Killer

45 Jogo de Poder


Notas iniciais
Olá, Faz quantas eras que não apareço por aqui?^^' Certamente muitas, né?Mas foi difícil encontrar a vontade de escrever qualquer coisa nos últimos meses. As vezes acontece... Espero que não tenham deixado de acompanhar a fanfic, haha. Mas caso estejam aí ainda, espero que gostem desse capítulo. Muitas revelações os esperam. Boa leitura!

[Bryan P.O.V.]

Não pensei duas vezes antes me lançar contra Lúcifer, disposto a arrancar seu coração com minhas próprias mãos, mas não cheguei a alcançá-lo, pois Leviatã e Andras me interceptaram antes que eu tivesse a chance. Senti suas mãos me prenderem ao chão, pousando sabiamente sobre os ferimentos que a luta com Miguel haviam me causado e não pude fazer muita coisa, além de lutar contra a dor, enquanto Andras aproveitava o momento para me desarmar.

— Traidor! – Rugi para Lúcifer, contorcendo-me contra as mãos de Leviatã para poder erguer minha cabeça e encará-lo. – Serpente maldita!

Lúcifer nem se deixou abalar por minhas acusações enquanto Andras entregava minhas armas para Lilith e, esta, por sua vez, as depositava nas mãos dele. Ele apenas me encarou de cima, como se sentisse pena de minha ignorância e, depois, se aproximou.

— Você realmente achou que seria assim tão fácil, Azrael? – Perguntou, pousando a sola de sua bota sobre o ferimento em minhas costas, pressionando-o. – Achou mesmo que eu te entregaria o Príncipe dos Anjos e, depois, todo o poder da Árvore da Vida sem reclamar? Apenas por respeito e por consideração ao que nós fomos?

— Eu nunca esperei tanto de você. – Retruquei, trincando os dentes por causa da dor que Lúcifer me causava enquanto pisoteava o ferimento em minhas costas daquele jeito. – Sempre soube que você não passava de um maldito traidor.

— Então, não há porque se surpreender agora. – Ele sorriu e retirou o pé de minhas costas, fazendo sinal para que Andras e Leviatã me colocassem de joelhos, algo que eles não conseguiram fazer sem certa resistência de minha parte. – Eu te dei a chance de se unir a mim durante a minha Primeira Revolta, Azrael. Você a descartou como se eu fosse insano.

— Você é insano.

— Não sou insano. – Ele refutou, virando-se parcialmente para olhar para mim. – Sou um visionário. Fiz aquilo que milhares de anjos queriam fazer, mas não tinham coragem. Eu dei origem a uma Revolução!

— O que você fez foi corromper a alma de milhares dos nossos irmãos e, não contente com isso, decidiu voltar para acabar com a existência daqueles que não se uniram a você em seu plano torpe. Isso não é uma Revolução, Lúcifer. É uma carnificina.

— E quantos dos nossos irmãos você próprio matou para chegar até Miguel, huh? – Ele apontou para Miguel, que ainda jazia junto as suas asas, segurando-as como se pudesse fundi-las de novo ao seu corpo e, depois, se voltou para mim. – Você acha mesmo que tem o direito de me julgar, Azrael? Depois de tudo que fez! Eu vim até aqui buscando justiça. Você me seguiu buscando nada além de vingança.

— Justiça? – Eu o encarei deixando transparecer toda a minha indignação ante seu comentário, embora eu soubesse que, de fato, eu não era menos culpado em toda aquela carnificina que ele. – Tudo o que você busca é poder.

— Oh, pelos céus, Lúcifer! Encerre logo isso! – Miguel gritou, voltando-se para nós com os olhos ardendo em fúria. – Traga o garoto, obrigue-o a fazer o que deve ser feito e, então, mate ambos! Não era para isso que você o queria?! Traga-o!

Pego de surpresa por seu ataque de fúria, retirei os meus olhos de Lúcifer e os pousei em Miguel, que abriu um sorrisinho desdenhoso para mim.

— O que foi, Azrael? – Ele largou suas asas e se colocou de pé, com certa dificuldade. – Está surpreso? Você realmente achou que eu os deixaria tramar um levante pelas minhas costas e que não faria nada a respeito? Achou mesmo que eu era assim tão tolo, tão incompetente?

