afagou-a um tempo, achando-a meio gorda também.
Mas não podia culpa-la, Sakura tanto comia toda hora quanto quase sempre dividia com a cadela, não deveria estranhar que estivesse acompanhando a dona e ganhando alguns quilinhos.
— Está meio redonda, hein? Alguém tem que parar de comer tanta besteira. – Mas ela parecia bem, e ele a deixou em paz antes que o mordesse ou quisesse seus sapatos.
Se afastou deixando a sala, com a porta entreaberta, e seguiu para o quarto, Sakura cochilava de lado, como a barriga começava a exigir, numa camisa dele de botões e de short, e papelada de casos ao redor.
Sasuke se sentou na beira da cama, atrás dela e acariciou sua tez, tirando o cabelo do rosto, orgulhoso de como ela hoje em dia dormia com tanta paz. Diferente da criatura machucada e arisca de um ano atrás que rosnava, gritava e agredia durante o sono.
Ela se remexeu, despertando, mas não abriu os olhos.
— Já cansou?
— Dando uma pausa, e você?
— Já cansei mesmo.
— Hah, talvez devesse pegar umas férias e ir pra um spa.
— Boa tentativa, mas posso ficar e cobrar meus orais e massagens nos pés.
— Acho que dá pra chegar a um acordo. Mas enfim, algo aconteceu com a Tinny? Ela anda estranha.
— Augustine? Não sei, não parece, além que anda atacando a ração do Gibs, e como ele não é cavalheiro enquanto come...- Ela bocejou. — Pus mais ração pra ela.
— Ah, por isso está ficando redonda. Mas ela anda meio quieta.
— Deve ter sido a mudança pra casinha, ela se acostumou aqui dentro, como uma dama.
— Claro, só podia ser isso mesmo. Tudo bem então...- Sasuke beijou seu rosto e fez menção de se levantar. Sakura segurou seu braço, puxando de volta um pouco.
— Hmm, você já vai voltar pro trampo ou ainda vai ter um tempo de pausa?
— Depende. Vai me fazer cruzar a cidade inteira?
Sakura se sentou, sorrindo.
— Aquelas balas de mercado, em forma de ursinhos...
— Doce de novo, Sakura?
— Eu sei, desculpe, mas só consigo pensar nelas, aquelas vermelhas, verdes e amarelas, borrachudas e brilhantes, hmmm? Por favor?
Sasuke suspirou, e beijou-a, se levantando.
— Certo, mas não saia de casa.
— Prometo. — Ela revirou os olhos, Sasuke seguiu para a porta. — E você vai ser um pai bem gostoso.
— Isso eu já sei, o mulherio todo diz isso.
— Mulherio? Que porra de mulherio?
— Volto logo, madame.
— Madame o caralho, de que mulherio você está falando? Volta aqui e fala isso na minha cara, malandro!
Sasuke desceu as escadas ajeitando o coldre no corpo e vestindo uma jaqueta, saiu de casa digitando a senha que mantinha tudo seguro para quem estava dentro e só permitia, obviamente que tinha uma senha própria para tal.
Seguiu pela calçada até o próximo quarteirão, havia um mercadinho onde faziam compras quando estava com pressa para cozinhar algo e achou um pacote dos benditos ursinhos, aproveitou e comprou também chocolates com mais de setenta por cento de cacau, iogurtes naturais, massa para macarrão e demais ingredientes, afinal, sabia que havia deixado uma fera atiçada em casa e precisava levar armamento pesado.
Enquanto passava as compras e conversava com o vendedor já conhecido, o telefone tocou em seu bolso.
— Mãe? Olá, madame.
— Trabalhando, querido? Atrapalho?
— Não estou na delegacia, mas comprando alimento pra fera lá em casa.
— Fera que você certamente atiçou um pouquinho.— Ela sugeriu, matreira.
Ele não podia negar, provocar Sakura era tão necessário quanto transar com ela, pra ela também, e recordou de se apressar e voltar com os mimos antes que ela armasse um contra ataque diabólico.
— Só um pouquinho, vai?
— Garoto eu pari você, e tudo por culpa de “Só um pouquinho, vai?” do seu pai...
— Mãe?! Eu não acredito que... Puta que o pariu!
Sasuke largou o dinheiro no balcão e saiu com as compras.
— Ora, o que foi? Você já é grandinho, vai ter bebês também... E Sakura vai te lembrar como foi assim que a dor vier.
