Killer
44 Traição
Notas iniciais
[Bryan P.O.V.]
A sala de Miguel estava silenciosa e calma, em um contraste interessante com o resto do Reino Celeste, onde o caos havia se instalado e a guerra perdurava. As janelas de vidro, que nos separavam das águas escuras do oceano do Sexto Céu, estavam límpidas e intactas, bem diferentes de como estavam da última vez em que as vi, quando precisei quebrá-las para resgatar Gabriel dali.
Dentro daquela sala era quase possível esquecer que havia anjos e demônios travando batalhas violentas à nossa volta, mas a presença constante de Lúcifer sempre me fazia lembrar do porquê estávamos ali e do que precisávamos fazer.
— Tem certeza de que consegue nos levar ao Éden? – Perguntei tocando as janelas no fim da sala e sentindo a frieza do vidro na ponta de meus dedos, que era, exatamente, como eu me sentia naquele momento: frio, vazio de tudo e de qualquer coisa.
— Posso neutralizar o poder do oceano por tempo bastante para atravessarmos. – Lúcifer respondeu e eu lhe lancei um olhar de desconfiança que ele ignorou. – Minha primeira Revolta foi tola, Azrael. Cometi erros que não estou disposto a repetir agora. Posso nos levar ao Éden. Confie em mim. Sei o que estou fazendo dessa vez.
Eu esperava que ele estivesse certo, mas, mesmo sem ter certeza de que ele era capaz de tal feito, não havia nada mais que eu pudesse fazer naquele momento, além de deixá-lo tentar. Todo o nosso plano dependia de Lúcifer conseguir neutralizar o poder daquele oceano e, se ele não conseguisse, toda aquela guerra teria sido em vão. Miguel continuaria de posse da Árvore da Vida e nós perderíamos.
— Faça o que tem de fazer. – Disse, afastando-me das janelas quando Andras e Lilith, finalmente, se juntaram a nós. Eu odiava ambos tanto quanto odiava qualquer outro demônio aliado à Lúcifer, mas, estranhamente, me sentia menos ameaçado perto deles, bem diferente do que acontecia com Mammon e Belfegor.
Dando continuidade ao nosso plano, Lúcifer se afastou de Leviatã e se aproximou das janelas. Fechou os olhos e ergueu as palmas das mãos, pronunciando uma série de palavras desconhecidas. Os vidros tremeram e, todos nós nos sobressaltamos e tivemos que proteger nossos olhos, quando as janelas, simplesmente, se estilhaçaram e cobriram todo o chão da sala com cacos brilhantes e afiados.
Andras e Leviatã se entreolharam e Lilith pareceu impressionada, mas Lúcifer prosseguiu com seu ritual, retirando uma adaga de sua armadura e cortando a palma da mão esquerda, antes de se inclinar para fora da janela e deixar que as gotas de seu sangue se misturassem às águas escuras do oceano lá embaixo.
Ele recitou mais algumas palavras, com fervor e, quando terminou, o oceano abaixo de nós se agitou, como se tivesse sido atingido por uma tempestade tropical e um grande redemoinho surgiu em seu centro, se elevando até sumir de vista. Lúcifer seguiu seu curso, movimentando as mãos como se o controlasse e todos nós nos preparamos para sermos atingidos pela enorme onda que se formou quando as águas do redomoinho despencaram, com força, de volta para a superfície agitada do oceano, mas, em vez de sermos engolidos pela água e sermos arrastados para longe dali, vimos a onda se desfazer, milésimos de segundos antes de atingir a sala de Miguel, transformando-se apenas em uma brisa úmida que fez Lilith respirar, aliviada, ao meu lado.
— Está feito. – Lúcifer comunicou, guardando sua adaga de volta em sua armadura e abrindo suas asas puídas. – Precisamos nos apressar. Se não alcançarmos o Éden antes de o encantamento ser removido, as águas retornarão e seremos tragados por elas.
