Killer

46 Venha a Nós O Vosso Reino


Notas iniciais
Olá, Aqui estou eu de novo, depois de um milênio. Tenho andado sem qualquer inspiração e, mais que isso, desanimada para escrever que chega a dar dó, mas depois de muito insistir consegui terminar esse capítulo e, se o Altíssimo quiser, em breve terminarei o próximo. Como eu disse no capítulo anterior, esse é o penúltimo capítulo da história e eu espero que vocês gostem. No mais, peço desculpas pela demora em atualizar (não apenas essa, mas TODAS as minhas fanfictions) e prometo que assim que eu conseguir e minha inspiração deixar, volto com o próximo capítulo. Boa leitura.

[Bryan P.O.V.]

— Você quer ouvir uma história? – Lúcifer perguntou a Jonah, fazendo sinal para que Mammon o soltasse. Ele parecia amável, inofensivo, quase como um tutor prestes a ensinar uma lição muito importante a um de seus pupilos, mas a tensão que pairava no ar deixava clara a gravidade daquela situação.

Os olhos azuis de Jonah se desviaram brevemente para os meus, como se buscassem orientação e eu assenti para ele, incentivando-o a ouvir a tal história que Lúcifer tinha para contar, pois, quanto mais tempo ele permanecesse falando, mais tempo eu teria para pensar em uma maneira de nos tirar dali vivos. Não que eu visse muitas saídas para nós naquele momento.

— Conte-me. – Jonah respondeu da maneira mais corajosa que conseguiu, tentando manter sua voz firme e estável, embora seus olhos azuis revelassem parte de sua preocupação e temor.

Lúcifer sorriu para ele, satisfeito com a resposta e me encarou por um segundo, como se para avaliar a minha reação. Certamente minha quietude o incomodava, pois ele me conhecia bem o suficiente para saber que eu não permaneceria cativo, mas outro detalhe interessante sobre Lúcifer é que por mais precavido que fosse, ele também era demasiado orgulhoso para sequer cogitar a possibilidade de uma derrota. Aos olhos dele, eu já estava acabado e, não importava o que eu viesse a tentar, eu estaria condenado ao fracasso.

Então, ele se voltou novamente para Jonah e lhe contou toda a história da Criação. Contou-lhe sobre como Nosso Pai o havia traído e o condenado injustamente ao Inferno e sobre como, apenas milênios mais tarde, nossos irmãos perceberam o erro que haviam cometido ao abandoná-lo à própria sorte e decidiram ajudá-lo a fazer justiça, destronando Nosso Pai cruel e injusto e colocando-o em seu lugar para governar. Lúcifer contou a Jonah sobre a profecia de Gabriel e sobre como um garotinho com dons peculiares estava predestinado ajudá-lo a concluir seus planos de se tornar o novo Deus de todo o universo e fez tudo isso parecer um belo conto de fadas, como se o final feliz estivesse apenas a um passo de distância.

Durante todo o seu relato, ele manteve seus olhos vermelhos sobre mim, como se estivesse me desafiando a desmenti-lo e, por mais que eu realmente quisesse fazer isso, não o fiz. Eu precisava desse tempo. Precisava que Lúcifer continuasse falando e se vangloriando enquanto eu pensava em uma estratégia para detê-lo, então, eu o deixei mentir descaradamente e colocar a si mesmo como o grande salvador que todos sabiam que ele não era.

— Foi por isso que o trouxemos aqui hoje, Jonah. – Ele concluiu, segurando os ombros de Jonah de maneira afetuosa. – Você é o garoto da profecia. Aquele que me ajudará a corrigir o erro que Meu Pai cometeu e, para isso, você só precisará pegar uma coisa para mim.

— Que coisa?

