Killer

41 Os Selos Sagrados


Notas iniciais
Gente, levei mais de um mês para escrever esse capítulo, mas finalmente concluí! Embora eu soubesse o que queria fazer nesse capítulo, a inspiração para colocar tudo no papel estava em falta e nada do que eu escrevia parecia ficar muito bom. Em todo caso, consegui terminar agora e espero que vocês gostem. Vamos a guerra! Boa leitura.

[Bryan P.O.V.]

Três dias nunca pareceram tão longos e, ao mesmo tempo, tão curtos quanto antes de aquela guerra começar. Fora os últimos ajustes que Andras e eu tivemos que fazer em nossos planos de batalha e as sessões intensivas de treinamento em combate que aplicamos às legiões do inferno, eu ainda tive que me reunir com Lilith para trabalharmos aquela questão do fortalecimento da mente na qual Lúcifer tanto insistiu.

Não vou entrar em detalhes quanto aos métodos usados por ela, pois, sendo a rainha das súcubos, acho que não é muito difícil imaginar que Lilith usaria os artifícios de que dispunha em seus treinamentos e até mesmo falar sobre eles me envergonhava, por isso, eu evitava o assunto, mas pelo menos todo o sacrifício pareceu surtir algum efeito no fim.

Com o passar do tempo eu consegui bloquear todas as investidas que Lilith fazia em minha mente e eu só esperava que todos os métodos que aprendi com ela me ajudassem a evitar as habilidades de Miguel e, principalmente, que Lúcifer estivesse certo ao afirmar que a conexão que ele tinha conosco havia se extinguido após sermos banidos.

Além disso, durante aqueles três dias, eu não consegui deixar de pensar em Loren e em Jonah e no que eles estariam fazendo em Veneza. Havia quase dois meses que eu não os via e aquilo era mais tempo do que eu já havia passado sem vê-los antes. Jonah devia ter evoluído muito nesse tempo e me entristecia saber que eu estava perdendo boa parte do crescimento dele, mas me consolava pensar que, muito em breve, tudo aquilo chegaria ao fim e nós poderíamos ficar juntos, como uma família de verdade deveria ficar.

– Já está se sentindo nostálgico, Azrael? – Lúcifer perguntou, aproximando-se pelas minhas costas enquanto eu terminava de vestir minha armadura.

De certa forma, aquilo realmente fazia com que eu me sentisse um pouco nostálgico. Eu não precisava vestir uma armadura desde que havia sido expulso d’O Exército, alguns milênios antes, então, aquela era uma ocasião que me trazia algumas lembranças. Naquele momento, porém, nostalgia era a última coisa que me passava pela cabeça, mas eu tenho certeza que Lúcifer já sabia disso.

Terminei de afivelar minhas braçadeiras e o torso de minha armadura e me virei para ele. Lúcifer trajava uma armadura inteiramente negra cuja superfície imitava o relevo das escamas de uma cobra. Em seu peito, havia o desenho de uma grande serpente dourada, com a boca aberta e presas à mostra, em cujos olhos cintilavam dois pequenos rubis, assim como em suas ombreiras, cujo formato também imitava a cabeça de duas serpentes. Suas joelheiras era ornamentadas por um pequeno rubi envolto por chamas em alto relevo e sua manoplas terminavam em garras finas e afiadas que, naquele momento, seguravam um pacote de conteúdo desconhecido que estava envolto em um tecido preto. Além disso, Lúcifer usava uma capa negra com alguns desenhos tribais bordados com fios de ouro e parecia estar se sentindo a própria realeza do universo.

– Ora, ora. – comentei com ironia – Pelo tamanho da sua vaidade, imaginei que sua armadura seria um pouco mais chamativa, Lúcifer.

– Curioso. – ele me olhou de cima a baixo e abriu um sorriso – A sua é exatamente como imaginei que seria, Azrael.

– Sou uma criatura simples.

– Demasiadamente simples, eu diria. Não possui elmo ou ombreiras. Aliás, você não deveria portar ao menos um escudo?