— Primeiro que nenhum de nós sabe qual foi a tentativa que deu certo! Segundo que eu não tenho que saber como fui feito, e nem quero aceitar que vocês transam!
— Dramático... Mas pode ter certeza que ela vai lembrar, oh, se vai, na hora do parto, você lembra até das balas que roubava quando era pequena, é como pagar seus pecados numa única prestação...
Sasuke esfregou o rosto, já cansado de ouvir historias de parto e Sakura mau saiu da metade da gestação.
— Certo, mãe, okay. Pro que mais você me ligou além de me traumatizar?
— Haha, queria conversar sobre o Chá de bebê. Realmente faremos logo? Siiiim?
— Ah, isso, eu não faço ideia, mãe, e você quer fazer surpresa... Eu não se Sakura vai gostar tanto, ela ama seu carinho mas ela adora organizar estas coisas também, ela vai querer ter opinião.
— Oh, mas terão muitas pela frente, nascimento, batizado, primeiro aninho... Eu só quero surpreender ela como surpreendemos Izumi...
— Eu sei, querida. Eu vou sondar ela mais um pouco, okay? Ah, e tem Lídia, Sakura a ama, posso ver se consigo uma parceira pra senhora.
— Lídiaaa, seria ótimo? Mulher maravilhosa! E quem sabe eu consiga uma das receitas dela.
— Que interesseira, tenho que ir, a leoa precisa ser alimentada...
— Certo, certo, cuide bem dela, querido. Até!
Sasuke já ia pondo o telefone no bolso quando percebeu algumas mensagens, a pessoa pedia para encontrá-lo ainda hoje e ligar de volta.
Ele franziu o cenho sem saber como se sentir diante do que isso poderia querer dizer.
*
Sasuke entrou em casa com pressa, atravessou a sala e deixou as sacolas sobre o balcão, já eram mais de sete da noite, e ele já preparava os ouvidos para a tempestade.
— Sakura? Sakura? – Chamou.
Karin que estava na sala, comendo frango frito e assistindo algo no celular, se pronunciou.
— Ela não está.
— Como é?! Onde diabos ela foi?
— Ah, ela se arrumou toda, e disse que ia sair pra comer algo, e que iria sozinha, levou a arma para enfatizar...
— E você deixou ela ir?!
— Ouviu que eu disse que ela levou a arma? Eu não quero um tiro na bunda. E ela foi de carro, deixe a mulher relaxar, você a mantém aqui quase o tempo todo.
Sasuke já andava de um lado para outro, ligando, as chamadas caíam ou eram redirecionadas.
— Era só pedir pra sair, porra! Eu a levaria!
— Bem, ela estava tão zangada com você... Porque demorou tanto? Não iria só na esquina comprar balas?
— Eu... Recebi uma ligação, e vou precisar viajar logo...
Karin o fitou por cima do ombro.
— Olha, gostar do perigo é uma coisa...
— Não é de propósito, Karin, é importante. Mas não posso ir com aquela doida batendo perna por aí e com tudo que ainda tem acontecido!
A suspirou, pegando o telefone outra vez.
— Você vai ficar me devendo a vida...
— Sabe onde ela está?!
— Pedi para ela me mandar a localização, só por precaução. Aqui.
Sasuke catou a jaqueta e as chaves, leu rapidamente o endereço no mapa e foi pra porta.
— Peguei! Obrigado querida, eu te cubro.
— Humpf, não se estiver igual uma peneira!
Sasuke saiu batendo a porta, Suigetsu desceu as escadas.
— O que foi dessa vez?
— Sakura caiu fora, Sasuke foi atrás, eu ajudei, e agora preciso encontrar um bunker...
— Puta merda! Você contou?
— O que eu podia fazer? E o que você tem haver? Fez merda?
— Puta que o pariu, o restaurante, eu conheço o maitrê! Eu pedi pra ele dar uma bela mesa pra ela, Sasuke vai me fazer de peneira!
Karin meneou a cabeça, suspirando.
— Vou arranjar uma transa e dar o fora...
— Eu vou me trancar...
Os dois se entreolharam, e perceberam que podiam fazer tudo isso juntos.
*
O Soho House West Hollywood, ocupava os dois últimos andares de um edifício de 14 andares na rua Sunset Boulevard, em Hollywood.
O bar se localizava na cobertura, oferecendo uma bela vista de Los Angeles, a área de jantar ficava no terraço e tinha um jardim forrado com oliveiras plantadas no chão e coberto por um teto retrátil.