— Algo que o Meu Pai escondeu de mim e de todos os meus irmãos. – Lúcifer se afastou dele e, lentamente, caminhou até a Árvore da Vida. – Conhecimento, Jonah. Tudo o que Ele sabe sobre o universo e sobre a humanidade. A história do seu mundo, a sua história e a minha… Tudo está bem aqui. – Ele tocou o tronco da árvore com visível devoção. – E, se você me ajudar a recuperar esse conhecimento, nós dois poderemos fazer do mundo um lugar melhor, assim como a profecia de meu irmão previu. Você não gostaria de me ajudar, Jonah?

Os olhos de Jonah se desviaram para os meus mais uma vez, buscando alguma direção, já que estava claro, como o garoto inteligente que era, que ele não havia acreditado em uma única palavra do que Lúcifer lhe dissera, mas, infelizmente, eu não tinha nada para lhe dar. Estávamos em menor número e, mesmo que conseguíssemos dar conta de todos ali, ainda haveria um exército de traidores nos aguardando fora do Éden e eu estava ferido e mais cansado do que jamais estive em toda a minha existência. Eu sabia que precisávamos de um plano, sabia que teríamos que fazer algo, mas eu não conseguia pensar em nada ou, pelo menos, não conseguia pensar em nada que não me parecesse suicídio e que não colocasse a vida de Jonah em um perigo ainda maior do que já estava.

— Como eu ajudo você? – Jonah questionou, improvisando. Ele havia herdado a sagacidade de Loren e eu só podia ser grato por isso. – Teremos que cortar essa árvore?

— Não, Jonah. Nós não cortaremos a Árvore.

— Então, como vamos pegá-lo? O conhecimento está enterrado embaixo dela? Teremos que cavar? – Ele caminhou para perto de Lúcifer e vi Mammom e Astaroth se movimentarem junto com ele, atentos a cada um de seus passos. Isso era bom. Com dois pares de olhos a menos sobre mim, eu teria mais chances de tentar me livrar daquelas correntes sem ser visto.

— Não, Jonah. Não teremos que fazer nada disso, pois o conhecimento não está na Árvore. Ele é a Árvore. Toda ela. – Lúcifer explicou. – Desde suas raízes até os seus frutos.

— Eu não entendo. – Jonah encarou a Árvore da Vida verdadeiramente confuso. – Se o conhecimento é a Árvore como vamos fazê-lo se transformar disso para… isso? – Ele apontou para a própria cabeça, referindo-se a todas as informações que o cérebro era capaz de armazenar. – Como isso é possível?

— Com fé. – Lúcifer sorriu para ele e os demônios que ali estavam sorriram junto, mas a expressão em seus rostos só demonstrava deboche. A fé era algo além de sua compreensão.

— Então, vamos rezar ao redor dela até que ela vire conhecimento?

— Quase isso. – Lúcifer olhou para além dele e fez sinal para que Andras se aproximasse. – Eu vou te ensinar um encanto. – Ele voltou a falar com Jonah. – É como uma oração, mas tem um objetivo um pouco diferente. Você vai aprender as palavras e vai repeti-las tocando a Árvore.

— Só isso?

— Você precisa crer no que está fazendo, Jonah. Precisa ter fé em si mesmo ou não vai funcionar. Consegue fazer isso?

Os olhos azuis de Jonah se desviaram para os meus por uma fração de segundo.

— Consigo. – Ele respondeu sem muita convicção.

— Ótimo. – Lúcifer piscou para ele e eu mal registrei o momento em que Andras o agarrou pelas costas e prendeu seus braços para trás, antes de ouvir seu grito assustado.

— Jonah! – Imediatamente, tentei me colocar de pé e avançar em sua direção, mas senti as garras negras de Leviatã se cravarem em meu ombro, enquanto a lâmina de sua espada pressionava a pele em minha garganta.

— Ajoelhe-se! – Ele exigiu, mas não lhe dei ouvidos. Toda a minha atenção estava concentrada em Lúcifer e na forma violenta com Andras segurava os braços de Jonah.

— Solte-o agora. – Ordenei e Andras olhou para Lúcifer, aguardando sua decisão.

