Killer
42 Elemento Surpresa
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
A lua cheia pairava imponente no céu, iluminando com um brilho prateado as ruas e becos estreitos da cidade de Veneza. Eram pouco mais de dez horas da noite, mas a praça da Corte Del Fontego ainda estava apinhada de adultos e, principalmente, de crianças que corriam umas atrás das outras enquanto seus pais confraternizavam com os vizinhos. Em outro momento, aquela cena faria Jonah ficar inquieto dentro de casa, desejando poder sair para brincar com eles, mas desde aquele incidente horrível no beco, há cerca de oito dias, ele tinha deixado de lado essa sua vontade de sair do apartamento e qualquer menção à vida fora das paredes daquele lugar o apavorava.
Eu ainda não tinha conseguido entender muito bem o que acontecera naquela noite, apesar de Tábita e Brigitte terem voltado dizendo que haviam encontrado o corpo do homem que Jonah matara no beco e que haviam se livrado dele e limpado toda a bagunça. Lisandra as agradeceu pelo serviço prestado e eu tratei de dar outro banho em Jonah e jogar fora as roupas cheias de sangue que estavam em seu corpo, mas tudo aquilo ainda era muito surreal para mim.
Jonah era uma criança. Mais que isso, ele era meu filho e eu não conseguia olhar para ele e acreditar que ele seria capaz de algo tão horrível quanto matar um homem, ainda que o homem em questão provavelmente fosse um pedófilo ou um assassino, sem o qual o mundo estava bem melhor. Lisandra podia me dizer que, talvez, Jonah nem tivesse tido intenção de matá-lo e que, muito provavelmente, seus dons tivessem funcionado como um mecanismo de defesa que se manifestou automaticamente quando ele se sentiu em perigo, mas para mim, nem essa explicação era aceitável. Eu não conseguia ver o meu filho como um assassino, fosse por legítima defesa ou não. Jonah era simplesmente bom demais para eu vê-lo dessa forma.
Nos dias que se seguiram eu tentei superar os acontecimentos daquela noite horrível e agir normalmente. Eu sabia que Lisandra, Tábita e Brigitte estariam me observando, procurando qualquer sinal de que eu estava desconfiando delas ou tramando alguma coisa e eu não podia deixar que elas suspeitassem de minhas atitudes. Meu plano era confidenciar todas as minhas descobertas e suspeitas para Bryan, desde o fato de que eu achava que Lúcifer estava pensando em usar Jonah como alguma espécie de arma em seu plano, até o fato de que minhas “protetoras” não estavam na verdade me protegendo e, sim, me vigiando, mas como sempre acontecia quando eu tinha algo importante para dizer a ele, Bryan não apareceu para nos visitar.
Era como se eu estivesse de volta àqueles dias no Saint Auguste, quando eu queria contar a ele sobre a minha gravidez, mas ele só apareceu no último segundo, quando Miguel já havia incendiado o local por inteiro e planejava me matar. Eu esperava que, dessa vez, as coisas não desandassem tanto quanto acontecera no hospital psiquiátrico e que Bryan aparecesse antes que uma tragédia se desencadeasse, mas com ele tão concentrado em seu trabalho com Lúcifer, eu tinha sérias dúvidas se manter alguma esperança quanto àquilo era uma atitude sensata.
– O jantar está pronto. – Lisandra anunciou aproximando-se da varanda onde eu estava de pé, observando o pátio do cortiço – Jonah está no quarto?
– Sim. Provavelmente está lendo. – eu assenti, afastando-me do parapeito da varanda para olhar para ela.
– Pode ir para a mesa da cozinha, então. Eu irei chamá-lo. – ela voltou para dentro do apartamento e eu fiz como ela pediu e segui para cozinha, enquanto ela ia até o quarto chamar Jonah para o jantar.
A refeição foi feita como em todas as noites, com apenas Jonah e eu sentados à mesa da cozinha, já que nenhuma das outras mulheres parecia comer – pelo menos não comida normal –, enquanto Jonah me contava toda a história do livro que estava lendo e dos programas que havia assistido naquela madrugada, já que ele quase não dormia.