Se tinha uma coisa que Sakura adorava, eram lugares refinados, tranquilos e onde fosse tratada muito bem. Foi a primeira vez que adorou estar grávida quando saía, pois a encheram de lisonjas e elogios, quando se sentia apenas redonda, num vestido sem graça e com o cabelo parecendo uma palha.
Estavam lhe oferecendo um monte de quitutes sem ela pedir, o que a poupava de parecer morta de fome (como realmente estava) e vinho leve e suave, linda música ambiente, pessoas educadas e serventes muito atraentes.
— Mas você tinha que estragar tudo, não é?
Sasuke deu de ombros, lisonjeado, enquanto folheava o cardápio.
— Você viu o preço do salmão? Dava para decorar o quarto do bebê com o preço disso aqui...
Sakura revirou, os olhos, erguendo a taça.
— Meu bebê definitivamente vai ter uma decoração mais cara que um prato de salmão... E eu pedi salmão, vai pagar, já que veio me infernizar.
Sasuke empurrou o cardápio de lado, fitando-a com malícia.
— Que tal um programa com um romance meloso, batatas fritas e um chupada deliciosa de boa noite, hm?
Sakura o fulminou com os olhos, não sabendo se o odiava mais por querer aquelas malditas batatas gordurosas ou uma boa chupada. Mas se manteve resoluta.
— Dispenso.
— Oh, qual é, olhe só pra você, está salivando por todos os lados...
— Se não calar a boca, eu vou embora e não é pra casa.
Ele suspirou, olhando em volta, olhou-a, aborrecida e bebendo vinho demais. Ela parecia tão bem quando chegou, empolgadíssima com o lugar e o tratamento afrescurado. Sasuke decidiu que era impossível tirar dela o jeito de madame, por mais bruta que pudesse deixá-la.
Teria trago ela com todo gosto, mas não podia negar que tentaria evitar, para mantê-la quietinha sob sua asa. Se sentia um pardal tentando proteger uma águia e isso era frustrante.
— Certo, você ganhou, vamos comer aqui, e dar uma volta até, tudo bem?
A expressão dela caiu mais, os olhos avermelhando e molhando, mas nenhuma lágrima caiu realmente, só ficou profundamente magoada e silenciosa.
— Porque você tem que fazer tudo uma competição?
Sasuke quase afundou a própria cara na mesa.
A louca competitiva era ela!
Ele era apenas o provocador, mas tinha que admitir que vinha provocando-a, em parte para mantê-la perto, discutindo, noutra parte porque adorava irrita-la, outra parte, porque era engraçado vê-la fora da pose tão fácil, mesmo que na maioria das vezes fosse fazê-la chorar.
Desde quando ele era tão sádico? E gostava tanto de vê-la sensível a si? Seria por ter passado tanto tempo sendo o implicante com o jeito dela?
De qualquer forma já estava assumindo uma posição cruel, se ela estava sensível, era por estar grávida, ele tinha parte nisto também. Talvez não estivesse já tão acostumado a cuidar bem dela como achou, quando passou um tempo sendo tão pressionador em fazê-la se abrir. Talvez só quisesse o controle dessa monstrinha.
— Oh, não faça isso, me desculpe. Estou sendo babaca de novo. — Ele puxou a cadeira para perto dela, ignorando que pudesse incomodar as outras mesas, passou o braço em torno dela. — Não precisa chorar, certo? Não estou te fazendo escolher, você quer se divertir do seu jeito, okay. Nós vamos, se queria vir antes, era pra ter dito, sei que te encho o saco sobre não gostar desses lugares caros e esnobes, mas tudo bem, certo? Eu posso aproveitar se estiver com você.
— Você demorou, e nem trouxe as balas de ursinhos.
— Certo, desculpe, eu as comprei, estão lá em casa. Quando chegarmos, vai poder devorá-las.
— Mas eu não quero ir agora.
— Então não vamos, balas de ursinho pra fechar a noite, apenas.
— Tudo bem...
— Vamos lá, majestade. Comer salmão mais caro que quartos de bebês, e rir da cara dos famosos e ricos aqui.
— Oh, sim... Por falar nisso, acredita que vi Ben Afleck? Tão gostoso, pena que não vale nada. Uma versão piorada de você.
Sasuke orou internamente.
— Mas disseram que Henry Cavill vem aqui de vez em quando, esse eu queria pedir autógrafo e saber se é todo grandão mesmo...
Sasuke catou um quitute e empurrou na boca dela.
— Come um pouquinho vai.
*
Um mês depois.