Sem perder tempo, abri minhas próprias asas e observei, estupefato, enquanto Andras e Leviatã faziam brotar, em suas próprias costas, asas que eu não imaginei que eles pudessem ter já que não eram anjos caídos. As asas de Leviatã, assim como o restante de seu corpo, eram cobertas por escamas negras, enquanto as asas de Andras eram incorpóreas, como se fossem feitas de luz negra que se desvanecia em um tom azulados nas pontas.
Fiquei a espera de que Lilith também me surpreendesse, mostrando-me um par de asas cor de fogo, assim como seus cabelos ou tão douradas quanto os seus olhos, mas, em vez disso, ela simplesmente deu de ombros e se jogou em meus braços, enlaçando as pernas ao redor de minha cintura.
— Não tenho o dom da transmutação. – Avisou. – Me contento em pegar uma carona.
Lúcifer abriu um sorrisinho ante sua atitude e Andras e Leviatã se entreolharam, mas ninguém se pronunciou a respeito. Lilith, por sua vez, parecia bem à vontade agarrada a mim daquele jeito e, embora voar para o Éden com uma súcubo como bagagem, não fosse exatamente a coisa que eu mais queria fazer, simplesmente revirei os olhos e me dirigi à janela, porque não tínhamos tempo para pensar em nada melhor naquelas circunstâncias.
Fazia tanto tempo desde a última vez em que eu estivera no Sétimo Céu, que eu havia me esquecido de como aquele lugar era magnífico. Toda aquela imensidão de relva verde, rios de águas cristalinas, flores das mais diversas formas e cores e, claro, a Árvore da Vida, sublime e imponente, no centro do Jardim, sendo banhada pela luz dourada do sol, que fazia toda a sua superfície reluzir como se ela estivesse salpicada de ouro.
O Éden era, sem dúvida, a mais bela das criações do Altíssimo. Fértil e pacífico, não era de se estranhar que o Senhor o tivesse escolhido como seu local de descanso e que o tivesse guardado atrás de tamanha proteção. Até mesmo os demônios à minha volta, a quem a violência e a obscuridade tanto agradavam, suspiraram maravilhados com seu esplendor e a expressão nostálgica no rosto de Lúcifer não deixou dúvidas de sua saudade dos tempos de glória, um tempo em que todas as nossas almas pulsavam como uma só e nós podíamos desfrutar daquela maravilha sem precisar nos preocupar com as fronteiras entre os Céus.
Tudo parecia perfeito ali, vívido porém sereno, dotado de uma beleza arrebatadora e inestimável que só era perturbada pela presença de Miguel, sentado no Trono de Deus, rodeado por seus três Capitães e por dois Ceifeiros, como os reis humanos que, na Terra, eram rodeados por seus servos.
— Lúcifer e seus lacaios. – Ele se pronunciou com visível desprezo, sem se preocupar em demonstrar mais que um remoto interesse pela nossa presença ali. – Não me surpreende que Sarakiel e Raziel tenham sido incompetentes demais para detê-los na Armada, mas realmente me entristece saber que terei de manchar a venustidade desse local sagrado com o seu sangue imundo.
— Miguel, meu querido irmãozinho. – Lúcifer se adiantou e fez uma reverência jocosa para ele, enquanto Leviatã cuspiu no chão, demonstrando todo o seu desapreço.– Realmente imaginei que o encontraria sentado no Trono de Nosso Pai, mas, após tanto tempo afastados, imaginei que a sua recepção para comigo seria melhor.
— Esta recepção é bem mais do que você merece por sujar a casa de Nosso Pai com a presença dessas criaturas vis. – Ele lançou um olhar enojado para Lilith, Andras e Leviatã e recebeu em troca alguns rosnados irritados, para os quais não deu a mínima. – Pelo menos terei a felicidade de encerrar a pobre existência deles com minhas próprias mãos.