– Nunca utilizei tal equipamento em toda a minha existência e considero que as ombreiras diminuem a mobilidade, além de estarem fora de moda há séculos, pelo que eu soube. – olhei para as ombreiras em formato de cabeça de serpente que havia em sua armadura e reprimi um sorriso – Quanto ao elmo, porém, eu posso lhe fazer a mesma pergunta. Não pretende usar um nessa batalha?

– Não tenho qualquer intenção de encobrir meu belo rosto, Azrael. Quero deleitar nossos irmãos e irmãs com toda a glória de minha magnífica aparência.

– Não quero ser desrespeitoso, mas, como sua atual aparência, o máximo que conseguirá é assustá-los.

– Sendo assim, estrategicamente falando, creio que acabo de presentear o nosso exército com um bônus. – ele sorriu – Não precisa me agradecer. De qualquer forma, eu não vim até aqui para falar sobre mim. Vim para te entregar isto. – Lúcifer levantou o tecido do pacote que segurava e, dentro dele, eu pude divisar as bainhas negras de duas espadas e uma arma com três lâminas em formato de asas de dragão, que parecia ter sido criada para ser uma versão mais assustadora e mortal de um soco inglês – Belfegor terminou de forjá-las ontem. – ele explicou – Tanto sua guarda quanto o cabo são feitos de prata pura, cravejados com ônix e berilo vermelho, assim você pode manejá-las com segurança e deixar suas lâminas mortais para os nossos inimigos.

– Como se chama esta arma? – apontei para aquela em forma de asas de dragão que também possuía seu local de manuseio feito de prata, ônix e berilo vermelho.

– Esta ainda não tem um nome. Belfegor a criou, mas não quis nomeá-la. Ele acha que esta tarefa será melhor desempenhada pelo guerreiro que a empunhar. Logo, cabe a você decidir.

– Eu não sou bom com nomes.

– Então, chame-a de Hain. – Lúcifer propôs – É um belo nome para uma bela arma.

– Que seja. – eu dei de ombros, pouco me importando com aquilo e recolhi as duas grandes espadas do pacote, encaixando-as nas costas de minha armadura, entrecruzadas. Depois, peguei a tal arma Hain e a prendi em meu cinto, ao lado de um pequeno punhal negro que eu havia ganhado de Andras mais cedo. Apertei um pouco mais minhas botas e vesti minha capa que também contava com um capuz que mantinha parte de meu rosto nas sombras – Estamos prontos para partir?

– Apenas aguardando o seu comando, General. – respondeu um dos homens do exército de Andras que lutariam ao meu lado naquela batalha.

Olhei para Lúcifer, que ainda estava me encarando com um brilho de evidente satisfação no olhar e esperei que ele fizesse as honras.

– Encontraremos Lilith e Leviatã no portal do Quarto Círculo. – ele explicou a todos os presentes – Os demais Lordes usarão os portais do Segundo Círculo e o do Sétimo.

– Usaremos os portais para acessar o Reino Celeste, Milorde? – perguntou outro soldado enquanto verificava se seu escudo estava bem preso à sua braçadeira.

– Nosso plano não possui qualquer conexão com o Reino Celeste, Leif. – Usaremos os portais para chegar à Terra e, de lá, tomaremos outros portais para chegar a morada de nossos inimigos.

O soldado assentiu, pressionando seu punho sobre o peito e baixando a cabeça em sinal de respeito e Lúcifer me lançou um olhar que dizia, com todas as letras, que chegar ao Reino Celeste não seria tão simples assim. Não retruquei porque eu já esperava por isso. Os portões do Paraíso não deviam ser fáceis de serem alcançados porque, se fosse, os demônios já estariam fazendo uma festa. Eu só não sabia o que deveria esperar disto, exatamente. Em se tratando de Lúcifer e de seus métodos era sempre sábio se preparar para o pior.

Deixei que Lúcifer liderasse o caminho até o Quarto Círculo e fiz sinal para que os soldados nos seguissem. Encontramos Lilith e Leviatã na entrada do portal que Lúcifer e eu costumávamos utilizar para ir à Veneza, ambos acompanhados de suas respectivas Legiões.