Era dezembro novamente, já estava chovendo bastante e Sakura acabara de entrar no sexto mês de gestação, saudável, e segura.
Sasuke se levantou um pouco, olhando por cima do ombro dela e notando seu sono profundo, se afastou devagar, tirando o braço de entorno dela e sua barriga. Sakura se mexeu e ele empurrou um dos travesseiros em forma cilíndrica para perto dela, eram ótimos e longos como serpentes, ela dormia rodeada por eles, facilitava seu sono de lado.
Saiu da cama, pegou as chaves, o celular e arma, saiu do quarto e foi ao escritório, entrou e quase teve um infarto, ao deparar-se com Tinny rosnando do canto da sala.
— Mas que... Mas que porra você faz aqui? – Ela o fitou e se limitou a deitar de costas.
O comportamento dela continuava bizarro, Sasuke decidiu que a levaria o veterinário assim que chegasse e tivesse tempo.
Pegou uma pasta na gaveta e deixou o andar, digitando ao celular e enviado uma mensagem ao grupo mais estranho que já esteve na vida.
Nada mais esquisito que dividir informações com sua mãe, Rachel e Lídia. Seu celular estava abarrotado de Imagens de receitas, decorações e roupas ou de Rachel reclamando por ele ter feito só um bebê em Sakura em vez de dois.
“Estou saindo, o resto é com vocês”. Deixou avisado e se espantou de receber resposta tão rápido.
Boa sorte, bebê!
“Porque está acordada a essa hora?”
Você nem vai querer saber ;)
Ele já quis furar os olhos só com essa mensagem.
— Puta que pariu, são duas e meia da manhã!
Sasuke saiu de casa rapidamente, Gibson o quis acompanhar mas ele teve que focar em manter as aparências, o carro já estava fora da garagem, em frente a casa, ele entrou, e começou uma longa viajem até o Nebraska. Torcia para que desse certo e tivesse êxito.
Foram mais de dezessete horas num carro, Sasuke seguiu até uma cidadezinha de cerca de seis mil habitantes chamada Sidney, predominantemente rural, ao que parecia.
Ele parou num posto de gasolina, e comprou um café, pegou o telefone e olhou as mensagens, algumas do grupo daquelas doidas, outras do trabalho e algumas de Sakura, nada feliz por ele ter bancado o fugitivo, mais que desconfiada.
Sasuke não sabia se estar sem sinal era um azar ou uma benção.
Tomou o café e pegou a estrada novamente, lembrando da conversa que teve com Karla Nielsen.
“Sasuke puxou a cadeira com pressa, sentando-se e pousando as mãos na mesa.
— Porque me chamou?
Karla sorriu, de forma educada e contida, sempre em seus terninhos de tom pastel, cabelo crespo impecável.
— Desculpe chamá-lo tão repentinamente, estava muito ocupado?
— Um pouco. Sakura me enlouquece por doces..- Ela franziu o cenho, um pouco confusa. — Ela está grávida, vamos ter um bebê.
A mulher piscou, surpresa.
— Oh, nossa. Mas isso... isso não muda tudo?
Sasuke estreitou os olhos, refletindo e entendendo o que ela queria dizer, poderia não ter sido intenção, mas ofendeu, e Sakura a socaria muito se estivesse ali. Suspirou.
— Não, não muda. Sobre o que veio falar?
Karla assumiu uma posição de criteriosa análise agora. O encarou com seriedade.
— Tem certeza?
— Ah, caralho, claro que tenho. Planejamos a gravidez desde o começo do ano, e ainda sim, como deve lembrar, continuamos em contato com você, esperando alguma notícia.
Ela suspirou, concordando.
— Perdão, é que já vi isso antes. Casais que não conseguem ter filhos adotam, engravidam depois e não conseguem dar amor e atenção ás duas crianças, algumas famílias até mesmo devolvem... É... triste, e penso que Noein já está velho, e não tem estrutura emocional para ser posto neste tipo de situação. Tenho que pensar no melhor pra ele.
Sasuke tinha que entender, mas era ele quem estava ao lado de Sakura vendo ela continuar firme em ter Noein de volta mesmo quando engravidou, para ela não haveria essa diferença.
— Mas porque está preocupada com isso agora? Nem sequer o encontrou. – Não pode evitar falar com certo rancor, Karla se encolheu ligeiramente envergonhada da falha que resultou naquela confusão toda.
