Killer

43 A Arte da Guerra


Notas iniciais
Olá! Quem aí sentiu minha falta? Por favor, digam que sentiram para eu não me deprimir kkk Bem, faz muito tempo que não atualizo minhas histórias e acho que a Killer é a que está mais carente de atualizações, então, peço desculpas pela demora. Nem vou tentar me justificar porque não fiquei doente, sem computador, sem internet, nem quebrei o braço. Foi tudo uma questão de muita preguiça, falta de inspiração, vicio em um jogo de MMORPG, colocar minhas séries em dia e ler os livros que ganhei no Natal, então... bem, aqui estamos, mil eras depois, atualizando a fanfic (podem comemorar se não estiverem muito bravos). Espero que ainda tenha alguém acompanhando. Boa leitura.

[Bryan P.O.V.]

Não houve derramamento de sangue, pois anjos não sangram. Também não houve lamentos ou lágrimas porque demônios não choram. Só o que houve foi a dor, maciça e avassaladora, mas não qualquer dor, embora eu imagine que meus irmãos tenham sofrido quando as lâminas mortais de nossos exércitos perfuraram seus corpos. Não. Eu não falo dessa dor. A dor a qual me refiro é a minha própria. A dor de ver a criação de Meu Pai – Seus filhos. Meus irmãos. – tão magníficos e suntuosos, se desvanecerem diante dos meus olhos, sem que eu pudesse fazer nada. Ou pior, podendo ter feito alguma coisa, mas optando pelo descaso. Essa dor seria difícil de apagar. Quase impossível.

Alguns demônios também se perderam nessa batalha, quando os Ceifeiros finalmente perceberam que poderiam usar nossas próprias armas contra eles, mas por estes eu não lamentava. Não havia como lamentar a destruição de criaturas que existiam apenas para destruir. Não. Essas mortes não me doíam. Não me rasgavam por dentro como a morte de meus irmãos.

Aliás, eu queria poder dizer que nenhum deles teve sua existência interrompida através de minhas mãos. Queria poder encarar O Criador, quando este despertasse de seu descanso e dizer que não fui responsável pela morte de tantos de seus filhos, mas fui. E a cada uma delas foi como se eu também estivesse morrendo. Eles levaram uma imensa parte de minha alma com eles naquela noite e a única coisa pela qual eu podia agradecer era por Lorelei e Jeremyah não estarem entre eles.

— Miguel não virá até nós. – ouvi Lúcifer gritar para Leviatã quando ele tirou a vida do último dos Ceifeiros diante do Mosteiro de Montserrat – Há muito que ele e O Exército precisam proteger no Paraíso, então, acho que tentarão nos interceptar nos Portões, em conjunto com os Anjos da Fronteira.

— Acha que alguma de nossas Legiões já está no Paraíso?

— Dei ordens a todos os Lordes para começarem a batalha no momento em que abríssemos os portais, exceto Astaroth. Ele quebrará os três selos restantes, antes de se juntar a nós nessa guerra.

Leviatã assentiu e Lúcifer apontou para uma parte da montanha de onde podíamos sentir uma grande onda de energia fluindo. Muitos humanos, inclusive Loren, teriam imaginado que os portais para o Paraíso seriam como grandes cavernas iluminadas, de onde era possível ouvir o coro dos anjos com suas harpas, trompetas ou coisas assim, mas a verdade era que os portais para o Paraíso, não eram diferentes dos portais que levavam ao Inferno. Ambos eram apenas zonas de convergência entre um plano e outro, completamente fora de alcance para a humanidade e a única diferença real entre eles era o destino ao qual levavam. Nesse momento, porém, todos os destinos pareciam significar apenas morte e destruição para mim.

— É chegada a hora, irmãos. Vamos dar início a uma nova era! – Lúcifer proclamou com grande entusiasmo e, seguindo-o de perto, todos nós marchamos em direção ao portal.