Por um instante, as palavras dele ficaram soltas no ar, implorando por compreensão enquanto eu lutava para colocá-las em um contexto, mas, de repente, tudo aquilo começou a fazer sentido para mim. A fuga repentina de Lúcifer do Inferno, todo o conhecimento que ele havia adquirido desde então, o motivo pelo qual Miguel nunca havia ido atrás de Loren depois que Lúcifer a havia ressuscitado no telhado do Saint Auguste…

Até então, eu havia atribuído tudo isso a um mero acaso do destino. Lúcifer era um ser ardiloso. Desde que havia sido banido para o Inferno, havia coisas sobre ele que nós desconhecíamos. Muito se falava sobre os dons que ele adquirira ao cair, coisas que agora era capaz de fazer e eu me deixei levar pelos boatos que os anjos espalhavam movidos por seus medos, mas eu havia me enganado. Lúcifer era ardiloso, sim. Engenhoso em seus planos. Mas Miguel era competente demais para ser tão facilmente ludibriado. O Príncipe dos Anjos jamais seria enganado por tanto tempo.

— Foi você quem o libertou. – Eu encarei seus olhos dourados, sentindo a compreensão e a raiva arderem dentro de mim. – Você o retirou da prisão, não foi? Lúcifer nunca fugiu de verdade. Foi você quem o tirou de lá.

Miguel não confirmou minhas palavras, mas a expressão de vitória em seu rosto não deixou espaço para dúvidas. Eu devia ter notado que aquilo não fazia sentido. Miguel nunca deixava pontas soltas, nunca fazia um trabalho mal feito, então, como ele poderia ter falhado justamente quando selou a prisão de Lúcifer? Como ele poderia tê-lo deixado escapar tão facilmente e sem deixar rastros?

— Diga-me o porquê. – Exigi saber, pois, embora eu tivesse compreendido a situação em que nos encontrávamos, as atitudes de Miguel ainda não faziam sentido para mim. – Porque você o soltou após tanto tempo? Porque traiu Nosso Pai dessa maneira?

— Eu não o traí! – Miguel urrou para mim, parecendo indignado com minha acusação. – Eu sempre fui fiel a Ele. Eu era Seu filho mais leal. Foi Ele quem me traiu. Ele me humilhou!

— Do que você está falando? – Miguel parecia transtornado e, por um instante, temi que ao arrancar suas asas tivesse arrancado, também, uma parte de sua sanidade.

— Você não percebe? – Ele gesticulou para mim como se eu fosse o único ali que ainda não havia entendido a situação e, provavelmente, eu devia ser o único mesmo, mas eu não podia me ajudar quando tudo que saía de sua boca se pareciam com os balbucios de um lunático. – Diga a ele, Lúcifer. Diga o erro que Nosso Pai cometeu.

Sem entender nada do que se passava, desviei meus olhos de Miguel e me concentrei em Lúcifer, aguardando por sua explicação. Pela primeira vez não havia um traço de humor negro dançando por sua face e eu me preparei para ouvir a grande história de traição, protagonizada por Nosso Pai e relatada por aquele que eu considerava o pior dos traidores.

— Miguel finalmente percebeu que criar os humanos foi um erro terrível. – Lúcifer começou. – Aquelas criaturas nunca seriam a imagem e semelhança de Deus. Eles são grosseiros e fracos. Não merecem a nossa devoção.

— Esses vermes corromperam a Terra. – Miguel se posicionou, cerrando os punhos e, que Deus me perdoe, mas eu ainda achava que ele havia perdido a sanidade junto com as asas. – Destruíram grande parte da Criação, voltaram suas costas para o Nosso Pai e Ele ainda os chamava de filhos de Deus. Ainda pedia que nós intercedêssemos por eles! Como Ele pode? Como pode escolher dentre esses porcos imundos aquele que integraria a Trindade Santa quando eu estive ao seu lado desde o princípio? Quando fui leal a Ele em todos os momentos, voltando-me até mesmo contra meus irmãos em nome de Sua vontade? Como Ele pode?

Eu parei um segundo para analisar tudo que Miguel havia me dito e, finalmente, entendi o real motivo de sua indignação. Então, mesmo ciente do ardor crescente que irradiava pelo corte em minhas costas e das mãos de Leviatã e de Andras, que ainda atavam as minhas e me prendiam ajoelhado no chão, eu quase me permitir rir, pois tudo aquilo era ridículo demais para ser aceitável, mas era real. Miguel não estava em uma cruzada por poder como Lúcifer estava. Como o filho mimado e egocêntrico que sempre fora, todas as suas ações até ali estavam sendo movidas por ciúme e ressentimento, não por ganância.

