Killer Queen
28 Rainha Desconsolada

Droga, estava tocando um remix de Sweet Dreams.
Adeus sensualidade, olá lagarta epilética, Sasuke pensou, com um suspiro. Bebida a deixava alegre, aumentava o potencial de palavrões e a fazia ignorar quão mal dançava.
Então ele a deixou se divertir um pouquinho, sentou e sossegou no sofá, já meio cansado, e então notou Matsuri, deitada na ponta, vestindo roupa de bruxinha, sapatos e chapéu pontudos, vestido preto longo e solto e suspirando ao observar Sakura.
— Ah, ela não parece uma deusa? – Sasuke olhou Sakura, e riu, bem descrente.
— Deusa do quê?!
— Será que eu consigo bolinar as cochas dela quando ela estiver mais bêbada? – Sasuke suspirou, encarando-a de lado.
— Será que você sabe que está propondo abuso?
Matsuri riu e ergueu uma garrafa de vodca já praticamente vazia.
— Hehehe, não é abuso se eu estiver doidona também e não resistir mais, nééé?
Sasuke quase disse que poderia perguntar isso a um advogado, mas resolveu apenas tirar a cordeirinha da mira daquela lobinha juvenil.
— Okay, mas vai precisar de outra garrafa...- Matsuri saltou do sofá e saiu atrás de outra bebida aos tropeços.
Ele aproveitou o tempo para ir buscar as garotas e chamar um uber para a doida.
Karin ainda estava bem sóbria e disse que não demoraria a ir pra casa, Ino já estava louca de sono se balançando tão esquisito quanto Sakura naturalmente já fazia.
— Owen, meu parça, tenho que ir, mas obrigado pelo convite.
— Já vai levar sua patroa? Deveria mesmo, ela parece estar indo sozinha. – Owen riu, apontando a cozinha, Sasuke viu só a cabecinha com a boina torta escapulindo para o outro recinto e se apressou.
— Tenho que ir, juízo, hein? Não me faça vir te prender.
— Nem pensar. Até mais.
Sasuke foi para a cozinha, estava pouco habitada mas um verdadeiro caos de copos vermelhos, latinhas e garrafas.
— Sakura? – Encontrou-a na porta dos fundos, inclinada e arrebitada. — Querida, hora de ir.
Ela apenas acenou com um grande pirulito.
— Tenho que dar doces pras criançaaaas!
Sasuke se apressou achando graça dela achar mesmo que haviam crianças pedindo doces ás duas da manhã.
— Querida, não tem crian-... – Segurou-a deparando-se com três garotos de uns dezesseis anos parados na porta segurando cestinhas em forma de abóbora. Um vampiro, uma múmia e um ninja, muito aplicados secando Sakura.
O fitaram de volta ainda de boca meio aberta, enquanto ela deixava mais doces caírem no chão do que nas cestinhas.
— Doces ou travessuras? – Um arriscou, Sasuke estreitou os olhos perigosamente, puxou a mulher pelo quadril e segurou a porta de vidro.
— Ir pra casa sozinhos ou numa viatura?
Eles correram e pularam a cerca de arbustos, Sasuke fechou a porta e deu as costas levando Sakura.
— Boa escolha... E você, hora de ir pra cama, majestade.
Sakura riu e abraçou-o, manhosa e o beijando no rosto maxilar, se esfregou nele.
— Só se fizermos um bebê.
Ele parou na sala, e suspirou, abraçando-a e esfregando suas costas.
— Não é assim que funciona, querida.
Ouviu-a soluçar baixinho e apenas pode torcer que ela não lembrasse de mais nada quando amanhecesse.
— Então... Como funciona? Por favor, me ensine.
Sasuke afagou seu cabelo e viu Karin entrar na cozinha, com o casaco de Sakura em mãos, calada, apenas o ofereceu. Ele vestiu Sakura, sonolenta e chorosa demais para continuar pedindo ajuda, e segurou-a no colo.
— Eu cuido da Ino e da garota bi.
Ele franziu o cenho.
— Matsuri gosta de homem? – Karin encolheu os ombros.
— Do jeito que está enfiando a língua na boca de um cara...
— Ele não tem cabelo longo? – Sasuke arriscou e ela acabou rindo.
— Eu me viro com as duas, vá logo.
— Qualquer coisa, me ligue. – Ela concordou e ele foi abrindo caminho pelo pessoal até a porta da frente, posto que não havia acesso externo entre os fundos e a frente da casa.
Pôs Sakura no carro e foi para casa, estava tudo silencioso por lá, só a sala cheia de embalagens de bala e pipoca.
Noein estava dormindo no quarto de Sakura e ele a levou para o próprio. Quase sentiu pena de tirar uma fantasia tão bonita mas ela precisava de um banho. Vestiu-a com uma de suas camisolas e deitou-a no colchão. Foi tomar banho, vestiu uma calça confortável e quando saiu, encontrou Noein sentado a beira da cama, observando-a dormir.
— A maratona te deixou com medo?
— Só quando assistimos Annabelle e eu lembrei das bonecas no quarto dela...