— Eu não irei machucá-lo, Azrael. Só preciso gravar algumas coisas na pele dele e o processo pode ser um pouco incômodo. Preciso apenas garantir que ele não se debata.

— Não!

— Está tudo bem. – A voz trêmula de Jonah se fez ouvir. – Está tudo bem, papai. Eu aguento.

— Não, Jonah. – Recusei firmemente aquela opção porque eu sabia que nenhum símbolo que Lúcifer pudesse gravar em sua pele lhe faria bem.

— Isso é para protegê-lo, Azrael…

— Eu não confio em você! – Vociferei para Lúcifer sem me importar em ouvir seus argumentos. Ele não se preocupava com a proteção ninguém além da sua e, seja qual fosse a finalidade das inscrições com as quais ele queria marcar o corpo de Jonah, eu já sabia que, no fim, o único beneficiado seria ele próprio.

— Bem, não cabe a você decidir. – Lúcifer se voltou para Jonah com um brilho maléfico no olhar e foi como se um súbito surto de adrenalina tivesse se espalhado pelo meu corpo.

Cerrei os punhos com tamanha força que os elos das correntes que me prendiam retiniram e se quebraram, dando-me a mobilidade necessária para acertar uma cotovelada no rosto de Leviatã e tomar sua espada, avançando imediatamente contra Lúcifer e Andras em uma fúria cega.

— Detenham-no! – Ele bradou, preparando-se para se defender de minha investida, mas, para sua sorte, Astaroth me alcançou na metade do caminho e se jogou sobre mim, fazendo com que trombássemos e despencássemos na relva, rolando em uma luta ferrenha pela posse da espada de Leviatã.

— Papai! – Ouvi Jonah gritar enquanto se debatia para se desvencilhar das mãos de Andras. – Soltem ele! Papai!

— Jonah… – A voz de Lúcifer se fez ouvir em meio a toda confusão, mas foi interrompida pelo grito estridente de Andras que nos tomou com tal assalto, que até mesmo Astaroth interrompeu nossa batalha e me soltou para observar o que havia acontecido.

A cena que vimos foi aterradora. Andras corria pelo Éden com o corpo envolto em chamas, gritando a plenos pulmões, até que finalmente tombou em um ponto mais adiante e pereceu, transformando-se em um monte de cinzas que logo foram sopradas pela brisa.

Todos ficaram estupefatos por um instante e eu nem tive tempo de compreender o que tinha acontecido a Andras, antes que o corpo de Astaroth fosse arremessado pelos ares para longe de mim e se chocasse contra uma das árvores ali com um baque surdo.

— Não o toque! – Ouvi Lúcifer advertir um de seus demônios e quando me virei para encará-lo entendi o porquê de todo aquele alvoroço.

Jonah havia feito todas aquelas coisas.

Eu não sabia explicar como e nem mesmo sabia que ele era capaz de tais feitos, mas estava claro que Lúcifer sabia disso porque havia assumido uma postura extremamente cautelosa e estava fazendo questão de manter todos afastados dele. Seja lá o que estivesse acontecendo com Jonah, parecia perigoso suficiente para assustar até mesmo o Príncipe do Inferno e desejei que eu tivesse estudado um pouco mais sobre os Nefilins quando tive a chance.

— Jonah. – Me coloquei de pé e, cuidadosamente, tentei me aproximar alguns passos dele. Jonah parecia preso em uma espécie de transe, seus olhos estavam completamente negros e ele olhava fixamente para o corpo caído de Astaroth junto as árvores, como se não pudesse enxergar nada além daquilo. Eu não sabia se esse comportamento era normal em um Nefilim ou se Lúcifer tinha alguma participação naquilo, algo que ele pudesse ter feito quando Jonah nasceu. A verdade, é que eu não sabia tanto sobre o meu filho quanto deveria. – Jonah, você consegue me ouvir?