— Então, é isso? – Eu sacudi levemente a cabeça, ainda com dificuldade de aceitar que toda aquela guerra tivesse se originado a partir de sentimentos tão fúteis. – Você o libertou porque estava magoado com o Altíssimo? Deixou que Lúcifer saísse de sua prisão e desse início ao Apocalipse porque Deus escolheu O Salvador para se unir a Ele quando a Aurora dos Tempos chegasse em vez de ter escolhido você? Fez tudo isso por ciúmes como uma criança tola, Miguel?

Eu senti mais do que vi quando Miguel avançou em minha direção e estapeou o meu rosto, como um pai que se recusava a ser desrespeitado por um filho.

— Eu sou o primeiro de Deus. – Ele disse, furioso. – Estive presente em todos os feitos do Altíssimo. Eu assisti à sua Criação, Azrael. Assisti à Criação de todos vocês! – Ele olhou ao redor, discursando como se houvesse mais anjos ali além de Lúcifer e eu. – Eu deveria ter sido o escolhido. Deveria ter sido a Sua única opção, mas Ele… – Miguel apontou para a Árvore da Vida, como se o Criador estivesse ali. – Ele decidiu que precisava de outro filho. Decidiu que precisava de outro primogênito e, não satisfeito em me insultar com esse desejo, decidiu que Seu filho— Miguel praticamente cuspiu a palavra – nasceria de uma mãe humana. Seria um mestiço fraco e sujo, se arrastando pelos confins da Terra, enquanto eu sempre estive aqui ao lado Dele. Como eu poderia aceitar isso, Azrael? Diga-me: como eu poderia?

Olhei para Miguel como se o estivesse vendo pela primeira vez. Aquela criatura que eu via diante de mim agora em nada se parecia com o Príncipe dos Anjos que, um dia, eu aprendi a admirar e respeitar e, essa mudança, ia além das asas perdidas, da aparência desgrenhada e da expressão de ódio que distorcia o seu rosto. Era como se Miguel tivesse se transformado em outra pessoa, uma nova versão de Lúcifer, mais amarga e desequilibrada… ou, talvez, só agora eu o estivesse enxergando como ele realmente era.

— Foi você, não foi? – Eu questionei, encarando-o para captar todas as suas reações, porque após tudo que ele havia me dito eu já não tinha mais certeza se as histórias que Miguel havia nos contado eram reais ou apenas outra parte de suas grandes mentiras. – Foi você quem tentou Judas a entregar O Salvador por trinta moedas de prata, não foi Miguel? Você o convenceu disto, não Lúcifer.

Sua expressão mordaz foi tudo que eu precisei para saber que estava certo, mas, ainda assim, ele me respondeu:

— E eu deveria ficar parado, apenas assistindo enquanto aquele mestiço imundo exibia-se por aí com seus milagres? Multiplicação de peixes, vinho transformando-se em água… O que é isso perto de tudo que já fizemos, Azrael? Todos os humanos se ajoelhando para esses pequenos milagres quando nós já operamos milagres muito maiores! O que é um mero caminhar sobre as águas quando nós podemos voar? – Miguel sustentou meu olhar, finalmente revelando aquele que eu julgava ser um de seus segredos mais sujos. – Sim, eu disse a Judas o que fazer. Eu o convenci a delatar seu mestre e observei com júbilo enquanto o dito Salvador era açoitado e pregado a uma cruz. Achei que assim provaria a todos o quão indigno ele era de ser considerado O Filho de Deus e um integrante da Santa Trindade, mas quem poderia imaginar que aquele bastardo ressuscitaria ao terceiro dia de sua morte e, então, se uniria ao Altíssimo?

— Gabriel. – Eu respondi, convicto. – Gabriel sabia. Já era predestinado que O Salvador morreria na cruz para lavar, com seu próprio sangue, os pecados da raça humana e restaurar sua aliança com o Altíssimo, mas você não tinha conhecimento disso até que aconteceu e esse foi o seu erro. Ao tramar para crucificar O Salvador, você, na verdade, só o ajudou a atingir toda a sua glória.