— A única existência que será findada hoje será a sua própria, Príncipe dos Anjos. – Leviatã se lançou sobre ele, irritado com suas palavras e os três Capitães de Miguel se apressaram em interceptá-lo, dando origem a mais uma batalha.
Em um piscar de olhos, Lilith e Andras nos deixaram para se unirem a ele na luta e Lúcifer me lançou um olhar significativo, indicando que era hora de colocarmos todo o nosso treinamento em prática. Ele desembainhou sua espada negra e partiu para cima de um dos Ceifeiros e, o outro, ao me ver sozinho, se lançou contra mim, forçando-me a sacar uma de minhas espadas, rapidamente.
— Você é a escória dos anjos, Azrael! – Elyon gritou para mim, enquanto tentava me atacar. – Não é nada além de um maldito traidor. Merece apodrecer no Inferno junto com Lúcifer e seus demônios.
Usei a lâmina negra de minha espada para refrear seu golpe e ele recuou um passo, preparando-se para uma nova investida.
— Acha mesmo que pode falar sobre traição enquanto ajuda Miguel a usurpar o Trono de Deus? – Questionei. – Não pense que você é assim tão diferente de mim, Elyon. Todos nós merecemos um lugar reservado no Inferno por um motivo ou outro e os seus pecados são tão condenáveis quanto os meus.
Os olhos de Elyon se estreitaram e uma expressão de fúria distorceu o seu rosto, mas eu não preocupei. Eu me lembrava, perfeitamente, da imagem dele no Saint Auguste, enquanto ele mantinha Loren sob vigilância ao mesmo tempo em que Miguel me torturava e, diferente de todas as mortes que eu havia causado até chegar ali, nenhuma das vidas que seriam perdidas no Éden me afligiriam.
Preparei-me para a nova investida de Elyon e deixei que ele viesse. Nossas espadas se chocaram quando ele atacou, fazendo algumas faíscas saltarem para longe por causa do choque entre nossas lâminas e, quando ele recuou, buscando impulso para um novo ataque, girei sob um dos calcanhares e o acertei nas costelas, trespassando a lâmina de minha espada por seu corpo, até enterrá-la quase completamente em seu interior.
O olhar chocado no rosto de Elyon, não durou mais que alguns milésimos de segundos, mas foi o bastante para que eu pudesse me deleitar com sua derrota. Logo em seguida, vi seu corpo se desvanecer, como um punhado de areia ao vento e se transformar em energia pura, retornando ao que éramos antes de nossa Criação e encerrando, de vez, sua existência nesse mundo.
As batalhas à minha volta tiveram um instante de pausa, enquanto os outros anjos pareciam absorver o fato de que Elyon havia acabado de ser morto, mas, rapidamente, recomeçaram ainda mais fervorosas, agora que nossos combatentes tinham percebido o quão mortais eram nossas armas.
Lilith, Andras e Leviatã estavam bastante ocupados com Uriel, Cassiel e Laoth, enquanto Lúcifer e Jahoel permaneciam em sua batalha ferrenha, então, me voltei para Miguel, que ainda estava sentado em seu trono, observando as batalhas ao nosso redor, como se estivesse em uma arena de gladiadores.
Apesar de aqueles anjos lhe terem sido leais durante toda a sua existência e estarem dispostos a sacrificar suas próprias vidas para protegê-lo, Miguel parecia se importar tanto com eles quanto se importava com os demônios que Lúcifer tinha se atrevido a trazer para seu santuário.
Durante muitas eras eu havia seguido seus comandos e sido leal a ele, também disposto a me sacrificar por sua segurança, mas, agora, enquanto o encarava, percebia o quanto todos nós havíamos sido tolos. Miguel nunca tinha sido um líder para nós, nunca tinha nos visto como soldados. Para ele, nós éramos seus vassalos e, ele, era o grande rei, o soberano. Aquele que, assim como Lúcifer, sentia-se a mais primordial das criaturas, superior até ao próprio Deus.