— Ah, claro. Droga de filme, e eu também não vou com a cara daquelas coisas. Pode ficar aí se quiser, eu fico lá, mas me chame se ela acordar, certo?
— Okay. – Ele respondeu, já se enfiado sob as cobertas. Sasuke foi ao quarto de Sakura e dormiu pouco, não mais que meia hora, e talvez meio que sonhando, lembrou as crises que ela tinha com pesadelos, e se preocupou com o menino. Sakura claramente poderia despertar também estranhando.
Voltou ao quarto e os encontrou em sono invejável, Noein tentou respeitar ao máximo o espaço dela, ficando na ponta oposta, ele revirou os olhos e ajeitou o moleque na cama, deu a volta e se enfiou sob a coberta, trazendo Sakura para si, sobre o peito.
Quem dera apenas bonecas fossem seu problema de sono.
*
— Bonjour. — Noein cumprimentou, descendo os degraus entre bocejos, Sasuke notou que o pijama que ele vestia era azul escuro, cheio de espaçonaves na estampa e riu imaginando Sakura comprando aquilo. E ela ainda dizia que não era clichê.
— Dia pra você também, astronauta. – Cumprimentou, o menino ainda sonolento franziu a testa mas logo matou a piada, bufou ligeiramente e se sentou, esfregando os olhos e pegando uma xícara.
— Bom dia. – Sakura disse, chegando a cozinha já pondo os brincos, vestia jeans pretos e apertados, coturnos, blusa branca e jaqueta de couro vermelho escuro. — Ah, você fez o café? – Beijou Sasuke e se sentou, parecendo empolgada até. — Desculpe, eu dormi demais.
— Tranquilo, alguém tinha que escapar da ressaca e fui eu. – Ele disse.
— Juugo e Sui não foram dormir cedo, ué?
— Eu fui, eles eu não sei. – Noein deu de ombros, cortando uma panqueca mais que encharcada de mel, ele ainda ia por mais, mas Sakura afastou a jarra de seu alcance, com um olhar de aviso.
— Olha só esse traíra, Juugo. – Sui reclamou, entrando na cozinha acompanhado do ruivo. — Vai ficar fora da próxima maratona, como penalidade por ser X-9.
— Ia ser de Senhor dos anéis, é um saco mesmo. – Ele fez pouco caso e foi a vez de Sasuke querer joga-lo pela janela.
— Tá ofendendo a palavra de Tolkien, garoto? – Sakura gargalhou e se abanou com o guardanapo pois ele ficava hilário todo sério assim, mas Noein nem se intimidou.
— Não, até porque eu só disse que os filmes são ruins, não os livros.
— Sei...
— Não que os livros também não sejam um saco...
— Todo mundo pra de baixo da mesa. – Sui avisou, já fazendo questão de ser o primeiro.
Sakura se levantou puxando Sasuke antes que ele se recuperasse da indignação e tentasse afogar o menino na pia.
— Eu vou te afogar na pia, moleque.
— Vaaaaaaamos! – Sakura o puxou para a porta, pegando as chaves dos carros e a bolsa.
— Como é que cê vem na minha casa, come as minhas panquecas, ronca na minha cama...
— Hora de trabalhar, queridoooo.
— E ainda quer falar mal de Sir. Tolkien?! Beija a minha mão, porra!
Ela revirou os olhos, e Sasuke foi para o carro, aos resmungos.
— Só o que me faltava, mais um herege sob o meu teto. Qual os vampiros que ele gosta? Os que brilham no sol?!
Sakura beijou seu rosto e foi para o próprio carro notando que ele estava bem revoltado mesmo, era tão menino nessas horas que chegava a ser fofo.
E apostava um dedo que a noite ele chegaria pronto para converter Noein.
*
Matsuri gemia a seu lado, e Sakura torceria pra só ter de ouvir gemidos de dor, da parte dela.
— Noite aterrorizante? – Provocou.
— E o meu monstro foram duas garrafas de tequila. – A jovem resmungou, apertando uma bolsa de gelo contra a testa. Sakura riu e deu partida no carro.
— Pelo menos você sabe o que te derrubou, saí do ar desde a terceira rodada de vodca.
— Ah, você estava tão gostosa. – Matsuri choramingou. — Com aquelas meias e aquele chapéu, me fode, porra...
Sakura até sentiu pena, olhando para a frente fez o carro dobrar uma esquina.
— Não nesta vida, não nesta vida...
Seguiram direto para a casa dos Mandrake, pois haviam novas evidências que apontavam a possibilidade de ter sido uma pessoa próxima da família a ter executado Kurt.
Sakura havia pressionado a viúva na perspectiva de ela confessar as agressões e que tenha sido ela a matá-lo, mas a mulher só confessara a primeira parte e estava de mudança para o interior, aparentemente para mudar de vida com os filhos.
Sakura agora suspeitava de algum parente que ela poderia estar encobrindo. Kurt Mandrake apesar de ter sido um funcionário regular, não era o parente mais querido nem pela própria família. Sempre teve conduta desordeira, egoísta e encrenqueiro, os pais pareciam mais aliviados do que pesarosos com sua morte, os irmãos pareciam ter lavado as mãos a tempos e só quiseram saber como encontrar a cunhada e sobrinhos para ajuda-los no que fosse preciso.