— Bom, é sobre isso que vim falar... um abrigo numa cidadezinha do Nebraska informou que haviam recebido uma criança bastante estranha, ele se recusava a dizer o nome, de onde veio, e foi pego dormindo com alguns mendigos na beira da estrada. Eles estão com ele a pouco mais de quatro meses. – Disse, remexendo a bolsa e pegando uma pasta. — Muitas crianças são pegas desse jeito, mas nem sempre demora tanto pra descobrirem de onde vieram, acontece mais na cidade grande, quando fogem para fazer algo como conhecer um ídolo, amigos virtuais, ou parentes distantes. Então o juizado emitiu a foto dele e mandou para alguns estados ao redor. Nem teria chego a mim se não fosse por conta de alguns contatos. Veja você mesmo.
Sasuke puxou a pasta para si abriu, havia uma ficha e uma foto anexada.
— Puta que pariu...”
O abrigo ficava numa pequena fazenda que sobrevivia com ajuda do governo e da comunidade, as crianças eram ensinadas por freiras tanto no ensino escolar quanto no religioso, trabalhavam nas hortas, faziam artesanato, aulas de música e apesar de parecer humilde, tinha uma alta taxa de adoção e boas referências no que compelia ao bom cuidado e assistência a elas. Muita gente vinha de fora do estado encontrar um possível filho.
Karla disse que estava preparando o que era preciso, que os apoiaria desde que pudesse verificar que estava fazendo o certo, para compensar sua falha passada.
As porteiras estavam abertas, o abrigo tinha três grandes construções antigas, um casarão recentemente pintado e cheio de gravuras tortas certamente feitas pelas crianças, o que parecia ser uma pequena igreja e escola, e um celeiro. Para a esquerda, haviam várias hortas, crianças de várias idades e freiras trabalhando nelas. Alguns cavalos e vacas na pradaria.
Sasuke desceu do carro se vendo alvo de dezenas de olhinhos curiosos, a maioria entre seis e dez anos. Alguns adolescentes e os menorzinhos brincado num parquinho sempre acompanhados pelas freiras. Varias cabecinhas apareceram nas janelas do casarão e da igreja.
Ele ligou o alarme e seguiu na direção da casa. Sentiu como se passasse por um tipo de mercado, as crianças, principalmente os menores, vieram da hortas correndo e parando para o encarar, olhos desconfiados e ao mesmo tempo esperançosos, esperando serem notados e escolhidos.
Ele se sentiu desonesto por já chegar com uma escolha feita. Os mais velhos não faziam grande questão, apenas desconfiança em seus olhos.
Uma mulher mais robusta e séria deixou a casa e veio na direção dele, o analisando com um olhar quase cortante de tão analítico e severo.
— Sr. Uchiha eu presumo.
— Madre Louise, eu presumo. – Ele apertou sua mão e seu lado filho da puta só conseguia pensar que esta velha precisava de uns orgasmos para tirar esta cara azeda. Isso definitivamente iria pra sua conta na hora do grande julgamento.
— Chegou mais tarde do que o esperado.
— Ah, sim? Tive uns contratempos com o carro e o GPS, não costumo viajar muito de carro.
— Entendo, acompanhe-me...
Ela deu as costas e ele a seguiu, sem grande empolgação, seu mecanismo de adolescente delinquente estava desativado a muito tempo, mas vez ou outra aparecia uma figura assim que o dava vontade de ser impertinente. Mas tinha que manter a pose, era por Sakura também.
Seguiu olhando em volta para as crianças, na porta tinha uma menininha de uns quatro anos, num vestidinho estampado com flores, cabelinhos loiros e olhos doces, o fitando com um sorriso sapeca e curioso.
— Oi, princesinha? – Acenou, ela sorriu, riu e saiu correndo, muito alegre. Ele se perguntou se era a primeira vez que a tratavam assim, as freiras pareciam amáveis (tirando a madre), mas era algo mais como um laço entre professor e aluno ali.
Havia passado a viajem inteira se condenando por ter mantido segredo de Sakura, mas achou que acertou na decisão, ela desabaria em lágrimas, e enfiaria o maior numero de crianças no carro. Quem dera as coisas fossem tão fáceis.
Ele só sabia que passaria o resto da vida pedindo para que nada acontecesse a ele e Sakura que impedisse-os de ver seu bebê crescendo, ou seu filho de estar com eles enquanto crescia. Era uma angústia sem tamanho imaginar seu próprio filho largado ali, tão carente de afeto que qualquer estranho serviria nem que por um momento, e revoltava imaginar quantos pais não faziam isso por mero capricho.