O maxilar de Miguel se enrijeceu e uma veia saltou em sua têmpora, evidenciando sua irritação. Eu sabia o quanto ele odiava perder, então, não estava surpreso que após ter seus planos frustrados quanto à crucificação de Cristo, ele tivesse decidido que a guerra ainda não tinha terminado.

— Foi então que você decidiu que estava na hora de libertar Lúcifer de sua prisão? – Perguntei. – Quando viu que era muito incompetente para livrar-se, sozinho, do Salvador?

— Um bom estrategista sempre sabe quando pedir reforços. – Miguel respondeu, recusando-se a aceitar que fracassara. – Percebi que livrar-me do dito Salvador não era a solução. O Altíssimo se perdeu após criar os humanos, Azrael. Seu julgamento foi obscurecido pelo amor que nutria por aquelas criaturas e Ele não sabia mais como liderar. Não sabia mais o que de fato era bom para esta Terra. Então, como poderíamos sobreviver assim? Servindo àqueles que não mereciam nossos esforços, intercedendo por vermes que, a cada milênio, se tornavam mais sórdidos e desprezíveis. – Ele cravou seus olhos dourados em mim. – Você sabe melhor que eu, Azrael, que quando um rei já não está apto a governar, ele precisa ser deposto. Essa é uma das leis humanas com as quais eu concordo e, cá entre nós, está na hora de eleger um novo rei. Precisamos de um novo Deus entre nós.

— E você acha que será assim tão fácil? – Questionei. – Simplesmente sentar-se no Trono de Deus e governar? O que acha que Ele fará com você quando despertar de Seu descanso, huh? O sétimo dia não durará para sempre, Miguel.

A forma como ele me encarou me fez pensar se eu havia interpretado as escrituras da maneira errada, mas todos nós sabíamos que o descanso do Criador se findaria após o Apocalipse e que Ele se ergueria para punir os ímpios e conduzir os justos ao descanso eterno.

— Você está certo, Azrael. O sétimo dia não durará para sempre. – Miguel respondeu e eu quase respirei aliviado antes de ele dizer: – Mas o Criador não despertará. Você sabe que a essência de Deus nunca se perde, mas ela se renova. E quando a Aurora dos Tempos chegar eu me unirei a Trindade Santa e o Universo se curvará perante o seu novo Criador.

Eu avaliei cada uma das palavras de Miguel, sentindo uma pequena centelha de pânico brotar dentro de mim. De fato, eu já tinha ouvido falar sobre o que aconteceria quando a Aurora dos Tempos chegasse, algo que, aliás, dentre todas as coisas que Gabriel sabia, era a única que ele não guardava exclusivamente para si e para seus profetas.

Todos os anjos estavam cientes que, após o Apocalipse, a essência da Trindade Santa se uniria a um novo ser, escolhido pelo Criador e que, dessa união, nasceria um novo Deus que daria início a um novo ciclo no universo. De certo modo, dizer que teríamos um novo Deus entre nós nem era exatamente correto, pois, em suma, a essência de Deus permaneceria a mesma, inalterada. Ela apenas se renovaria em outra criatura.

— Você não é digno. – Eu retruquei com rancor. – Seu espírito é tão negro quanto o de Lúcifer ou qualquer um de seus demônios, Miguel. Você jamais poderia abrigar em seu ser a Glória do Senhor. Ele jamais o teria escolhido.

— Ele não está aqui agora, está? – Miguel abriu os braços de maneira demonstrativa – A Trindade Santa já foi reunida, Azrael. Todo o poder de Deus, sua essência mais pura, está guardada na Árvore da Vida e eu a terei para mim. – Ele sorriu de maneira perversa. – Com a ajuda do seu pequeno Jonah.

Suas palavras me atingiram como flechas e no mesmo instante tentei me libertar das mãos de Andras e Leviatã e avançar em sua direção, disposto a terminar o que eu havia começado quando me uni a Lúcifer nessa guerra. Eu mal senti quando Lilith enlaçou uma corrente negra em meu pescoço, mas me tornei bastante ciente do ardor que ela causava em contato com a minha pele, quando Andras me atirou novamente no chão, dessa vez com o rosto voltado para a relva do Éden e, praticamente, se jogou sobre mim, com o joelho pressionado na base de minha coluna.