— Ele não tem controle. – Lilith disse em voz baixa, estendendo as mãos em minha direção com se planejasse me segurar caso eu chegasse perto demais. Ao seu redor, Lúcifer e todos os seus lacaios estavam excessivamente quietos, tão quietos que até o mais leve soprar do vento parecia alto demais ali. – Acho que ele não ouve você, Azrael. Jonah não é como os outros Nefilins. Ele está predestinado a carregar a Trindade Santa dentro de si e tem mais poder correndo pelo corpo dele do que ele é capaz de controlar agora. Ele não teve treinamento suficiente, ainda não era a hora.

— E como eu o tiro disso? – Olhei ao redor, buscando nos rostos petrificados ali alguma orientação. Lúcifer havia articulado tudo aquilo, ele planejava usar Jonah para obter o poder da Árvore, então, ele tinha que saber como parar o que estava acontecendo. – Me diga, como eu o tiro disso?!

Não obtive resposta e isso apenas fez com que minha ira aumentasse. Eu sabia que aquele era o melhor momento para atacar, caso eu quisesse detê-los, pois tanto Lúcifer quanto seus seguidores estavam com sua guarda baixa e sua atenção totalmente voltada para Jonah e se eles não sabiam como ajudá-lo a sair daquela situação, então, suas vidas não tinham nenhum valor para mim. Segurei a espada de Leviatã com mais firmeza e me preparei para atacar. Mammom era quem estava mais próximo e embora ele fosse muito bom em combate, treinamos bastante juntos para que eu conseguisse identificar alguns pontos fracos em suas habilidades de luta. Eu poderia dar conta dele e com Andras morto, Astaroth incapacitado e Leviatã ferido, Lúcifer e Lilith seriam as duas únicas preocupações que eu teria depois. Eu poderia dar conta deles também.

— Pai? – A voz suave de Jonah me alcançou e, imediatamente, trouxe minha atenção de volta para ele. Virei-me para respondê-lo, mas logo percebi que não era comigo que ele falava. Seus olhos negros estavam fixos na Árvore da Vida mais adiante e sua cabeça estava levemente inclinada para o lado como se ele tentasse identificar a origem de algum ruído que era imperceptível para nós.

— Jonah?

Ele pareceu não me ouvir. Simplesmente caminhou em direção à árvore, com passos lentos e ritmados enquanto murmurava uma série de palavras em um tom baixo demais para que eu conseguisse identificar o idioma.

— Está acontecendo. – Ouvi Lúcifer exclamar com uma euforia mal contida. – Conseguem sentir?

Os demônios a sua volta o encararam assustados e eu sabia exatamente o que estava lhes causando essa reação porque eu também podia sentir aquela energia. Ela havia se ausentado de nosso meio havia vários séculos, mas era impossível não reconhecê-la. A essência do Criador era única e indescritível.

Lilith voltou seus olhos dourados para mim e pude ler neles todos os seus pensamentos. Ela estava com medo. Afinal, porque não estaria? Que demônio conseguiria permanecer na presença de Deus sem ser afetado quando até mesmo nós, os anjos, a sentíamos tão intensamente assim?

— Vá. – Sussurrei para ela, sem saber porque a estava protegendo daquilo que estava por vir. Lilith era um demônio como todos os outros que seguiram Lúcifer até ali. Ela era perversa e havia ajudado-o a me trair, então, porque eu deveria me preocupar em salvá-la quando ela havia tramado para me levar à ruína? Eu sabia que não deveria ter compaixão por ela, mas algo em seus olhos e a forma como ela havia falado sobre Jonah, como se sentisse muito por ter permitido que Lúcifer o usasse para seus planos nefastos sem que ele estivesse pronto para isso, me fizeram repensar sua punição. Talvez Lilith não merecesse morrer, pelo menos não ainda. – Vá agora. – Reiterei e, sem pensar duas vezes, Lilith abandonou a todos ali e correu para fora do Éden o mais rápido que pode. Como ela conseguiria atravessar o Oceano do Sexto Céu sem possuir asas, eu não sabia, mas sabia que ela era encontraria uma maneira. Lilith sempre encontrava.