Sakura que sempre sentiu tão deslocada e indesejada no próprio lar, não entendia como alguém se deixava transformar em algo tão desprezível até para os familiares.
Tudo o que sempre quisera fora uma família que a quisesse, que lutasse por ela, se sentir indispensável.
— Vamos ser rápidas, então tente não assustar com essa cara de ressaca. – Comentou, Matsuri suspirou e se ajeitou no banco, pondo a bolsa de gelo no painel.
Ao dobrarem na esquina,,viram um caminhão de mudanças em frente a casa dos Mandrakes, as crianças ajudavam a por as coisas dentro com uma empolgação latente, esperançosa.
Sakura decidiu que mereciam mesmo um recomeço, e torcer para que a viúva fosse realmente inocente, pois as crianças mereciam ter ao menos a mãe consigo ainda.
— Eles podem mesmo ir?
— Não tem nada circunstancial que prove que pode ter sido ela, mesmo com as agressões nada apo tou que pudesse estar lá, nenhuma arma nem nada, e o guarda que disse ter visto um estranho no estacionamento antes do crime, o descreveu como alto e corpulento demais pra ser uma mulher como ela.
Matsuri franziu o cenho, encarando a frente da casa.
— O cara era um tipo jogador de basquete com moletom do Chicago Bulls?
Sakura deu de ombros.
— Ele só viu que era vermelha, porque?
Matsuri apontou, ansiosa.
— Acho que é o bastante! Vai!
Sakura localizou Jana Mandrake conversando nervosamente com um alto homem usando jeans e moletom vermelho, ela começou a chorar e ele esfregou seu ombro. Sakura engatou a marcha e acelerou, invadinho a calçada, Matsuri saltou do carro feito uma gata, já segurando a arma no coldre.
— Você! No chão, agora!
Os dois se espantaram ainda mais e o homem disparou numa corrida insana ao longo da rua.
— Merda! – Lupita resmungou já o perseguindo, Jana tentou agarrar ela, desesperada, mas ficou no chão, implorando.
— Não machuque ele! Não machuque ele!
Sakura deu marcha ré, voltou ao meio ra rua e então acelerou passando a seguir os dois, Lupita provavelmente não o alcançaria com suas perninhas curtas, ele saltou por uma cerca e sumiu nos quintais. Sakura prosseguiu, ultrapassando Lupita, contornou a rua e seguiu por ela, olhando cada casa, mais a frente viu o filho da mãe saltando uma cerca e acelerou, ele parou, espantando com o som do motor já em cima de si, e ela acelerou mais, o fazendo recuar atônito e freou bem em cima dele, praticamente.
O grandão cambaleou para trás e caiu, Sakura abriu a porta e apontou a arma.
— Mantenha essa bunda aí...
Ele se levantou mas antes que ela atirasse em suas canelas com gosto, Matsuri surgiu do nada e como um gato, muito louco na adrenalina, aliás, saltou sobre ele, ou caiu, com um grito de guerra ou coisa assim, e os dois rolaram pelo asfalto estatelando-se.
Ela girou sobre ele, afoita e o algemou, Sakura deu de ombros e guardou a arma, pegando o rádio e chamando uma unidade.
As duas enfiaram o cara no banco de trás e Matsuri resfoguelou, exausta, encarando-a sem entender.
— Porque diabos não veio correndo?
Sakura achou foi graça, balançando a cabeça, deu de ombros, tranquilamente.
— Eu não corro.
Lupita deixou os ombros caírem, incrédula, porém entende do porque o delegado disse que era uma filha da mãe.
— Filha da mãe.
*
— Então foi o irmão? Que reviravolta. – Sasuke comentou, esfregando a toalha na cabeça, Sakura confirmou enquanto costurava um botão na camisa dele, Sasuke era desleixado por mais vaidoso que fosse.
Sinceramente não sabia como ele sobrevivera a vida adulta, ele era menos organizado e meticuloso do quebele mesmo julgava, oncoitado achava que ser chato com os outros significava ser organizado consigo mesmo.
Homens.
— Uhum. Ele havia sido preso por porte de drogas, saiu a poucos meses e não gostou de ver a irmã com um olho roxo. Foi confrontrar Mandrake, brigaram e ele meteu bala no peito dele.
— Briga, é? Tá mais pra execução sumária...- Sakura deu de ombros e o entregou a camisa. Ele sentou na beira da cama e a vestiu, fechando os botões.
— Bom, foi num estacionamento vazio, não havia nada que pudesse denunciar uma briga, nem câmeras ou testemunhas. Se foi frio ou não, ele foi até lá com uma arma, mas como foi pela irmã...
Sasuke meneou a cabeça em concordância, suspirou, pensativo. Sakura apertou os olhos, desconfiada, se aproximou, sentando em seu colo.
— O que foi?
— Nada... É que se fosse minha irmã e meus sobrinhos... Também ficaria puto.
Ela sorriu um pouco e beijou seu rosto.
— Não fale assim, te faz parecer decente e eu gosto mais do malandro, confesso. – Sussurrou, ele riu e abraçou sua cintura, pondo a outra mão na perna, numa lenta carícia.
