Killer
47 A Aurora dos Tempos
Notas iniciais
[Bryan P.O.V.]
Nossas espadas se chocaram com um som metálico estridente e senti a intensidade do golpe reverberar através dos músculos de meu braço. Tanto Lúcifer quanto eu lutávamos como jamais havíamos lutado antes e a única certeza que aquela batalha nos trazia era a de que, ao final dela, um de nós – ou até mesmo ambos – estaria morto.
— Isso é tudo que tem? – Lucifer me provocou, mas não lhe dei ouvidos. Eu não queria conversar, não queria travar com ele um duelo de frases bem elaboradas. Tudo o que eu queria era a sua cabeça. Nada mais.
Recuei um passo, trazendo minha espada para junto do corpo e voltei a investir contra ele cuja espada interceptou meu golpe mais uma vez, mas com um rápido gingado de meu corpo consegui me esquivar de sua defesa e atacá-lo pelo flanco direito onde sua guarda estava baixa.
Lúcifer se desviou de minha investida com habilidade, mas não antes que minha espada o atingisse superficialmente, abrindo um pequeno talho em seu ombro no lugar onde sua armadura havia se partido. Ele recuou alguns passos e levou sua mão livre ao ferimento, fazendo uma pequena careta de dor.
— Já está arrependido de ter criado essas armas? – Perguntei, empunhando, mais uma vez, minha espada negra, cujo metal forjado nas chamas do Inferno era a única coisa no universo capaz de ferir um anjo.
— Nem de longe, meu querido irmão. – Lúcifer investiu contra mim com uma energia renovada e com uma série de golpes ágeis e eu fiz o possível para interceptar cada um deles, impressionando-me com a forma como faíscas voavam pelo ar a nossa frente, cada vez que as lâminas de nossas armas se encontravam.
Então, com um golpe preciso, Lúcifer atacou a área desprotegida de meu pescoço e só não foi bem sucedido em cortar minha garganta porque, um milésimo de segundo antes disso, eu ergui minha espada para frear seu golpe. Regozijei-me com minha defesa certeira, mas me esqueci de levar em conta que Lúcifer era o rei dos estratagemas e apenas quando o vi se desviar rapidamente para a minha esquerda e sacar uma das adagas de sua armadura, foi que percebi que havia caído em uma armadilha.
Senti a lâmina de sua adaga se cravar em meu abdômen e recuei um passo para evitar que ele me perfurasse mais profundamente, mas isso não impediu que aquele ferimento ardesse com o inferno.
— O próximo acertará o seu coração. – Lúcifer me ameaçou e logo voltou a investir contra mim, forçando-me a me defender como podia de seus ataques enquanto a dor de seu ultimo golpe ainda assolava minha barriga.
Nós nos enfrentamos durante longos minutos, atacando um ao outro com tudo que tínhamos e, por vezes, chegando muito perto de acertar um golpe mortal. Cada vez que nossas espadas se chocavam, uma onda de poder reverberava por nossos corpos, obrigando-nos a segurá-las com mais firmeza para que não escapassem de nossas mãos.
Todo esse embate, por fim acabou refletindo em nossos corpos, que começaram a se mover mais lentamente, já cansados de toda a luta. Tanto Lúcifer quanto eu estávamos feridos e eu, talvez, estivesse mais exausto que ele após toda a minha tentativa frustrada de salvar Jonah, mas quando um dos golpes de Lúcifer demorou uma fração de segundo a mais para me atingir , aproveitei a deixa e avancei para cima dele, acertando-o com um soco.
O impacto repentino de meu punho em sua face, fez com que ele se desequilibrasse e caísse e aproveitei o momento para atacá-lo novamente com golpes de espada. Lúcifer rolou pelo chão de maneira hábil, desviando da lâmina de minha arma por um triz e saltou para longe de mim, já com sua espada em punho.
Nossas respirações fluíam em jatos irregulares e nossos peitos subiam e desciam com o esforço de recuperar o fôlego, enquanto nos encarávamos. Os olhos de Lúcifer faiscavam com uma fúria mal contida, mas eu tinha certeza que o azul gélido dos meus lhe parecia bem mais mortal.
Ele havia me tirado tudo! Meu lar, nossos irmãos, Nosso Pai, Loren, Jonah e todas as milhares de vidas humanas que eu jurara proteger e que, agora, pereciam nas mãos de Morte, enquanto o Apocalipse se espalhava pela Terra. Eu não tinha nada mais a perder, pois mesmo a minha própria vida nada significava sem tudo aquilo, mas enquanto Lúcifer vivesse, eu não desperdiçaria a força que ainda me restava. Eu o faria pagar por tudo que ele havia feito, ainda que isso custasse o meu último fôlego.