— Prendam as asas dele! – Lúcifer ordenou, adiantando-se um passo, enquanto Miguel se afastou dois. Tudo o que eu conseguia ver eram seus pés se locomovendo, apressados, pela grama, mas seu tom de voz demonstrava toda a sua ansiedade e irritação. – Não quero que ele se liberte. Chamem Mammom e Astaroth. Peçam que eles tragam o garoto até aqui.

— Sim, Milorde. – Lilith se afastou e com a mesma corrente que ela havia enlaçado meu pescoço, senti Leviatã prender minhas asas e minha mãos, causando uma queimação insuportável em minha pele quando ele a apertou ali, para certificar-se de que eu estava bem preso.

— Covarde! – Eu me atrevi a gritar para Lúcifer, mesmo com o rosto pressionado contra o solo e com todo o peso de Andras sobre mim. – Jonah é apenas um garoto! Eu o matarei se machucá-lo, Lúcifer! Juro pelos céus que eu o matarei!

A risada divertida dele invadiu os meus ouvidos como a melodia de uma música ruim.

— Você não viverá o suficiente para isso, Azrael.

— Tão pouco a sua humana maldita! – Ouvi Miguel me ameaçar, enquanto suas botas voltavam a se aproximar de mim. – Você morrerá lentamente, Azrael e eu saborearei cada instante disto, mas não antes de matar a Loren na sua frente. – Ele sorriu. – Deixarei que os demônios de Lúcifer se divirtam um pouco com ela antes, que a transformem em sua cortesã e, depois, eu arrancarei o coração dela e o entregarei a você. – Ele se abaixou diante de mim e me segurou pelo ombro, erguendo-me um pouco quando Andras saiu de cima de minhas costas. – Farei o mesmo com o seu filho imundo depois e você assistirá a tudo. Só então eu matarei você.

Estava pronto para rugir para Miguel todas as ofensas e ameaças nas quais eu pudesse pensar, mas eu mal consegui registrar o momento em que sua cabeça despencou de seus ombros e rolou pelo chão, antes que se corpo seguisse pelo mesmo caminho. Por um segundo, só pude observar a cena, em um completo estado de choque, engolindo todas as palavras sórdidas que eu estava prestes a proferir para ele, enquanto minha mente se esforçava para compreender o que havia acontecido.

Foi apenas quando o corpo de Miguel se desvaneceu diante de meu olhos, transformando-se novamente em energia e dissipando-se na atmosfera que percebi que Lúcifer segurava sua espada com uma expressão de júbilo no rosto. Eu o fitei boquiaberto, por um instante, mas consegui me recompor quando ele largou a espada de Miguel de volta no chão, como se fosse lixo.

— Ele adorava ouvir o som da própria voz, não é mesmo? – Ele disse para mim com um sorriso de deboche.

Não consegui responder.

Por mais que estivesse disposto a arrancar, eu mesmo, a cabeça de Miguel, segundos antes, pensar que a existência dele havia terminado ali me causava uma sensação estranha de perda. Acho que eu nunca tinha parado para pensar em como seria depois que eu o matasse e, agora, embora esse fosse o meu único desejo antes, a sensação de ter perdido alguém importante me incomodava.

— Miguel estava certo. – Lúcifer continuou, voltando seus olhos vermelhos em minha direção. – Nós realmente precisamos de um novo Criador, mas ele não era um candidato adequado ao cargo. Acho nenhum de nós quer um Criador tão tolo, certo?

— Você o enganou. – Eu comentei apenas porque era tudo que eu podia fazer. – Utilizou-se do ciúme e da fraqueza dele para fazê-lo acreditar que você o ajudaria a obter o poder da Árvore da Vida, mas todo esse tempo você planejava matá-lo e usurpar o Trono de Deus para si mesmo. O quão baixo você ainda pode chegar, Lúcifer?

— Baixo? – Lúcifer passou as mãos pelos longos cabelos negros, como se estivesse pensando a respeito. – Não, meu querido irmãozinho. A partir de hoje eu estarei em rota que segue apenas para cima. Mais alto do que qualquer um já esteve.

— Serpente.

— Não culpe pelo destino de Miguel. – Ele parou e olhou para mim. – O que houve aqui hoje poderia ter sido evitado, mas o problema com Miguel é que ele era muito seguro de si. Achava que jamais alguém seria capaz de feri-lo, então, não se preocupava com uma traição. Ele nem se preocupou comigo. A achou que poderia lidar com qualquer coisa, que poderia me manter na linha e tão fiel a ele quanto um cão, mas ninguém deveria cometer esse erro. Nem mesmo o Arcanjo Miguel. – Lúcifer cuspiu em sua espada flamejante, cujas chamas já começavam a extinguir-se agora que seu mestre estava morto.

