Killer
2 Lembranças
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
– Porque a trouxe para cá? – perguntou uma voz nervosa, acima de mim.
– O que queria que eu fizesse? Eu não podia deixá-la lá. – defendeu-se outra.
– Porque não a levou a um hospital ou algo do tipo? Tinha que trazê-la justamente pra cá?
– Foi a única coisa em que consegui pensar, Jeremyah.
Houve uma longa pausa, enquanto o dono da primeira voz parecia pensar no que fazer a respeito.
– Ela é responsabilidade sua agora. – disse ríspido.
Ouvi passos rápidos e, logo em seguida, um barulho de porta abrindo e fechando, mas nada daquilo fez sentido pra mim. Tentei me lembrar do que acontecera comigo e, num sobressalto, a imagem do corpo dilacerado daquele garoto passou por minha mente de novo. Lembrei-me também da tempestade horrível que caía no momento em que o encontrei, mas agora já não havia chuva ali.
Abri os olhos assustada.
Eu estava em um quarto estranho, de paredes rústicas e enegrecidas pelo tempo. A janela estava coberta por farrapos de cortinas também negros, mas que pareciam ter sido de outra cor há um bom tempo atrás. Não havia muita claridade ali, apenas alguns raios do sol que atravessavam os rasgos da cortina negra e deixavam alguns pontos de luz pelo lugar.
Eu estava deitada sobre uma cama desconfortável, coberta por lençóis encardidos e empoeirados e, ao lado, havia um criado mudo velho, com um abajur que parecia ter saído do século passado. Havia também um guarda roupas, uma pequena mesa com duas cadeiras e uma estante com livros, todos no mesmo estado em que se encontrava o criado mudo. Alguns vasos que, em uma época muito distante, pareciam ter contido flores enfeitava o lugar e uma poltrona de aparência confortável, porém antiga, estava do outro lado do quarto.
Era um quarto horrível, eu sabia disso, mas esse fato era quase imperceptível quando se levava em conta a obra prima que estava sentada na poltrona.
– Olá. – disse o garoto, desviando a atenção do livro de capa negra e antigo que estivera lendo, para mim.
Ele era, sem dúvida, a coisa mais linda que eu já tinha visto. Possuía lindos olhos azuis, cabelos negros que lhe caíam sobre os olhos e que combinavam perfeitamente com sua pele branca e imaculada e, apesar de eu achar o estilo "roqueiro gatinho usando jaqueta de couro" a coisa mais clichê do mundo, eu tinha que admitir que ele era bem sedutor.
– Você está bem? – ele perguntou, sério.
Não respondi imediatamente, pois ainda estava fascinada por sua beleza, mas ele aguardou em silencio enquanto eu me recuperava.
– Estou. – respondi, por fim – Mas que lugar é esse?
– Minha casa. – ele respondeu calmamente e eu olhei ao redor de novo.
A casa era horrível. Velha e super mal conservada e, ainda por cima, tinha aquela pegada de local mal assombrado onde ninguém gostaria de passar a noite. Será que ele realmente morava ali ou estava apenas brincando comigo de alguma forma? Eu não saberia dizer. Aliás, dado o estado em que a “casa” se encontrava, eu não saberia nem mesmo dizer onde ficava aquele lugar. Então decidi partir para algo mais óbvio e de grande importância:
– Quem é você? – perguntei.
O garoto não respondeu, apenas sorriu. Não era um sorriso alegre, nem gentil, embora ele realmente parecesse se divertir com algo que eu ainda não podia ver e aquilo me deixou confusa.
– Você não precisa saber. – ele disse, finalmente. – Vamos embora.
– O que? – franzi a testa confusa – Embora? O que quer dizer com isso?
– Você não mora aqui, então, irá embora. – ele respondeu fazendo sinal para que eu saísse da cama. – Não é uma lógica tão difícil de entender, é?
Não respondi e, tão pouco, me movi. Na verdade, não é que eu não quisesse me mover, pois eu queria muito sair correndo daquela casa, mas minhas pernas simplesmente não me obedeciam.
– Vamos logo. – disse ele e sua voz não tinha um tom ameaçador, apenas impaciente, mas me deixou ainda mais paralisada – Levante-se.
Apenas continuei olhando para ele, pois eu não estava entendendo nada daquilo. Eu havia acabado de acordar – depois de uma noite de terror –, numa casa estranha e com um cara que eu nunca havia visto na vida. Não acho que pedir algumas explicações seria pedir muito.
– Quem é você? – perguntei de novo.
– O cara que salvou sua vida. – ele respondeu, seco.
Inicialmente não compreendi, mas então me lembrei do corpo ensanguentado no qual eu havia tropeçado anteriormente e meus olhos se arregalaram.