— Vejo nos seus olhos que você ainda acha que pode vencer. – Ele abriu um sorriso exausto. – Mesmo que eu morra, Azrael, você não pode salvar nada. O universo entrou em colapso e, sem O Altíssimo aqui para por um fim ao Apocalipse, tudo que você conhece irá desmoronar.
— Talvez você esteja certo – admiti –, mas ainda que eu perca tudo, não deixarei que você saia impune. Isso pode não ser uma vitória para mim, mas nunca deixarei que seja uma para você também.
Empunhei novamente minha espada, reunindo dentro de mim todas as razões pelas quais eu precisava detê-lo. Lembrei-me de Loren, de seu sorriso gentil e de sua determinação e de como Lúcifer manipulou nossas vidas a seu bel prazer, me fazendo acreditar em uma segurança que nunca possuímos. Lembrei-me dos olhos bondosos de Jonah, de todas as esperanças que ele nutria para o futuro e de como Lúcifer armara para sacrificá-lo em sua busca por poder. E lembrei-me até mesmo de Miguel, que em sua loucura cega mal percebeu o quanto estava sendo manipulado por esta serpente até que sua cabeça rolou de seus ombros. E ele havia sido apenas um dentre tantos anjos que perderam suas vidas nessa guerra. Eu não deixaria que Lúcifer ferisse mais ninguém.
Sem aviso, investi contra ele e pude ver a surpresa em seus olhos quando ele sentiu a intensidade de meu ataque. Eu estava munido não apenas pela fúria e pela sede de vingança, mas também pela fome de justiça por todos aqueles que Lúcifer havia destruído direta ou indiretamente com seus planos vis.
Havia tanta coisa explodindo dentro de mim naquele momento que a cada golpe de minha espada uma cena passava por minha cabeça. Elas variavam entre bons momentos, como aqueles que eu havia passado com Jonah e Loren em Veneza, quando achava que tínhamos uma chance de sermos uma família e, momentos ruins, como a morte estampada nos rostos dos Ceifeiros que foram brutalmente assassinados no mosteiro quando libertamos o ultimo dos Cavaleiros do Apocalipse.
Cada ataque que eu lançava contra Lúcifer era uma extensão de tudo isso, de toda a perda, de toda a morte e de toda a dor que ele causara e eu usava tudo isso como uma munição.
— O que diabos é você?! – Lúcifer se desviou, com extrema dificuldade, de outro de meus ataques e parou, a alguns metros de distância, me encarando como se estivesse diante de um monstro.
Eu tentei entender a expressão apavorada em seu rosto, mas ela não fez qualquer sentido até que vi meu reflexo em uma poça de água e lama que havia se formado durante a explosão da Árvore da Vida, que devastara o Sétimo Céu.
A princípio, nem eu me reconheci muito bem. Havia presas em minha boca e meus olhos, sempre de um azul intenso, agora estavam vermelhos, mas não vermelhos como os de Lúcifer que possuíam uma cor clara e vívida, os meus pareciam em chamas, com sua cor alternando-se entre o vermelho, o amarelo e o alaranjado característico das labaredas. Fora isso, também havia rastros de fogo sob a minha pele, como se minhas veias estivessem preenchidas de lava vulcânica que, agora, lutava para se libertar e vir à tona. Eu parecia mesmo um monstro. Parecia o próprio Cão do Inferno.
— O que você fez comigo?! – Esbravejei, voltando-me para Lúcifer que ainda me encarava como se eu fosse algum ser mitológico que ele jamais imaginara encontrar. Avancei em sua direção, irritado com o fato dele não estar me dando as respostas que eu queria e ele recuou vários passos para trás, tentando colocar uma distância segura entre nós.
— Não fiz nada. Você... – Ele pareceu pensar um pouco e eu avancei novamente em sua direção, impaciente com a demora.
— Isso aconteceu com você! – Acusei-o, bastante ciente das mudanças físicas que ele sofrera ao ser expulso do Paraíso: os olhos vermelhos, os dentes serrilhados... Lúcifer era uma bela criatura antes de cair, mas agora era pouco mais que um demônio.
— Foi diferente comigo. – Ele se defendeu. – Levou milhares de anos para o Inferno me transformar no que sou agora, mas você... – Ele parecia aterrorizado ou, talvez, enojado. Não entendi muito bem sua expressão.
