Killer
3 No Escuro
Notas iniciais
[Loren P.O.V]
– Loren? – ouvi uma voz masculina rouca soar distante.
Abri os olhos, mas os fechei rapidamente por conta da claridade intensa que fazia doer minha cabeça.
– Acho que ela ainda não está em condições de falar. – disse outra voz masculina já mais próxima.
Fiz outra tentativa de abrir meus olhos para saber quem falava comigo, mas novamente a claridade me cegou.
– É melhor tentarmos outra hora. – decidiu-se a primeira voz – Voltaremos mais tarde.
Ouvi passos rápidos e o ranger de uma porta e tentei novamente abrir os olhos devagar. Inicialmente as coisas estavam borradas, mas aos poucos foram voltando a ter foco. Percebi então que estava num quarto de hospital, cercada por Anne e meu pai num canto mais afastado.
– Max, ela acordou. – Anne gritou para meu pai que se aproximou me olhando curioso.
– Anne? Pai? O que está havendo? – perguntei tentando me erguer o suficiente para me sentar na cama hospitalar onde estava.
– É melhor chamar um enfermeiro para dar uma olhada nela. – meu pai disse a Anne, que prontamente saiu à procura de um.
– O que está havendo? – repeti – O que estou fazendo aqui?
– A patrulha policial a encontrou desacordada na floresta e a trouxeram para cá. – meu pai explicou.
– Na floresta? – questionei confusa – Como eu fui parar lá?
– Esperávamos que você pudesse nos dizer. – respondeu ele, cauteloso.
Estranhei tal conduta do meu pai, pois, em geral, ele não agia com cautela com relação a nada, principalmente com coisas que dissessem respeito a mim. Havia algo errado ali. Algo que as pessoas evitavam me dizer e eu queria saber do que se tratava.
– O que está havendo. – perguntei encarando-o com atenção – E não me diga que não é nada, pois posso ver nos seus olhos que tem algo acontecendo, pai. Diga-me o que é.
Ele pareceu desconfortável com a minha pergunta e passou as mãos pelos cabelos já grisalhos, mas recostou-se um pouco mais em minha cama e assentiu.
– Houve um assassinato na cidade. – explicou – Na noite em que você saiu de casa para ir à casa da Norah fazer aquele trabalho.
– Assassinato? – perguntei surpresa – Aqui em Trevolts? E quem foi assassinado?
– Daniel Clark.
– Daniel? Sério?
Como em toda cidade pequena, conhecer as pessoas era fácil. Daniel era o filho do dono da mercearia que ficava a poucas quadras de distância de minha casa, além de ser meu colega de classe na escola. Eu nunca tinha trocado mais de duas palavras com ele, mas pelo que conhecia dele não conseguia imaginar porque alguém o mataria.
– Você não sabia? – perguntou meu pai, mais cauteloso ainda.
– Como eu poderia saber? – questionei, mas ele não respondeu e, um segundo depois, Anne entrou no quarto acompanhada de um enfermeiro e de dois oficiais de polícia – os únicos de Trevolts.
– Bom dia, Loren. – disse o oficial Stan, um homem alto, magro e de cabelos e olhos negros, e percebi que a voz rouca que eu ouvira antes pertencia a ele.
Eu não o conhecia formalmente, é claro, mas sabia quem ele era, afinal, naquela cidade, todos sabiam quem eram os policiais, então, acenei com a cabeça enquanto o enfermeiro me examinava. Era estranho ter todas aquelas pessoas me olhando, quando eu nem mesmo entendia o que estava acontecendo, mas aquilo parecia importante.
O enfermeiro terminou seu exame e fez sinal positivo para os policiais, retirando-se logo em seguida. Deduzi por aquele gesto que eu estava em boas condições, então.
– Podem nos deixar a sós? – pediu o oficial Stan a Anne e a meu pai e ambos assentiram e se retiraram sem mais delongas.
Observei a porta branca se fechar atrás deles e voltei minha atenção para os policiais que, agora, arrastavam duas cadeiras para mais perto de minha cama.