Eu não podia fazer nada mais por Miguel. Não que tivesse criado alguma afeição por ele agora que estava morto. Não. Isso não mudava as coisas que ele fez ou as ameaças que proferiu contra a minha família, afinal, ele poderia ter feito escolhas diferentes e não fez. Ele havia feito por merecer o destino que recebera, mas isso também não remediava a culpa de Lúcifer em tudo aquilo. Por Deus! Isso nem mesmo remediava a minha própria culpa, pois minha sede de vingança havia me levado longe demais e, agora, toda a Criação corria perigo. Eu precisava fazer alguma coisa ainda que as minhas chances de sucesso fossem muito baixas.

Eu estava ferido, cansado e eu era apenas um contra todas as legiões de Lúcifer e seu exército de anjos traidores, mas eu não podia me render. A segurança de toda a raça humana dependia de mim agora e eu faria o possível para conquistar isso, ainda que precisasse entregar minha própria vida em troca.

— Para que você precisa do Jonah? – Decidi perguntar, pois quanto mais eu soubesse de seus planos, maiores era as minhas chances de pensar em uma forma de impedi-lo e eu sabia que Lúcifer era orgulhoso demais para não contar vantagem.

— Oh, isso? – Ele caminhou até mim e retirou sua adaga de sua armadura, brincando com sua lâmina como se para passar o tempo. Ele também era muito seguro de si, eu reparei. – Eu tive uma conversinha com Gabriel antes de matá-lo. – Lúcifer abriu um sorriso torto, aguardando pela minha reação, mas eu não esbocei nenhuma, embora, internamente, eu tivesse vontade de mês estapear por não ter percebido tudo aquilo antes.

— Foi você quem o prendeu no Quinto Céu. – Eu disse e não era uma pergunta, porque de alguma forma eu já esperava por isso. – Miguel o deixou entrar e, juntos, vocês aprisionaram Gabriel e o torturaram para que ele lhes contasse sobre suas profecias. Tenho certeza de que foi por esse motivo que ele me obrigou a ir em busca do Cajado de Moisés com Sarakiel. Precisavam que eu estivesse longe e precisavam que alguém estivesse de olho em mim.

— Você é ótimo em tirar conclusões, Azrael. – Lúcifer se abaixou um pouco e passou a lâmina de sua adaga por meu rosto, vagarosamente. – De fato, fomos nós quem o aprisionamos, mas Gabriel era mais leal a sua missão do que eu ou Miguel poderíamos ter previsto. Poucas coisas escaparam por seus lábios naquele tempo.

— Mas ele lhe contou onde a Arca Negra estava.

— Incrivelmente, não. – Lúcifer suspirou e revirou os olhos. – Miguel já sabia onde ela estava, tal qual a Arca Da Aliança, mas ele nos contou que a Loren estava grávida. Contou que ela carregava um filho seu.

Ele se colocou de pé e sacudiu a cabeça de maneira negativa.

— Óbvio que Miguel, em sua ignorância, decidiu que matá-la. Ele não podia suportar a ideia de ter os Nefilins caminhando sobre a Terra novamente e eu concordei com ele, mas quando Gabriel conseguiu escapar e, praticamente, implorou a você para que o detivesse e a salvasse, percebi que talvez nós tivéssemos cometido um grave erro. – Ele fez um pausa e apontou para a própria cabeça, como se estivesse vangloriando-se de sua habilidade de interpretação. – Depois que você saiu, eu assassinei Natanel e consegui arrancar de Gabriel apenas algumas palavras antes que ele morresse. – Lúcifer cravou seus olhos vermelhos em mim e eu tive que me segurar para não engolir em seco, pois Gabriel era mais que o Anjo da Profecia para mim. Ele era um amigo. E saber que Lúcifer o havia torturado e matado me causava repulsa.

— O que Gabriel disse?