— Não deveria ter vindo aqui hoje, Azrael. – Ele finalmente se levantou de seu trono e a opulência de sua armadura dourada o fez parecer ainda maior. – Selou seu destino quando atravessou aqueles portões. Agora, a morte é tudo o que o espera e eu farei com que você deseje nunca ter saído do inferno.
— O meu destino não pertence a você, Miguel. – Levei uma mão às costas de minha armadura e retirei, de lá, minha segunda espada. – Pode ter usurpado o Trono do Criador, mas você não é Deus e, hoje, eu lhe mostrarei o verdadeiro significado de Inferno.
— Se recuar agora e me jurar lealdade, eu o deixarei viver. – Ele me alertou.
Preparei-me para a batalha, pois eu sabia que Miguel não era um oponente fraco e inexperiente como Elyon e sustentei seu olhar, decidido.
— Eu jamais serei leal a você.
Aconteceu tão rápido que eu quase não consegui reconhecer a presença silenciosa de Miguel em minha mente, antes de sentir os meus músculos começarem a queimar. Por um instante, meu corpo quase cedeu à dor aguda que ele tentava me infligir, mas graças a todo o treinamento que tive com Lilith nas últimas semanas, consegui interceptá-lo antes que a dor me consumisse por inteiro e eu desabasse no chão.
Para ser bem sincero, eu não acreditei quando Lúcifer me disse que eu seria capaz de lutar com Miguel, de igual para igual, agora que minha conexão com o Reino Celeste havia sido quebrada e que nossa hierarquia já não me afetava mais. Imaginei que tudo isso não passasse de uma superstição tola dele, algo que eu descobriria ser inviável quando chegasse aqui, mas saber que ele estava certo e que o treinamento com Lilith realmente tinha valido de alguma coisa me deixou muito mais confiante.
Miguel, por sua vez, parecia perplexo. Imagino que ele não fazia a mínima ideia de que alguém pudesse ser imune aos seus dons e que me ver de pé, após ele tentar me infligir uma dor excruciante, que já havia me desarmado antes, deve ter lhe causado um pequeno choque, mas a expressão de surpresa em seu rosto se foi tão rápido quanto havia surgido, sendo substituída por uma determinação assassina.
Rapidamente, ele surgiu ao meu lado, com sua espada flamejante descendo sobre minha cabeça e fui forçado a erguer minhas duas espadas negras para refrear seu golpe mortal. Ele recuou, por uma fração de segundo e, logo, voltou a atacar, desferindo-me diversos golpes que evitei como pude, antes de conseguir uma brecha em sua defesa e poder contra-atacar. Miguel bloqueou a maior parte de meus ataques utilizando seu escudo, mas em um momento de descuido por parte dele, consegui atingir seu rosto com uma de minhas espadas e ele parou, surpreso e indignado, ao levar uma das mãos ao rosto e constatar que havia um pequeno corte ali.
— Cometeu um erro terrível, Azrael. – O dourado em seus olhos se tornou mais intenso e ele retirou seu elmo e o jogou de lado, parecendo ainda mais determinado a me destruir, agora que eu havia ferido seu rosto.
Em alguns aspectos, Miguel era exatamente como Lúcifer: maníaco por controle e um grande narcisista, além de ser um péssimo perdedor. Para ele, o fato de eu tê-lo ferido antes que ele conseguisse me ferir era como uma afronta e, como eu já sabia, todas as afrontas feitas a Miguel, ele tomava como um desafio que só terminava quando ele saísse vitorioso.
Em uma fração de segundo, ele voou para cima de mim, atingindo-me, várias vezes, com seu escudo e sua espada e eu fiz o possível para me defender de seus golpes e contra-atacar. Em nossa batalha, nós nos afastamos das lutas que ocorriam ao nosso redor, atacando um ao outro com armas e punhos, até que, por fim, Miguel conseguiu imobilizar o meu braço direito e se preparou para me desferir um ataque mortal, aproveitando-se de um pequeno descuido meu.