– Olá, Loren. – disse o outro policial que, apesar de ser quase da altura de Stan, era bem gorducho e possuía cabelos castanhos e olhos esverdeados muito claros. Eu sabia que seu nome era Lanes antes mesmo de ele me dizer: – Eu sou o Oficial Lanes e esse é meu parceiro, o Oficial Stan. Sabe porque estamos aqui?
– Não. – respondi olhando de Stan para Lanes com uma curiosidade contida.
– Nós temos algumas perguntas para fazer e gostaríamos que nos respondesse com sinceridade, tudo bem? – ele perguntou calmamente, sentando-se em sua cadeira.
– Tudo bem. – concordei sem saber o que estava acontecendo ali.
Os dois policiais se olharam por um instante e imaginei que estivessem decidindo, em silêncio, quem começaria com as perguntas.
O detetive Stan foi o vencedor.
– Loren – disse ele, repousando os cotovelos sobre os joelhos e inclinando-se para mais perto de minha cama –, pode nos dizer para onde estava indo na noite de quarta-feira?
Parei pra pensar. Eu não sabia de que quarta-feira ele falava.
– Bem, quarta-feira... Da semana passada ou ontem? – perguntei, franzindo a testa.
Os policiais se entreolharam novamente e pude ver a confusão refletida no rosto de ambos.
– Ontem era domingo. – disse o oficial Stan, encarando-me com total atenção.
Pisquei atônita algumas vezes e repassei suas palavras, mentalmente, tentando encontrar algum detalhe oculto nelas. Stan devia estar me testando de alguma forma, pois eu tinha absoluta certeza de que o fim de semana ainda não tinha chegado e, muito menos, passado.
– Como assim ontem era domingo? – perguntei por fim – Ontem era quarta. Eu tenho certeza.
O oficial Stan olhou novamente para o oficial Lanes com um grande ponto de interrogação tatuado na face e, por um instante, eles pareceram decidir se eu era completamente louca ou se ainda estava sob o efeito de algum medicamento. Não sei a que conclusão chegaram.
– Loren, conte-me o que aconteceu ontem. – pediu o oficial Lanes, tomando a iniciativa.
Percebi que ele frisou bem a palavra ontem, mas não entendi o motivo, então, deixei de lado esse detalhe e forcei a memória para me lembrar de tudo o que havia feito na noite anterior.
– Bem, ontem eu fui para o colégio e ao sair de lá, passei o dia ajudando o filho da minha madrasta a arrumar a cerca que nosso cachorro quebrou. Depois limpei a casa, ajudei minha outra irmã postiça a fazer o jantar e fiz a lição de casa. À noite fui à casa da minha amiga, Norah, para fazermos um trabalho de escola. – relatei – Porque?
– Você chegou a encontrar a Norah? – Lanes questionou.
Tentei me lembrar. Na verdade, eu me lembrava de ter saído de casa para encontrá-la, mas não me lembrava de tê-la encontrado de fato. Aliás, depois disso, eu não me lembrava de mais nada além de acordar no hospital. Era muito estranho.
– Não me lembro. – respondi confusa.
– Não se lembra? – Lanes franziu tanto a testa que suas sobrancelhas se uniram – E você se lembra do que estava fazendo na floresta, Loren?
– Não me lembro de ter ido à floresta.
– Mas você esteve lá, não é? – insistiu o oficial Lanes.
– Não me lembro de tal fato. – respondi na defensiva. Tudo estava muito confuso ali.
Os dois policiais me encararam.
– Você conhecia Daniel Clark? – perguntou o oficial Stan, mudando totalmente de assunto.
– Éramos colegas de classe. – dei de ombros.
– Qual era a sua relação com Daniel? – perguntou ele.
– Nós não nos falávamos.
– E porque não se falavam? – questionou o oficial e eu olhei para ele confusa. O que ele queria me fazendo tantas perguntas sobre Daniel?
– Não éramos amigos.
– E você e Daniel brigavam muito?
– O que? – arregalei os olhos – Eu nunca briguei com Daniel Clark. Aliás, porque todas essas perguntas?
