Killer
14 Mais Que Um Sonho
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
Eu estava sonhando.
Sei que é estranho dizer isso, pois geralmente as pessoas não sabem que estão sonhando até estarem totalmente despertas, mas antes mesmo de acordar eu já tinha plena certeza disso.
Por quê? Porque aquela não era a primeira vez que eu tinha aquele sonho. Ele já me atormentava há muito tempo.
No sonho eu estava parada no meio de um longo corredor vazio e mal iluminado e cujas paredes eram pintadas de branco e já estavam descascadas em alguns pontos. Não havia nada ali exceto um par de grandes portas brancas e, acima delas, havia uma placa azul onde era possível ver apenas três letras escritas em uma cor branca já desbotada: UTI.
Andei até as portas e parei encarando-as por um segundo. Eu nem precisaria abri-las para saber o que havia atrás delas, mas por rotina respirei fundo e as empurrei, encontrando exatamente aquilo que eu já esperava encontrar.
Dentro da sala havia outra eu parada ao lado da cama hospitalar onde minha mãe gemia de dor, enquanto um médico de feições sérias a examinava. Eu nem sei se podia mesmo chamar aquilo de sonho, pois aquilo era, na verdade, uma lembrança. A última lembrança que eu tinha de minha mãe e que revivi algumas vezes nos últimos anos enquanto dormia.
Aquela lembrança estava gravada em minha mente de tal forma que eu já sabia de cor tudo o que aconteceria em meu sonho dali em diante.
O médico terminaria sua avaliação e me diria que não havia mais nada que pudesse fazer por minha mãe e que era apenas uma questão horas até que o organismo dela parasse de tentar resistir e ela morresse. Depois disso, ele se retiraria da sala e eu me debruçaria, aos prantos, sobre a cama de minha mãe e a abraçaria até que o tempo de meu horário de visitas acabasse, e então sairia dali para mais tarde receber a notícia de que ela havia falecido.
Era sempre assim que tudo acontecia e eu já estava preparada para reviver aqueles momentos mais uma vez quando observei, tristemente, o médico se retirar da sala e a outra eu se debruçar sobre a cama de minha mãe e abraçá-la. Entretanto, algo diferente aconteceu.
Ao invés de apenas chorar por longos minutos, a outra eu aproximou os lábios do ouvido de minha mãe e cochichou alguma coisa para ela, antes de beijar-lhe a testa de forma cálida e se levantar.
Eu observei a cena intrigada. Eu havia sonhado com aquele momento mais vezes do que podia contar e em nenhuma delas aquilo tinha acontecido. Sabia que os sonhos eram passíveis de mudanças, mas aquele sonho não deveria mudar, pois era fruto de uma situação real e inalterável. Então havia algo muito estranho acontecendo ali.
Aproximei-me um pouco mais da outra eu, que agora estava diante da janela do hospital, encarando o por do sol avermelhado daquele dia e quase gritei, quando ela virou-se abruptamente para mim.
– Acho que já é o bastante. – disse ela.
Por um momento cheguei a pensar que ela falava comigo, mas notei que seus olhos pareciam focalizar algum ponto logo atrás de mim, então me virei e segui seu olhar sem encontrar nada além da parede branca e velha da sala. Ela, por outro lado, parecia sentir a presença de alguém mais ali, pois seguiu para o centro do quarto e olhou em volta como se procurasse por algo.
– Eu sei que você está aí. – ela voltou a falar – Não posso te ver, mas sei que está aí e sei que pode me ouvir. Então, não seja covarde e apareça.
Ambas esperamos e, assim como ela, eu olhei em volta procurando por algo que eu não sabia bem o que era. Um tempo depois a outra eu desistiu de esperar e olhou para o chão de forma triste.
– Você não vai aparecer, não é? – perguntou ela de forma retórica – Tudo bem, não precisa. Eu só quero fazer um pedido. Agradeceria se me escutasse.
