Killer Queen
45 Rainha Ganhadora
Notas iniciais

Quatro semanas depois.
Sakura àquela altura já era uma bola de puro mau humor, fome e cansaço, mas Sasuke realmente não achara que ela tinha desistido, até agora.
Agora sim, ele tinha total certeza que ela estava a ponto de ir pro hospital sozinha, mandar alguém tirar o bebê de dentro dela e pegar um mês ou dois de repouso lá mesmo.
Ficou apenas parado na porta, contemplando o pikachu obeso que ela literalmente se tornara, sobre a cama, usando o pijama de pikachu que Boruto lhe deu de Natal já a tempos.
Sakura havia enfiado aquilo no lugar mais fundo do closet, até agora, ao menos.
Ele coçou a sobrancelha, sem saber como abordar este quadro. Era difícil não se sentir culpado e inútil enquanto ela carregava, realmente, tanto peso pelos dois.
Lá em baixo, Ino e Karin haviam teimado em fazer uma festinha para Sakura e ele já imaginava que se ela não soltasse raios, soltaria fogo em cima de todo mundo.
— Er, ei, querida? Confortável?
Ela nem sequer ficou irritada ou constrangida, e Sasuke viu que a coisa estava mesmo feia.
Sakura deu de ombros, espalhada na cama e encarando o teto.
— Apenas... Esperando... A porra... Do fim.
Sasuke se aproximou, sentando na beirada da cama perto de sua cabeça, acariciou o cabelo dela.
— Hm... Quer uma massagem?
— Não.
— Quer que chame Rosie pra te fazer uma massagem?
Sakura bufou, parecendo realmente ciumenta da doula, depois que se apegara tanto com ela.
— Não... Ela deve ter outras mães pra cuidar, e já veio pela manhã. – Resmungou.
— Então... quer comer?
— Não! Pelo amor de deus, não! Chega de comer! Chega de estar grávida! Chega de estrias, enjoos e da porra do banheiro a cada quinze minutos! Aaaaaaargh! – Ela pegou o travesseiro, apertando contra a própria cara e debateu as pernas.
Agora pareceu uma tartaruguinha amarela, deitada sobre o casco. Se fosse a grávida de outra pessoa ele estaria rolando no chão de rir, na verdade riria dela facilmente, mas estava muito ou até mais ansioso que ela.
Os nove meses estavam quase no fim, na verdade estavam pra entrar nos dez, e hoje era aniversário dela, sem sinal de que o bebê viria conhecê-los como presente.
— Quem teve a maldita ideia de ter um bebê?!
— Você, Sakura.
— E porque você não me deu um socão na boca?!
— Porque gostei da ideia de transar pra caralho pra conseguir isso...
— Eu também. Que ódiooo!
Sasuke suspirou, puxando o travesseiro e pondo ao lado, e fitou-a, compassivo.
— Está acabando, querida, prometo, sim?
Ela bufou, querendo lamuriar mais, e ele beijou sua testa.
— Logo nosso garotão vai estar correndo pela casa, e desacatando você, majestade, como o papai adora fazer.
Sakura quase sorriu com a ideia mas o fitou estreito e ameaçadoramente.
— Tá me sacaneando, malandro? Se esse moleque ousar levantar um A pra mim depois desse tormento todo, eu dobro ele inteiro e enfio de volta nas suas bolas.
Sasuke nem soube por que se assustou com isso de primeira. Ela já ameaçava devolver Noein pras bolas do pai dele lá na prisão, se tentasse lhe passar a pena pra ficar acordado até tarde ou não ser posto pra estudar.
— Sabe que estou brincando, vai ser um anjinho obediente que nem você.
— Humpf.
— Mas então? Não quer trocar de roupa?
— Nah...
— Sakura, você está vestida de pokemon.
Sakura avermelhou, indignada.
— E acha que não sei? Esse bebê está sugando até a minha dignidade! Mas... Mas até que é bem confortável...
— Imagino...
— Tipo, nem precisa usar nada por baixo. Bem prático, da até pra ir no mercado com isso...
— Você tá nua nisso?! Nada de sair na rua!
— Como se alguém fosse apreciar a visão agora... Humpf. Enfim, pare de enrolar diga logo o que as duas peruas estão aprontando lá em baixo.
— Absolutamente nada.