Leviatã e seu exército de demônios marinhos utilizavam armaduras simples e quase iguais que possuíam apenas elmo, couraça, braçadeiras e escudos cor de bronze, ornamentados com a imagem de um tridente em alto relevo. Lilith, por sua vez, trajava uma armadura que me remetia às armaduras utilizadas nas Grécia antiga com aqueles saiotes de couro, corpete apertado e protetores nos antebraços e tornozelos. A única diferença era que a roupa de Lilith, ao invés de ser de couro marrom – como era comum na Grécia antiga –, era de uma cor um pouco mais escura que o vinho com detalhes dourados. Além disso, Lilith usava uma espécie de coroa em sua testa, feita de fios de ouro entrelaçados que terminavam pingente ornamentado com diamantes e turmalina rosa.

Seus longos cabelos ruivos estavam presos em uma trança espinha de peixe que caía até o meio de suas costas e, como se isso já não parecesse suficientemente imponente, ela ainda estava com Cerberus, seu grande cão negro de três cabeças, preso em uma corrente de ouro maciço. Seu exército usava vestimentas variadas, assim como suas armas, mas era fácil identificá-los, pois usavam o mesmo tom vermelho escuro que sua rainha.

– Nosso rebanho já está a nossa espera do outro lado do portal, assim como os demais estão a espera das outras Legiões. – ele informou – Podemos partir quando desejar.

– Dê a ordem. – Lúcifer pediu e Lilith, imediatamente, se inclinou para Cerberus, sussurrando algumas palavras. O animal, então, ergueu suas três cabeças e soltou um urro gutural que, tenho certeza, pode ser ouvido em todos os Círculos do inferno.

– Podemos ir. – disse ela e com um grito de entusiasmo e um brandir de espadas os exércitos marcharam para dentro do portal, sendo liderados por Lúcifer e Leviatã.

Eu segui na retaguarda, ao lado de Lilith e Cerberus, tomando o cuidado de ficar fora do caminho das patas daquele animal monstruoso.

– O que você quis dizer com um rebanho estar a nossa espera do outro lado? – perguntei – Do que exatamente estava falando?

Lilith fixou seus impressionantes olhos dourados em mim e curvou os lábios em um meio sorriso.

– Essa armadura lhe caiu muito bem, Azrael. Se a Loren pudesse ter ver agora, se apaixonaria outra vez.

Olhei para baixo, para minha armadura que consistia apenas em uma couraça negra com uma fênix prateada, de asas abertas, desenhada em alto relevo, braçadeiras e protetores para as pernas com algumas runas, também prateadas, desenhadas ao longo de sua extensão e uma capa preta com capuz e não soube dizer o que havia de tão exuberante em minha vestimenta que seria capaz de fazer Loren se apaixonar por mim novamente. Minha armadura era o mais simples possível e, perto de armaduras cheias de detalhes como a de Lúcifer e como a que a própria Lilith estava usando, a minha quase poderia passar despercebida.

– Isso não responde a minha pergunta. – comentei voltando minha atenção para ela novamente – Que rebanho é esse que está a nossa espera?

– No fundo da sua alma você já sabe, Azrael. Nem precisa que eu lhe diga qualquer coisa a respeito, mas eu também não tinha qualquer intenção de fazê-lo. Apesar de ser um de nós, o seu senso de justiça ainda é muito forte para eu me atrever a lhe dar qualquer informação sobre.

– Está dizendo que algum inocente irá se machucar?

– E não são sempre eles quem pagão o preço de uma revolução? – Lilith retrucou e, em completo silêncio, nós continuamos a nossa caminhada através do portal.

O local ao qual chegamos era conhecido como Mosteiro de Montserrat. Era uma construção grandiosa situada nas montanhas da Catalunha, na Espanha e que servia de morada para padres, freiras e noviças, além de abrigar a famosa imagem de Nossa Senhora de Montserrat, que foi encontrada em uma gruta, no ano de 880, ao redor da qual foi construído o mosteiro.

Era noite na Terra e a lua cheia estava a pino no céu, se agigantando sobre as montanhas e lançando sobre elas um brilho prateado intenso. Dentro do mosteiro as cortinas estavam fechadas, mas, vez ou outra, era possível ver o rosto de um padre ou cardeal assustado no encarando através das frestas do tecido.

– Eles estão rezando. – ouvi Leviatã comentar em voz baixa – Acha que sabem por que estamos aqui?