— Aonde ela vai? – Ouvi Leviatã gritar para Lúcifer acima do zumbido ensurdecedor que erguia-se da Árvore da Vida.

Parecia que uma bomba atômica estava prestes a detonar. Toda a extensão da Árvore reluzia com um brilho amarelado forte e uma força descomunal fluía por ela, espalhando-se pelo Éden em ondas crescentes e instáveis que reverberavam pelo interior de nossos corpos, causando-nos a perturbadora sensação de estarmos sendo eletrocutados ininterruptamente. Eu imaginava que se a sensação já era perturbadora para Lúcifer e eu, para os demônios que ali estavam devia ser mil vezes pior.

— Deixe-a ir. – Lúcifer respondeu, sem lhe dar muita importância. A euforia que há tão pouco estava estampada em sua face, agora, havia sido substituída por uma expressão de dor e incômodo que eu podia compreender muito bem porque também era como eu me sentia.

Havia muita energia fluindo ali e ela era intensa demais. Estava claro que O Criador, em sua forma física, a mantinha sob controle quando estava em nossa presença, pois sabia que nós não suportaríamos a manifestação de todo o seu poder, mas naquele momento a energia estava livre e se Jonah não conseguisse contê-la, não demoraria muito até entrarmos em colapso.

Em meio a minha desorientação, tentei localizá-lo e o encontrei junto a Árvore da Vida, com as mãos firmemente apoiadas em seu caule. Sua boca pequena movia-se apressada, recitando o que eu julgava ser algum mantra de invocação e seus olhos permaneciam negros e arregalados, embora ele não parecesse enxergar coisa alguma diante de si. Logo me vi dividido entre a minha responsabilidade como pai, que era protegê-lo e afastá-lo dali e a minha responsabilidade como ser celestial que era garantir que ele cumprisse o destino traçado pela profecia de Gabriel e tive certeza que, se Loren pudesse me ver, ela estaria decepcionada porque, para ela, não seria difícil escolher. Ela era mãe e Jonah vinha em primeiro lugar, mas se a profecia não se cumprisse, o Apocalipse não teria um fim e toda a humanidade pereceria nas mãos de Morte.

— O que está acontecendo?! – Mammom caiu de joelhos e levou as mãos à cabeça, olhando ao redor desesperado. Havia um líquido negro escorrendo por seus olhos, ouvidos e nariz e não precisei perguntar para saber o quanto aquela experiência estava sendo dolorosa para ele. – Mestre! – Ele gritou por Lúcifer, tateando ao redor na tentativa de encontrá-lo, mas Lúcifer apenas se afastou e o deixou caído, retorcendo-se de dor na própria imundície. Nada que eu já não esperasse do Príncipe do Inferno a quem as palavras lealdade e companheirismo nada significavam.

Leviatã logo seguiu pelo mesmo caminho de Mammom, gritando de dor e desfazendo-se em uma poça de fluído negro e viscoso e eu tive certeza que, se Astaroth já não estivesse inconsciente, ele também teria gritado a plenos pulmões, mas sua morte foi mais silenciosa embora, imagino eu, não menos dolorosa que as demais.

— E, novamente, somos apenas você e eu contra o mundo, Azrael. – Lúcifer tentou sorrir, mas só o que conseguiu foi me encarar com uma careta de dor. Acho que ele havia passado tanto tempo no Inferno que, agora, o poder da Árvore o afetava mais que a mim.

— Nunca houve um “nós” em se tratando de você. – Retruquei, imaginado se cravar minha espada em seu coração agora seria uma atitude inteligente ou apenas tão covarde quanto chutar um oponente que já estava caído.

