Killer
9 Saint Auguste
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
Estava frio. Na verdade, eu nunca havia sentido tanto frio na vida quanto sentia agora. Tentei me encolher para minimizar aquela sensação, mas meu corpo não se movia, simplesmente não me obedecia.
A última coisa da qual me lembrava era do rosto do anjo de pedra e da voz do enfermeiro dizendo-me que eu deveria ficar calma. Talvez aquele frio intenso fosse um efeito do sedativo, ou talvez a dosagem tivesse sido alta demais. Talvez eu estivesse morta agora.
Abri os olhos e uma luz intensa ofuscou minha visão. Fechei-os, esperei alguns segundos e tornei a abri-los, tendo o a visão ofuscada mais uma vez, forçando-me a fechá-los novamente. Sim, talvez eu estivesse mesmo morta e aquele brilho fosse algum ponto do paraíso. Mas assassinos não iam para o céu, segundo eu sabia, então onde eu estava agora?
Mais uma vez abri os olhos e mais uma vez o brilho ofuscou minha visão. Desesperada, obriguei a continuar de olhos abertos, encarando aquela luz mesmo que isso fizesse minha retina arder e meus olhos lacrimejarem. Gritei por socorro, mas foi em vão. Minha voz pareceu se prender em meu interior e ecoar em mim de forma fantasmagórica e solitária.
Talvez aquele brilho não fosse o céu, afinal. Talvez fosse o inferno. Eu nunca havia acreditado na história de ter o diabo nos assando em fogueiras, então, talvez o inferno fosse assim. Vazio e brilhante. Doloroso e frio. Talvez.
Ouvi o ranger metálico de uma porta e passos pesados que pareciam pertencer a uma multidão por causa do eco.
A luz forte acima de mim foi desligada e outra bem mais fraca acendeu em algum canto a minha esquerda. Agradeci mentalmente por poder enxergar novamente e pisquei algumas vezes para dissipar a ardência em meus olhos.
Um enfermeiro postou-se ao meu lado, analisando uma série de papéis em uma prancheta, enquanto verificava meus batimentos cardíacos, respiração, etc.
Ele nada disse e, por causa de seu uniforme, tudo o que eu conseguia visualizar eram seus olhos negros, sérios e atentos. Após verificar mais algumas informações em sua prancheta, ele se retirou da sala, sumindo de meu campo de visão. Tentei mover a cabeça para procurá-lo, mas não consegui. Entretanto, não precisei me esforçar mais, pois logo ele estava de volta acompanhado de uma mulher de meia idade e de expressão ranzinza que trajava um uniforme branco similar ao seu e de um homem alto e de feições sérias que usava um terno preto caro.
– Loren. – chamou-me o homem de terno preto – Meu nome é Isaac Sparks, sou o diretor do Saint Auguste. Você consegue me compreender?
Eu quis dizer que sim, mas parecia que havia uma rocha em minha garganta que impedia as palavras de saírem e, como eu não conseguia mover minha cabeça para assentir, apenas pisquei duas vezes, mostrando que o compreendia.
– Esta é a Srta. Janete Müller, a enfermeira chefe aqui do hospital. – continuou ele, apontando para a mulher de uniforme branco – Ela irá ajudá-la a se vestir e a levará até o seu quarto.
Janete Müller deu um passo à frente, observando-me com olhos astutos e frios e senti um frio ainda mais intenso percorrer meu corpo por causa disso. Janete parecia ter uma aura negra irradiando ao seu redor, algo que notei ser quase um pré-requisito para se trabalhar no Saint Auguste.
– Vamos soltá-la agora. – Isaac voltou a falar, interrompendo minhas observações silenciosas – Tivemos que prendê-la à maca porque você estava se debatendo muito quando foi trazida para cá e poderia ter se ferido. Talvez sinta um pouco de ardência nos locais onde as correias estão presas, mas passará em breve. Entretanto, já aviso que caso tente alguma loucura, o Sr. Terry Steves, tem permissão para sedá-la novamente. – ele indicou com a cabeça o enfermeiro ao seu lado.
Como se para mostrar a veracidade dessa informação, Terry Steves mostrou-me uma seringa cheia de um liquido branco e viscoso.
Mais uma vez pisquei duas vezes para mostrar que havia entendido o recado.
– Ótimo. – disse o diretor e fez sinal para que a enfermeira chefe, Janete, começasse seu trabalho.
– Não se mova. – Janete pediu e sua voz era tão mal humorada quanto a expressão em seu rosto.
Senti suas mãos ágeis moverem-se para cima e para baixo, primeiro em minha cabeça – tirando também uma espécie de protetor bucal de meus lábio – e, depois, em meus ombros, cintura e pulsos e, por ultimo, em meus tornozelos.
Enquanto ela desatava as correias, fui sentindo o sangue voltar a correr por meu corpo da forma certa, aquecendo os locais antes tão gelados. Senti a ardência da qual Isaac havia me advertido e um formigamento em alguns membros e então, finalmente, pude mover meu corpo.