A cena de guerra que encontramos do outro lado não me surpreendeu, embora tenha despertado em mim a mesma tristeza que senti quando lutamos contra os Ceifeiros no Mosteiro de Montserrat. Conforme Lúcifer ordenara e previra, as Legiões do Inferno já estavam no Paraíso, travando sua batalha nos Portões Celestiais, enquanto os Anjos da Fronteira e alguns integrantes de baixa patente d'O Exército tentavam, inutilmente, conter seu avanço.

Eu sabia que sua resistência era inútil porque eles não tinham as armas que tínhamos e, por mais bem preparados que estivessem para uma guerra, aposto que, ainda assim, foram pegos de surpresa. Nem eu imaginava que o poder bélico das Legiões de Lúcifer fosse tão forte antes de conhecê-lo. Fora isso, Andras e eu havíamos perdido muitos meses treinando cada um daqueles demônios para esta grande batalha. Quase todos os meus segredos de combate eu havia mostrado a eles e agora tudo isso seria usado contra meus irmãos e irmãs. Se houvesse uma forma de poupá-los dessa luta, eu pouparia, mas não é dessa forma que as guerras funcionam. Os inocentes são sempre os primeiros a se machucarem e esta guerra não seria uma exceção à regra.

Lúcifer acenou para Lilith.

— Abra caminho pelos Portões. – ordenou – Conduza nossas Legiões até o ninho dos Ceifeiros. Não poupe ninguém.

Suas palavras reverberam fundo dentro de minha alma, pois, por muito tempo, O Abismo também havia sido o meu lar. Eu sabia que muitos dos ceifeiros estariam na Terra, cumprindo seu papel, mas também sabia que eles voltariam quando percebessem a grande batalha que havia se instalado no Paraíso e que tentariam ajudar. Depois d'O Exército e dos Anjos da Fronteira, os Ceifeiros eram a casta mais bem preparada para uma guerra, mas eu sabia que aquilo não seria o bastante. Assim como os Ceifeiros de Mosteiro de Montserrat eles não sabiam o que os aguardava. Nenhum deles sobreviveria a essa guerra.

Lilith acenou brevemente para Lúcifer, em acordo e, depois, seus olhos dourados recaíram sobre mim. Não foi a primeira nem a segunda vez que, ao olhar para ela, senti como se estivesse tentando me contar um segredo ou me alertar sobre algo, mas, como sempre, antes que eu pudesse decifrar o que havia por trás de seus olhos, ela os desviou de mim e seguiu para os Portões Celestiais, montada nas costas de Cerberus enquanto ele abocanhava todos os anjos que estavam ao seu alcance. Sua Legião de súcubos e íncubos a seguiu de perto, massacrando aqueles que encontravam pelo caminho e, logo, a barreira dos Anjos da Fronteira foi quebrada. Eu pude ver o horror estampado em seus rostos quando eles se depararam com a fera de Lilith avançando em sua direção e não pude culpá-los pelo assombro. Os Anjos da Fronteira eram soldados bem treinados, mas até eu me surpreendi ao ver Cerberus pela primeira vez, então, não havia motivo para ser diferente com eles.

Conforme Lilith e sua Legião avançavam pela barreira de Anjos, criando brechas para as outras Legiões, os Anjos da Fronteira saíam de seus postos e, mesmo assustados com a monstruosidade de Cerberus, tentavam se reagrupar para conter seus avanços. Admirei o esforço deles e seu comprometimento com a batalha, mas me entristeci por saber que seus esforços seriam em vão e que, em breve, todos eles estariam mortos e a guerra teria se espalhado pelos Sete Céus.

— Azrael! – virei-me em direção a voz grave que ecoou à minha esquerda e vi Galgaliel voando em minha direção seguido por uma dezena de seus aliados. Por um instante, pensei que estava diante de um ataque iminente, mas não levei muito tempo para compreender que o sentimento que inundava os olhos de Galgaliel não era a ira e, sim, a esperança.