Por um instante, cheguei a pensar que tudo estava perdido. Eu havia lutado ao lado de Miguel muitas vezes e sabia o quão habilidoso ele era. Qualquer deslize podia ser fatal em se tratando de Miguel e, agora, que ele havia conseguido me imobilizar daquela forma, eu não via salvação para mim.
Sem que eu percebesse, minha mente se voltou para Loren e Jonah, que esperavam por mim em Veneza e, logo, eu me dei conta de que perder para Miguel não era uma opção. Se ele me matasse, Loren e Jonah ficariam à sua mercê e eu tinha certeza de que Miguel partiria em uma cruzada atrás deles, assim que acabasse com a vida de todos os seus oponentes no Reino Celeste e isso era algo que eu não podia permitir.
Eu havia prometido a Loren que os manteria em segurança e que, assim que essa guerra terminasse, eu iria até eles e que faria de nós uma família feliz e eu não podia quebrar essa promessa. Não quando já havia quebrado tantas outras e proporcionado a Loren tanto sofrimento. Eu não podia morrer ali. Não podia permitir que Miguel vencesse.
Em uma última tentativa de escapar, soltei a espada negra que eu segurava em minha mão esquerda e me contorci sob os braços de Miguel, até alcançar a arma que Belfegor havia criado para mim. Assim que consegui pegá-la, segurei-a firmemente entre os dedos e, em um movimento rápido e preciso, consegui girar o meu corpo o suficiente para atingir o braço com o qual Miguel me imobilizava, o que não lhe causou um ferimento grave, mas que o distraiu o suficiente para fazê-lo cambalear um pouco para trás na tentativa de se livrar de meu ataque.
Sem perder tempo, afastei-me dele e rolei, rapidamente, pelo chão para recuperar minha espada e, então, investi contra ele com uma sucessão de golpes duplos, que o obrigaram a utilizar toda a sua agilidade para refreá-los.
Eu não podia mais me dar o luxo de deixar que Miguel descansasse, por um instante sequer, de meus ataques. Qualquer descuido agora seria fatal e quanto mais ocupado eu o mantivesse, maiores eram as chances de ele cometer um erro.
Enquanto batalhávamos, consegui perceber que o corte que eu havia feito em seu braço, deixava seus movimentos um pouco mais lentos sempre que ele erguia seu escudo para bloquear meus golpes e consegui encontrar, nisso, uma brecha. Ataquei-o com uma de minhas espadas e Miguel ergueu seu escudo para bloquear o ataque, deixando sua guarda baixa por um milésimo de segundo que usei para me desviar dele e atacá-lo pelo flanco direito, acertando-o no pequeno espaço em que o torso de sua armadura não o protegia.
Miguel urrou e cambaleou para trás, largando seu escudo e levando a mão ao corte que eu havia conseguido infligir na parte baixa de seu abdômen. Eu sabia que aquele corte devia arder como o inferno, pois eu havia sentido uma dor semelhante ao cortar a palama de minha mão na corrente que prendia as asas de Gabriel, então, não estranhei quando a fúria em seus olhos aumentou e, praticamente, trovejou em minha direção.
— Bastardo! – Ele exclamou, lançando-se novamente contra mim, porém, deixando para trás o escudo que compunha sua armadura.
Mal consegui acompanhá-lo quando ele abriu suas asas e, velozmente, se lançou no ar, descendo em minha direção com sua espada flamejante apontada, diretamente, para o meu peito. Só tive tempo de juntar minhas duas as espadas e bloquear seu ataque e, com o impacto causado pelo choque intenso entre nossas lâminas, a área ao nosso redor se desfazer em ruínas, estragando uma parte da magnífica obra que o Criador projetara para o Éden.
