Killer
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Notas iniciais
Muitos foram os que desceram pelo abismo do inconsciente sem conseguir voltar. Os manicômios são sua moradias, pois deles são o reino da insensatez. Outros — muitos poucos, apenas os escolhidos — seriam capazes de contar o que há por trás da loucura.
* * * * * *
Vou te dizer por que está aqui. Você sabe de algo. Não consegue explicar o quê. Mas você sente. Você sentiu a vida inteira: há algo errado com o mundo. Você não sabe o que, mas há. Como um zunido na sua cabeça te enlouquecendo. Foi esse sentimento que te trouxe até mim.
Você sabe do que estou falando? Você deseja saber o que é ?
É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade. Você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro. Nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar.
Uma prisão para sua mente. Infelizmente, é impossível dizer o que é. Você tem de ver por si mesmo. Siga-me.
Dark Carnival
Esse nome seria nossa salvação, bem ao menos era essa as palavras de Jeremy- sim, ele amava sua banda, talvez a única coisa que ele gostasse mais do que brincar com laminas afiadas, era esta em alguma apresentação. Chelsea sorriu com nostalgia, dizendo que se pudesse voltar para Broadway, ela até mesmo pensaria em parar com sua sina sangrenta -sob o olhar realmente surpreso de todos, ela deu de ombros.
– O que? Que culpa tenho se sou uma diva em decadência -ela estava certa, e apesar de ser ainda muito jovem, seus olhos contavam uma história um tanto triste- de alguém que chegou a ver as estrelas, mas que se cegou com seu brilho. Sobre o abraço protetor de seu pupilo predileto, Julian sorriu sussurrando algo em seus ouvidos, o que fez a mesma gargalhar- ela estava bem, não, ela ficaria bem.
– Podemos fazer algum show em algum bar a beira de estrada -resmungou Stevan, que estava ao volante e hora e meia acendendo um cigarro- na verdade, desde que deixamos Palaci Royal para trás, não paramos de dirigir, eu nem mesmo fazia ideia de onde estava e o sol parecia não querer nascer- passamos por duas fazendas Amish, e depois de muito insistir Jeremy e Bonnie desistiram de querer invadi-las.
Sim, que diabos iriamos fazer num lugar desses?
Mas Jeremy apenas sorriu, dizendo que estava a procura de alguma diversão profana, Bonnie apenas deu de ombros- estava inquieta, nunca tinha se sentindo tão deslocada, e talvez alguma adrenalina a fizesse-se cair na real novamente.
Eu tinha Oliver deitado em meu colo, e ele estava acordado- seus olhos arregalados, olhando para mim- cheios de perguntas que certamente ele não iria fazer, mordiscava a manga da blusa que vestia, um claro sinal de nervosismo.
Acho que em toda essa situação bizarra, Oliver -uma criança nem tão inocente assim- era o ponto mais estranho de toda cena, isso me fez rir.
– O que tem graça Am? -sussurrou ele, se ajeitando no meu colo e passando seus braços magros em torno do meu pescoço, apenas dei de ombros- tínhamos roubado para ele um casaco grande demais, vermelho como sangue mas que o deixava com um aspecto que me dava vontade de morde-lo ...ok, ok, apenas deixaremos isso de lado, meu emocional anda descoordenado ultimamente.
– Nada não ...tente dormir, vamos ter um longo caminho aqui pra frente.
O mesmo sorriu, enquanto deixava suas mãos se apoiarem no vidro- parecia bem animado, para alguém que estava em um carro, cercado por adolescentes problemáticos, ele então se entreteve em alguma conversa -por sinal muito sem sentindo com Sabrina, que tinha um Timothy sonolento tombado em seu colo- eles começaram uma guerra de polegares, e sua risada infantil junto a de Sabrina preencheu o silêncio da noite.
– Eu realmente não consigo saber quem é a criança ali atrás -Frankie cerrou os olhos, enquanto Bonnie ria no banco traseiro, batucando seus pés descalços na janela.
– Tenho certeza que o little Oliver deve ter mais juízo que qualquer um aqui.
– Você não acha que esse clima está amistoso demais? -perguntou Jeremy, que estava sentado ao meu lado, ele tinha um olhar curioso e esse noite em especial usava um cachecol laranja, que se destacava em sua vestimenta escura- certamente, um dos presentes do seu irmão. Olhei de relance para ele, no radio da velha van tocava uma música animada, uma sinfonia que reconheci sendo Beethoven, e ri.
– E o que você gostaria de fazer para quebrar o clima? -perguntei curiosa, afinal apesar de querer saber, eu nunca conseguia e talvez nunca irei entender o que se passava em sua mente- conforme a música ia diminuindo de nota, Jeremy sob a penumbra da van parecia como um fantasma encrenqueiro, um espirito inquieto e a procura de encrenca- na verdade, todos pareciam compartilhar da sombra brilhante, a procura do êxtase.
E eu já sabia então, o que Jeremy estava procurando, ele abriu um sorriso curto.
– Quero um pouco da velha ultra-violência.
**
Queen Mary não era um bar qualquer, na verdade aquilo me chamou atenção por ser diferente de tudo que eu já tinha visto antes- era uma mistura de bordel Frânces do século 20, com uma atmosfera futurística que me lembrava o Korova Milk Bar do Laranja Mecânica- claro, que apesar de ser meio desnorteada das idéias como muitos médicos e psiquiatras disseram, Oliver não estava conosco.
Timothy como o bom anti-social que se trancou no quarto por longos anos, se recusou a ir a um lugar desses, por isso Oliver ficou com ele dentro da van- que por sinal estava muito bem escondida entre as árvores- pensando bem, eles tinham se dado muito bem.