Ao longo dos anos que passei como Primeiro Capitão d'O Exército, Galgaliel e eu estivemos lado a lado muitas vezes. Ele me conhecia como a palma de suas mãos e eu o conhecia como a palma das minhas. Já o tinha visto em ação muitas vezes e lutado ao seu lado outras tantas, até mesmo na batalha que resultou na expulsão de Lúcifer do Paraíso, mas, dessa vez, porém, eu não tinha vindo até aqui em seu socorro, não estava aqui para me juntar a ele em sua luta contra as Legiões do Inferno. Não. Muito pelo contrário. Dessa vez, o único motivo pelo qual eu estava aqui era a minha vingança contra Miguel e, essa vingança, ainda que não tivesse nenhum envolvimento com os Anjos da Fronteira, resultaria na morte de todos eles.

Aquilo me entristeceu. Quantos de meus irmãos seriam sacrificados para que eu tivesse a minha vingança e para que Lúcifer tivesse a dele? Quando esta guerra terminasse eu saberia conviver com a culpa que toda essa chacina me infligiria? Era realmente correto o que eu estava fazendo? E a pergunta mais importante de todas: onde estava O Criador, enquanto Seus filhos destruíam uns aos outros?

Não tive tempo de pensar muito a respeito porque, assim que viu Galgaliel voando em nossa direção, Lúcifer se voltou para Leviatã.

— Mate todos. – ordenou e, com um breve aceno de concordância, Leviatã nos deixou para cumprir as ordens de seu superior.

Fiz menção de segui-lo, embora não soubesse se para ajudá-lo a combater os Anjos da Fronteira ou se para impedi-lo de machucar Galgaliel e seus soldados, mas não cheguei a dar um único passo antes que Lúcifer estendesse a mão para me deter.

— Deixe-os. – ele disse pousando a mão sobre a fênix prateada em minha armadura, provavelmente porque já suspeitava que minha amizade com Galgaliel interferiria em minhas ações – Leviatã é capaz de cuidar disso sozinho.

— Esse não era o nosso plano.

— Esqueça os planos, Azrael. Não somos meros soldados. Nossa missão aqui é muito maior que o extermínio de alguns Anjos.

— Não foi isso que disse a eles em todos os treinamentos que fizemos. – eu retruquei – Você disse que todos nós lutaríamos lado a lado nessa guerra, Lúcifer. Deu a eles a sua palavra e agora lhes vira as costas?

Lúcifer voltou seus olhos vermelhos para mim.

— Eles são apenas peões, Azrael. Os reis não lutam ao seu lado. Eles os enviam na frente, para que possam matar e morrer em seu lugar.

Aquilo me fez ranger os dentes. Nenhum daqueles demônios merecia a minha compaixão, mas as palavras de Lúcifer me enfureciam porque eram uma traição. Nós tínhamos feito planos. Centenas de horas perdidas em treinamentos e estratégias onde cada uma daquelas criaturas tinha dado o seu máximo para que Lúcifer pudesse ter sua guerra contra o Reino Celeste e, agora, ele os tratava como se eles não fossem nada. Meros peões em um jogo de xadrez, atirados no meio de uma guerra para matar e morrer. Eu não choraria por suas mortes, é claro, porém isso não significava que a atitude de Lúcifer fosse algo louvável.

— Então seus soldados são apenas peões? – questionei – Também é isto o que sou nessa guerra, Lúcifer? Um mero peão para os seus planos?

— Você é meu irmão. – ele me encarou com seriedade – Lutamos juntos, triunfamos juntos, Azrael. É para isso que estamos aqui. Se você fosse um mero peão eu o deixaria morrer nesta guerra como todos os outros, mas você não é. Preciso de você vivo.

— Até quando? – eu o encarei – Até que Miguel esteja morto? Aí, então, me tornarei apenas um peão em seu campo de batalha?

Os olhos de Lúcifer se estreitaram.

— Está comigo ou contra mim, Azrael?

— Estou aqui apenas porque quero Miguel morto. Não confio em você, Lúcifer. Espero que saiba disso.