– Eles são apenas humanos. – Lúcifer respondeu com desdém – Humanos e cristãos. Sabem que o mal está a espreita aqui fora e, por isso, rezam. Eles acham que suas orações podem protegê-los de nós.

– Este é um solo sagrado.

– Estou ciente, meu estimado companheiro. Em outra ocasião, talvez esse detalhe refreasse a nossa luta, mas hoje nós temos o conhecimento a nosso favor. Eu não os teria trazido até aqui se não soubesse como entrar.

– O que fará com essas pessoas? – me atrevi a perguntar mesmo sabendo que não gostaria nada da resposta – Você irá matá-los, Lúcifer? Irá assassinas todos esses inocentes?

Lúcifer desviou seu olhar do mosteiro a nossa frente e se voltou para mim.

– Vou. – respondeu de maneira fria e eu senti a raiva e a indignação correrem pelo meu corpo.

– Por quê? – questionei me controlando para não me lançar sobre ele e cravar uma daquelas lâminas negras em seu coração – Porque fará isso, Lúcifer?

Senti Lilith pousar uma das mãos em meu ombro, suavemente.

– É um mal necessário, Azrael. Essas pessoas precisam morrer para que os portais para o Paraíso se abram.

Afastei meu braço dela e me concentrei em Lúcifer.

– Centenas de inocentes mortos? Esse é o preço a se pagar por nossa vingança contra Miguel e pela vida da Loren?

– Milhões.

– O que disse?

– Eu disse milhões. – Lúcifer respondeu um pouco mais alto – Milhões de inocentes mortos, Azrael. Esse é o preço.

– Milhões?!

– Talvez um pouco mais. – Lúcifer admitiu – Ao matar essas pessoas abriremos os portais para o Paraíso, mas também libertaremos um espírito antigo e poderoso. Não podemos ter uma coisa, sem ter a outra e por isso eu digo que milhões de seres humanos irão morrer, sejam eles inocentes ou não. O que vamos libertar hoje é algo mortal e irrefreável que dissipará toda a vida que encontrar em seu caminho, até que essa guerra termine e ele possa voltar ao seu local de descanso.

Dessa vez eu não me contive. Simplesmente parti para cima de Lúcifer e o empurrei contra a parede do mosteiro, segurando-o pelo pescoço.

– Morte?! – exclamei tomado pela fúria – É a ele que você quer libertar hoje? O quarto Cavaleiro do Apocalipse?!

– Você vai me julgar, Azrael? – Lúcifer me empurrou para longe com o rosto retorcido de dor por estar imprensado contra as paredes sagradas do mosteiro – Foi você quem começou tudo isso. Você libertou o primeiro deles!

– Eu?

– Você quer que eu refresque a sua memória? – Lúcifer deu um passo em minha direção, encarando-me com uma expressão acusatória – Dois anos antes, quando a mãe da Loren estava no hospital. Ela tinha uma hora certa para morrer, como todos os seres humanos. Você era o Ceifeiro dela e o que você fez?

Não respondi, então, Lúcifer avançou sobre mim.

– O que você fez, Azrael?!

– Ela estava sofrendo! – exclamei exasperado – Estava agonizando...

– E você não podia salvá-la. – Lúcifer me interrompeu – A vida dela estava condenada e você não podia fazer nada a respeito, além de ficar ali e esperar que as horas corressem para que ela exalasse o seu último suspiro, mas a Loren não podia suportar isso. Ela não podia suportar assistir a mamãezinha dela sofrendo e agonizando de dor dentro daquele hospital, então, ela pediu a sua misericórdia. Ela podia te sentir, sabia que estava lá e pediu que você a ajudasse e o que você fez? – os olhos vermelhos de Lúcifer faiscaram em minha direção – Você ofereceu a mãe dela o descanso eterno. Deu a sua alma o repouso pelo qual ela tanto ansiava e, com isso, desobedeceu a mais suprema ordem do Criador. Você tirou uma vida antes que ela pudesse ser tirada, Azrael. Quebrou o primeiro dos sete selos sagrados.

Eu não disse uma palavra, pois, como poderia? Eu havia mesmo feito aquilo. Havia dado à mãe de Loren o descanso dos mortos antes que a sua hora realmente chegasse. Foi apenas duas horas antes, algo que não deveria ser realmente relevante, mas foi.