— Ah, gosta, é? – Indagou, começando a deita-la, Sakura riu. — Confessa, é?
— Confesso... É o costume, o que fazer?
— Eu sei que você gosta. – Sasuke afirmou, beijando o pescoço, o pintinha bonita, apertando a carne da perna. — Eu também gosto.
— Hmmm, temos que descer...- Ela ronronou.
— Quero jantar outra coisa.
— Argh, cachorro.
— Ué, você disse que gostava. C-o-n-f-e-s-s-o-u.
Sakura revirou os olhos, se arrependendo.
— Te odeio. – Resmungou.
— Pois eu adoro você. E estou com saudades. Venha aqui. – Puxou o queixo dela suavemente, beijando-a delicadamente até ter a total entrega. — Com saudade também, querida? Disso aqui? – Instigou, pressionando um dos seios dela, lambeu o pescoço, esfregando o polegar dentro do sutiã e sentindo o mamilo corresponder. Sakura retribuiu o beijo, o puxando para si.
— Sakura, Sasuke? Vamos logo, estou com fome! – Noein chamou do corredor, provavelmente já emburrado. Sasuke ergueu a cabeça, pensa do em modos de enfiar comida na goela dele sem evidencias de tortura. Sakura deitou a cabeça contra o colchão, suspirando.
— E pensar que eu estava aliviada de ele não ter a idade do Boruto ou menos...
— Abaixo de dezesseis deveriam ser todos tratados a base de ração e viver em jaulas. – Ele reclamou, Sakura bufou, se levantando.
— Fala como se você tivesse sido criado assim.
— Não fui. E olha o que me tornei? Uma lástima. – Suspirou, encara do bumbum dela como um cão a um filé assando.
Sakura revirou os olhos e os dois saíram do quarto, Noein já estava ao pé da escada, impaciente. Ele gostou da coisa de sair pra jantar fora, genuinamente. Sakura estava com preguiça de cozinhar e o resto do pessoal dificilmente apareceria com tempo disposição pra preparar algo e ela se recusava a deixar o pentelho comer qualquer coisa de preparo rápido.
Mas Sasuke se vingaria quando chegassem.
— Muito bem, vamos indo. – Ela sorriu, afagando a cabeleira ondulada dele.
— O que estavam fazendo?
— Graças a você, nada. – Sasuke resmungou, Sakura o acotovelou ligeiramente.
— Sasuke estava com dificuldade pra achar a fralda geriátrica certa. – Ela contornou, Noein riu, acompanhando até a saída, Sasuke fechou a porta, revirando os olhos.
— Pensei que fossem todas iguais.
— Ele precisa das mais reforçadas, quando vai comer comida mexicana, principalmente.
— Ô rainha do Stand up? Baixa a bola. – Sasuke reclamou.
— Que foi, não tinha talco o suficiente?
— Cheia da graça...
*
Noein já cochilava no banco de trás quando chegaram em casa, eram oito e meia ainda e Sasuke não sabia se ele havia gasto muita energia durante o dia ou se estava adivinhando sua vingança para aquela noite. De qualquer maneira, haviam ficado tão empanturrados que ele mesmo já desistira do plano, só queria deitar na cama, bolinar Sakura e roncar muito.
— Eu vou te bolinar muito. – Afirmou, num bocejo. Sakura o olhou de lado e ignorou, no máximo ele conseguiria um chute para fora da cama.
— Tenta a sorte, amigão.
— Mais cedo você estava afim. – Ele acusou.
— Não estava era redonda de comer tantos burritos, aquilo tudo vai pra minha bunda, Deus...
— Mais pra carne pra eu bolinar.
Sakura revirou os olhos e os apertou, olhando o carro parado em frente a casa deles.
— Quem será? – Sasuke encolheu os ombros, e parou o carro, tirando o cinto, Sakura desceu e continuou encarando o carro, intrigada. Ele suspirou, vendo que o garoto era agora uma pedra de sono e que tinha uma carinha inesperadamente fofa quando dormia.
Afinal, achou que nessa idade as crianças já eram Gremlins definitivos. Sentindo uma leve pontada nas costas o pegou no colo, cada perna de um lado e os braços em torno do pescoço.
— Eu pensei que as roupas só eram largas mesmo, burritos pesam mais do que imaginei...- Resmungou, Sakura fechou a porta do carro e seguiram para dentro, ela foi tentando impedir que os cães derrubassem Sasuke, em sua habitual recepção de quem parecia achar que eles haviam sumido por anos.
Abriu a porta e Sasuke passou, seguindo pras escadas, entrou e Ino veio até eles, da cozinha, um olhar aflito.
— Gente, temos visitas...
Os dois a encararam e viram Karla Nielsen, assistente social, vir da cozinha, era negra, olhos escuros e cabelo curto bastante crespo, sempre bem vestida, as cores pasteis deveriam ser uma estratégia para parecer menos intimidante e mais acolhedora para as crianças com quem lidava.
Segurava a bolsa e uma pasta, e sorriu contidamente em cumprimento, não deixando de focar mais em Noein.