Sakura se apoiou nele para se sentar.
— Se faz de otário não. Eu sinto cheiro de glacê de longe, cara. Vocês não estão aprontando uma festa de aniversário, não é?
— Bem... Claro que não... Só um... Bolo, de aniversário... o que é totalmente diferente de...
— Diferente o caralho! – Sakura bateu nele, Sasuke tentou se cobrir até desistir e dar uma leve rasteira no braço que ela usava pra se apoiar. Sakura caiu novamente no colchão macio, tal qual uma tartaruguinha, de novo, e ficou esperneando pra ele.
— Filho da...! Desgraçado! Esse bebê vai sair daqui um dia!
— Pior que vai... Mas até lá, guarde nosso pokeovo com carinho, okay? Vou lá em baixo ver como o bolo vai ficar...
— Bando de arrombados! Eu não quero bolo! Não quero festa! E não quero velas!
— Eu acho que seria perigoso por o número certo de velas no bolo, querida... — Sasuke comentou, novamente enquanto se afastava rumo a porta.
A tartaruga pikachu voltou a espernear e ele não esperou ela conseguir se erguer ou soltar trovões sobre ele.
Desceu as escadas e foi até a cozinha, onde as duas maluquinhas se viravam com uma infinidade de ingredientes e trigo espalhado pela bancada.
— É bom esse bolo ficar muito bom, hein?
— Bom, nós não correríamos tanto perigo se você não ficasse atiçando a fera. – Karin rebateu e ele sorriu.
— Eu sou o pior, perdão. Mas ela estava tão desanimada...
— Eu estou adorando acompanhar esta saga, me faz medir certinho os prós e contras de escolher ter um bebê. – Ino declarou.
— Gostava mais de quando você só se divertia cutucando, defuntos...
— Uma menina esperta tem que se informar, hahaha!
— Certo, e esse bolo vai demorar? A fera está....
Todos paralisaram ao ouvir o som da partida de um carro, Sasuke atravessou a cozinha até a janela dos fundos e assistiu o conversível vermelho de Sakura escapulir para a rua.
— Fugindo, filha da...!
— Não acredito!
— Nove meses de gestação, dirigindo vestida de pokemon... Se o meu coração sobreviver ás próximas horas eu vou doar para uma universidade. Esta merda precisa ser estudada!
— Oh, vai ver ela só quis dar uma volta e pegar um ar.
— Que respire muito, eu vou sufocá-la quando voltar!
— Ela está querendo nos fazer desistir, mas vai ter festa sim!
— Do funeral dela... – Ele rosnou, agoniado, as duas continuaram fazendo o bolo, as horas foram passando. Sasuke ligou pra todo mundo inclusive os babacas dos irmãos dela que resmungaram que pra um delegado, ele não sabia nem manter uma grávida quieta no lugar.
Mikoto e chegou junto com Lídia e muitos quitutes e docinhos, Hinata e Naruto chegaram, Noein jogou videogame com Boruto e Suigetsu.
Rachel também já se descabelava pela casa até que sete da Noite, Josh Ethan invadiu a sala, rindo ironicamente e batendo palmas.
— Podem trazer a bebida e o bolo!
Josh entrou mais atrás, trazendo um pequeno embrulho na mão que jogou para Sasuke, bufando.
— Devia ter comprado uma coleira, hein?
— Ainda estou aceitando. – Sasuke desdenhou, dando o presente para Ino segurar, voltou-se para a porta, e com as mãos nos quadris ficou esperando a belezoca finalmente entrar.
Ela veio, cara fechada e abaixada, segurando um pacote de balas de ursinhos coloridos, até tentou dar a volta, mas Damon estava logo atrás, braços cruzados e cara de poucos amigos.
Então ela entrou, e fez menção de ir direto pras escadas.
— Não, nem pensar. Pokebola, eu escolho você.
— Sasuke! Não seja malvado! – Mikoto disse, ainda enxugando as lágrimas nos cantos dos olhos, e o rosto vermelho de segurar muita risada.
Ele só ficou mais puto, se fosse ele, ela estaria o ameaçando mandar pra um colégio interno na Europa. Mas a norinha podia tudo, diabos!
— Onde você estava, hein?
— Dando um rolê, ou sei lá como falam hoje em dia...