A vergonha me devastou segundos depois, quando consegui observar meu estado.
Eu estava completamente nua, deitada sobre uma maca de metal brilhante desprovida de qualquer lençol. Nos locais onde as correias estavam presas havia alguns ferimentos em vermelho vivo, mas não me importei com eles. Levantei-me rapidamente, procurando me cobrir com minhas próprias mãos, mas por ter passado muito tempo deitada, senti uma forte tontura e me desequilibrei, despencando da maca e sendo amparada por Terry Steves pouco antes de eu tocar o chão.
– Eu disse para não se mover. – Janete reclamou, ajudando Steves a me por de volta na maca.
– Minhas roupas. – consegui balbuciar alguns segundos depois, ainda tentando utilizar minhas mãos para cobrir meu corpo.
– Eu sei. Eu sei. – ela deu um pequeno tapa em minhas mãos para afastá-las de meus seios. – Já irá se vestir, mas precisa ficar quieta. Não atrapalhe o meu trabalho.
Ela retirou uma calcinha branca de um saco plástico e começou a passá-la por minhas pernas. Era constrangedor demais estar me vestindo na presença de dois homens, mas era ainda mais constrangedor permanecer nua diante deles, embora eles parecessem pouco se importar com aquilo.
Quando terminou, Janete retirou uma calça e uma camiseta de algodão, também brancas, do mesmo saco plástico e ajudou-me a vesti-las. Por fim, prendeu uma etiqueta plástica, que continha meu nome e o que me pareceu ser um código de barras, em meu pulso direito e me entregou um par de sandálias de borracha.
Eu me sentia bem melhor agora que estava vestida.
– Consegue andar? – perguntou ela.
– Acho que sim. – respondi sentindo minha garganta arder por ter passado sabe lá quantas horas em silêncio.
Janete me ajudou a descer da maca e, após um pequeno vacilo de minhas pernas, consegui dar alguns pequenos passos.
– Muito bem. – disse Isaac para mim e depois se dirigiu à Janete – Assim que acabar aqui passe em minha sala para me dar o relatório preliminar.
– Sim, senhor. – respondeu Janete de maneira solene.
Assim que o diretor saiu ela virou-se para mim, me avaliando.
– Precisa comer. – disse com total desânimo e virou-se para Steves – Diga a Rose para levar a refeição dela para o quarto 701, acompanhada da medicação.
– Que medicação? – perguntei assustada.
– Não se preocupe com isso. – ela deu de ombros e me pegou pelo braço – Vou te levar até o seu quarto, assim poderá descansar.
Janete pegou um pequeno dispositivo em cima de uma mesinha e depois me guiou para fora da sala.
Os corredores do Saint Auguste pareciam um labirinto. Viramos à direita e à esquerda várias vezes, passando por enfermeiros e pacientes, todos vestidos de branco. Não havia elevadores ali, então tivemos de subir de escadas até chegar ao meu quarto que ficava no final do corredor do sétimo andar. No caminho, Janete me mostrou as várias “alas de convivência” que o hospital continha, ou seja, os lugares onde os loucos podiam ficar quando não estavam trancafiados em seus quartos.
O “quarto” consistia apenas em uma sala com um pequeno vaso sanitário de aço inoxidável e um suporte para papel higiênico num canto e uma cama de ferro, cujo colchão era fino e estava coberto com lençol branco no extremo oposto. Tudo isso estava afixado ao chão por parafusos grossos e resistentes e não havia nenhuma outra mobília no quarto e muito menos alguma decoração. A porta possuía uma trava que só se abria com o cartão magnético dos enfermeiros e até mesmo as janelas possuíam grades grossas. Havia mais segurança ali do que provavelmente havia em uma prisão e quando olhei em volta notei que também não havia nenhum interruptor de luz na parede, provavelmente as luzes eram acesas e desligadas automaticamente em horários pré-estabelecidos.
– As refeições são trazidas ao seu quarto às 8h da manhã, ao meio dia e às 18h. – explicou Janete – Seu horário de recreação é de 14h as 15h e seu horário de banho é às 17h. As luzes se apagam às 19h.
– E o que eu faço no restante do tempo? – perguntei incomodada com toda essa restrição de horários.
– O que você quiser. – ela fez um gesto amplo para o quarto – Só não tente se afogar na privada ou teremos que retirá-la do quarto e substituí-la por um penico para garantir a sua segurança.
– Ah, obrigada por me alertar. – olhei para ela rapidamente – Já estava pensando em como seria legal mergulhar o meu rosto aí dentro, mas longe de mim querer ter a minha linda privada substituída por um penico, não é?
Janete fingiu não notar o sarcasmo ou o tom rude em meu comentário e apenas deu uma rápida olhada em meu quarto, como se conferisse que tudo estava em ordem ali dentro.
– Se começar a sentir entediada, Srta. Schinnyder, você poderá solicitar algum passatempo para preencher o seu dia, mas ele terá de ser previamente aprovado por mim, é claro. – ela disse após um breve momento.