Perceber que seu interesse no bem estar da criança era prioridade, desta vez, não deixou Sakura muito segura, a afligiu.
— Sra. Nielsen? Boa noite. – Sasuke cumprimentou, também atônito.
— Boa noite. – Ela foi gentil, e sorriu para Sakura confortadoramente. — Desculpem a hora, vejo que estavam se divertindo.
— Ah, sim, fomos jantar. Enfim, vou levar ele pra cima, esse comeu até dizer chega, e demorou.
— Claro... – Sasuke subiu as escadas, Ino pensou em se retirar, mas viu que Sakura não estava inspirada a ser a mais receptiva no momento, e sabendo que Karla analisava qualquer coisinha fora do normal, resolveu ficar e mediar um pouco.
— Então, vamos sentar? Eu estou fazendo café, ou tentando. – Ofereceu.
Karla assentiu, sentando-se, e Sakura se sentou, no outro lado, muito arisca e ansiosa.
— Podemos sobreviver ao seu café, acho...
— Volto jááá! – Ino correu para a cozinha, Sakura fitou a mulher.
— Não pegou chuva ao vir? O clima está louco, choveu muito quando saímos do restaurante...
— Um sereno apenas, vim direto da Assistência.
— Entendo. Então, o que houve?
— Alguém vai roncar a noite toda. – Sasuke disse, descendo as escadas, veio até o sofá e se sentou, curvando-se para a apertar a mão da mulher. — Desculpe a demora.
— Tudo bem.
— Mas e então? Aconteceu algo novo? Além da Ino fazer café.
— E vai ficar ótimo! – Ino gritou da cozinha. Karla riu ligeiramente e então suspirou, com uma expressão tensa.
— É sobre a situação do Noein, as coisas ficaram bem complicadas a partir de agora.
— É o pai dele? Conseguiu sair?
— Ele não vai sair tão cedo pelo menos até o próximo ano. O problema está em não ter sequer alguém adequado para indicar a guarda do menino.
— Ele o manteve num carro por semanas, pra cima e pra baixo, pelo amor de deus, ele sequer deveria ser consultado! – Sakura exclamou, indignada. Sasuke passou o braço em torno dela, os esfregando e apertando.
— Ei, calma, certo?
— Tem razão, mas era necessário tentar, ele poderia ter alguma outra avó ou avô.
— E os avós maternos? Não iriam entrar em contato com eles? — Ele perguntou.
Karla confirmou, com pesar.
— É aí que as coisas se complicam. A assistente em Lafayete, conseguiu entrar em contato com eles, são donos de uma fazenda pequena, e Noein ia a escola da comunidade, depois que a mãe morreu, eles o pegaram junto com um pouco de dinheiro que Dominique tinha numa conta, até onde se sabe, um pequeno fundo que ela fazia para os estudos dele.
Sakura baixou o rosto contra a mão, já não querendo ouvir nada, e Sasuke inspirou, frustrado.
— Deixe-me adivinhar...
— Aceitaram o neto por causa do dinheiro, sim. Noein chegou a falar que não queria ficar mais com eles porque o faziam trabalhar demais na fazenda, um pouco de trabalho não faria mal, mas a escola confirmou que ele vinha faltando demais. Então quando Martin apareceu ele foi com ele.
— E como as coisas ficam? Eles o querem de novo pra escravizar? E vão dar o menino pra eles? Sério mesmo?! – Sakura se levantou, contornando o sofá.
Ino se aproximou, trazendo a bandeja com as xícaras.
— Vai mesmo fazer isso? – Sasuke indagou, com sinceridade. Lhe parecia incabível, mas sabia como o sistema poderia ser falho, e se não havia outro familiar para pedir a custódia, pior.
Karla provou do café, se estava ruim ou não, era boa em esconder.
— A ideia inicial era processar os DeNevue, por negligência e abuso, e encontrar um lar temporário pro Noein, mas o casal abriu totalmente a mão da guarda dele, o entregaram na mão do estado.
Sakura se virou num rompante e Ino caiu sentada na poltrona, Sasuke se curvou, descrente.
— E que porra isso significa?!
— Eles o entregaram para a adoção, alegando que estão velhos demais para cuidar dele. Agora ele está nas mãos do estado de Louisiana, e o Juiz da vara do condado onde fica a cidade, ordenou que fosse mandado de volta o mais rápido possível...
— Como é?!
— Tanto para que o processo contra os avós possa tramitar, quanto para que ele possa entrar no programa de adoção. – Ela concluiu, encarando Sakura, com um sincero olhar de desculpas, como se soubesse o que ela sentia agora, sendo que nem ela sabia.
De novo.
Sasuke e Ino se voltaram para ela, preocupados e ele se levantou, vendo-a se afastar muito nervosa e perdida de novo.
— Sakura... Sakura!
Ela subiu os degraus e ele correu, seguindo-a, ela abriu a porta do quarto, onde ele deixara Noein, mas não entrou, quando Sasuke a segurou, ela se encolheu em seus braços e chorou.
Ele fechou a porta e a levou ao outro quarto.
— Quando vai leva-lo? – Ino indagou, aflita, Karla suspirou.