– Os primeiros Cavaleiros são sutis. – Lúcifer voltou a se pronunciar – Eles se espalham pela humanidade sem que as pessoas realmente se deem conta e, até mesmo para nós, criaturas sobrenaturais, é difícil percebê-los. As únicas criaturas que realmente os percebem no exato momento em que eles se libertam são o próprio Criador e o Anjo da Profecia.

– Gabriel?

– Sim. Ele percebeu. E como o bom servo que era deve ter alertado Miguel sobre isso. Você sabe que o Apocalipse marca o inicio de um novo tempo. A Aurora do Universo, o Despertar do Criador, algo pelo qual todos os anjos esperam há milênios. Mas você certamente consegue imaginar alguém que não ficaria satisfeito com isso, não é? – Lúcifer me lançou um olhar significativo – Alguém que, atualmente, dita todas as regras, que comanda o universo com mãos de ferro. Miguel certamente não queria perder o seu posto, por isso ele se empenhou tanto em impedir que mais selos fossem quebrados. Foi através dos movimentos dele que eu soube que Praga havia despertado, mas diferente de dele e de seus soldados, eu estava te observando, Azrael. Eu sabia que tinha sido você quem quebrara o primeiro selo e isso me deu a ideia. Eu só precisava quebrar os outros três selos e, então, os portais para o Paraíso se abririam e eu poderia ter a minha vingança. Não apenas isso, eu poderia ter uma nova oportunidade de espalhar a minha revolução.

– Então, você quebrou os outros selos?

– Eu? Não. Infelizmente eu não tinha poder para isso. Mas se você quer saber se eu ajudei a quebrá-los, isso eu admito. Embora não tenha sido uma tarefa fácil. – Lúcifer me olhou com seu melhor ar de seriedade – Eu tive muito trabalho para descobrir que fatos levariam a quebra dos demais selos, mas com persistência consegui identificá-los. Ter O Exército atento para todas as coisas incomuns que aconteciam sobre a Terra também não me ajudou em nada, mas eles não são tão espertos quanto eu e não tinham ideia do que deveriam tentar impedir e isso foi um ponto a meu favor.

– Quais eram os outros selos? – eu tive que perguntar por que algo na forma como Lúcifer falava sobre aquilo me preocupava.

– Primeiro – ele ergueu um dedo para mim –, você precisa saber que os selos sagrados que aprisionam os Cavaleiros do Apocalipse só podem ser quebrados se tiverem alguma relação com quem quebrou o primeiro deles.

– Está me dizendo que eu também quebrei os outros dois?

– Não. Não você. Estou falando da Loren. Ela os quebrou.

– Como? Você acabou de dizer que eles só podem ser quebrados porque começou isto e, segundo você, eu quebrei o primeiro.

– Você o quebrou. – Lúcifer confirmou – Mas foi a pedido dela. Veja bem, Azrael? Se a Loren não tivesse pedido a sua interferência, você teria interferido? Teria feito o que fez?

– Não, mas...

– Exatamente. – Lúcifer cortou minhas desculpas – Você jamais teria feito aquilo se não fosse por ela. O primeiro selo só foi quebrado porque a Loren pediu por isso. Eu demorei muito tempo para entender essa relação. Acredite. Por muito tempo eu também achei que tudo estava ligado a você, mas não estava. Era ela. Todo esse tempo a resposta estava com ela e quando eu finalmente percebi isso, soube o que tinha que fazer.

Eu o encarei por um momento, assimilando tudo o que ele havia me dito e quando finalmente compreendi seus atos, senti o sangue ferver em minhas veias.

– Pietro. As almas em Angels House. Tudo aquilo foi obra sua, não foi? Era por isso que você estava em Trevolts.

Lúcifer nem se deu o trabalho de mentir.

– Eu fiz o que tinha de ser feito. O segundo selo só seria quebrado quando uma alma inocente tirasse a vida de um ente querido. – ele explicou – A Loren nunca amou a família dela, exceto a mãe e a avó que já estavam mortas, mas ela amava os amigos. Eles eram como uma família para ela. Eram o que de mais precioso ela tinha sobre a terra, então, um deles teve que morrer. Por acaso do destino foi o garoto, mas poderia ter sido qualquer um dos três.