Ela ergueu a cabeça e me surpreendi ao ver seu rosto tomado por lágrimas. Já é incomodo ver alguém chorar... Ver a si próprio chorar é ainda pior, pois a sensação é muito confusa. É como se você estivesse, ao mesmo tempo, chorando e querendo se consolar. Um loop estranho envolvendo dois seres que são um só, separados apenas pelo fino véu entre sonho e realidade. Era algo inexplicável.
– Ela está sofrendo. – disse a outra eu apontando para a cama de minha mãe – Eu a amo muito e gostaria de poder salvá-la, mas já não sei se isso é possível. Então, quero a sua ajuda. – sua voz falhou por um momento e as lágrimas se tornaram mais intensas – Se não puder fazer nada por ela... Por favor, não a deixe sofrer mais. Esta agonia é pior que a morte, então... Acabe logo com a dor dela e a deixe descansar.
Senti um peso atingir meu coração e, logo em seguida, era eu quem estava chorando. Aproximei-me da cama de minha mãe e tentei tocar seu rosto sem sucesso. Eu era apenas um fantasma em todo aquele contexto. Não pertencia àquele momento e, assim sendo, não conseguia tocar em nada.
Minha mãe se remexeu na cama inconsciente e um suspiro sôfrego escapou de seus lábios ressecados. Era evidente que a cada segundo que se passava até mesmo respirar se tornava mais doloroso para ela. Pensei em quanto ela ainda sofreria até que finalmente sua dor chegasse ao fim, pois eu sabia que ainda demoraria algumas horas para que isso acontecesse.
– Por favor. – a outra eu suplicou, pondo-se de joelhos – Você sabe que pode amenizar todo o sofrimento dela. Eu te imploro, Anjo.
Desviei o olhar de minha mãe e me concentrei naquela versão de mim ajoelhada no chão aos prantos, sem saber o que pensar. Em todas as vezes que eu tivera aquele sonho ele tinha sido o mesmo, do início ao fim, mas tudo havia mudado de uma forma que fugia do controle. Eu já não conseguia entender o que estava acontecendo ali, mas antes que eu pudesse fazer qualquer suposição, minha mãe voltou a suspirar profundamente e, um segundo depois, o aparelho que media seus batimentos cardíacos começou a apitar.
Voltei-me para ele, assustada e vi todos os relevos em seu monitor se transformarem em uma linha fina. Minha mãe estava morrendo e aquilo não fazia sentido algum, pois ela não deveria morrer agora. Não era assim que eu me lembrava.
No mesmo momento em que me desesperei, vários médicos entraram na sala apressados e trabalharam para tentar reanimar minha mãe, esquecendo-se até mesmo de que “eu” ainda continuava no canto da sala observando tudo em silêncio. Quinze minutos depois toda a atividade na sala havia cessado e tudo o que ouvi, antes de ser brutalmente arrancada do sonho, foi a voz grave do médico anunciando a hora da morte de minha mãe e a outra eu sussurrar um “obrigada” no canto da sala.
– Não! – gritei desesperada ao abrir os olhos.
No mesmo instante senti minha cabeça girar e uma grande ânsia de vômito me atingir. Virei-me para o lado e meu movimento brusco fez com que a maca onde eu estava deitada tombasse.
Meu corpo despencou no chão, arrastando consigo alguns aparelhos que estavam conectados a mim por meio de fios e uma dor dilacerante atingiu meu corpo, quase me fazendo perder a consciência por um instante.
Foi Terry Steves quem entrou na enfermaria para me socorrer.
– Fique calma, garota. Calma. – disse ele para mim – Eu vou te tirar daí, ok?
Assenti debilmente e então Terry começou a desconectar os fios de meu corpo e depois levantou a maca e me pegou no colo, com cuidado, recolocando-me sobre ela novamente, enquanto Janete Müller e Isaac Sparks adentravam na sala.
– O que houve? – Janete perguntou em um tom ligeiramente preocupado.
– Ela caiu da maca. – Terry respondeu enquanto me analisava – Eu ouvi o barulho e os gritos e corri para cá.
Isaac e Janete se entreolharam por um breve instante, parecendo trocar algumas informações com os olhares e depois Janete assentiu levemente e se aproximou de minha maca, olhando-me com curiosidade.