— Tenho que vir busca-lo cedo, amanhã, a assistente de lá vai me encontrar no meio do caminho, e leva-lo ao abrigo.
Ino deixou os ombros caírem, desmotivada e um pouco culpada por ter arranjado o contato com a mulher, mesmo que fosse inevitável. Preferiram não comentar, mas todos perceberam como Sakura se apegou ao menino e ele a ela.
— Isso é tão injusto... Não tem outro jeito mesmo, nem de ele ficar aqui?
— Não tem motivos para isso, ele pode ter laços afetivos aqui, mas os fez em muito pouco tempo, o juiz vai considerar que é melhor que ele esteja “em casa” onde está mais propício a ser adotado por uma família e um ambiente próximos ao natural pra ele. Ainda tem os processos contra os avós, eles não vão perder a jurisdição, além de toda a burocracia.
— Entendo... É só que... Ele estava feliz aqui... Ele se encaixava.
Karla assentiu, pensativa e apertou seu ombro.
— Terei isso em mente. Boa noite.
— Boa noite, e obrigada.
— Não por isso.
Ela se foi e Ino fechou a porta, foi pegar a bandeja e Sasuke desceu as escadas.
— Como ela está?
— Ah, arrasada. – Ele desdenhou, amargo e indo pegar a garrafa de Daniels na estante. — De novo. – Disse, tomando um longo gole.
— Sasuke, não é sua culpa.
Sasuke se sentou no braço da poltrona.
— Não torna menos pior.
*
El Passo, Texas.
Karla abriu o cinto e se virou, olhando o banco de trás, fora uma longa viajem, mas Noein não tirou a mochila desde que sentou ali, nem dedicou um momento de conversa ou a olhar muito a paisagem.
— Eu vou ver se a Srta. Park chegou, quer alguma coisa? Uma água, um salgado?
Ele negou, enfadado, e ela não insistou, lidar com crianças mais velhas poderia ser muito mais delicado e complicado, por mais carentes que fossem, não eram fáceis de conquistar, e Noein não teve muita gente de confiança ao redor desde a morte da mãe.
Desceu do carro, pondo um chapéu na cabeça, a poeira da estrada e o sol a pino arruinavam seu terninho branco, péssima escolha para a viajem.
Do outro lado do posto, ficava uma pequena rodoviária, ônibus velhos deixavam uma espessa nuvem de poeira para trás quando saíam.
Foi até a loja de conveniência, comprou uma garrafa de água e seguiu até a rodoviária, já ao encontro da Srta. Park que na verdade, parecia ser senhora já.
— Prazer. – Cumprimentou-a.
— Prazer! Lugarzinho quente, não?!
— Eu que o diga.
— Correu tudo bem?
— Na medida do possível.
— Ele está bem?
— Aborrecido, se apegou aos policiais que o resgataram, e eles a ele.
Karla sentiu como se arrancasse um filho do lar, e pensou em dar a deixa para eles, dizer que haviam formas ter Noein com eles, até definitivas. Mas não queria nem podia incentivar uma decisão impulsiva, pois sentia que mesmo que eles quisessem muito o menino, não se imaginavam cumprindo o papel de pais dele, ao menos ainda.
Eles poderiam gostar muito dele, mas não os fazia adequados para prover tudo que ele precisava, um lar cheio de adultos solteiros não era exatamente a visão mais aceita de uma casa adequada para uma criança, e os candidatos a pais não estavam nem de longe prontos para conceber a ideia, pelo menos ainda. Eram pessoas de opinião forte, então ela não duvidava que cedo ou tarde a estariam procurando por notícias ou orientação.
— Entendo, mas é complicado, quase ninguém quer ser pai de uma criança tão velha, infelizmente é provável que ele fique no abrigo até a maioridade...
Karla concordou, pesarosa, infelizmente acontecia na maioria dos casos.
— Melhor terminarmos logo essa parte, vai ser menos estressante. – Declarou, a Sra. Park concordou, e ambas seguiram até o carro, Karla abriu a porta do banco de trás e se empertigou ao encontra-lo vazio, olhou em volta e contornou, apressada. — Vê ele em algum lugar?!
— Não, mas talvez só tenha ido ao banheiro.
Karla se apressou de volta a loja de conveniência, cada vez mais temerosa.
Noein era definitivamente corajoso, viajou com o pai que conhecia quase nada e convivera por uma questão de meses em relação aos anos de vida só para ficar longe dos avós, e embora ela não tivesse dito ainda que ele não iria voltar para sua guarda, não duvidava que ele evitaria qualquer destino que fosse imposto sem consulta. Era maduro e tinha personalidade forte.
Pediu para um frentista o procurar no banheiro, sem sinal, correu para a rodoviária, ainda mais agoniada com a ideia dele ter ido em algum dos três ônibus que saíram no tempo em que ela esteve fora do carro ou mesmo pedido carona a algum dos diversos motoristas que passavam em carros de passeio, vans e caminhões. Não sabia se ele tinha dinheiro para um bilhete, mas não duvidava.
Era um jovem sobrevivente.
Quando não o encontrou em lugar nenhum, viu que ele também era independente até demais.