– Aquele garoto! – exclamei voltando, finalmente, a ter controle sobre minhas pernas – Você viu o corpo? Estava lá?
– Sim. – foi tudo o que ele respondeu, mas aquilo não bastava pra mim. Alguém havia sido assassinado e eu tinha encontrado o corpo. Se ele sabia de algo e havia salvado minha vida, como dissera, eu precisava saber também.
– O que houve com aquele cara? – insisti – Você viu quem fez aquilo?
Ele não respondeu a nenhuma de minhas perguntas. Apenas revirou os olhos, impaciente.
– Levante-se e vamos embora. – ele repetiu – Agora..
Cruzei os braços e não sai do lugar. Eu não iria a lugar algum sem saber o que havia acontecido e se fosse preciso criar raízes e me grudar àquela cama para que isso acontecesse, então que fosse. Eu permaneceria ali até que ele me desse explicações. Essa atitude desafiadora, porém, só serviu para irritá-lo mais e, dessa vez, ele não pediu novamente que eu me levantasse. Simplesmente me pegou pelo braço e me forçou a me levantar e segui-lo.
– Me solte, seu idiota, ou eu vou chamar a polícia! – gritei.
Ao ouvir meu protesto, ele parou e me olhou nos olhos com seriedade.
– É mesmo? – perguntou – Ótimo. Então, comece a gritar agora. Ninguém vai ouvir você.
E ao dizer isso, ele me arrastou até a porta, abrindo-a em seguida para que eu visse onde estávamos.
Meu coração saltou em meu peito no momento em que descobri nossa localização, pois, de fato, ninguém me ouviria. Não ali.
Nós estávamos na casa da colina. A mansão onde diziam que a família Knust havia morado quando fugiu da Alemanha, ao final da Segunda Guerra Mundial. Na cidade comentava-se que os Knust eram nazistas e que haviam se mudado para Trevolts quando Hitler foi finalmente detido.
A família knust era formada pelo Sr. Heinz Knust, sua esposa e um casal de filhos e todos diziam que eles nunca falavam com ninguém da cidade e que, raramente, saíam da casa da colina, onde moraram por vários anos, até serem encontrados todos mortos no porão, amarrados ao teto e com os rostos retalhados.
Entretanto quando se perguntava o que havia acontecido com a família ninguém sabia explicar, pois a polícia nunca conseguiu encontrar nada que levasse a resolução do caso. Todos ali só sabiam que, depois de tal fato, nenhum morador da cidade ousou se aproximar da casa, pois os mais antigos diziam que os espíritos da família ainda continuavam por lá, assombrando a velha casa e, assim, a mansão dos Knust ficou abandonada desde então.
A casa estava caindo aos pedaços e o mato alto se estendia por todo lado, até se unir com a floresta densa que separava o casarão do antigo cemitério da cidade e dos bairros mais afastados do centro. Quilômetros e mais quilômetros me separavam de Trevolts, eu poderia gritar e espernear e ainda assim seria inútil.
Olhei assustada para o garoto que segurava meu braço, com certa violência, e um brilho cruel passou por seu olhos.
– Entendeu agora? – ele disse, parecendo satisfeito ao ver a expressão de terror que dominava o meu rosto – Não adianta gritar. Ninguém vai te ouvir aqui.
– Você vai me matar. – era para ser um questionamento, mas se tornou uma afirmação quando minha voz falhou por causa do medo.
Mais uma vez ele não respondeu e isso me deu uma certeza. O garoto que eu havia encontrado durante a tempestade havia sido assassinado brutalmente e algo me dizia que eu estava para enfrentar o mesmo destino.
Comecei a lutar desesperadamente para me libertar das mãos daquele garoto, mas foi um esforço inútil. Apesar de não parecer ser muito mais velho que eu, ele era, com certeza, muito mais forte que eu e não havia nada que eu pudesse fazer para me libertar dele.
– Me larga! – gritei diversas vezes, enquanto ele me arrastava em direção a floresta – Por favor, eu não quero morrer. Me deixe ir.
Entretanto ele pareceu nem ouvir minhas súplicas. Apenas apertou ainda mais meus braços e continuou a me conduzir floresta adentro, completamente indiferente ao meu desespero e às lágrimas que, agora, escorriam por meu rosto.
Estávamos mais ou menos na metade da floresta quando ele parou e, de repente, me encostou contra uma das grandes árvores ali.
– Consegue encontrar o caminho de volta pra casa daqui? – perguntou ele, me encarando.
Não consegui responder. Apenas me mantive de cabeça baixa, pois meu cérebro não conseguia processar o que ele estava querendo dizer. Ele iria me soltar? Era isso?
– Vamos, responda. – ele ergueu meu queixo e me fez olhar em seus olhos.