A fúria borbulhou dentro de mim. Depois de tudo que Lúcifer havia feito, de todos os horrores que ele infligiu às pessoas, ele ainda ousava olhar para mim agora como se eu fosse o monstro ali? Estendi minha espada e fiquei surpreso quando chamas alaranjadas simplesmente fluíram de minha mão e cobriram toda a arma, deixando-a muito parecida com a espada flamejante de Miguel, embora aquelas chamas ardessem com muito mais intensidade que as dele.
— Espero que tenha pensado em suas últimas palavras. – Eu disse fitando-o com um olhar mortal.
Nem esperei que ele respondesse. Parti para cima de Lúcifer com tudo o que eu tinha e ele interceptou meu golpe com visível dificuldade. Dava para ver o espanto em seus olhos vermelhos e a preocupação estampada em sua face. Ele correu os olhos ao redor rapidamente, desesperado por uma rota de fuga, mas não lhe dei tempo para encontrar uma. Investi contra ele, uma vez após a outra, e Lúcifer tentou bloquear meus ataques e se afastar o quanto pode, mas, no fim, suas costas se chocaram contra o que restara da base de uma colina e ele ficou sem opções.
— Posso te levar até a Loren! – Ele gritou, fechando os olhos quando minha espada desceu em sua direção. Parei, a milímetros do rosto dele e o encarei. Lúcifer abriu os olhos devagar e expirou levemente, aliviado por sua cabeça continuar sobre seu pescoço. – Eu pedi que alguns dos meus ficassem de olho nela quando trouxemos o Jonah para cá. Eles a estão mantendo em um lugar seguro de Veneza e eu posso leva-lo até ela. Posso entrega-la a você, Azrael. Viva. – Ele completou esperançoso.
Ergui novamente minha espada, apertando-a contra seu pescoço.
— Você está mentindo.
— Não, eu juro! – Lúcifer praticamente implorou. – Ela está segura. Eu planejava usá-la caso o Jonah não obedecesse...
Meus músculos se retesaram ao ouvir aquela explicação e Lúcifer pressentiu que estava muito próximo de perder a cabeça.
— Você ainda pode salvá-la. – Ele continuou, mudando sua abordagem. – Deve haver alguma coisa nas Escrituras, algo que eu tenha deixado passar quando estudei as tábulas da Arca Negra, deve haver uma maneira de parar o Apocalipse e, se você tiver a Loren, não terá perdido tudo, Azrael. Vocês ainda podem ficar juntos.
— Se ela realmente está viva, eu posso acha-la sem você. – repliquei recusando-me a me render àquela proposta. Lúcifer sempre fazia isso, sempre me comprava oferecendo-me as coisas com as quais eu mais sonhava para, então, me trair novamente e roubar tudo de mim. Eu não me deixaria enganar novamente. Apesar de doloroso, tinha quase certeza de que, a essa altura, Loren já estava morta. Eu não tinha mais nada.
Lúcifer ergueu sua mão direita, lentamente, e apertou a lâmina de minha espada até que um talho tivesse se aberto na palma de sua mão e, então, ele a voltou para cima e murmurou algumas palavras curtas, naquele idioma estranho que ele parecia ter aprendido ao estudar as tábulas da Arca Negra. Me preparei para acabar com ele, antes que ele tivesse a chance de me atacar com alguma de suas magias, mas então uma névoa esverdeada e espessa se desprendeu de sua mão e, em meio a ela, pude ver a imagem de Loren, sentada em algum lugar abandonado, abraçando os próprios joelhos, enquanto alguns demônios montavam guarda. Franzi a testa. Era como se eu a estivesse vendo através de um monitor com uma qualidade de imagem muito ruim.
— O que...
— Você não vai encontra-la sem mim. – Ele garantiu. – Só eu sei onde ela está e você levaria uma eternidade para vasculhar a cidade inteira a procura dela. Quando conseguisse acha-la, Azrael, ela já seria apenas mais um dentre os milhares de corpos que Morte está deixando para trás.
Eu cerrei os dentes.
— Cada segundo que você perde me confrontando é um segundo a menos para ela. – Ele indicou a imagem borrada de Loren que víamos através da névoa. – O relógio não vai parar, Azrael. Você a quer viva ou não?
Fiquei em dúvida e me odiei por isso. Aquele poderia ser apenas mais um dos truques de Lúcifer, mas também poderia ser a minha única oportunidade de salvar a vida de Loren. Eu já havia perdido Jonah e milhares dos meus irmãos e, agora, sem O Altíssimo, o Apocalipse continuava se alastrando e roubando vidas por onde passava.
Se houvesse uma chance – ao menos uma chance— de impedir que tudo ruísse e de salvá-la, eu não poderia desperdiçar. Ainda que isso significasse jogar conforme as regras de Lúcifer novamente.