Antes que eu chegasse a uma decisão, o grito excruciante de Jonah tirou Lúcifer de meus pensamentos e trouxe toda a minha atenção de volta para ele, deixando-me alarmado com o que vi. Jonah estava de joelhos, ainda apoiado à Árvore como se não conseguisse soltá-la e havia sangue escorrendo de seu nariz com uma intensidade que me deixou assustado. Percebi, então, que ele não conseguiria lidar com todo aquele poder. Jonah era muito jovem, seus dons mal haviam se manifestado e ele ainda não conseguia controlá-los totalmente. Seu corpo podia ser forte, mas ele era apenas uma criança e ainda não tinha capacidade de suportar tudo aquilo. Eu confiava nas profecias de Gabriel, mas com Lúcifer alterando a ordem de tudo, não havia como saber se aquilo terminaria bem. A própria Lilith havia dito que Jonah ainda não estava pronto.

— Ele não vai conseguir. – Comuniquei a Lúcifer, mas ele não me pareceu surpreso. Nem mesmo preocupado que pudesse perder o poder da Árvore e foi, então, que a minha ficha caiu. Lúcifer não estava preocupado porque ele nunca achou que Jonah seria forte o suficiente para conter toda aquela energia. Esse era o seu plano desde o início: deixar que Jonah morresse na tentativa para que o poder da Árvore ficasse livre e ao alcance de suas mãos. Eu havia sido um tolo.

No mesmo instante em que percebi meu erro, tentei correr até Jonah, mas a luz e a energia que emanavam da Árvore da Vida estavam fortes demais. Eu não conseguia me aproximar dele e quando tentava, era repelido para longe com tanta força que mal conseguia respirar.

— Jonah, me escute! – Apelei para seu subconsciente porque era óbvio que tentar alcançá-lo com força bruta, àquela altura, já não adiantaria. – Você precisa se desligar disso, Jonah. Precisa encerrar a conexão. É muito poder para controlar, você não tem força suficiente para isso ainda.

— Desista, Azrael. Não há como reverter o processo agora que já começou. O que está feito, está feito. – Lúcifer se vangloriou, mas eu não lhe dei ouvidos. Eu não podia permitir que Jonah morresse, não apenas porque não podia arriscar que o poder da Santa Trindade caísse em mãos erradas, mas, principalmente, porque ele era meu filho e eu tinha que protegê-lo. Eu devia isso a ele e a Loren.

— Jonah, eu sei que você está aí, sei que pode me ouvir. Você consegue encerrar essa conexão. Concentre-se em mim, no som da minha voz, está bem? Sei que pode fazer isso, Jonah. Não desista.

Um grito dolorido foi toda a resposta que obtive de Jonah e aquilo me levou ao desespero. Ele não conseguiria parar, era poder demais para ele, não havia como interromper aquilo.

— Jonah! – Desesperado e sem saber mais o que fazer, voltei a tentar alcançá-lo, mas todas as minhas investidas foram frustradas. Quanto mais eu me lançava em sua direção, mais longe a força que emanava da Árvore me atirava e estava cada vez mais insuportável permanecer ali, era como se o meu corpo inteiro vibrasse com aquela energia.

Cansado, caí de joelhos e tentei controlar minha respiração acelerada e o formigamento que corria por meus músculos. Eu não podia desistir. Se parasse agora, Jonah morreria e tudo estaria perdido, Lúcifer conquistaria o que queria e o mundo estaria em ruínas muito em breve. Então, reunindo minhas últimas forças, me apoiei em minha espada e me coloquei de pé. Se iríamos todos morrer, então, eu morreria tentando salvá-lo.

Com um vigor renovado, fixei minha atenção em Jonah e disparei em sua direção. A energia da Árvore chicoteava minha pele enquanto eu corria em sua direção e fazia meus ossos chacoalharem, causando-me a sensação de estar sufocando, mas não parei. Pouco a pouco, atravessei todas as barreiras invisíveis de poder que fluíam ao redor de Jonah, mas quando me aproximei o suficiente para conseguir tocá-lo, algo aconteceu: o poder da Árvore chegou ao seu ápice e foi como se eu estivesse no epicentro da detonação de uma bomba.