Madre Louise o conduziu até seu escritório, no segundo andar, Sasuke podia jurar que uma das freiras ou noviças piscou pra ele, mas preferiu não procurar nenhuma certeza...
Sentou em frente a madre e conversou com ela por um tempo, a mulher se mostrou mais flexível do que imaginara, seja por ter aprovado o esforço dele e de Sakura, seja porque a expectativa de despachar mais uma criança sem muito trabalho a interessava mais.
Ele tampouco estava interessado nos motivos dela, deixaram o escritório notando que a movimentação tinha diminuído.
— Estão todos fazendo a lição.
— Ah... Quantas crianças tem, mais ou menos?
— Um total de sessenta e duas, mas várias estão em processo de adoção.
— Tem muitos bebês? Sei que a maioria dos pais assim prefere.
Ela suspirou, concordando.
— Não muitos, as pessoas aderem cada vez mais ás adoções fechadas, quando os pais biológicos fazem um acordo para entregar a criança ao casal. E a maioria dos bebês é adotada rápido, o processo é mais simples pois a criança quanto mais nova, mais fácil se adapta aos pais adotivos e eles a ele.
— Entendo. E quanto aos mais velhos?
— Quanto mais velhos, menos chances têm, infelizmente. São crianças com personalidades já formadas, que nem sempre se adaptam ao que os pais querem e podem oferecer. Serei sincera. -Avisou. — Se não viesse, ele provavelmente permaneceria aqui até a maioridade, vimos que é uma criança muito inteligente e dotada, alguns casais já vieram sondá-lo mas ainda estavam inseguros por conta de ele se negar a dizer de onde veio. Mas o garoto tem um temperamento difícil de domar e conquistar, os casais geralmente querem ser cativados, e não cativar. Querem olhar pra criança e já se sentirem pais, esse tipo de sentimento nem sempre vem fácil, deve ser conquistado.
— O que acontece com os mais velhos quando ficam adultos?
— Depende do abrigo, nem todos oferecem a estrutura necessária. Aqui, graças Deus, podemos educá-los no caminho correto, algumas empresas da região os oferecem chances de trabalho e estágio, algumas das freiras e noviças aqui já foram crianças e seguiram o caminho de Deus para ajudar outras crianças. Alguns vão embora e nunca mais voltam, infelizmente, nem sempre conseguimos fazer com que a vida aqui seja feliz o suficiente, o sentimento de não sentir-se bom o bastante para ter uma família pode gerar um trauma.
Ele assentiu, com remorso, sabia bem como o mundo podia ser cruel, via muito disso no dia a dia, mas quando se tratavam de crianças, era sempre mais difícil de engolir. Estas que deveriam ser as mais protegidas, muitas vezes acabavam na linha de frente dos problemas dos adultos.
Louise o levou até os fundos atrás da igreja, onde algumas crianças estavam em cadeiras de madeira enfileiradas, com instrumentos e partituras, ouvindo uma das freiras que e tinha uma voz um pouco enjoada e escrevia e desenhava notas num quadro negro.
A maioria entre cinco e talvez dezesseis anos, não muito empolgados com a aula, mas se agitando com a presença dele e da madre. Criando uma onda de bochichos.
Sasuke procurou com os olhos, logo localizando um garoto magro e esguio, sentado com os ombros caídos e segurando um violoncelo com enfado e uma expressão aborrecida, quase sonolenta. Continuava sardento mas um pouco mais amorenado e o cabelo ainda maior e muito mais encaracolado ou desgrenhando do que antes.
Sasuke expirou, com uma emoção ainda estranha no peito, mas que com certeza envolvia alívio e vontade de arrancar aquelas orelhas.
Seguiu até lá, um dos garotos ao lado dele o cutucou com força e ele deu uma cotovelada de volta, irritado e então olhou para Sasuke, se levantando imediatamente e o encarando.
Foi quando Sasuke assumiu que ele poderia fugir novamente mas se fizesse, ele o perseguiria com o carro, igualmente Sakura fazia.
Noein soltou os instrumentos e passou sobre ele, correndo até ele com passadas cada vez mais largas, Sasuke bufou, sem saber realmente como reagir, e apenas o abraçou, percebendo que esse metido a durão, chorava.
Ele estava um pouco maior também, e ele esfregou seu cabelo, gentilmente.
— Achou que fosse escapar da polícia, Noein? – Riu um pouco. Não se achava muito capaz de dizer algo melhor ou mais sentimental. Noein parecia não precisar de muito mais que isso. — Vamos pra casa, garoto. Vamos pra casa.
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