– Por isso O Exército foi até lá naquela noite. – finalmente compreendi – Eles nunca se envolvem em coisas como essas, mas Miguel não apenas foi pessoalmente a Angels House como também levou seus cinco Capitães a tira colo. Ele sabia o que você estava fazendo.

– Sabia. Ou, se não sabia, pelo menos suspeitava. Acho que, naquele momento, até ele percebeu que tudo tinha ligação com a Loren, mas, para a sua infinita infelicidade, ele não sabia muito mais que isso.

– E qual era o terceiro selo?

– Você não consegue nem imaginar? – Lúcifer perguntou satisfeito – Não consegue pensar em nada que Miguel tenha se esforçado tanto para destruir.

– Jonah?

– A raça proibida volta a caminhar sobre a Terra. – Lúcifer assentiu – Tenho que agradecer a você por isso, é claro. Garantir que a Loren fosse mandada para o Saint Auguste, longe dos radares de Miguel, foi um mérito meu, mas meus esforços de nada teriam valido se não fosse por você, Azrael. Eu sempre soube que podia contar com a sua paixão pela Loren para concretizar os meus planos. Sempre soube que seus desejos falariam mais alto que sua razão em se tratando dela.

Eu nada disse, pois me envergonhava de minha tolice. Gastei tanto tempo tentando descobrir o que Lúcifer queria e porque Loren parecia ser tão importante para seus planos, mesmo sendo apenas humana e, todo aquele tempo, a resposta estava bem debaixo de meu nariz. Jeremyah e Lorelei estavam certos, afinal. Eu deveria ter me afastado dela. Agora, porém, era muito tarde para eu dizer que deveria tê-los escutado.

– Foi por isso que você a salvou? – questionei – Porque precisava que o Jonah nascesse.

– Sim. Mas também foi por você. – ele se apressou em acrescentar – Eu não menti quando disse que salvei a Loren porque sabia que você a amava, Azrael. Você sabe o que dizem sobre matar dois coelhos com uma única cajadada.

– Também foi por isso que Gabriel pediu que você a salvasse? Porque ele sabia que o Jonah precisava nascer para que o terceiro selo fosse quebrado e porque sabia que Miguel tentaria impedir que isso acontecesse? Foi por isso que Miguel o matou?

– Foi. – Lúcifer respondeu sem qualquer sombra de dúvida – A missão de Gabriel era fazer as profecias se cumprirem, mas Miguel não estava de acordo. O Príncipe dos Anjos o assassinou e em seu último suspiro Gabriel se empenhou para que sua missão não morresse com ele.

– E agora você quer usar isso para se vingar de Miguel e tomar o poder do Criador, antes de seu despertar?

– Temos que saber aproveitar as oportunidades quando elas surgem em nosso caminho.

– E o quanto ao quarto selo? – olhei para o mosteiro a nossa frente, onde centenas de inocentes estavam marcados para morrer – A Loren não está aqui e eu não acredito que esse mosteiro tenha qualquer ligação com ela.

– Engana-se, Azrael. Por acaso você não se lembra do que aconteceu nesse lugar?

– Eu deveria?

– Refresque a minha memória. Em seus dias como Ceifeiro você nunca esteve aqui? Nunca tirou a vida de ninguém nesse lugar?

A resposta era sim. Eu havia estado naquele lugar uma única vez, mas, naquela época, o mosteiro estava em ruínas. Ele havia sido destruído pelas tropas francesas em 1811 e apenas em 1844 começou a ser reconstruído. Eu estive lá naquela época. Meu trabalho foi matar um velho missionário inglês que tinha vindo para auxiliar na reconstrução do mosteiro. Seu nome era...

– Não! – eu exclamei completamente perplexo – Ele não era...

– Maximiliam Pierce. – Lúcifer disse com precisão – Você reconheceu o nome agora, não é? O sobrenome de solteira da mãe da Loren. Aquele do qual ela abdicou ao se casar e se tonar a senhora Schinnyder. Maximiliam foi o primeiro membro da família da Loren que você matou, Azrael. E aqui, onde o sangue dele foi derramado, nós quebraremos o quarto selo, libertaremos a Morte e abriremos os portais para o Paraíso.