Fui lançado à distância, atingido em cheio pelo raio de energia amarelado que se libertou da Árvore e só o que pude fazer foi tentar tapar os olhos para não me cegar com toda a luz que se espalhou pelo Éden. Árvores e rochas se partiram por todos os lados, levantando uma nuvem de poeira e lançando escombros por todo o Sétimo Céu e eu me senti como um inseto no meio de uma catástrofe natural incontrolável, apenas sendo arrastado por ela enquanto lutava para sobreviver.

Por um instante, perdi completamente a noção de tempo e espaço, talvez tenha perdido a consciência por alguns segundos, mas quando consegui me recuperar, estava praticamente soterrado por pedaços de rochas, areia e galhos de árvore partidos e havia um zumbido incômodo ecoando pela minha cabeça.

Com certa dificuldade consegui me desvencilhar de tudo aquilo e me colocar de pé, mas quando olhei ao redor, me assustei com o que vi: o Éden estava destruído! Toda a sua vegetação havia sido devastada e mesmo suas suntuosas montanhas e cachoeiras tinham sido reduzidas a pouco mais que pilhas de pedra e lama.

— Jonah! – Olhei ao redor procurando por ele, mas tendo sido arremessado à distância e sem a Árvore da Vida como ponto de referência eu não fazia a menor ideia de onde Jonah estava. Talvez ele também tivesse sido arremessado, talvez estivesse sob todos aqueles escombros... eu não tinha como ter certeza, mas sabia precisava encontrá-lo logo. Eu só esperava que ele ainda estivesse vivo depois de tudo aquilo.

Então, mesmo desorientado e sentindo que meu corpo ainda estava fraquejando por causa do intenso poder que me atingiu, comecei a andar pelo Éden, vasculhando pilhas de rochas e galhos e chamando por Jonah. Tudo estava um caos ali e me sentia fraco demais para abrir minhas asas e voar, então, apenas tropecei por todos os lados como um humano doente faria.

Já estava quase perdendo as esperanças de encontrar Jonah em meio a tudo aquilo e me perguntava como eu poderia encarar Loren novamente sabendo que havia fracassado em minha promessa de manter a ela e Jonah a salvo, até que, por fim, após alguns minutos de uma difícil caminhada, avistei o corpo pequenino e magro de Jonah caído junto a uma pilha de pedras mais adiante.

Cambaleei para junto dele o mais rápido que consegui e, quando o alcancei, me abaixei junto a seu corpo e o segurei em meus braços, limpando a poeira avermelhada que cobria seu rosto.

Ele não reagiu.

Suas pálpebras sequer tremeram e seus braços e pernas, assim como sua cabeça, estavam pendendo para todos os lados, como se ele não fosse mais que um boneco de pano. Além disso, parte do tecido de sua roupa estava rasgado e havia cortes por todo seu corpo, que deviam ser resultado da violência com que ele havia sido arremessado contra as rochas. Eu acreditava que, se seu corpo não estivesse coberto de poeira, eu poderia ver o quanto sua pele devia estar pálida.

— Jonah. – Eu o chamei em voz baixa. Sentia-me como em algumas noites quando Lúcifer me levava para visita-lo em Veneza de madrugada e precisava acordá-lo de seu sono para poder falar com ele, mas agora ele não estava em uma cama quentinha e confortável e Loren não estava ali para nos observar com seus olhos cheios de afeto. – Jonah, se estiver me ouvindo, tente abrir os olhos, ao menos um pouco. Só para que eu saiba que você está vivo. – Pedi com meu coração apertado de tamanha preocupação. Ele não estava dando qualquer sinal de vida, mas minha teimosia me impedia de acreditar que o pior realmente tinha acontecido. Eu não podia tê-lo perdido, não daquela maneira.

Aguardei por uma reposta, mesmo um leve agitar de cílios de sua parte, mas minhas esperanças foram em vão.

— Meu Deus, não! – Aproximei meu ouvido de seu peito, mas não ouvi nada, nenhum batimento cardíaco, nenhum ressonar de seus pulmões. Mesmo as veias em seu pulso não mostravam qualquer sinal de pulsação e ele, simplesmente, não respirava. – Jonah. – Abracei-o com mais força, mas seu corpo permaneceu imóvel em meus braços. – Por favor, Jonah, acorde. Eu não posso perdê-lo assim. Acorde.