— Você tem deixado isso bastante claro nos últimos meses, Azrael, mas se quer Miguel morto tem de estar comigo, então, escolha um lado. Ou o nosso ou o deles. – ele apontou para os anjos em batalha nos Portões – Não pode manter sua cabeça e sua lealdade divididos aqui.

Saber que Lúcifer tinha razão não amenizou meu desconforto com a situação. Eu sabia o que tinha de fazer e sabia de que lado tinha de estar para conseguir aquilo que queria, mas ainda havia aquela voz em minha cabeça que gritava para que eu não baixasse a guarda. Lúcifer não era confiável e eu sabia que, assim que Miguel estivesse morto, eu teria que detê-lo. O que eu não sabia era que planos ele tinha preparado para mim, até então.

— Vamos terminar o que começamos. – concluí, levando as mãos as costas de minha armadura e retirando de lá as duas espadas negras que Belfegor produzira para mim.

Se eu havia perdido seis meses da minha existência me preparando para aquela guerra, então, era isso o que eu faria. No fim, eu esperava que minhas espadas estivessem cravadas também no peito de Lúcifer, mas, até lá, eu lutaria.

— Magnífica escolha. – os olhos dele faiscaram de contentamento e ele me virou as costas, retirando sua própria espada da bainha – Vamos conquistar o Paraíso.

Então, sem dizer nada mais, ele avançou em direção ao último regimento de anjos d'O Exército, com suas armaduras douradas e escudos e deu início a um massacre. Anjo após anjo, cada um dos remanescentes da fronteira sucumbiu ao nosso ataque e, após alguns instantes de batalhas ininterruptas, onde muitos demônios também foram feridos ou mortos e onde, mais uma vez, precisei colocar um fim a vida de meus irmãos e irmãs, os Portões Celestiais foram finalmente tomados.

— É aqui que nos separamos. – disse Andras, olhando ao redor com uma expressão apreciativa. Mesmo ele sendo apenas um demônio, eu compreendia a admiração que via estampada em seu rosto porque, de fato, a imensidão das Fronteiras Celestes causava espanto – Vou ao encontro de Mammon nas Torres de Marfim e, de lá, seguiremos para O Abismo, para unir forças com Lilith, Belfegor e Belzebu, antes de nos juntarmos a vocês na Armada Celestial.

— Astaroth também estará aqui, em breve. – Lúcifer comunicou.

— Ele cobrirá a nossa retaguarda, guardando os Portões para evitar que outros Ceifeiros nos surpreendam no Quinto Céu. Muitos deles estão em missões na Terra, mas regressarão assim que souberem da batalha. – expliquei.

— Que sucumbam perante nossas armas! – Leviatã se pronunciou e foi ovacionado pelas Legiões a nossa volta, que não escondiam sua satisfação com a violência extrema e a destruição. Aquilo me causava nojo e uma profunda tristeza e eu não queria nem pensar em como seria se o universo terminasse sendo controlado por Lúcifer e por aquelas criaturas.

— Precisamos partir agora. – concluí, preferindo ignorar o comentário de Leviatã – Cada segundo que perdemos aqui é um segundo a mais que Miguel tem para se preparar. Quantos menos tempo dermos a ele e seus soldados para se organizarem, mais chances teremos de sair vitoriosos dessa batalha.

— Nossa vitória não depende dos segundos que perdemos aqui, Azrael. Estamos bem preparados e temos armas que eles jamais sonhariam em ter. Miguel e seus Anjos não têm como nos combater agora. Nosso triunfo é iminente.

— É iminente, porém, não é certo. – eu o corrigi – Vença esta guerra e, só então, terá o direito de se considerar um vencedor. Até lá, porém, lute. Nunca se sabe que truques Miguel tem preparados para nós.

— Azrael está certo. O Príncipe dos Anjos é um grande soldado e estrategista de guerra. Não podemos baixar nossa guarda com ele.

— Nem com qualquer outro anjo d'O Exército. – adverti – Os anjos que temos enfrentado, até agora, eram de divisões mais baixas. Aqueles que nos esperam no Quinto Céu não são como eles. Miguel manterá os melhores ao seu lado, portanto, todo cuidado é pouco.