— Se isso for mais um dos seus truques – avisei –, eu não vou hesitar nem por um segundo antes de acabar com você.
Lúcifer olhou para a espada ainda em chamas em minha mão e para meus olhos ardentes e assentiu.
— Você tem a minha palavra.
— Sua palavra não vale nada para mim, Lúcifer. Agora, me leve até a Loren.
Lúcifer respirou fundo e, mais uma vez, me surpreendi ao vê-lo fazer suas mágicas e conjurar um portal bem no meio do Éden. Pensar que ele poderia ter conjurado algo assim para nos trazer até aqui, em vez de nos fazer atravessar todos os Sete Céus, confrontando vários anjos desavisados pelo caminho, fazia uma nova onde de fúria percorrer o meu corpo.
— O poder da Árvore da Vida me impedia de criá-los aqui no Paraíso. – Ele se explicou, notando minha raiva crescente. – Era preciso destruí-la para que meus dons pudessem ser usados.
Ignorei sua explicação e me concentrei no portal a nossa frente. A energia ali era forte e Lúcifer indicou aquela passagem com a cabeça, como que pedindo para que eu o seguisse até lá, mas antes que ele pudesse sequer colocar um pé para dentro do portal, segurei-o pela armadura e praticamente o arrastei até onde o corpo de Jonah estava. Eu não iria abandoná-lo ali. Eu devia ao menos isso à Loren já que não havia sido capaz de protegê-lo.
Aproximei-me dele, permitindo-me apenas um segundo de tristeza por sua perda e, então, o retirei do chão e o coloquei nos braços de Lúcifer, deixando claro que não permitiria qualquer desrespeito da parte dele. Ele suspirou um pouco, visivelmente incomodado por ter de ser ele a carregar o corpo de Jonah e, sinceramente, aquilo também me incomodava, pois a última criatura que eu queria que o tocasse era Lúcifer, mas eu precisava das minhas duas mãos livres para poder lidar com aquele traidor caso fosse necessário.
Caminhamos em direção ao portal e hesitei por um instante antes de atravessá-lo, mas assim que o fiz o ar frio da noite soprou por meu rosto e, junto com ele, vieram os gritos de centenas de pessoas que corriam desesperadas pela rua. Veneza estava envolta em caos. Alguns prédios da cidade haviam desabado e as aguas começavam a invadir as ruas altas, deixando todos, inclusive nós, com água acima dos joelhos. As pessoas tentavam escapar da destruição da melhor maneira que podiam, pedindo ajuda aos gondoleiros, mas até eles pareciam não saber o que fazer – suas gôndolas já carregavam mais gente do que era seguro carregar.
— Por aqui. – Lúcifer apressou o passo pelas ruas estreitas da cidade e eu o segui de perto, atento a tudo que se passava ao nosso redor e preparado para reagir caso necessário.
Era estranho caminhar pelas ruas de Veneza naquelas condições. Eu sempre achara a cidade linda, principalmente à noite, quando suas luzes refletiam nas águas dos canais, mas agora parecia que caminhávamos em meio a um campo de guerra alagado.
Lúcifer me conduziu por uma viela atrás da outra, até chegarmos a um bairro industrial portuário mais afastado do centro da cidade. Havia muitos galpões abandonados ali e o lugar estava praticamente às escuras já que as luzes da maioria dos postes estavam quebradas.
Ele me indicou uma escada de metal, nos fundos do ultimo galpão e, então, olhou para a água escura do mar, logo mais a frente, que já começava a invadir parte das construções da área.
— Você foi um dos Ceifeiros que esteve no Titanic, Azrael? – Perguntou enquanto subia a escada ainda segurando o corpo magro de Jonah em seus braços.
Eu não respondi, mas me lembrava da loucura que havia presenciado no navio enquanto ele naufragava. Dava para sentir o desespero daqueles seres humanos diante da morte iminente nas águas gélidas do Atlântico Norte e, ver a bela cidade de Veneza ser engolida pelas águas daquela forma, me fazia lembrar aquele momento. Veneza estaria sob o mar em poucas horas. Eu precisava tirar Loren dali antes disso.
Acompanhei Lúcifer até o último andar do galpão e, assim que chegamos ao nosso destino, a porta do galpão se abriu e um demônio horrendo veio nos receber.
— Mate-o. – Lúcifer ordenou e eu mal tive tempo de assimilar suas palavras antes que o demônio se lançasse sobre mim para cumprir sua tarefa.