Não foi um gesto carinhoso e deveria ter me deixado ainda mais apavorada, mas não foi o que aconteceu. Ao olhar tão profundamente em seus olhos, algo dentro de mim se acendeu. Uma lembrança, talvez? Eu não sabia dizer, mas sentia que já tinha olhado dentro daqueles olhos azuis antes, embora eu não soubesse quando ou onde.
– Eu conheço você. – disse apenas.
Minhas palavras o pegaram de surpresa e ele se afastou um pouco e me olhou intrigado, por alguns segundos. Essa atitude me deu ainda mais certeza de que aquela sensação era verdadeira e senti a coragem, que eu havia deixado na casa da colina, voltar a correr por minha veias.
– Quem é você? – perguntei, avançando para mais perto dele, ainda olhando em seus olhos – De onde nos conhecemos?
– Você não me conhece. – ele respondeu rápido demais.
– Mentira. Eu sei que te conheço. – insisti, tomada por uma adrenalina súbita – Quem é você?
– Não seja idiota. – ele segurou meu pescoço e, com certa brutalidade, me jogou novamente contra o tronco da árvore onde eu estava encostada momentos antes.
Senti o tronco pressionar minhas costas e o ar fugiu de meus pulmões, deixando-me sem fôlego.
– Eu sei... Que conheço... Você. – disse eu novamente, de olhos fechados e tentando ignorar a falta de ar e a dor em minhas costas.
Dessa vez ele não disse nada. Senti sua mão escorregar de meu pescoço e parar em minha cintura e, logo depois, senti seus lábios macios se chocarem contra os meus, mas nem tive tempo para pensar no que estava acontecendo ali. Meu corpo parecia ter controle próprio e reagia, mesmo sem minha permissão, ao toque daqueles lábios, tornando-se cada vez mais sedento por aquele beijo. Ergui as mãos para tocar seu rosto, mas antes que eu o alcançasse ele segurou meus pulsos e os levou de volta para os lados de meu corpo, prendendo-os ali, antes de seus lábios encerrarem o contato com os meus.
Abri os olhos e encarei aqueles olhos azuis.
– Você sempre me faz perder o controle, Loren. – disse ele, soltando meus braços e se afastando novamente.
Ouvi-lo dizer o meu nome fez meu interior se agitar. Eu realmente o conhecia.
– Quem é você? De onde nos conhecemos? – perguntei calmamente.
Ele olhou para mim, mas não respondeu e aquilo me deixou impaciente. Cruzei os braços e o encarei séria.
– Ah, qual é cara! Você acabou de me beijar, sabe o meu nome e ainda não quer me dizer de onde nos conhecemos ou quem é você?
– Você está muito mal educada para alguém que está na sua posição. – ele retrucou, mas ao invés de sério pareceu quase brincalhão.
Ele tinha razão, mas depois daquele beijo eu já me sentia em posição de fazer exigências.
– Vai me dizer ou não? – perguntei por fim.
– É uma longa história...
– Eu quero saber. – eu o interrompi.
– Você não precisa saber. – ele sentenciou.
– Custa me dizer apenas isso?
– Custa.
– Bryan! – exclamei, mas parei em seguida tapando a boca com as mãos, horrorizada.
O que eu havia dito?
A surpresa do garoto foi igual a minha e ele me olhou confuso.
– Ainda lembra o meu nome? – perguntou, me encarando com curiosidade.
– Não. – respondi ainda em choque e era verdade. Eu não me lembrava. Ou pelo menos eu achava que não me lembrava – Então, esse é o seu nome?
– Sim. Mas como você...
Ele não terminou a frase e continuou me encarando daquela forma constrangedora. Eu não gostava de ter alguém me analisando, principalmente alguém que eu, de certa forma, não conhecia.
– Do que mais você se lembra, Loren? – ele perguntou, pegando-me de surpresa.
– Não me lembro de nada.
– Você se lembra do meu nome.
– Eu não... – pensei em negar aquela afirmação, mas de fato eu havia dito o nome dele, mesmo sem entender como eu sabia aquela informação. – Apesar de me lembrar, eu não sei como me lembro. – respondi, por fim.
Ele parou por um segundo, analisando a situação e, então, voltou a se aproximar de mim, prendendo-me novamente contra a árvore.
– Isso vai facilitar as coisas. – disse calmamente e eu tentei lutar contra a estranha parte de mim que desejava que ele me beijasse de novo.
– Facilitar o que? – perguntei confusa.
– Você precisa esquecer.
Ao dizer aquilo ele voltou a me olhar nos olhos e vi que sua pupila se dilatou a tal ponto que toda sua íris se tornou negra. Meu corpo travou e tudo o que eu conseguia fazer era encarar aqueles olhos negros como a noite. Logo em seguida, toda minha mente caiu na mais profunda escuridão.
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