— Vocês ouviram o nosso General. – Lúcifer bradou – Mantenham-se atentos e matem o maior número de anjos que conseguirem. Àqueles que se rederem – ele desprendeu uma longa corrente negra do braço de sua armadura e a ergueu diante de nós –, eu darei uma chance de jurarem sua lealdade a nós.

Os demônios se alegraram com aquilo porque, para eles, significava torturar os anjos até que eles se curvassem diante dos Lordes e de suas Legiões. Para Lúcifer, no entanto, eu sabia que as coisas não eram bem assim. Ele não queria apenas que os anjos jurassem sua lealdade, queria que eles o reconhecem como o novo Deus, algo que eu achava bastante difícil de acontecer.

— Nos reencontraremos na Armada Celestial. – Andras se despediu de nós e rumou para o Segundo Céu, ao encontro de Mammon. Eu pensava em todas as castas que seriam destruídas ali, pois os anjos nas Torres de Marfim não eram soldados. Ali viviam os anjos mais pacíficos do Paraíso e eles seriam derrotados como um rebanho de animais encurralados para o abate.

Leviatã, Lúcifer e eu seguimos diretamente para o Quinto Céu, lutando contra alguns grupos de anjos que encontrávamos pelo caminho. Eles pareciam terem sido colocados ali como barreiras, para impedir o nosso avanço, mas não estavam em quantidade suficiente para lutar contra três Legiões, então, eram derrotados com certa facilidade.

Estranhei que Miguel, sendo um mestre em estratégias de guerra como era, pudesse ter sido assim tão descuidado com suas defesas, ao ponto de desperdiçar um número considerável de soldados em barreiras como aquelas, mas assim que chegamos ao Quinto Céu descobri o porque aquilo tudo me pareceu tão estranho. Os anjos que encontramos não haviam sido enviados para impedir o nosso avanço. Eles haviam sido enviados até nós para morrer.

— O que está havendo aqui? – estaquei e me coloquei diante de Lúcifer, encarando-o com seriedade.

Às minhas costas, eu podia sentir os olhares atentos de Sarakiel e Raziel – os dois primeiros Capitães d'O Exército – sobre mim, mas não era isso que me incomodava naquele momento e, sim, a quantidade absurda de anjos acorrentados que estavam diante deles agora. Eu podia compreender o fato de que O Exército era capaz de massacrar um grande número de combatentes, mas não podia compreender o fato de que os anjos que eles haviam massacrado antes de chegarmos ali eram seus próprios soldados.

Lúcifer sorriu.

— Lembra-se de quando eu lhe disse que sempre tinha um ou dois truques guardados nas mangas, Azrael? Permita-me, então, apresentá-lo a dois de meus mais estimados aliados nessa guerra. – seus olhos vermelhos se desviaram dos meus e se voltaram para os anjos que nos observavam da porta de entrada da Armada Celestial – Sarakiel. Ruziel. – ele os cumprimentou com um leve aceno e depois voltou a olhar para mim – Eles têm sido meus olhos e ouvidos dentro d'O Exército.

— Seus olhos e ouvidos? – questionei entredentes – Há quanto tempo eles têm espionado para você?

Lúcifer pensou a respeito.

— Desde antes da sua queda. – admitiu satisfeito – Temos muitos interesses em comum.

— E quando pretendia me contar sobre isso? Se você possuía aliados de dentro d'O Exército, Andras e eu deveríamos saber. Montamos centenas de estratégias de batalha. Seus aliados representariam uma importante variável em todos os planos que fizemos.

— Oh. – Lúcifer fingiu estar decepcionado consigo mesmo – Mas o que seria de uma guerra sem uma doce e bela surpresa, não é mesmo?

Eu não respondi. Segurei-o pelo pescoço e o joguei contra a formação rochosa que se erguia às suas costas, desembainhando minha espada e apontando-a diretamente para sua garganta. No mesmo instante outra centena de espadas negras foram apontadas para mim, mas não me importei.