Meu corpo reagiu quase por instinto e, no instante seguinte, minha espada estava desembainhada e meus braços estavam se movimentando para interceptar o ataque. Ouvi a voz de Loren gritar o meu nome e fiz o possível para me livrar do demônio com quem lutava quando Lúcifer se desviou de nós e entrou no galpão.
Maldito! Ele sempre tinha uma carta na manga.
Com certo esforço, consegui golpear o demônio que me atacava e derrubá-lo da precária escada de aço do galpão. O corpo pesado dele rolou pelos degraus, até se assentar no chão de concreto da rua que já estava parcialmente alagada e não perdi tempo em entrar na construção, mas meu caminho foi obstruído por outros cinco demônios que se postaram entre Lúcifer e eu, como uma barreira.
— Bryan! – Loren tentou correr em minha direção, mas Lúcifer passou um braço ao redor de seus ombros e a puxou para junto de si, pressionando uma adaga contra seu pescoço.
A expressão dela estava aflita e não demorei muito para perceber que seus olhos estavam cravados no corpo de Jonah, que Lúcifer tinha largado não muito longe dali. Ela o perdera. Eu havia jurado protegê-lo e, agora, ele estava morto. Eu não tinha como descrever o sofrimento que vi refletido no rosto de Loren.
Então, quando os cinco demônios que estavam diante de mim lançaram seus ataques, eu nem precisei me esforçar muito para detê-los. Interceptei cada um de seus golpes e ataquei ambos, simultaneamente, tomado por um ódio que eu jamais havia sentido. E não era ódio de Lúcifer ou de tudo que ele havia me feito, era ódio de mim mesmo, por ser tão estúpido ao ponto de deixar que as coisas chegassem àqueles extremos, ao ponto permitir que Jonah morresse porque eu não consegui perceber que tudo aquilo era só mais um dos jogos de Lúcifer até ser tarde demais. Eu me sentia um fracasso e sentia que eu merecia morrer, não apenas por ter sido tão tolo, mas por deixar que minha tolice abrisse tais feridas em Loren.
Senti o sangue negro dos demônios espirrar em meu rosto a cada golpe com que eu os acertava e quando o corpo do último deles tombou aos meus pés, meus olhos se voltaram para Lúcifer. Era a nossa hora.
Suas asas negras se abriram no momento em que brandi minha espada em sua direção e ele saiu voando pelo teto do galpão, levando Loren consigo. Abri minhas asas também e parti atrás dele, perseguindo-o através do céu negro de Veneza.
— Essa é uma guerra perdida, Azrael! – Ele parou a alguns metros de distância, com o corpo de Loren ainda junto ao seu e a adaga ainda pressionada no pescoço dela. – Você não pode vencer. Acabou! Você não vê?
Meus olhos focalizaram o rosto de Loren e a expressão decidida que havia nele. Os olhos dela praticamente atiravam fogo e seus punhos estavam cerrados ao lado de seu corpo, duros como rochas.
— Mate esse desgraçado. – Ela disse mesmo com a adaga de Lúcifer apertada contra sua pele, praticamente arrancando-lhe sangue.
Eu a compreendi.
Loren não tinha mais medo. Ela havia perdido tudo que mais amava. Sua mãe, sua avó, seus amigos, Jonah e até mesmo o mundo que ela conhecia estava ruindo diante de seus olhos. Não havia nada mais para ela e, ainda que por um milagre ela sobrevivesse a tudo aquilo, não haveria por onde recomeçar. Era o fim.
Assenti, permitindo-me esse ultimo ato de redenção. Todos nós morreríamos agora que o poder do Altíssimo havia se perdido, então, depois de ter cometido tantos erros, eu sacrificaria a minha existência de bom grado se isso significasse acabar com a existência de Lúcifer.
— Não se aproxime ou eu corto a garganta dela. – Ele me advertiu.
Loren sequer piscou. Sua cabeça se moveu apenas o suficiente para que eu soubesse que ela queria que eu desse um fim àquilo e não a deixei esperando. Sussurrei um último “eu te amo” para ela e vi seus lábios tremerem um pouco antes dela sussurrar o mesmo para mim, com as lágrimas já transbordando de seus olhos.
A primeira vez que a vi foi poucos minutos antes do tempo de vida dela se extinguir. Talvez nós estivéssemos fadados a terminar da mesma forma que começamos.
Talvez aquele fosse o nosso destino desde o início.
Apertei um pouco mais a espada em minhas mãos e avancei contra Lúcifer. Ao contrário do que havia prometido, ele não cortou a garganta de Loren, simplesmente a soltou e deixou que seu corpo despencasse pela escuridão, vencendo toda a distância desde onde planávamos até o chão parcialmente alagado lá embaixo.