— Um rolê? Eu estava pensando em te matar depois do bolo, mas eu mereço esse presente, sua...
— Certo, certo! – Rachel interferiu, sorrindo estranho. — Depois nós fazemos a divisão do corpo, vamos comer o bolo e todos podem ficar com os presentes, ela não merece mesmo...
— Essa parte me interessa, já que essa coisa foi bem carinha. – Ethan avisou, acenando com uma caixinha na mão.
— Que ficar o quê. – Sakura arrancou a caixa dele e foi logo rasgando o papel presente. — Eu disse que não queria festa, mas fizeram, agora façam direito! – Ela abriu a caixa, deparando-se com um belo par de brincos de ouro com pérolas em forma de gota, o fitou cética e desconfiada. — Você tem esse bom gosto?
— Só assim que ele consegue mulher. – Damon disse, carrancudo como sempre, sentando-se no sofá, ela o fitou e sorriu, curiosa.
— E você, o que trouxe pra mim?
— Minha alta tolerância ao álcool. Onde está a cerveja?
Ela fez uma careta, e afastou, indo ao encontro de Lídia e a abraçando.
— Aaah, você veio?
— Claro, meu benzinho! Onde estava? Por que saiu assim? É perigoso!
— Nah, eu só fui ver Pantera Negra e depois ao parque...
— Você viu Pantera Negra sozinha?! – Noein protestou. — Ah, cancela meu presente também!
— Dessa vez eu tô do lado do pirralho.- Sai acenou.
— Hm, eu fui colega de turma do gerente do cinema, ele pode me conseguir as melhores cadeiras pra próxima sessão e toda aquela tralha exclusiva...
Noein já foi até ela oferecendo o presente.
— Eu te amo, feliz aniversário de trinta, mesmo com essa cara de vinte e cinco.
— Garoto, você não tem valor? – Suigetsu repreendeu, indignado, abraçou Sakura e pôs um presente não mão dela também. — Também te amo, só pensei que fosse festa de dezoito anos!
— Claro...
— Mas enfim, quer dormir comigo hoje? Já que Sasuke está de mau humor...
— Hey! – Karin exclamou, acertando sua nuca em cheio. — Se toca, seu palhaço!
Sakura revirou os olhos, nem um pouco surpresa.
— Eu também quero ver filmeeee! Aqui seu presente, tiaaa! – Boruto gritou pela casa, correndo até ela e trazendo o presente também.
— Eita, orgulho do pai... – Naruto lamuriou.
Mas Até Sai veio dar parabéns de perto, abraços que não acabavam mais
Sasuke se manteve observando, mau humorado, mas resolveu deixar para esganá-la depois do bolo.
Mesmo sabendo que até lá, já teria desistido, que também tentaria ganhar um ingresso pro filme, e aquele sorriso dela.
*
Sakura o observou passear pelo quarto, desconfiada, o ficou encarando, deitada de lado.
— Ainda está puto?
— Oh, completamente.
— Ah, que pena. Não estou com disposição para te chupar hoje, então até amanhã. – Ela disse, virando-se de costas. Sasuke parou, fulminando-a com o olhar.
— Agora eu te esgano, ninguém vai me impedir.
— Seja menos barulhento. – Sasuke subiu na cama, beliscando ela e Sakura se debateu, gargalhando eo acertando o travesseiro.
—Estou avisando! Se fugir de novo, eu juro que vou por uma corrente no seus pés, porra!
— Own, você só não admite que é louco demais por mim...
— Sua digníssima vaca!
Sakura bufou, socando o travesseiro e se deitando.
— Hahaha, quero massageeeem.
— Vai se danar!
— Ah, mas você nem me deu um presente.
— Dar por que? Você nem queria uma festa mesmo...
Sakura voltou a rir, e se aconchegou perto dele, ignorando suas ameaças.
— Tudo bem, você já vai me dar o bebê mesmo...
Sasuke inspirou, sentindo-se novamente derrubado, e já estava ficando humilhante até.
Claro que tinha um presente pra ela, principalmente por que ela estava zangada e cansada nos últimos dias de gestação.
— Amanhã você vai ter. – Resmungou, apagando o abajur.
— Hum, o bebê?
— Não, o bebê pode ficar mais quarenta meses, inclusive. Falo do presente.
— Haha, idiota.