Eu ouvi a todos os seus relatos com atenção, fazendo comentários nos momentos apropriados e tentando não pensar no medo que eu sentia de que alguma coisa ruim pudesse acontecer com ele, pois Jonah sempre notava minhas mudanças de humor e sempre ficava tão apreensivo com elas quanto eu mesma.
Quando terminamos de comer, ele foi para a sala assistir a um programa de talentos italiano do qual não perdia um único episódio e eu ajudei Tábita a lavar as louças do jantar, porque embora ela sempre insistisse que aquele era seu trabalho, eu já estava cansada de ficar sem fazer nada e, diferente de Jonah, a TV e os livros nunca conseguiam me distrair por tempo suficiente.
– Olha, mãe. – Jonah me chamou quando terminei de arrumar a cozinha e voltei para a sala – A Carola vai para a final junto com o Fabio Curto. – ele comunicou transbordando de felicidade por sua concorrente favorita ter avançado para mais uma fase – Eu estou torcendo por ela. Quero muito que ela ganhe, mas Brigitte acha que é o Fabio quem vai ganhar.
– É mesmo? – eu me sentei ao lado dele no sofá e passei um dos braços por seus ombros para abraçá-lo – Também gosto mais dela, mas esse Fabio parece ser o favorito mesmo.
– Ele parece muito convencido para mim. A Carola é bem mais legal.
– Bem, se ele ganhar não tem muita importância. Já vi pessoas que ficaram em segundo ou terceiro lugar nesses programas fazerem muito mais sucesso que os vencedores.
– Se a Carola perder, ela, com certeza, fará mais sucesso que o Fabio. – Jonah concordou.
Nós ficamos no sofá assistindo aos programas seguintes, até que Jonah finalmente se cansou e voltou a ler o livro que havia deixado de lado durante o jantar. Eu tinha perdido a conta de quantos livros ele lera naquela semana e, muitas vezes, quando ele ia me contar suas histórias eu acabava me confundindo com as personagens e as situações que elas viviam, porque pensava que ele estava lendo determinado livro e, na verdade, ele já estava lendo outro.
O livro da vez era As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twin e eu me lembrava, vagamente, de minha mãe ter lido esse livro para mim durante a minha infância, mas havia sido há tanto tempo que eu quase nem me lembrava mais da história. Jonah, porém, estava realmente encantado com ela e eu nem tentei obrigá-lo a parar de ler quando sua hora de ir para a cama chegou, pois já sabia que ele deixaria o livro por um minuto e, quando eu adormecesse, se levantaria e continuaria lendo.
– Está com sono? – perguntei apenas porque aquele era meu papel como mãe, mas eu já sabia a resposta.
– Posso ler por mais algumas horas? – ele questionou, praticamente suplicando e eu não tive como lhe dizer não.
– Pode sim. Só não passe a noite em claro, ok? Sei que o seu corpo é mais resistente que o meu, mas você ainda precisa dormir em algum momento.
– Estarei na cama antes das duas. – ele me prometeu e, então, eu depositei um beijo em sua bochecha e me deitei para descansar, enquanto, ele continuou deitado de costas em sua cama, com As Aventuras de Huckleberry Finn nas mãos.
Não sei dizer exatamente por quanto tempo dormi ou se tive algum sonho enquanto isso, mas acordei com Jonah praticamente me sacudindo pelos ombros e o meu corpo entrou em estado de alerta assim que fitei seus olhos azuis preocupados.
– O que houve? – eu me sentei na cama tão rápido que quase fiquei tonta pela mudança de posição, mas a adrenalina correndo em meu sangue bloqueou a tontura antes mesmo que ela acontecesse.
– A lua está esquisita. – Jonah comunicou, desviando seus olhos para a janela do quarto e, por um instante, eu realmente pensei em lhe dar uma bronca por me acordar daquele jeito só para falar sobre a lua, mas me levantei da cama e fui até a janela ver do que se tratava.
De fato a lua estava esquisita. Ao longo dos meus dezoito anos e eu já tinha visto o fenômeno que os cientistas chamavam de “Lua de Sangue” acontecer uma ou duas vezes, mas aquilo para o qual eu estava olhando naquele momento não me parecia algo natural.