— Esse é o seu fim, Azrael! – Miguel bradou, enquanto investia novamente contra mim. – Vou matá-lo e, depois, encontrarei a sua humana tola e o seu filho mestiço e cortarei a cabeça de ambos! – Ele me observou por um instante e, ao ver a raiva refletida em meus olhos, abriu um sorriso breve. – Você achou que eu não sabia sobre eles? – Questionou. – Eu sei de tudo, Azrael. E depois que eu terminar com você aqui, irei a Veneza visitá-los.
— Não se eu acabar com você primeiro. – Concluí e abri minhas próprias asas, lançando-me no ar e obrigando Miguel a me acompanhar.
Nós levamos nossa luta até os céus, nos atacando com golpes de espadas, socos e chutes. Mal percebi quando Miguel me encurralou com uma série de golpes, mas quando sua espada flamejante trespassou minha omoplata esquerda, senti a pele de meu braço arder e tive que soltar uma de minhas espadas, apressando-me de volta ao chão.
Miguel não me deu tempo para me recuperar. Do alto, ele desceu sobre mim, mirando sua espada em minha cabeça, mas consegui me esquivar dele no último segundo e a lâmina de sua espada se cravou no chão ao meu lado.
Nem parei para pensar. Usando o braço bom que ainda me restava, me desviei dele e o acertei com um golpe certeiro, que atingiu a base de suas asas e as separou de seu corpo, fazendo-as caírem no chão, ao seu redor, como folhas secas no outono. Demorei um segundo para assimilar o fato de que eu havia acabado de cortar os três pares de asas de Miguel com minha espada, mas seu grito de dor não me deixou dúvidas.
Ele levou as mãos as costas, como se abraçasse o próprio corpo e despencou de joelhos, encarando as asas ao seu redor com grande assombro.
— Não! – Gritou em total desespero, dobrando-se sobre si mesmo por causa da dor intensa que eu lhe causara. – Não! O que você fez, Azrael?! O que você fez?!
Olhei para ele e para os pares de asas caídos ao seu redor e, apesar de aquela cena ser triste e deplorável, não consegui sentir pena. Eu sabia que, para um anjo, perder as asas era quase o mesmo que perder uma parte de sua alma e, para um anjo como Miguel, que sempre se orgulhou de sua constituição altiva, perder suas asas era quase o mesmo que perder sua vida.
— O que você fez? – Ele choramingou. – Você as destruiu, Azrael! Você as tirou de mim.
Por um instante, eu até quis dizer que sentia muito, mas quando me lembrei do que Miguel havia dito sobre Jonah e Loren, sobre encontrá-los e cortar suas cabeças, fiquei feliz pelas asas que jaziam no chão. Destruir as asas dele havia sido apenas o começo. O que eu queria, agora, era a sua cabeça.
— Você me torturou! – Eu exclamei, acertando-o com um soco que o fez tombar para o lado. – Ameaçou a Loren e o Jonah! – Chutei-o e ele envolveu seu abdômen com as mãos, tentando mascarar a dor. – Você traiu Nosso Pai, roubou Seu Trono! – Segurei pelo cabelo e o fiz erguer a cabeça para olhar para mim. – Você é pior que uma serpente Miguel, mas o seu reinado de terror terminará aqui.
Ergui minha espada e já estava pronto para lhe desferir o último golpe, quando senti a lâmina de um punhal perfurar as minhas costas e tive que soltá-lo. Miguel caiu aos meus pés, ainda choramingando por causa da dor e das asas perdidas e eu me virei, sentindo a queimação do ferimento penetrar o meu corpo e se espalhar por minha pele.
Atrás de mim, Lúcifer me encarava com seus olhos vermelhos brilhando e quando vi o punhal em suas mãos – o mesmo punhal que ele havia usado para cortar a palma de sua mão e quebrar o encantamento do oceano do Sexto Céu –, não tive dúvidas de quem havia me apunhalado pelas costas.
Mais uma vez, Lúcifer havia me traído.
Fale com o autor