Sasuke não disse mais nada e talvez ele estivesse mesmo zangado ainda. Sakura ficou quieta, ouvindo sua respiração até adormecer.
Pela manhã ele nem estava mais em casa quando ela acordou, mas tinha uma bola de pelos lambendo seu rosto e quando ela reconheceu, começou a chorar.
Cherry estava de volta, e só então ela percebeu o quanto gostava e sentia falta dele e de seu charmoso topete. Já a suas semanas eles haviam doado todos os filhotes, e mesmo Cherry havia sido levado.
A casa pareceu ficar mais vazia e sem graça sem todos aqueles latidos e filhotes se enroscando entre os pés de todos.
Ele estava até com um laço no pescoço e uma ridiculamente adorável fantasia de Elvis Presley.
Sakura se levantou da cama com pressa, segurando-o debaixo do braço e pegando o telefone, saiu do quarto.
— Você disse que tinha dado ele. – Acusou, assim que ele atendeu.
— Ah, eu tinha.
— Você mentiu!
— Nope, eu dei sim, mas meu amigo Timoty não pode ficar com ele, descobriu que a filhinha dele era alérgica, então não puderam mantê-lo.
— Oh.
Ela se sentiu mal pela menininha, sabia o quanto crianças eram loucas por estas coisinhas.
— Pobrezinha, ao menos vão tentar dar outro bichinho a ela?
— Hahaha, um peixe, talvez?
— Humpf. Mas obrigada por trazê-lo de volta, apesar da roupa ridícula...
— Perco você mas não perco a piada, querida.
— Então é melhor que seja uma boa piada, você sabe como eu sou difícil de achar...
— O Elvis voltou?! – Noein exclamou, quando ela chegou na cozinha. Sasuke gargalhou do outro lado da linha e Sakura deixou o garoto pegar o cão. — Que roupa ridícula! Preciso fotografar isso! – Declarou, levando-o.
Sakura revirou os olhos.
— Eu vou querer uma foto dessas. – Sasuke avisou.
— Não seja babaca. Então, vai vir pro almoço? – Indagou, enquanto mordiscava um pedaço do bolo que sobrara da festa.
— Por que? Vai preparar algo?
— Hum... Quem sabe...- Sakura comentou, agora acariciando a barriga, sentindo um pouco de desconforto.
— Talvez eu apareça então.
— Okay. Até mais tarde.
Sakura desligou e se sentou, ainda desconfortável e ligeiramente dolorida. Não sabia se ficava preocupada ou feliz de finalmente algo estar acontecendo.
*
— É oficial, o parto está chegando. – Rosie anunciou, com um sorrisinho iluminado.
— Puta merda, graças a Deus! – Sakura exclamou, relaxando contra o sofá, Sasuke ainda tentava processar. — Já podemos ir pra maternidade? – Pediu, ansiosa. Rosie riu muito mas negou.
— Calminha, suas contrações ainda estão irregulares, mas o tampão mucoso já desceu, significa que pode levar algumas horas ou alguns dias para o trabalho de parto de fato começar. Então vamos ficar atentos, certo?
— Droga.
— E-espere, disse que já vai começar? – Sasuke interrogou, muito espantado.
— Não ouviu a mulher? Ainda podem levar dias.- Sakura reclamou, mau humorada de novo, encarou a barriga com repreensão. — Está pensando que sou um hotel de luxo, criança? Tsc.
— Haha, fique calmo, papai, vai correr tudo bem. Eu vou ficar com você o tempo todo a partir de agora, Sakura. O parto pode realmente demorar mais uns dias, mas como você já passou um bocadinho do que estava programado, há o risco de acontecer a qualquer momento.
— Tipo, agora?
— Qual o problema? Está com medo, é? – Sakura provocou. Ele bufou, nervoso e inquieto.
— Porra... Eu ia tirar folga a partir de amanhã, querida. Não quero deixar você agora e voltar pra delegacia.
— Oh, não se preocupe. Irei ligar caso qualquer coisa aconteça, assim como por o dr. Kinoshita em alerta. – Rosie avisou.
— O doutor vai adorar, deve estar cansado da gente. – Sakura bocejou.
— Está bem tranquila, huh, majestade?
Sakura deu de ombros, puxando o queixo dele de leve.
— Apenas relaxando até a dor infernal chegar, aliás já preparou as luvas de boxe? Vou querer socar algo, você sabe.