A lua estava realmente vermelha, quase como se estivesse mesmo sangrando e o frio que havia se instalado, de repente, sobre Veneza também não era algo que eu esperaria encontrar naquela noite. Eu sabia que a Itália podia ter invernos rigorosos algumas vezes, mas nós estávamos no meio da primavera e, ainda que não estivesse nevando ali, estava tão frio que eu podia ver a minha respiração se condensando pelo quarto.
Jonah estava me encarando como se também soubesse que aquilo não podia significar nada de bom e, seja por instinto ou simplesmente por que eu já havia passado por situações esquisitas na vida o suficiente para saber que precaução nunca era demais, decidi sair do quarto e me certificar de que estávamos realmente seguros dentro das paredes daquele apartamento.
– Fique na cama, está bem? – eu disse para Jonah e, então, abri a porta do quarto e segui pelo corredor com passos silenciosos e cuidadosos.
Não sei bem o que esperava encontrar ali fora, mas uma pequena parte de mim imaginava que percorreria o apartamento todo e voltaria em segurança para a cama, apenas para descobrir, no dia seguinte, que tudo aquilo não havia passado de um fenômeno astronômico raro associado a uma mudança climática não-natural, causada pelo efeito estufa. A maior parte de mim, porém, aquela que já sabia que nada em minha vida era tão simples quanto deveria ser, já imaginava que encontraria Miguel e seus anjos, no pátio da Corte Del Fontego, se preparando para invadir os apartamentos e matar todas as pessoas que encontrasse pela frente.
Apenas pensar sobre aquilo, sobre o que Miguel poderia fazer com Jonah caso o encontrasse ali já me deixava doente, mas o que encontrei ao me aproximar da sala, no entanto, não confirmou nenhumas das possibilidades que imaginei, apesar de não ter me surpreendido de todo.
Encontrei Lisandra, Tábita e Brigitte reunidas ao redor de um símbolo desenhado com sangue no chão da sala, no espaço onde antes repousava nossa mesinha de centro. As três estavam de mãos dadas e com os olhos fechados, enquanto murmuravam uma série de palavras desconhecidas e, apenas aquilo teria me deixado apavorada, mas ainda havia aquele fator agravante jogado no canto da sala com os olhos abertos e fixos e a garganta cortada por onde o sangue ainda escorria, formando uma poça no chão.
Eu não fazia a mínima ideia se aquela era a primeira vez que as três faziam um ritual como aquele em nossa sala, mas também não estava interessada em perguntar. Tudo o que eu sabia era que tinha que tirar Jonah daquele apartamento imediatamente, porque aquela minha arma de defesa, chamada “instinto materno”, estava praticamente gritando para que eu o afastasse dali e o mantivesse em segurança.
Dei meia volta e já estava a ponto de voltar para o quarto quando uma fumaça negra preencheu a sala e, no instante seguinte, dois homens enormes, trajando armaduras negras e espadas, que eu tinha certeza de que eram demônios, assim como Tábita, Lisandra e Brigitte, surgiram sobre o símbolo desenhado com sangue no chão.
As três mulheres se curvaram em uma reverência respeitosa e os dois homens retribuíram depositando as mãos sobre o peito e inclinando levemente a cabeça.
– O Quarto Selo Sagrado acaba de ser quebrado no Mosteiro de Montserrat. – informou uma das criaturas em um tom de voz grave, porém baixo – Os portais para o Paraíso foram, enfim, abertos e a batalha começará em breve.
– O garoto e a mãe estão no quarto. – Lisandra informou e eu senti o meu sangue congelar – Ainda não sabemos a extensão de seus dons, mas sugiro que tomem cuidado. Ele pode reagir ao se sentir ameaçado.
– Podemos lidar com o garoto.
– E quanto a mãe? – Tábita perguntou lançando um rápido olhar ao redor – Ela não facilitará o seu trabalho. Podemos nos livrar dela, antes que vocês capturem o nefilim.
– Lúcifer precisa dela viva. – o segundo demônio se pronunciou – Ele a usará caso o garoto se recuse a cumprir suas ordens ou caso Azrael decida criar problemas. A vida dela é importante no momento. Quando a guerra terminar, porém, vocês têm permissão para matá-la da forma como julgarem melhor.