— Que outras grandes surpresas você preparou, hein?! Quem mais está ao seu lado nessa guerra que eu ainda não sei, hein Lúcifer? Quem são seus aliados aqui?

— Afaste essa espada de mim, Azrael?

— Responda as minhas perguntas. – insisti.

Ele revirou os olhos, contrariado e suspirou.

— Eu tenho muitos aliados. – respondeu de má vontade – Centenas de anjos das mais diversas castas que estavam insatisfeitos com a forma como Miguel controlava o Paraíso e decidiram se juntar a mim nesta insurreição. Sarakiel e Raziel são apenas dois deles e perderíamos um tempo precioso se você me pedisse para dizer o nome de todos os que estão ao meu lado nesta guerra, Azrael.

— E porque não nos alertou sobre isso? Sabe quanto dos seus aliados as outras Legiões podem ter matado enquanto batalhavam?

— Eu as alertei sobre eles. Todos os nossos aliados tinham um sinal que os identificava.

— Você os alertou? – eu estreitei meus olhos para ele – Então, eu era o único que não sabia disso?

Lúcifer bufou, furioso.

— E o que você faria se eu tivesse lhe contado, Azrael? Até chegarmos aqui você ainda estava indeciso sobre qual dos lados honrar e não é segredo para ninguém que você e Sarakiel têm uma antipatia mutua que data de eras. Eu não queria que isso influenciasse em suas decisões.

— Eu não confio em você.

— Não estou pedindo confie, mas essa é a única verdade que eu tenho a lhe oferecer, Azrael. Então, o que você quer? Invadir o Sétimo Céu e ter a sua vingança contra Miguel ou desistir de toda a luta por causa de um segredo bobo que mantive sobre os nossos aliados? – ele inclinou o pescoço para mais perto da lâmina negra em minhas mãos e me encarou, desafiador – A escolha está em suas mãos, Azrael. Escolha com sabedoria.

Admito que a vontade de decepar a cabeça de Lúcifer ardeu em minhas veias como o fogo, mas retirei a espada de sua garganta e me afastei um passo. Saber que ele havia escondido fatos tão importantes de mim só me dava um motivo a mais para não baixar minha guarda perto dele, mas eu não podia desistir da guerra naquele instante. Miguel estava em algum lugar por ali e eu ainda queria a cabeça dele. Quando isso terminasse, porém, era a cabeça de Lúcifer que eu colocaria a prêmio.

— Onde está o restante dos anjos que compõem O Exército? – perguntei, virando-me para encarar Sarakiel e Raziel. A minha volta as espadas que estavam apontadas para mim também foram baixadas e ouvi os passos de Lúcifer se afastando da rocha onde eu jogara.

Sarakiel estendeu as mãos de maneira demonstrativa.

— Estão todos aqui. – disse em seu costumeiro tom desrespeitoso que, muitas vezes, já tinham sido o pivô de nossas desavenças.

Olhei ao redor, para o pátio da Armada Celestial e, mentalmente, tentei fazer uma comparação entre a quantidade de anjos que havia ali agora e a quantidade que eu costumava encontrar quando ainda era um Capitão. Havia muitos anjos acorrentados em bando no chão e outra centena deles de pé, atrás de Sarakiel e Raziel, mas embora parecessem uma tropa numerosa nem se comparava com a quantidade de soldados que O Exército possuía de verdade.

— Esses não são todos os anjos. – afirmei – O Exército é numeroso e nem metade dos seus soldados está aqui.

Um sorrisinho se instalou nos lábios de Sarakiel e ele desceu as escadas diante da porta de entrada da Armada e caminhou em minha direção.

— Deixe-me pensar. – disse pousando o indicador sobre o queixo – Enviamos alguns regimentos para ajudarem os Anjos da Fronteira a impedirem a sua entrada no Paraíso. Já que conseguiram entrar, então, creio que todos esses anjos estejam mortos. Também enviamos alguns regimentos para interceptá-los em seu caminho até aqui, mas como vocês estão aqui agora, então, também acho que esses anjos estejam mortos.