Eu tive que reprimir à minha vontade de voar atrás dela, lembrando a mim mesmo que aquilo era o que ela havia decidido e que minha tarefa, dessa vez, não era tentar salvá-la. Minha tarefa era apenas acabar com a existência de Lúcifer de uma vez por todas.
Apressei-me até ele e o som de nossas espadas se chocando retumbou pelos céus como um trovão, espalhando um clarão sobre a cidade de Veneza.
— Sempre tão tolo, Azrael! – Lúcifer rugiu para mim enquanto nos enfrentávamos, mas não retruquei.
Minha alma havia se perdido em algum lugar nas ruas escuras daquela cidade, onde o corpo de Loren, agora, devia repousar junto ao de Jonah e, muito em breve, eu esperava poder me unir a eles e a todos os meus irmãos que haviam perecido nessa guerra, mas antes eu tinha uma promessa a cumprir.
Provavelmente, a única que eu seria capaz de cumprir.
Ataquei Lúcifer com tudo que eu tinha, sentindo o calor das chamas que cobriam minha espada passarem por meu rosto todas as vezes que eu o atacava. Notei que, por causa do ferimento em seu ombro, sua guarda ficava aberta toda vez que ele me atacava pelo flanco direito e, após alguns golpes, usei aquilo em meu favor. Defendi-me de seu ataque e, rapidamente, desviei-me um pouco para a esquerda, avançando para cima dele no mesmo instante em que ele avançou para cima de mim e cravando minha espada em seu peito.
Ele sorriu para mim por um milésimo de segundo, mas logo sua expressão tingiu-se de pavor e Lúcifer desviou os olhos levemente para baixo, notando a espada cravada em seu coração.
— Acabou, Lúcifer. Você perdeu. – Eu disse, puxando minha espada de seu corpo e me jogando um pouco para trás para me afastar dele.
A boca de Lúcifer se abriu, mas eu não soube dizer quais palavras ele queria pronunciar, pois seu corpo começou a queimar a partir do ferimento que eu havia causado em seu peito e não demorou muito para que ele se desvanecesse por completo e suas cinzas fossem sopradas pelo vento frio da noite.
Observei enquanto os últimos requícios da existência de Lúcifer desapareciam na escuridão do céu e não pude acreditar que realmente havia acabado.
Lúcifer finalmente estava morto.
Uma dor lancinante atingiu a lateral de meu peito e levei minhas mãos até a origem daquilo, surpreendendo-me ao encontrar uma das adagas de Lúcifer cravada ali, bem fundo em minha carne.
Meu corpo vacilou e minhas asas perderam um pouco da força, fazendo-me despencar alguns metros antes de me estabilizar. Eu podia sentir a lâmina da adaga pressionando um recanto profundo no meu corpo e soube, no mesmo instante, que aquele era o fim. Não havia como me recuperar daquele ferimento.
Olhei para a cidade de Veneza abaixo de mim e tentei absorver tudo que eu podia dela. Já não havia mais tantas luzes para enfeitá-la e as águas escuras do mar haviam tomado conta da maior parte das ruas, mas de onde eu estava, ali no alto, os gritos das pessoas que lutavam desesperadas para se salvarem da morte, não me alcançavam. Só havia a paz. O barulho suave das ondas do mar, o silvo baixo do vento, o ribombar de um ou outro trovão que ecoava mais adiante...
Depois de tudo que eu havia feito e de todos os erros que havia cometido, percebei que aquele não era um jeito ruim de morrer.
Deixei meus olhos se fecharem e parei de lutar contra o cansaço que me atingia. Meu corpo já não aguentava mais e a dor aguda na lateral de meu peito havia se tornado pouco mais que um latejar.
Pude sentir o vento passando pelo meu corpo enquanto eu despencava das alturas e, simplesmente, me deixei cair. Eu não tinha mais forças.
O impacto violento que eu esperava sofrer ao me chocar contra o chão de concreto não veio e demorei alguns segundos para entender que alguém havia me amparado durante a queda e me colocado deitado no chão em segurança.
— Bryan, por favor, abra os olhos. – Uma voz conhecida me chamou e eu me esforcei para atender ao seu pedido, mas minhas pálpebras não me obedeciam.
— Ele está ferido? – Dessa vez foi a voz de Loren que se pronunciou e aquilo me tomou com tal assalto que me forcei a abrir os olhos pelo menos um pouco, mas eles logo voltaram a se fechar. – Você precisa me ouvir, está bem? Precisa voltar para mim, Bryan.
Mãos frias e pequenas seguraram meu rosto, acariciando meus cabelos e outro par de mãos pareceu avaliar o ferimento em minhas costelas, o que fez uma nova onda de dor se espalhar por ali.