Lisandra e as outras duas garotas assentiram, mas eu não fiquei ali para saber que outros planos horríveis aqueles demônios tinham para nós ou que outras informações sobre a batalha entre anjos e demônios eles tinham para compartilhar. Tão silenciosamente quanto havia chegado ali, corri de volta para o quarto e tranquei a porta ao passar, apesar de não achar que aquilo ajudaria em alguma coisa. Jonah estava deitado em sua cama, exatamente como eu havia mandado e seus olhos azuis se arregalaram de preocupação no momento em que passei pela porta.
– O que está acontecendo lá fora, mamãe? – ele sussurrou ao ver a expressão apavorada em meu rosto, mas eu não tentei lhe explicar os detalhes de todo o horror que eu havia presenciado. Simplesmente corri até a janela e abri o vidro.
– Precisamos sair daqui. – informei, dando uma rápida olhada para o pátio escuro lá embaixo, tentando calcular se seria possível descer por ali sem quebrar uma perna ou um braço.
– Temos que sair agora? – Jonah pareceu receoso – Está muito escuro lá fora, mamãe.
– Eu sei, meu amor. – Corri até o armário e peguei um casaco para nós dois, vestindo o meu apressadamente e me inclinando para fazer o mesmo com ele – Sabe o homem mau que você viu no beco aquele dia? – perguntei e ele assentiu brevemente – Lisandra, Brigitte e Tábita, trouxeram dois homens muito piores que ele para o apartamento hoje e eles querem tirar você de mim. Precisamos sair daqui agora e encontrar um lugar seguro para ficarmos até que seu pai possa nos encontrar.
– Ele vai salvar a gente?
Sinceramente, eu não sabia. Com Bryan ao lado de Lúcifer eu não sabia nem se ele próprio estava seguro, mas a minha confiança nele era inabalável. Bryan sempre cumpria as promessas que fazia, de uma forma ou de outra, e se ele havia prometido que protegeria a Jonah e a mim, então, eu acreditava nele.
– Vai sim. – respondi e conduzi Jonah até a janela – Só precisamos encontrar um bom lugar para nos esconder até lá. Ele irá nos encontrar depois. Vamos ficar bem. Eu prometo.
Jonah concordou com um aceno de cabeça e eu, rapidamente, retirei o lençol de minha cama e o da sua e os amarrei um ao outro. Então, peguei uma de suas pontas e a amarrei à pequena grade do parapeito da janela, testando sua resistência. Parecia bem firme e, mentalmente, eu agradeci às aulas da escola de escoteiro da qual participei quando era criança por me ensinarem a fazer um nós descente.
Infelizmente, porém, minha corda improvisada só era cumprida o bastante para nós levar até o parapeito da penúltima janela do prédio e, de lá até o chão, havia pelo menos uma distância de três metros de altura, mas eu não tinha tempo para pensar sobre isso.
Levei Jonah até a janela e fiz com que ele escorregasse pelo lençol até alcançar o parapeito da janela dois andares à baixo, sempre lançando um olhar para a porta trancada atrás de mim, preocupada com a possibilidade de os demônios invadirem o quarto a qualquer instante..
Quando vi que Jonah estava seguro lá embaixo, desci atrás dele, apoiando-me precariamente na pequena estrutura de concreto e então me abaixei tentando avaliar a distância restante. Dali até o chão a queda não era tão grande. Eu tinha quase 1,70 metro de altura, então, se eu me dependurasse no parapeito da janela e sustentasse o meu corpo, poderia vencer metade dela e o restante da queda não me machucaria tanto. Tomei minha decisão.
Inclinei-me para fora do parapeito da janela e sustentei meu peso, até sentir meus braços arderem pelo esforço e, então, soltei as mãos, deixando-me cair até o piso de concreto do pátio. A queda não foi realmente tão grande, mas senti meus joelhos protestarem pela altura e me desequilibrei um pouco na aterrissagem, mas me coloquei de pé rapidamente.
Na janela acima de mim, Jonah pareceu meio preocupado e quando ergui os braços pedindo, silenciosamente, que ele pulasse, consegui divisar certo receio em seus olhos azuis, mas ele respirou fundo e saltou, caindo com perfeição em meus braços, enquanto eu fazia um esforço imenso para segurá-lo sem quebrar um ou dois ossos. Ele era bastante pesado.