– Eu não farei parte disso. – afirmei, ainda estupefato com aquela revelação – Não vou participar de um massacre, Lúcifer. Não tirarei mais nenhuma vida inocente.

– Eu não esperava que agisse de outra forma.

Lúcifer caminhou até a parede do mosteiro e retirou uma das manoplas de sua armadura, usando as garras afiadas da outra para fazer um corte em sua mão. No instante em que o sangue começou a jorrar, ele o usou para desenhar alguns símbolos na parede, quase da mesma forma que havia feito da primeira vez que fomos a Veneza e, então, murmurando algumas palavras em uma língua estranha, pousou a palma da mão ensanguentada sobre a parede, fazendo os símbolos desenhados ali reluzirem por um segundo antes de serem sugados para dentro do concreto.

Todos os demônios ali observaram a cena com curiosidade, mas toda a calmaria foi quebrada quando Lúcifer se voltou para nós com uma expressão de completa crueldade nos lábios e ordenou:

– Matem todos. Inundem o piso desse mosteiro com seu sangue e abram os portais do Paraíso. A nossa vingança começa agora.

Então, todos os soldados se laçaram contra o mosteiro, liderados por Leviatã e por Lilith e não demorou um segundo antes que a noite fosse inundada com o grito d e todas as pessoas que estavam ali.

Eu podia ouvir os rugidos de Cerberus ao estraçalhar suas vítimas e o grito de júbilo dos outros demônios ao exterminarem toda a vida que encontravam em seu caminho e, mesmo sem presenciar aquela carnificina, senti meu peito se apertar por todas aquelas almas.

Em breve os Ceifeiros estariam ali para cumprir seu papel e eu sabia que a verdadeira batalha teria inicio. Eu me perguntava quantos de meus irmãos morreriam ao serem surpreendidos por nossas armas, me perguntava se Lorelei e Jeremyah estariam entre eles, mas tudo isso foi tirado de minha mente quando o brilho prateado da lua de repente foi substituído por um brilho avermelhado e uma força descomunal explodiu de dentro do mosteiro arrebentando os vidros de todas as janelas e arremessando Lúcifer e eu para longe dali.

Fomos cair a alguns metros de distância, no piso de concreto cinza que precedia as escadarias, mas eu nem tive tempo de assimilar tudo aquilo, pois logo o barulho de cascos galopando invadiu a noite e, diante de nós, surgiu a grandiosa figura de um cavalo baio, montado por um cavaleiro de armadura negra munido com um grande arco e cujo rosto não era possível ver.

O cavalo relinchou para nós e ergueu-se nas duas patas traseiras, mas tão rapidamente quanto tinha surgido, ele desapareceu na noite deixando em seu lugar apenas o rastro de uma névoa negra.

Coloquei-me de pé e olhei ao redor, para os cacos de vidro que pontilhavam a área externa do mosteiro e para os demônios que, tendo cumprido a sua missão lá dentro, agora começavam a sair, com roupas e armaduras cobertas de sangue. Ao longe, aos pés da montanha, vi as luzes da cidade começarem a se pagar uma por uma e então eu soube: morte tinha começado seu trabalho. Em breve, toda a vida daquela cidade seria exterminada e, então, ele passaria para a próxima e para a outra depois desta, até que o Criador despertasse de seu descanso e o Apocalipse chegasse ao fim.

Quase no mesmo instante em que concluí este pensamento, os Ceifeiros surgiram ao redor do mosteiro, austeros e frios em suas capas negras. Um segundo depois, os portais para o Paraíso se abriram.

Notas finais
Morte está a solta, os portais para o Paraíso se abriram, os Ceifeiros chegaram ao mosteiro... Muitas batalhas estão por vir, galera e eu espero que vocês tenham gostado do capítulo e que estejam ansiosos pelo próximo. Acho que eu não preciso dizer que a história dos selos não é assim na Bíblia, mas apenas por desencargo de consciência vou falar rsrs Ainda vem muitas surpresas por aí, então, não deixem de acompanhar. Beijos e até o próximo. E desculpem pela demora em atualizar.