– Está totalmente consciente? – perguntou, mas a pergunta foi dirigida a Terry e não a mim.
– Creio que sim. Só está um pouco fraca. – ele respondeu e, então, Isaac, o diretor do Saint Auguste, aproximou-se cautelosamente de mim.
– Srta. Schinnyder? – ele me chamou em um tom baixo – Consegue me ouvir?
Eu assenti levemente, porque minha cabeça ainda girava um pouco por causa do pesadelo e da queda.
– Você sabe onde está? – ele perguntou, recebendo apenas outro breve aceno de minha parte – E consegue se lembrar do que fez ontem a noite?
Tive que parar para pensar um pouco, porque minha mente estava confusa demais e eu não sabia bem o que poderia ser considerado a noite de ontem ou a manhã de hoje. Na verdade, eu nem sabia que horas eram.
– Do que exatamente o senhor está falando? – perguntei com certa dificuldade. Assim como minha cabeça parecia girar, meu estômago seguia a mesma linha.
– Você foi encontrada ferida em seu quarto ontem à noite. – Janete explicou – Os guardas ouviram seus gritos e quando abriram a porta te encontraram desacordada e caída no chão, com um corte profundo na cabeça e uma bagunça enorme em todo o quarto. Até mesmo uma parte da cama estava quebrada.
Eu a encarei tentando me concentrar. Enquanto ela explicava, as cenas começavam a se arrumar em minha mente. Toquei o curativo em minha testa e depois as ataduras que cobriam minhas costelas antes de me virar para Isaac, que me encarava com um misto de curiosidade e desconfiança.
– Pietro me atacou. – eu disse em voz baixa, ainda tentando organizar meus pensamentos – Ele queria me matar.
Houve uma grande troca de olhares interrogativos entre Isaac, Janete e Terry, antes de Janete se virar para mim, confusa.
– O que disse?
– Eu disse que Pietro me atacou. – repeti.
Pela cara com que eles me olhavam estava claro que não acreditavam em mim. Era provável que dobrassem a dose de meus medicamentos achando que meu estado mental estava ainda mais deplorável do que imaginavam, mas isso não me intimidava. Eu sabia bem o que tinha visto e Pietro realmente havia tentado me matar.
– Está me dizendo que seu amigo... Aquele a quem você matou antes de vir parar aqui, esteve no seu quarto ontem à noite e tentou matá-la? – Isaac interrompeu meus pensamentos.
– Sim. – respondi – E ele teria conseguido se não fosse pelo An...
Eu me interrompi.
Era nessa parte em que até eu começava a duvidar de minha história. Anjos? Isso não podia ser real, podia?
Minha mãe costumava me fazer rezar para o Anjo da Guarda todas as noites antes de dormir e eu tinha fé neles. Isso, porém, foi antes de ela morrer e antes de tudo de ruim começar a acontecer na minha vida. Depois disso, Anjos se tornaram, para mim, não mais que meras anedotas contadas para enganar crianças e pessoas fracas de espírito.
– Se não fosse pelo que, Srta. Schinnyder? – Isaac insistiu em saber.
– Tinha alguém no meu quarto ontem. – eu disse franzindo o cenho – Um garoto.
– Um garoto? – Janete indagou, visivelmente descrente.
– Sim. Eu já o vi aqui outras vezes. – afirmei – Ele é alto, tem cabelos negros e olhos muito azuis. Seu nome é Bryan.
Outra troca de olhares interrogativos e então foi Isaac quem tomou a palavra para si.
– Conte-me mais sobre esse tal Bryan. – pediu ele.
Fiz uma pausa tentando me lembrar tudo o que sabia sobre Bryan. Não era muita coisa.
– Ele estava no quarto branco comigo quando vocês me prenderam lá e também na Ala de Convivência durante a minha recreação. Usa roupas brancas como todos os pacientes daqui e é bom em xadrez. Ele estava no meu quarto ontem, me salvou do Pietro e... Tinha asas. – respondi, dizendo as últimas palavras em voz baixa.
Isaac olhou para Janete e fez sinal para que ela o acompanhasse, enquanto se retirava da sala.