Chorei, rezei e implorei, mas não importa o quanto eu tenha pedido, Jonah não acordou e eu sabia que se ele estava morto, isso só podia significar que o poder da Árvore estava por aí, ao alcance de qualquer um que conseguisse domá-lo, tivesse esse ser boas ou más intenções e isso deveria me preocupar, porque a humanidade e o mundo como eu conhecia podia estar à beira da extinção, mas a única coisa com a qual eu me importava era com o corpo de Jonah repousando em meus braços.

Eu havia falhado com ele. Havia falhado com Loren. Havia falhado com todos os meus irmãos e com o próprio Criador e não sabia se havia uma maneira de me perdoar por isso. Como eu poderia sobreviver sabendo que havia perdido tudo que mais amava por ser tolo e fraco?

— Eu sinto muito, Jonah. – Beijei sua testa, deixando que minhas lágrimas se misturassem à poeira sobre sua pele. – Eu não consegui proteger você. Não consegui proteger ninguém. Eu estraguei tudo.

Eu me sentia patético. Um verdadeiro fracasso. Algumas horas antes estava surpreso com o quanto Miguel havia decaído, mas eu era pior que ele. Talvez Lúcifer devesse ter arrancado a minha cabeça também.

Um leve movimento nas pedras às minhas costas chamou minha atenção e me virei para olhar. Parecia que havia algo se movimentando sob elas e quando comecei a me perguntar o que seria aquilo, a mão de Lúcifer surgiu na superfície e ele empurrou para longe dali o máximo de escombros que conseguiu e se arrastou para fora das pedras, praticamente engatinhando.

Sua aparência era decrépita como a minha. Partes de sua armadura estavam quebradas ou arranhadas e seu longo cabelo negro estava desgrenhado e sujo. Lúcifer levou a mão ao rosto para limpar a poeira que estava grudada ali e, então, seus olhos vermelhos avistaram o corpo de Jonah em meus braços.

— Ele está morto? – Perguntou sem qualquer remorso e a tristeza que eu sentia pela perda de Jonah se transformou, automaticamente, em ódio e em uma sede de vingança insaciável.

— Você fez isso a ele. – Eu o acusei, depositando o corpo de Jonah com cuidado de volta às pedras e me colocando de pé devagar. – Você queria que ele morresse e agora o túmulo dele será o seu também.

Lúcifer sorriu para mim.

— Você acha mesmo que pode me matar, Azrael?

— Para mim já não importa qual de nós dois morrerá hoje – Retirei a única espada que havia me sobrado da bainha presa às minhas costas de minhas costas e a apontei para ele –, mas toda essa guerra acabará aqui.

Uma faísca assassina brilhou nos olhos vermelhos de Lúcifer e ele retirou sua própria espada da bainha, ajeitando sua postura.

— Será um prazer acabar com você. – Disse cheio de si. – E, depois, será um prazer encontrar o poder da Árvore e governar todo o universo.

Eu sequer pisquei diante de sua provocação.

— Não poderá governar nada se estiver morto. – Comentei e sem aviso me lancei sobre ele com minha espada em punho.

Lúcifer havia destruído tudo o que eu mais prezava em minha existência. Eu não havia cumprido muitas de minhas promessas nos últimos tempos, mas naquele momento prometi a mim mesmo que, ainda que eu padecesse naquela batalha, eu faria questão de leva-lo comigo.

Notas finais
E é isso! Aposto que muitos de vocês devem estar querendo me matar agora por causa do Jonah, mas eu preciso pedir: tenham calma! Muitas surpresinhas os aguardam no próximo (e último) capítulo de Killer e eu espero que vocês gostem do desfecho que estou preparando para a história. Obrigado por acompanharem e vejo todos vocês em breve.