— Hm, você prometeu que eu só seria nocauteado com a coisa de ver você pondo um bebê pela vagina...
Ela deu de ombros outra vez.
— A dor deixa as pessoas irracionais, não pode me culpar por querer de espancar, vou parir seu bebê, ora.
Rosie trabalhou com os mais diversos casais, mas este certamente ficaria bem guardado em sua memória.
Sasuke suspirou, relutante de deixá-la logo agora, pois já haviam combinado que estaria com ela do começo ao fim do processo.
Ela beijou seu rosto, tranquilizando-o.
— Termine o trabalho sim? Vamos esperar.
— Promete?
— Que posso tentar, hahaha.
— Okay.
*
— Verdad?¿ Meu deus, tenho que ir! Não, não importa! Quero estar perto o tempo todo! Eu dou um jeito aqui! – Lídia desligou o telefone, afoita, andou de um lado para o outro antes de desligar as bocas do fogão e seguir para saída da cozinha onde se deparou com a patroa.
— Oh, oh,oh. – Afastou-se, benzendo-se tamanho o susto.
— Lídia? O que falava de tão importante?
— Eh, hum, eu terei de sair, um conhecido meu precisa ir ao hospital e gostaria de ir vê-lo...
— Oh, sim? Não parecia algo grave...
— Não é...
— O que está havendo? — Lisa interrogou, aparecendo atrás da mãe.
— Lídia quer sair e nos deixar sem almoço, veja se pode?
Lisa fitou a empregada, interrogativa, a outra acenou com a cabeça e os olhos e ela pegou a charada, assombrada.
— O quê? Agora?! Não pode ser! O que vamos fazer? Você tem que ir?
— Si! Si! Gostaria muito!
— Claro que sim! Vamos, vá se trocar, eu levo você! – Elisabeth afobou-se, ajudando-a a tirar o avental, e Lídia correu para o quarto dos empregados. — Céus! Que confusão! Já não era sem tempo!
— Mas que diabos está havendo, Lisa? Onde vai com a empregada?!
— Ver alguém importante. Pode terminar o almoço? – Ela pediu, seguindo até a sala e catando as chaves do carro do marido.
— Está louca, menina?! Diga logo o que está havendo!
— Mamãe, de qualquer forma a senhora não ligaria, certo? – Lisa suspirou. — Vamos Lídia!
— Si! – Lídia respondeu, ainda arrumando o cabelo bagunçado pela troca de roupas.
Delilah puxou as chaves da mão da filha, irritada, sorriu falsamente e cruzou os braços.
— Estou esperando minhas respostas.
— Mamãe, por favor, hoje não. Certo? Temos pressa.
— Cuidado como fala, Lisa! E você, Lídia, ou abra a boca ou vá arrumar suas coisas e ir atrás de outro emprego!
Elisabeth a encarou atônita e indignada.
— Como pode ameaça-la dessa forma?! Ela está conosco desde antes de eu nascer!
— Você, menininha! Não devia falar mesmo do que não sabe! Ela é empregada desta casa!
— Oh?! Está me expulsando, é?!
— Quanta impertinência! Estou dizendo quais os seus lugares!
Lisa puxou as chaves da mãe com força e apontou.
— Você nunca soube seu lugar! – Bradou. — E por isso nossa família está do jeito que está!
— E-Elisabeth! – Ambas exclamaram, consternadas.
— Eu tenho que viver acolhendo suas expectativas absurdas e suprimindo até a minha própria vontade! Sequer sei se quero ter filhos por que tenho medo de me tornar igual a você e papai! Não tenho irmãos pra ligar ou visitar nos feriados, e agora não posso nem ir ver minha irmã e seu bebê por que todos pensam que sou igual a você e quero seu mal!
Delilah ficou somente encarando-a, empalidecida, assombrada e encolhida.
— Deus do céu! O que está havendo com vocês? – Simon interrogou, descendo as escadas, Kizashi desceu logo atrás, apoiado na bengala e encarando a filha mais nova muito analítico, na verdade.
Foi a primeira vez que se perguntou se ela havia puxado algum lado do gênio ruim que sempre soubera que tinha. A caçula agora parecia ter se convertido num gato selvagem.
Porém não estava habitada a tais extremos e logo se recolheu, abatida e já pronta para chorar.