– Vocês acham que eu sou maluca, não é? – perguntei a Terry Steves, que agora se concentrava em arrumar os fios e agulhas que havia tirado de meu corpo.
– Achamos que todos os internos são malucos. – respondeu ele – Há um motivo para estarem aqui e o motivo é esse.
– Pode me responder uma coisa com toda a sinceridade? – perguntei, apoiando-me em meus cotovelos.
Minha pergunta o surpreendeu e também pareceu incomodá-lo, mas ainda assim ele olhou para mim e assentiu silenciosamente.
– Você me acha forte? – perguntei e, sem nenhuma cerimônia, ele riu.
– Não.
– E você? – questionei – Você se acha forte?
Ele me olhou de esguelha.
– Que tipo de perguntas são essas?
– Apenas responda. – pedi, quase suplicante – É importante para mim.
– Levanto oitenta e cinco quilos. – ele deu de ombros – Acho que sim.
– E você conseguiria arrancar a grade de aço de uma das camas que há aqui?
Ele riu novamente.
– A menos que eu me esforçasse muito e tivesse uma grande habilidade, não.
– Então, como acha que eu consegui fazer aquilo? – indaguei – Eu não sou mais forte que você e, com certeza, não sou mais habilidosa.
– Você conhece algum louco? – Terry perguntou – Não alguém que faça coisas estranhas e que você considere loucura. Alguém realmente louco.
Eu pensei um pouco.
Minha foi internada em um hospício depois da decepção que teve ao descobrir que meu pai a traía e ela era considerada louca por todo mundo do nosso bairro, mas eu não sabia se ela era um bom exemplo para isso.
– Não. – respondi apenas – Por quê?
– Pessoas loucas não conhecem limites. – Terry explicou sentando-se em uma cadeira que havia ao lado de minha maca – A demência faz com que o cérebro delas simplesmente esqueça a ideia de que o corpo não suporta e nem é capaz de certas coisas. Você sabe que o cérebro é responsável por tudo, não é? E se o seu cérebro lhe diz que você tem força o bastante para arrancar a grade da cama, a chance de você conseguir arrancá-la é bastante alta.
– Meu cérebro pode me dizer que sou capaz de voar, mas se eu pular de uma janela eu morro. – retruquei.
– Eu disse que a chance de sucesso é alta e, não, totalmente certa. – ele se defendeu.
– Então você acha que eu conseguiria arrancar aquela grade?
– Acho apenas que não havia ninguém mais naquele quarto além de você e eu não acredito em anjos ou fantasmas, então, não me restam muitas opções além de aceitar o fato de que você seja uma garota doida e forte. – ele se levantou – Mas se quer um conselho, sugiro que não fale muito sobre essas coisas que você costuma ver. Para você elas podem ser reais, mas Janete e Isaac só vão usá-las para provar ao mundo que você é um perigo para sociedade e te trancafiar aqui pelo resto da vida.
– Está tentando me ajudar a sair? – perguntei.
Terry olhou para mim e sacudiu a cabeça de forma negativa.
– Ninguém sai daqui. – disse ele – Esse é apenas um conselho que pode te ajudar a sofrer menos.
Ele voltou a arrumar os equipamentos que eu havia derrubado e me concentrei em meu estranho sonho.
Depois dele, minha mente estava absurdamente conturbada. Era como se houvesse duas vidas em uma só lembrança e isso me deixava confusa. Durante anos a lembrança que eu tinha sobre a morte de minha mãe tinha sido a mesma, mas agora tudo havia mudado.
Minhas lembranças antigas pareciam ficar cada vez mais translúcidas, enquanto as outras ficavam cada vez mais fortes, como se minha mente estivesse se alterando aos poucos.
Havia muitas coisas das quais eu tinha dúvidas, mas agora algumas pequenas certezas afloravam em mim.
Primeira: Pietro havia estado em meu quarto e havia tentado me matar.
Segunda: as lembranças que eu tinha sobre a morte de minha mãe, não eram tão certas quanto sempre achei que fosse.
E terceira: eu precisava descobrir se Bryan realmente era real ou não.
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