— De quem partiu a ordem para enviá-los até nós?

— Ora, você já foi mais inteligente, Azrael. – Raziel zombou – Vê alguém de patente mais alta que a nossa por aqui?

— O que fizeram foi homicídio. – afirmei – Sabiam que aqueles anjos não sobreviveriam. Os enviaram para que nós os assassinássemos durante a batalha.

— Preferiam assassiná-los aqui? – Sarakiel apontou para o Pátio a sua volta – Não importa onde aqueles anjos morreram, pois o destino que os aguardava seria o mesmo aqui ou lá. Eles eram fiéis ao Altíssimo, a Miguel. Teriam de ser sacrificados.

— Então foi isso que fez com o restante dos anjos aqui? Aqueles que não concordaram com a traição foram assassinados? Presumo que os anjos de pé a sua volta estejam de acordo com essa guerra. O que me leva a perguntar: porque estes estão acorrentados? – indiquei os anjos no chão com um aceno de cabeça.

— Em uma guerra, sempre haverá aqueles que se renderão e aqueles que lutarão até a morte por seus ideais. Estes anjos se renderam. – Raziel apontou para os anjos acorrentados – Estes desejam lutar ao nosso lado. – ele apontou para aqueles que estavam de pé a sua volta – Os demais são aqueles que decidiram lutar até a morte. Como pode ver, eles perderam. – um sorriso maléfico se formou em seus lábios.

— Onde está Miguel?

— Ele partiu para o Éden com os outros Capitães e Dois Ceifeiros. Sarakiel e eu ficamos responsáveis pela defesa da Armada Celestial.

— E, então, aproveitaram a oportunidade para fazer um massacre.

— Facilitamos o seu trabalho. Foi para isso que Lúcifer nos recrutou. – os olhos de Sarakiel se voltaram para o Rei do Inferno de pé ao meu lado e eu fiz o mesmo.

— Quero Sarakiel, Raziel e seus anjos fora daqui. – ordenei – Coloque-os nos Portões junto com Astaroth e Mammon. Mantenha Belzebu e Belfegor n'O Abismo e traga Lílith e Andras para cá.

— Porque?

— Porque estou exigindo. – eu me aproximei um pouco mais de Lúcifer e o encarei com toda a seriedade e fúria que eu possuía – Se quer que eu lute contra Miguel, estas são as minhas condições.

Ele me observou por meio segundo, avaliando a vercidade de minhas palavras e, rapidamente, tomou sua decisão.

— Leviatã, peça a alguns de seus soldados para conduzirem Sarakiel e Raziel até os Portões. Verifique se a batalha está sob controle nas Torres e n'O Abismo e traga Lilith e Andras, até aqui. Avise a Belzebu e Belfegor para se dirigem até lá e para não deixarem seus postos.

— Sim, Milorde. – Leviatã depositou uma mão sobre o peito e se apressou em enviar seus soldados para cumprir a tarefa.

— O que vem agora? – Lúcifer questionou quando Sarakiel, Raziel e seus anjos começaram a deixar a Armada na companhia de alguns demônios.

Encarei as portas douradas que levavam ao Quartel General d'O Exército e guardei uma de minhas espadas.

— Agora nós seguimos para o Sexto Céu e você usa as mágicas que aprendeu, enquanto estudava as tábulas da Arca Negra, para que cheguemos ao Éden. Depois disso, eu cuidarei de Miguel.

Notas finais
Bem, minha gente, espero que tenham gostado do capítulo e que estejam ansiosos pelo próximo. Posso dizer que muitas surpresas os aguardam no próximo capítulo e acho que também posso dizer que Killer já está bem próxima do fim, embora eu não saiba dizer quantos capítulos faltam, exatamente, para a história terminar. Vou tentar não demorar muito para postar o próximo capítulo, mas vocês já sabem que eu tenho outras quatro histórias para atualizar, então, talvez o meu "não demorar muito", não seja igual ao de vocês rsrs. Vejo todos vocês em breve. Beijos e mais beijos.