— Gabriel disse que apenas o escolhido do Criador poderia acessar o poder da Árvore da Vida e que ele teria o poder dos Céus e o coração dos Homens e que sua alma seria pura, mas que seu ser seria poderoso. Então, eu pensei: “Quem mais se encaixaria nesse perfil além de um Nefilim?”. Jonah tem os seus dons, mas também é metade humano. Por ser uma criança, ele é puro de coração, mas é poderoso. Percebi no mesmo instante que não poderíamos matá-lo. Sem o Jonah, o poder da Árvore jamais seria acessado e tudo pelo que lutávamos teria sido em vão. Infelizmente percebi isso tarde demais e quando cheguei ao Saint Auguste, a Loren já estava morta. Não tive outra escolha além de trazê-la de volta.

— E porque não a matou depois? – Eu questionei. – Ela deu a luz ao Jonah naquela mesma noite. Você já tinha a criança, porque a deixou viver?

— Porque eu ainda precisava de você. – Ele explicou tranquilamente. – Precisava que batalhasse contra Miguel, que o matasse.

— Foi você quem o matou.

— Mas eu não teria conseguido isso sem você para distraí-lo. Você fez todo o trabalho por mim, Azrael. Eu apenas lhe dei o golpe de misericórdia. Ele já estava parcialmente acabado antes de eu finalizar a existência dele.

— E porque eu ainda estou vivo? – Encarei-o enraivecido. – Você já conseguiu o que queria, Lúcifer. Miguel está morto, Jonah está vivo. Em breve o poder da Árvore da Vida será seu.

Ele levantou o dedo indicador para me interromper e apontou a lâmina de sua adaga em minha direção.

— Você disse bem, Azrael. Em breve o poder será meu. Mas antes eu preciso que o Jonah o pegue para mim e o que é melhor para convencer uma criança do que ameaçar a vida de seus adoráveis pais? – Ele sorriu. – Você será a minha barganha. Se o Jonah ousar me desobedecer, eu torturarei você até que ele ceda. É por isso que você ainda está vivo.

Lúcifer caminhou até a Árvore da vida, deixando-me para que eu refletisse sobre suas palavras. Eu observei, em silêncio, enquanto ele tocava o tronco largo da árvore com as duas mãos e murmurava para si mesmo algo que eu imaginei que fosse um mantra, onde ele exaltava toda a sua alegria por estar tão perto de alcançar seu objetivo.

Eu nem reparei quando Mammom e Astaroth se juntaram a nós no Éden, mas quando os braços magros de Jonah enlaçaram meu pescoço, senti mais do que apenas a alegria por vê-lo novamente e o medo pelo que estava por vir. Também senti raiva por, mais uma vez, não tê-los conseguido proteger adequadamente e também senti minhas energias se renovarem porque de maneira alguma eu deixaria que algo acontecesse a ele enquanto eu estivesse ali.

Eu o tiraria daquela situação. Tiraria a nós dois daquele lugar. E quando tudo isso acabasse eu o levaria de volta à Loren, em segurança, e Lúcifer teria a lâmina de minha espada cravada em seu peito.

— Vamos ficar bem. – Eu sussurrei em seu ouvido, enquanto sentia seus braço ao meu redor e a umidade de suas lágrimas em minhas bochechas. – Vamos ficar bem, Jonah. Você confia em mim?

Ele foi arrancado de perto de mim antes que pudesse responder, mas quando seus olhos azuis encontraram os meus vi neles a mesma determinação que eu já tinha visto nos olhos de sua mãe.

Jonah assentiu levemente para mim, de maneira quase imperceptível, enquanto Mammon o arrastava até a árvore da vida, mas eu já o tinha escutado muitas vezes para conseguir imaginar sua vozinha murmurando um “Sim, papai.”.

Ele era um bom garoto e era forte e determinado assim como sua mãe.

Ficaríamos bem.

Eu acreditava nisso.

Notas finais
Bem, gente, espero que eu tenha conseguido explicar muitas dos mistérios que foram se acumulando ao longo dos capítulos. Acho que ninguém imagina que o Miguel pudesse ser tão malvado assim, mas SURPRESA! Se tia Rhyenx escreve vocês sempre podem esperar umas reviravoltas loucas, tá? kkk Agora, Jonah tem uma tarefa muito importante. Lúcifer está decidido a conseguir o que quer. Bryan precisa salvar a própria vida e a do filho. O que será que vai acontecer, hein? O próximo capítulo é o penúltimo da história e eu espero que vocês tenham curtido toda a estrada até aqui. Agradeço a quem ainda está acompanhando, mesmo com minha demora absurda para atualizar e meus sumiços detestáveis. Nos vemos no próximo capítulo. Até breve!