*
Hippies cheiravam bem menos mal do que ele havia presumido, de todo modo esperava ficar o mínimo de tempo possível para não pegar o cheiro estranho.
Se encolheu contra o banco velho, abraçado a bolsa e observando cautelosamente os novos companheiros de viajem.
— Pra onde está indo, hein? – Um deles perguntou enquanto tragava seu narguilé cor de rosa com um olhar aluado.
Noein deu de ombros, não se importando em mentir, se eles se importassem realmente, em primeiro lugar, não deixariam um pirralho desconhecido saltar para sua vã e seguir viajem com eles.
— Qualquer lugar.
O homem assentiu lentamente e sorriu debil.
— Seeei, isso aí. Vá pra onde quiser, o mundo é seu, é meu, é nooosso!
— É...?
— Muito bem, pequeno viajante! Aí, quer dar um trago?
Noein negou, prontamente, e o cara também não insistiu, o menino relaxou a cabeça contra o banco e restou imaginar como Sakura chutaria este barbudo por oferecer narguilé pra uma criança, Sasuke o prenderia e riria ao mesmo tempo e ela o chutaria também.
Já parecia ter passado muito tempo.
*
Sasuke não soube se ficava feliz ou mais nervoso de ver o carro do pai em frente a casa assim que chegou. Passou dias esperando uma resposta completa, algum manifesto ruim ou bom por parte da mãe, mas agora parecia a pior hora.
A chuva caía incessantemente, ele deixou o carro, com pressa, atravessou a calçada e entrou no quintal, vendo a porta abrir e sua mãe aparecer, ficando parada o encarando com expectativa e compaixão, Sakura passou por ela e foi ao encontro dele. A abraçou com força, ouvindo-a chorar desconsoladamente.
— Eles o perderam, o perderam. Então porque o levaram, porquê?!
Sasuke suspirou, acariciando sua cabeça já encharcada.
Mesmo que Noein fosse grandinho o bastante para levar uma sova por ser desobediente daquele jeito, também estava revoltado que simplesmente perderam o garoto em pleno estado do Texas.
Ele poderia ir ou estar em qualquer lugar, sem ninguém realmente questionar pois já tinha idade para viajar sozinho, mas principalmente estava completamente vulnerável, seja num ônibus ou numa beira de estrada.
Ele era policial a bastante tempo pra saber que gente ruim, de pensamento doente e deturpado vivia sedenta por aquele tipo de chance para abordar um menor sem acompanhamento.
Estava aflito como Sakura, também preferia ele perto, ao menos manter um contato maior, mas estava muito puto também.
Pois ela estava chorando de novo, e ele não podia fazer muito para ajudar. Ela era sempre tão durona e fechada, era injusto que nas poucas vezes que algo conseguia vencer a barreira e derrete-la tão docemente, coisa assim acontecia.
— Eles vão achá-lo, sim? Não vão parar de procurá-lo, prometo, agora vamos sair da chuva.
Puxou-a rumo a casa, e pegou a toalha que sua mãe oferecia, enrolando Sakura nela.
— Vamos pra cima, okay? Você precisa dormir.
Ela não dormira direito a noite, estava acordada cedo da manhã, e ficou ainda mais baqueada em ter de se despedir do menino tão abruptamente, encheu-o de comida, a mochila de roupas e tralhas para a viagem, como de pudesse atrasar ao máximo o início desta. Noein tentou parecer conformado, como se já soubesse, mas era uma criança desolada também.
Levou-a ao andar de cima, Sakura se deitou, abraçando o travesseiro, lamuriando encolhida e ele afagou suas costas, penalizado.
Parecia ser carma dela, ter que lidar com separações abruptas ou indiferença.
Mikoto sentou-se suavemente atrás dela e passou esfregar os dedos em seu cabelo molhado, olhou-o com calma e segurança.
— Vá se livrar dessas roupas, eu cuido dela. – Ele se afastou, desconcertado e um pouco constrangido com ela, mas aceitou e se afastou, deixando-a usar seu cafuné milagroso em Sakura.
Saiu do quarto e seguiu para o dela, onde sabia haver alguma camisa sua pelo armário dela, achou uma e tirou a roupa encharcada.
— Sempre tem essa agitação na sua casa? – Fugaku indagou, curioso ao entrar.
— Graças a deus, não, ou todo mundo precisaria de terapia.
— Sua mãe não quis esperar mais pra vir te ver, mas Sakura estava inconsolável por conta desse tal menino, e então recebeu uma ligação e tudo piorou. Que bom que você veio ou eu teria uma crise ruim aqui com as duas chorando.
Sasuke riu tristemente. Não queria ter deixado Sakura em casa, mas não podia faltar o trabalho, acabara vindo quando Karla ligou avisando da fuga de Noein, e como ela já havia avisado a Sakura primeiro, não poderia deixar de voltar.
Karla tinha esperança de que Noein voltasse ao encontro deles, mas Sasuke sabia que ele era esperto o bastante pra evitar ser pego de novo. Além de que mesmo que ele tentasse, vir do Texas até aqui seria difícil, já estavam buscando ele em todo o trajeto, o pegariam antes de por os pés em LA.
Ainda assim, ele realmente queria ver o menino de novo, acalmar a si mesmo e Sakura.