– Daniel foi assassinado. Você sabia? – o oficial Lanes cravou seus olhos em mim e eu lutei contra a vontade de me remexer, tamanho era o desconforto que aquilo me causava.
– Sim. Acabei de saber. – respondi já nervosa – Mas o que isso tem haver comigo?
Dessa vez, foi Stan quem se propôs a me explicar tudo.
– Loren, ouça com atenção. – pediu-me ele e concordei com um aceno de cabeça – Quarta-feira à noite seu pai foi até nós para fazer uma ocorrência relatando o seu desaparecimento. Ele disse que você havia saído de casa por volta das 19:00 hs para ir à casa de uma amiga, mas que não tinha chegado lá e nem tinha voltado pra casa, além do fato de que ele não conseguia entrar em contato com você pelo celular. Por causa da tempestade pensamos que você talvez pudesse ter sofrido algum contratempo e, então, fomos procurá-la. Acabamos encontrando o corpo de Daniel Clark, mas nenhum sinal seu.
– Nós a procuramos por quatro dias seguidos, Loren, mas não a encontramos. – Lanes continuou – Começamos a fazer muitas suposições em relação ao seu desaparecimento e ao assassinato de Daniel, inclusive cogitamos a possibilidade de que você tivesse sido sequestrada ou assassinada assim como ele, mas no domingo, um dos moradores aqui da cidade, foi fazer uma trilha pela floresta e a encontrou lá Você estava desacordada, com alguns ferimentos superficiais e com roupas manchadas de sangue, então, ele nos chamou e você foi trazida para esse hospital para receber os cuidados necessários. Você está aqui desde ontem à tarde, mas só despertou agora.
Pisquei completamente atordoada com tudo que havia escutado dos dois policiais. Eu estava para negar tudo aquilo, mas então me dei conta que eles não mentiriam sobre algo tão sério.
– Então... Hoje na verdade é segunda-feira? – perguntei assustada – Eu estive desaparecida por quatro dias?
– Exatamente. – confirmou o oficial Stan.
Levei as mãos ao rosto e suspirei, tentando compreender tudo aquilo. Se havia se passado quatro dias desde que eu saíra para ir à casa de Norah, como eu não me lembrava disso? Seria possível que eu tivesse permanecido desacordada durante todo esse tempo na floresta? Aliás, como eu tinha ido parar lá? Eu não me lembrava de ter ido para a floresta.
– Isso não é tudo, Loren. – disse o oficial Stan, arrancando-me de meus pensamentos – O sangue de Daniel Clark estava nas suas roupas.
– O que?! – exclamei.
– Por isso queremos ouvir sua versão dos fatos. Queremos saber se estava com ele naquela noite.
– Eu não sei do que estão falando. – respondi desesperada – Não me lembro de nada disso. Não me lembro de ter encontrado Daniel. Não sei como o sangue dele pode ter ido parar nas minhas roupas.
Stan e Lanes se entreolharam avaliando minhas respostas e minha reação e senti um frio na barriga. Aquilo não podia estar acontecendo mesmo, podia?
– Loren, você usa ou já usou algum tipo de entorpecente? – perguntou o oficial Lanes, me fitando.
Reprimi a resposta malcriada que estava querendo se formar em minha boca, pois indignava-me que eles pudessem supor uma coisa dessas ao meu respeito quando eu mal ousava desobedecer à lei que proibia bebidas para menores de vinte e um anos, e apenas disse:
– Não. Nunca usei drogas.
Eles me encararam, com seriedade, por mais um instante e,depois, o oficial Lanes se retirou da sala. Observei, pela janela, ele e meu pai conversarem por um momento e, logo, ambos estavam de volta ao quarto.
– Precisam fazer um exame toxicológico em você. – disse meu pai e minha boca se abriu.
– Um exame toxicológico? – indaguei – Porque?.
– Precisamos ter certeza de que você nunca usou nenhum tipo de droga. – explicou o oficial Stan – Vou ser sincero com você, Loren. Você é a principal suspeita no assassinato de Daniel Clark.
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