Quase no exato instante em que coloquei o corpo de Jonah de volta no chão, ouvi um barulho estrondoso de madeira rachando acima de nós e concluí que alguma das criaturas em nosso apartamento devia ter quebrado a porta que eu havia feito tanta questão de trancar, mas não fiquei parada ali em baixo, bem no meio do pátio escuro da Corte Del Fontego, para descobrir se eles podiam se teleportar para o solo ou se precisariam descer pela escada para nos encontrar. Segurei Jonah firme pela mão e corri o mais rápido que pude para a saída do cortiço, encontrando apenas ruas desertas e becos mal iluminados em meu caminho.
Eu não conhecia coisa alguma de Veneza, exceto as ruas onde havia ido com Lisandra enquanto procurávamos por Jonah, mas naquele momento nada disso importava. Eu só precisava me afastar da Corte Del Fontego o máximo que pudesse e encontrar um bom esconderijo para nos escondermos até Bryan pudesse vir nos resgatar. Era horrível essa sensação de ser uma donzela indefesa à espera de seu cavaleiro de armadura, mas sendo apenas uma humana aquilo era tudo que eu podia fazer, então, eu o faria da melhor forma que conseguisse.
Enquanto corríamos, o vento uivava a nossa volta e eu só conseguia ouvir o barulho dos meus pés e dos pés de Jonah batendo contra o chão de concreto de maneira rápida e ritmada. Descobri que eu me cansava muito mais rápido que ele, pois, após algumas ruas, minha respiração já estava ofegante, enquanto a dele permanecia inalterada. Até pensei em bater na porta de uma das casas pelas quais passávamos em nossa fuga e pedir abrigo, mas eu sabia que aqueles demônios não hesitariam em matar que quer que fosse para nos capturar e eu não podia colocar em risco a vida de uma pobre família inocente.
Continuei correndo com Jonah, embrenhando-nos pelas ruas estreitas de Veneza, até que encontramos um casarão em ruínas que parecia estar vazio. Dei uma olhada ao redor, constatando que água do mar estava praticamente na porta do casarão e concluí que, quem quer que morasse ali, deveria ter sido desapropriado pela prefeitura da cidade e se mudado para outro local. Não pensei duas vezes antes de pegar Jonah no colo e me equilibrar, precariamente, pela pequena placa de madeira que levava ao interior da construção, por cima da água, rezando apenas para que nenhum morador de rua tivesse se estabelecido ali, pois se aqueles demônios nos encontrassem eu sabia que sua vida estaria perdida.
Para a minha satisfação, parecia que realmente não havia ninguém ali naquela noite, então corri com Jonah, para os andares mais altos e me agachei com ele em um vão escuro que havia sob as escadas. Toda a luminosidade que tínhamos era a que entrava através das janelas sem cortinas do prédio e eu me permiti respirar um pouco, recobrando o fôlego enquanto Jonah se aninhava junto ao meu corpo.
Acho que ficamos ali, completamente em silêncio por pouco mais de cinco minutos, mas o barulho de uma vidraça quebrando nos fez sobressaltar e eu ergui o dedo indicador até os lábios, pedindo a Jonah que permanecesse em silêncio.
Por um instante não ouvimos nada além do silvo do vento através das janelas, mas logo o barulho de passos preencheu o cômodo e eu senti o terror se espalhando por meu corpo. Desejei ter trazido uma faca, um crucifixo, uma garrafa com água benta, qualquer coisa que pudesse me ajudar a lutar contra aquelas criaturas, mas eu não tinha nada além de meus próprios punhos e não hesitaria em usá-los, caso fosse necessário, mas tinha sérias dúvidas de que eles serviriam para alguma coisa.
– Jonah. – ouvi Brigitte chamá-lo e senti Jonah se agarrar um pouco mais forte a mim – Querido, sabemos que está aqui. Não iremos machucá-lo. Só precisamos que nos faça um favor.
Agarrei Jonah ainda mais apertado e respirei fundo. Ninguém ia tirar o meu filho de mim. Ninguém o usaria para qualquer propósito porque eu não permitiria.
– Vamos, Loren, apareça. – dessa vez foi a voz de Tábita que se fez ouvir – Se você se comportar será tudo muito mais fácil. Traremos o Jonah são e salvo para você. Como nos velhos tempos. Não há porque fugir.