— Só passou uma semana conosco, acredita? E já parecia de casa... Sakura o adora...
Fugaku assentiu, suspirando.
— Realmente muito rápido pra uma ligação tão forte. Acha que é por causa do...? – Sugeriu.
Sasuke pela primeira vez parou para pensar bem, desconfortável, fitou o pai querendo orientação.
— Acha que é por causa do... bebê? Que ela está pondo algo no lugar, tapando?
Fugaku se sentou na beirada da cama, observando ligeiramente a decoração do quarto de Sakura, sabia ver muito das pessoas pela forma que organizavam seus espaços.
Sakura era organizada e metódica, gostava de ter bom espaço para circular e uma decoração mais enxuta e monocromática, ali predominava o branco, mas nos detalhes haviam cores quentes, como nos vestidos das bonecas que denotavam um lado, sentimental e clássico, saudosista, infantil e porque não dizer, maternal.
Era culta, o grande espelho denotava que não tinha vergonha de se olhar física e internamente, e a quantidade de cosméticos era bem pequena até e não ficava atulhando a penteadeira, sinal que não era aficionada por manter a jovialidade como a maioria das damas de sua idade, a caixa de joias tinha destaque central, pois orgulhava-se de suas joias mesmo não sendo de usar muitas.
Em sua opinião, ela não era uma mulher de “tapar buracos”, na verdade, apreciava ir sempre ao X da questão, e não saber como fazer isso, era o que a atormentava.
Ela não sabia como lidar com o aborto tanto quanto Sasuke, e ela não sabe como lidar com essa trágica descoberta da maternidade.
Saber, sentir que pode gerar, no momento em que se perde, devia ter sido atordoante demais para ela.
Talvez o menino tivesse realmente a feito pensar em como teria sido o seu, ou sua, só que ela não estava o vendo como seu filho. Não ainda, e certamente não como um substituto para a perda, Sakura era humana demais para enxergar ou sentir dessa forma, e pragmática demais para enganar a si mesma a essa altura da vida, onde ele podia apostar que ela já saíra de um ciclo de auto engano com muito sofrimento.
Uma criança jamais substituía outra, e ela em seu âmago, sabe disso.
Por isso, não está sofrendo uma simulação da perda do primeiro filho, está sofrendo por perder outra criança, sem novamente saber que o queria para si por muito mais de uma semana ou duas.
Sasuke também estava desorientado nesse ponto. Eles perceberiam quando conversassem direito.
— Eu acho que... Vocês dois precisam conversar direito sobre o que houve. O menino é importante, mas devem deixar isso para as autoridades. Antes de pensarem em qualquer coisa em relação a ele, tem de pensar em si mesmos.
— Claro...- Sasuke sentou ao lado dele. — Acho que vou marcar a hora com o terapeuta e... Tentar que ela vá, mas não sei se consigo, não quero obriga-la a nada, ela precisa de um tempo.
— Sakura precisa de orientação, filho. Saber o que sente e lidar com isso, com o luto.
— Luto?! – Ele se empertigou, Fugaku apertou seu ombro.
— Vocês perderam um filho, não o conheceram, não o quiseram mas também não tiveram tempo de querer. Mas, ele existiu, isso não pode ser ignorado. Vocês precisam entender que ele se foi, e isso também é um fato a ser lembrado. O luto pode não os conformar, não é para isso, afinal, mas para marcar o fim para vocês também, e para que possam recomeçar. Seguir adiante.
Sasuke inspirou, encarando o chão.
— Mas primeiro Sakura precisa entender como se sente sobre isso tudo, entender que o bebê se foi, assim como que esta outra criança está perdida e pode ser encontrada. Sasuke, ela está reagindo como se nunca mais fosse vê-lo, está desiludida e muito sensível. O menino pode ser achado, sim? Não é a mesma coisa, mas ela está assustada que possa ser.
— Tem razão. Ele fugiu, não quer ficar com os avós e garanto que num abrigo também não, ou um lar temporário. – Sasuke refletiu. — É um pirralho cabeça dura mas esperto. E hora ou outra ele vai precisar de um teto...
— Exatamente. Mas encare isso como um sinal para não deixarem esse acontecimento ficar de lado. Pois se não tentar curar realmente, vai ficar crescendo e causando estragos irreversíveis.
Sasuke concordou, se deixar o assunto do aborto de lado por um tempo ainda fez Sakura ficar daquele jeito com Noein, ela poderia ficar estragada para toda a coisa de maternidade um dia e ele não queria assistir isso.
Ela poderia não querer ser mãe mesmo que conseguissem passar por essa fase, mas não suportaria que fosse por conta de um novo trauma, e não uma escolha.
Conviver com Noein deixou-a distraída daquele choque, feliz e entusiasmada, mas se afastar dele reavivou a ferida ao triplo, e se não fizessem nada, as coisas piorariam a um ponto que ela sequer suportaria olhar uma criança de novo.
Assim como ele já enfrentava dificuldade para pensar num bebê, ou em ver Kenton, não queria que Sakura sentisse o mesmo.
Precisavam tratar isso logo.
— Vou ligar para a terapeuta.
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