— O que está dizendo... É verdade? – Indagou, observando tanto ela quanto Lídia, que se encolheu quase pronta a enfartar com toda a confusão.
Lisa soluçou baixinho, fitando o chão.
— Sim...
— Não sabia que se sentia assim... Então... Desculpe por ignorar...
Lisa esfregou os olhos, sentindo mais lágrimas verterem por que no fim sabia, que ainda era só ela recebendo algo para consolo.
Sempre tentara ser absolutamente boa o bastante para não receber criticas, pois nunca se sentira tão boa quanto os irmãos. Seu pai os criticava e exigia muito, mas ela também via seu orgulho por eles. Seu temor maior era receber críticas e nunca elogios como aqueles e estar nos parâmetros da mãe garantiu isso por tempo demais.
— E sobre sua irmã...- Ele disse, ainda que muito baixo e soando inseguro. — Também é verdade...?
Ela quase se viu sem reação, confirmar ou não. A resposta dele a esta notícia a assombrava. E se ele realmente não fosse capaz de sentir o mesmo por todos eles? E se quando Lisa tivesse um bebê, ele ficasse feliz, e ela teria que conviver com a possibilidade da reação de agora ser apática e indiferente ao neto de agora?
Não sabia se suportaria lidar com isto. Sabendo que seu assento de criança querida e amada, era e sempre seria a custa de frieza e indiferença para com outros.
Ele então fitou Lídia, querendo respostas e esta acabou assentindo e baixando a cabeça, já nervosa demais para esconder tanto.
Kizashi balançou a cabeça, muito pensativo, e continuando reservado como nos últimos anos.
— Entendo... Isto explica ela estar de volta... E por que estava agindo tão segura de si... Ela tinha informação privilegiada...
— Não fomos nós que a contatamos.
— Entendo. Não duvido. Ela sempre teve meios, lhe faltava coragem...
— O que vai fazer? – Lisa perguntou, finalmente.
— O que fazer... você diz. Eu sei que quer que eu faça algo mas... Um neto...? Eu não poderia esperar... Porém... O que poderia fazer...? Eu não... Tinha o direito nem de saber...
— Papai... É que... A situação era delicada, juro. Eu juro queria te contaria se pudesse mas estávamos com medo de sua reação, e queria respeitar Sakura...
— Acho que entendo... Ela não quer... Ser machucada de novo, hein? – Ele sorriu um pouco amargo e perdido, esfregou o rosto e eles temeram que estivesse passando mal.
— Melhor o senhor se sentar. – Simon pediu.
Kizashi abanou a mão, com uma careta dolorida.
— Só... Me deixem em paz... Leve a Lídia, Lisa...
— Mas papai...
Ele continuou acenando enquanto seguia para o andar de cima.
— Vão logo... Vejam se vai tudo bem no parto... Ela tem aquele problema do baço... Não sei se estas coisas interferem, mas ao menos verifiquem isto, esses médicos de hoje dia sequer olham na cara da gente, quanto mais olhar uma ficha médica... – Resmungou, subindo as escadas.
Ela e Lídia se entreolharam aflitas e esperançosas.
— Mas não quer ir? Pode ficar na sala de espera, se quiser! Tenho certeza que Sasuke deixaria...
Ele continuou negando.
— Apenas ligue assim que nascer, gostaria de saber se agora teremos duas festas em Março, coisas assim... Sasuke é o nome do pai? Não me diga que é aquele... é bom estarem casados...
Ele continuou resmungado coisas até provavelmente se encerar dentro do escritório.
Lisa poderia ter se desanimado, mas agora tinha certeza que ele recordava que Sakura havia feito aniversário no dia anterior, e mais ainda, que ele estaria agora sentado na poltrona, perto do telefone, praticamente em vigília, como sempre que um filho seu estava em missão. Atento, esperando qualquer notícia chegar.
Dessa vez não se importou de chorar ou de rir meio histericamente, e Lídia afagou seu ombro, sorrindo.
— Me-melhor irmos!
— Claro.
— Ei, calma, eu levo vocês. Estão muito exaltadas para pegarem a estrada.- Simon interrompeu, pegando as chaves da mão dela. — Você ia mesmo roubar um carro, querida?
— Oh, cale-se, o que é seu é meu. Vamos!
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