— Lúcifer deve tê-lo ferido durante a batalha. – Aquela voz pertencia a Jeremyah? Tentei virar o rosto em sua direção, tentando ouvir melhor, mas não obtive sucesso. – É uma arma negra. A ferida está se espalhando, deve estar consumindo-o de dentro para fora. Se não conseguirmos para-la, ele não vai resistir.
— Você sabe como curar isso? – Novamente a voz de Loren.
Houve silêncio.
A dor lancinante voltou a assolar meu corpo e deixei um gemido sôfrego escapar por meus lábios.
— Jeremyah, ele não tem muito tempo! – Aquela, decididamente, era a primeira voz que eu havia escutado ali e ela, decididamente, pertencia a Lorelei. Eles estavam todos ali? Estavam todos vivos ou era eu quem estava morto? Será que aquilo era morrer?
— Eu não sei como ajudar. Nunca tinha visto armas como essas. Não sei como impedir que isso se alastre.
— Deve haver um jeito! – As mãos frias e pequenas voltaram a acariciar meu rosto de maneira nervosa. – Não posso deixá-lo morrer! Bryan, abra os olhos. Eu estou aqui. – Senti lábios gelados se juntarem aos meus por um instante e, logo em seguida, se encostarem a minha orelha. – Você não pode me deixar agora. Precisa lutar, precisa sobreviver. Precisa voltar para mim. – A voz doce de Loren sussurrou. – Abra os olhos.
Reunindo toda a força que me restava, fiz como ela pediu e abri meus olhos. No início sua imagem estava embaçada, mas foi tomando forma após alguns segundos e pude ver seu rosto bem próximo ao meu.
— Loren? – Balbuciei, sem forças.
Ela sorriu. Logo atrás dela estavam Lorelei e Jeremyah e eu não podia acreditar no que estava vendo. Eles estavam mesmo ali, meus irmãos e a garota que eu amava, todos vivos e bem. Estendi a mão e toquei os cabelos castanhos e molhados de Loren.
— Estou aqui. – Ela disse depositando outro beijo em meus lábios. – Estou aqui, Bryan.
Meus olhos se fecharam novamente quando outra onda de dor me atingiu e senti os braços de Loren me apertarem enquanto ela falava comigo, mas eu não conseguia entender o que ela dizia. A dor era demais.
Um tremor sacudiu o chão onde eu estava deitado e ouvi os ofegos de todos ali quando algo desabou com um estrondo em algum lugar próximo. Supus que fosse mais um dos prédios de Veneza sucumbindo a força do mar. O Apocalipse não tinha chegado ao fim e a cidade ainda estava sofrendo com a ação das águas.
Abri os olhos, mas não importava o quanto eu lutasse para mantê-los assim, eu simplesmente não conseguia. Também não conseguia evitar os gritos de dor que escapavam de meus lábios vez ou outra.
— Ele está morrendo! – Loren disse desesperada. – Vocês precisam fazer alguma coisa!
Outro estrondo abalou o chão sob nossos corpos e dessa vez senti a poeira pesada passar por nós como um furacão. Aquele havia sido perto.
— Tirem-na daqui. – Pedi abrindo os olhos com grande dificuldade e concentrando-me em Jeremyah e Lorelei. Eles provavelmente a haviam salvado da queda mortal que ela havia sofrido, mas ela não sobreviveria por muito tempo se continuasse ali. Veneza estaria em ruínas muito em breve e eles precisavam levá-la para um lugar seguro antes disso. – Vocês precisam encontrar uma maneira de impedir que o Apocalipse continue e precisam mantê-la segura até lá. – Eu implorei. – Por favor, mantenham-na segura.
A mão de Loren apertou a minha com força.
— Não vou a lugar algum sem você.
Outra onda de dor fluiu por meu corpo e apertei os lábios para conter o grito que ameaçou escapar por minha boca. Eu estava acabado. Podia sentir o poder da adaga negra de Lúcifer se espalhando sob a minha pele e infectando tudo dentro de mim. Eu já estava morto. A confirmação disso era apenas uma questão de tempo, mas Loren ainda tinha uma chance.
— Você precisa ir.
— Eu não vou deixar você!
Abri minha boca para retrucar, mas a grande construção que despencava em nossa direção chamou minha atenção. Jeremyah também a percebeu e, como o bom amigo que era, ele atendeu ao meu pedido e agarrou Loren pela cintura, afastando-a de mim e levando-a para longe da zona de impacto.