– Que tipo de passatempo eu posso solicitar?
– Um livro, uma revista, um caderno de desenho, giz de cera, algum brinquedo... – Janete abriu um pequeno sorriso sádico – São infinitas as possibilidades.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, uma enfermeira entrou no quarto trazendo uma bandeja com um sanduíche e um copo com suco de uva e outro com água. Ao lado do sanduíche havia um pequeno copo descartável com uma pílula vermelha e outra amarela.
– Boa tarde, Rose. – Janete cumprimentou a enfermeira, que parecia ter pouco mais que vinte e cinco anos e possuía grandes olhos castanhos – Pode deixar a bandeja aqui. Eu a levarei de volta quando ela terminar de comer.
– Sim, senhora – respondeu a enfermeira, depositando a bandeja sobre minha cama e retirando-se do quarto.
Janete pegou o copo descartável e o copo com água e os entendeu para mim.
– Tome essa medicação antes de comer.
Olhei para as pílulas em sua mão e imaginei o gosto horrível que elas teriam, além dos efeitos terríveis que poderiam me causar.
– Não vou tomar isso. – disse eu, me afastando dela.
Ela olhou para mim impaciente.
– Não torne as coisas mais difíceis, Srta. Schinnyder.
– Não estou tentando tornar as coisas mais difíceis. – expliquei, calmamente – Só não quero tomar isso aí. Eu não sou louca. Não tenho nenhum distúrbio. Não preciso desses remédios.
– Não é o que seu prontuário diz. – ela aproximou o copo descartável de mim – Precisa tomar a medicação.
– Não. – eu disse novamente, empurrando o copo para longe – Eu não preciso disso. Sei bem o que estou dizendo. Não preciso tomar essas coisas.
Ela recolocou os copos sobre a bandeja e apertou a ponte do nariz, suspirando irritada, depois olhou para mim e retirou do bolso de seu uniforme o pequeno dispositivo que pegara na sala onde estávamos. Percebi que o dispositivo era como taser de contato em miniatura e que ela o usaria para me imobilizar sem pensar duas vezes.
– Tome a medicação ou terei que fazê-la tomar à força. – sentenciou.
– Não. – repeti, com vigor e antes que ela pudesse avançar sobre mim, lancei sobre ela a bandeja que estava sobre minha cama.
Janete se afastou de mim e utilizou o braço para se defender do impacto e aproveitei esse breve momento de distração para passar por ela o mais rápido que pude. Fora do quarto, corri pelo corredor atravessando um mar de pessoas vestidas de branco que, naquele momento, estavam sendo conduzidas aos seus quartos e desci a toda pelas escadas, derrubando algumas pessoas e esbarrando-me em outras. Logo ouvi uma sirene soar alertando a todos de minha tentativa de fuga.
Nem tive muito tempo para me apavorar com o barulho da sirene, pois assim que dobrei a escada para seguir para o terceiro andar um guarda lançou-se sobre mim, derrubando-me no chão. Desabamos escada abaixo por alguns degraus, mas antes que eu pudesse sequer registrar a queda, já havia seis enfermeiros ao meu redor imobilizando-me. Agora eu entendia porque as pessoas diziam que ninguém saía do Saint Auguste.
Tentei gritar por ajuda, mas minhas palavras foram cortadas por Janete e sua arma de choque. Senti meus músculos se retesarem e desabei no chão, mas ninguém se importou com isso. Logo me conduziram escada acima até uma sala mal iluminada, coberta por espumas brancas e com uma grande e pesada porta de aço.
Fui jogada lá dentro e a porta se fechou com um baque antes que eu pudesse sequer me levantar. Ainda fiquei alguns segundos sentindo a tensão em meus músculos, antes de conseguir me mexer de novo. O choque não era tão forte, quanto parecia ser o de um taser normal, daqueles usados pela polícia, mas servia bem para imobilizar uma pessoa por poucos minutos.
Assim que consegui recuperar novamente o controle sobre os meus membros me lancei contra a porta, desesperada, batendo os punhos contra o metal frio.
– Me deixem sair! Me deixem sair! – gritei, atordoada e já sentindo as lágrimas brotarem em meus olhos.
– Sugiro que poupe suas cordas vocais. – disse uma voz masculina e forte atrás de mim, fazendo com que eu me virasse sobressaltada.
Em meio ao choque e ao meu desespero, eu não havia reparado que havia mais alguém ali naquela sala, mas ao virar-me, me deparei com um belo garoto que parecia ter mais ou menos a mesma idade que eu.
Ele possuía cabelos negros, pele clara e olhos azuis profundos e, mesmo por baixo da roupa branca do hospital, aparentava ter um corpo forte.
– A sala é a prova de som. Ninguém lá fora pode te ouvir gritar. – disse o garoto fingindo tapar os ouvidos. – Para a sorte deles, é claro.
Seus lábios avermelhados se curvaram em um pequeno sorriso e ele se levantou, espreguiçando-se devagar.
– Meu nome é Bryan. – apresentou-se – E o seu?
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