– Porque temos de vestir isso? -perguntou Frankie fazendo uma careta de puro terror ao ver a "fantasia" que teria de se enfiar, Jeremy apenas ria enquanto estava sentado em cima de algumas caixas- estávamos no que eu posso chamar de "camarim"- as paredes pintadas em tom de prata, tinha espelhos que iam do teto ao chão, pinturas que pareciam ilusões de óticas e luzes de led colorida, isso tudo estava fazendo minha mente rodar.
– Aliás, porque diabos estamos aqui? -perguntou Bonnie, Sabrina gargalhou- estava usando um vestido repleto de babados de um tom laranja florescente, usava botas de plástico cor de rosa e rodopiava de frente aos espelhos.
–Nyaaa! eu adorei isso tudo ...se eu soubesse da existência desse lugar muito antes -juntou a mão de frente ao peito e rodopiou novamente, em seguida me puxando para compartilhar de sua dança esquisita -Am, estamos pisando no cosmos!
Fiz uma careta, certamente que Sabrina não estava mais nesse mundo- por isso a deixei rodopiando e voltei atenção ao resto do grupo- Stevan, Julian e Chelsea já estavam vestidos como se tivessem saído da era Vitoriana, eram roupas elegantes e coloridas, com direito a franque e cartolas- Jeremy brincava com um taco, enquanto jogava um casaco roxo por cima dos ombros, mesmo assim ainda sem tirar o cachecol.
Ele admirou os cabelos bagunçados no espelho, e piscou para nós.
– Queen Mary é o nosso bar, começamos aqui ...é aqui é a casa do Dark Carnival, sempre podemos contar com Abel e Kokoro para ganharmos alguns trocados, cantamos e ...
– Fazemos serviços especiais -sorriu de forma maliciosa Chelsea- eu, Bonnie, Frankie e Sabrina iriamos nos misturar a multidão de esquisitos que frequentava esse lugar, estávamos trajando também fantasias- aqui era obrigatório, mas se pensar bem ...era tudo bem elegante.
E esquisito, sim ...parecia algum tipo de sonho surreal. É incrível como como as cores do mundo real, parecem mais reais quando se vista de perto.
– My lovers, my lovers ...estão prontos para o show dessa noite -erguemos os olhos para as escadas, onde lá de cima duas silhuetas apareciam de encontro a luz do outro lado, em pequenos passo logo tínhamos dois gêmeos que realmente não se pareciam- em nossa frente, a mulher sorriu -Essa noite promete ser de grandes espetáculos, não acha my dear.
– A quanto tempo não vejo de vocês, continuam parecendo espíritos diabólicos e ao mesmo tempo encantadores -esses na verdade eram os tal de Abel e Kokoro, os irmãos O´Hara- o homem, que não parecia ter mais de 20 anos era alto, mas nem tanto ...-seus cabelos eram de um tom esverdeado muito pálido, tal como sua pele que estava bem escondida sob o fino tecido de seda azul que usava em um terno elegante, os olhos dourados eram contornados por um lápis vermelho que combinava com a quantidade de anéis em seus dedos magros- a única semelhança com a irmã, eram os olhos dourados, e só.
Já Kokoro parecia ser uma pessoa elegante, e um tanto louca ...-trajada num conjunto vermelho, tudo nela era vibrante- desde dos cabelos claros presos em um penteado decorado com pedrinhas brilhantes, aos lábios pintados de roxo- havia um colar de brilhante em seu pescoço, ela tinha seus braços juntos ao do irmão.
– E olha ...parecem que trouxeram com vocês companhia -ela sorriu, olhando para nós, piscando como se vendo algo muito interessante e ao mesmo tempo tedioso -Sinto uma vibração energizante vindo desses garotos ...Dark Carnival, realmente vocês sabem escolher amizades.
– Ficamos felizes que achem isso, mas estamos querendo pegar a estrada antes do sol nascer -abriu um bocejo Chelsea, Abel apenas assentiu.
– Faz sentindo, as melhores coisas se escondem na escuridão estou certo -ele riu, e sua irmã o acompanhou -Mas vamos subindo, vocês são o espetáculo dessa madrugada sinistra.
– Muito bem meus killers, vamos trazer o submundo a superfície -Jeremy com agilidade pulou de onde estava sentado, enquanto seus companheiros de banda subiam para cima ele sorriu, deixando um beijo cálido em minha testa -Deseje-me sorte.
Apenas pisquei, abrindo o leque que estava nas minhas mãos e sorri.
– Você não precisa de sorte, você sabe utilizar laminas e isso já está de bom tamanho.
Ele apenas riu, enquanto erguia a cabeça e seguia seu caminho- Abel gargalhou, enquanto Bonnie, Frank e Sabrina ...que ainda parecia desfocada por todas as luzes surgiram também para cima, estava para fazer o mesmo, mas os dos irmãos me impediram por um tempo.
– A sensação de mistério é a única emoção que se experimenta com mais força ... sabe garota, acho que você tem muito potencial -Kokoro tinha um sorriso diabolicamente encantador nos lábios, ela riu -Sinto que num futuro nem tão distante e também deveras sinistro, estaremos tendo um papo muito mais interessante.
Cruzeis meus braços- esses dois pareciam mais uma pintura viva do que dois humanos normais ...se bem, que duvido que eles saibam o significado da palavra "normal".
– E porque acha isso?
Ela apenas riu, acariciando uma mexa solta de seu cabelo.
– É um mundo estranho, muito ...muito estranho.
Então, seguimos para cima. E essa prometia ser uma das madrugadas mais estranhas que eu já tive o prazer de presenciar.
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