Preparei-me para o choque que viria a seguir, quando o prédio me atingisse e esmagasse meu corpo contra o chão, mas, de repente, tudo começou a se mover em câmera lenta e uma luz intensa surgiu próxima a mim, me forçando a fechar os olhos com força para não me cegar.
Uma energia maciça fluiu juntamente com a luz e, logo, senti um toque quente em meu ombro que afastou um pouco da dor que eu sentia. Tentei abrir os olhos, mas precisei mantê-los um pouco cerrados por causa da intensidade sobrenatural da luz. Quando finalmente me acostumei àquilo, meu coração quase saltou de meu peito quando meus olhos se depararam com outro par de olhos azuis, encarando-me.
— Jonah? – Consegui balbuciar e um sorriso suave se apossou de seu rosto, quando ele se inclinou para mais perto de mim.
— A Aurora dos Tempos está próxima, Azrael. – A boca de Jonah se moveu, mas a voz que saiu dela nada tinha a ver com a voz a qual eu estava acostumado. Aquela voz não pertencia ao meu filho. Aquela voz pertencia a alguém cuja voz eu não ouvia desde os tempos antigos.
— Pai?
— Meu amado filho – Jonah tocou meu rosto e o mesmo calor que eu sentia em meu ombro se espalhou por ali trazendo-me um pouco mais de alívio –, o sétimo dia terminou e um novo tempo está à espera. Você lutou bravamente, Azrael, mas é hora de descansar agora.
Lágrimas brotaram em meus olhos. Eu não sabia dizer se eram lágrimas de felicidade, por saber que O Altíssimo estava de volta e que toda a dor e sofrimento que assolavam a Terra, naquele momento, em breve teriam fim, ou se eram lágrimas de tristeza por saber que o Jonah que eu conheci já não existia mais. Sua união com a Trindade Santa havia sido bem sucedida no fim das contas e, agora, eu já não tinha um filho. O universo, no entanto, havia recuperado o Seu Criador.
Ergui a mão e me permiti tocar seu rosto uma última vez, sentir sob os meus dedos a textura de sua pele, o calor que emanava dela e apenas vê-lo como o garoto que ele costumava ser. Como o filho que eu havia perdido.
— Você pode ter isto de volta, se assim desejar. – Disse O Altíssimo. – Consigo ler todos os desejos em seu coração, Azrael. Você tem um lugar junto a mim no Paraíso, mas se o se udesejo for permanecer entre os humanos, posso atendê-lo.
— O Senhor me deixaria viver aqui? – Olhei ao redor, para cidade parcialmente destruída de Veneza, onde Loren, Jeremyah e Lorelei permaneciam congelados no espaço tempo devido ao poder que o Altíssimo espalhara por ali.
— Como um deles. – Ele assentiu – Se você assim o quiser.
E eu queria. Ah, como queria!
Durante os meses que passei com Loren e Jonah naquela cidade, o meu único desejo havia sido colocar um fim àquela guerra e às ameaças de Miguel para que pudéssemos viver em algum lugar pacato como uma verdadeira família. Eu sonhara com isso, sonhara com o dia em que isso seria possível e, embora eu soubesse que Jonah já não seria mais uma parte daquela fantasia, se havia apenas uma chance de eu permanecer aqui com Loren, de poder dar a ela um lar cheio de amor e uma nova família, eu a agarraria com unhas e dentes. Pensar em deixá-la de novo era como assistir à minha alma se rasgar em milhões de pedaços. Não havia outro lugar onde eu gostaria de estar que não fosse ao lado dela.
O sorriso do Altíssimo se tornou ainda mais suave. Ele não precisava de palavras para entender o meu desejo, ele conhecia o meu coração.
— Que assim seja. – Disse ele e, então, sua energia se espalhou por todos os cantos, banhando cada parte daquela Terra com sua luz sagrada.
Senti meu corpo amolecer e meus olhos se fecharem e entendi que aquele era o início de um novo tempo. Um tempo em que eu não seria um Ceifeiro ou mesmo um Capitão da Armada Celestial. Um tempo em que eu sequer seria um anjo. O Altíssimo estava nos presenteando com um novo mundo, um novo conjunto de páginas em branco para que a humanidade reescrevesse sua história. Uma história da qual eu participaria de um lado diferente agora.
Sim, eu sentiria falta de meus irmãos, sentiria falta de meu lar e de tudo que ser um anjo representava e eu não sabia o que esperar dos meus dias como mortal, não sabia o que o futuro me reservaria, mas eu sabia que se eu tivesse Loren ao meu lado, se eu pudesse ser parte de sua vida, então, eu teria tudo de que precisava.
Teria tudo com o quê sempre havia sonhado.
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