Eu não acreditava nelas. Seja lá que destino queriam dar para o meu filho, alguma coisa dentro de mim tinha plena certeza de que não envolvia trazê-lo de volta para casa são e salvo.
Com a mão livre, tateei o chão a minha volta e consegui encontrar uma lasca de madeira que não era muito grande, mas pelo menos parecia afiada. Aquilo teria de servir. Segurei-a bem apertado em minha mão, quase ferindo minha própria palma por causa disso e aguardei. Se qualquer um deles se aproximasse demais, eu cravaria aquele pedaço de madeira em seu corpo.
Não precisei esperar muito, trinta segundos depois a figura conhecida de Tábita surgiu diante de nós na escada e eu não pensei duas vezes antes de agir. Ela murmurou um “achei vocês” repleto de diversão na voz e, no instante seguinte eu me coloquei de pé e cravei o pedaço de madeira em seu pescoço o que a fez gritar e se afastar para trás, tentando arrancá-lo de sua jugular.
Não vou dizer que fiquei surpresa por ela não ter se engasgado com o próprio sangue e se estatelado no chão como qualquer humano faria, porque eu já sabia que embora seu corpo fosse de uma garota, a criatura que o habitava não tinha nada a ver com isso.
Mais uma vez, agarrei Jonah pela mão e comecei a correr, mas não havia sequer saído do cômodo onde estava quando outras quatro figuras se postaram a nossa volta, cercando-nos completamente.
– Entregue o garoto. – ouvi Lisandra rosnar com uma voz grave e assustadora que não parecia pertencer ao seu corpo e tudo o que fiz foi puxar o corpo de Jonah um pouco mais para perto do meu, envolvendo-o completamente em meus braços.
– Você pode entregá-lo a nós por bem ou por mal, mas, de qualquer forma, nós o pegaremos. – avisou um dos demônios que havia, literalmente, brotado do chão em nossa sala de estar e eu me virei para encará-lo com toda a rebeldia que consegui achar em meio ao pavor.
– Vocês não vão tocar em um único fio de cabelo do meu filho. – alertei – Dos meus braços ele só sairá se eu estiver morta.
Os demônios a minha volta se encararam como se realmente estivessem cogitando aquela opção e eu tentei me reconfortar, dizendo a mim mesma que eles não podiam me fazer mal porque Lúcifer ainda me queria viva. Ele precisava de mim. E enquanto suas ordens não mudassem, nenhum daqueles seres maléficos me mataria.
Os demônios pareceram chegar a mesma conclusão que eu, mas isso não os impediu de avançar sobre mim e tentar tirar Jonah de meus braços à força. Senti um deles agarrar meu pulso e tentar me puxar para longe e, com a outra mão, eu agarrei o braço de Jonah com ainda mais força recusando-me a soltá-lo.
– Jonah! – gritei, enquanto Brigitte o segurava pelos ombros e tentava tirá-lo de minhas mãos, ao mesmo tempo que Lisandra e o outro demônio tentavam me fazer soltá-lo, mas logo depois uma exclamação de surpresa ficou presa em minha garganta quando o corpo de Brigitte simplesmente se incendiou e ela saiu gritando pelo cômodo, batendo as mãos pelo próprio corpo até virar apenas cinzas esvoaçantes que logo foram sopradas pelo vento frio da noite.
Olhei para Jonah e notei que seus olhos azuis, agora estavam tão negros quanto o céu lá fora e, só então, percebi que havia sido ele quem a incendiara. Aqueles eram os dons com os quais Lisandra tanto pedira aos demônios que tivessem cautela e agora eu sabia bem o porque: Jonah era capaz de feri-los mesmo sem tocá-los. Porém, no mesmo instante em que percebi que, talvez, tínhamos uma chance de nos livrar de todas aquelas criaturas, o segundo demônio que havia brotado em nossa sala de estar, saltou do teto para cima de Jonah, como se fosse um grande lagarto acertou na nuca.
O corpo de Jonah desabou no chão com um baque surdo e um grito de pavor ficou preso em minha garganta, quando Lisandra também me acertou me fazendo perder a consciência. Senti meu corpo amolecer e o braço de Jonah escapou por meus dedos, mesmo com minhas tentativas de mantê-lo preso a mim. Um instante depois, não havia nada além da mais pura escuridão envolvendo-me em seus braços.
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