Killer

8 Condenada


Notas iniciais
Como prometido, eis que o capítulo 8 não demorou muito para sair XD espero que gostem.

[Loren P.O.V]

Encarei Brandon com olhos arregalados. Eu já achava que estava em uma enrascada antes, agora, eu achava mesmo era que não havia salvação para mim.

– Você nem parece um advogado. – disse, colocando-me de pé e me aproximando da grade para observá-lo melhor – Tem o que, dezoito anos?

– Vinte e sete. – disse ele, sem se abalar com meu comentário.

Ele voltou a abrir o processo e a observá-lo, com atenção, franzindo a testa sempre que parecia encontrar algum detalhe que requisesse maior trabalho de defesa.

– Você disse que meu antigo advogado faleceu. –indaguei procurando uma forma de encará-lo nos olhos – Posso saber de que?

– Caiu da escada. Uma verdadeira tragédia. – respondeu ele, sem parecer realmente se importar.

Acho que eu devo ter semicerrado os olhos, ou feito algum gesto que não passou despercebido, pois logo Brandon olhou para mim com uma expressão divertida.

– Escadas são muito perigosas. – disse ele e, apesar de haver um pequeno sorriso pairando ali em seus lábios, seu tom foi quase sádico – Talvez até mais perigosas que você em uma fazenda. Para nossa sorte, seu amigo não está morto.

Aquela informação me pegou de surpresa e praticamente suspirei, sentindo um pequeno alivio percorrer meu corpo.

– Não comemore ainda. Não acho que ele vá sobreviver. – disse Brandon, tão naturalmente quanto alguém diria que o céu é azul.

No mesmo instante, a pequena centelha de alegria que havia me atingido se extinguiu. Pietro ainda estava vivo e a ênfase da frase era justamente na palavra “ainda”. Depois disso, pouco me importava que Brandon fosse ou não um ótimo advogado. Eu havia ferido meu melhor amigo e desejava sofrer a pior punição possível por ter feito aquilo, mas Brandon não concordava com minha opinião.

Passei os quarenta minutos seguintes respondendo a todas as suas perguntas e quando contei a ele sobre as visões que tive antes de ferir Pietro ele acabou por fazer a mesma pergunta que os detetives Lanes e Stan já haviam me feito dezenas de vezes: você usa ou já usou drogas?.

A resposta era não. Sempre seria não. Mas confessei que havia tomado um ou dois copos de vodka antes de tudo e isso o fez sorrir. O típico sorriso de um advogado que está prestes a tramar uma grande encenação para inocentar seu cliente.

Eu não confiava em Brandon e algo em mim dizia que era exatamente assim que eu devia agir. Me passou pela cabeça que talvez ele tivesse matado meu antigo advogado só para poder assumir o meu caso. Loucura, sim, mas eu não conseguia para de pensar nisso. Porém, independente do que pudesse ter acontecido ao meu antigo advogado, agora era Brandon quem me defenderia. Eu só não sabia o que esperar dele.

Meu julgamento havia sido marcado para dali a um mês e, mesmo com Brandon tendo conseguido para mim o direito de aguardar o julgamento em liberdade, eu preferi continuar em minha cela. Encarar as grades cinza e gélidas da delegacia era melhor que encarar o mundo que me esperaria lá fora.

Nos dias que se seguiram, eu não recebi nenhuma visita além de Brandon e não me surpreendi com isso. Meu pai não ousaria se aproximar de mim depois de tudo o que eu havia lhe dito e eu preferia assim. Quanto a Norah e Jess, eu tinha certeza que deviam estar assustadas demais com toda a situação para vir me visitar. Talvez, mesmo se eu fosse absolvida das acusações, ainda assim elas quisessem manter distância e eu não as culparia por isso.

***

Na noite que antecedeu meu julgamento Brandon apareceu de repente na delegacia. Estranhei sua visita já que ele havia combinado comigo que nos encontraríamos novamente apenas no tribunal.

– Temos um imprevisto. – disse ele, entrando em minha cela assim que o detetive Lanes a abriu.

– Qual? – perguntei depois que Lanes trancou a cela novamente e se retirou. Algo muito comum nas ultimas semanas.

– Seu amigo acaba de falecer. Então precisamos rediscutir sua defesa.

– O que?! – exclamei sem acreditar no que ouvia.

As palavras de Brandon me atingiram como facas. Gélidas e mortais. Senti o ar me faltar e afundei em meu colchonete, colocando a cabeça entre os joelhos, respirando rápido. As lágrimas transbordavam em meus olhos deixando um rastro quente por minha face.

– Ai, meu Deus. – consegui dizer após um longo instante de desespero.

– Eu sei, eu sei. – disse Brandon aproximando-se de mim e acariciando meu ombro de forma reconfortante – Agora você será acusada de mais um homicídio e isso é uma droga.

Rapidamente levantei a cabeça e olhei para ele, incrédula.

– Como pode dizer isso? – questionei irritada – E daí que isso será um peso a mais em minha ficha. Pietro está morto!

Meu coração parecia prestes a parar cada vez que eu pensava nisso. Não poder vê-lo sorrir mais ou acompanhar suas brigas com Jess... Não tê-lo mais por perto. Era simplesmente doloroso demais.

– É triste, eu sei. Seu amigo está morto, é verdade, mas chorar não vai nos fazer ganhar sua causa. Precisamos rediscutir o que dizer ao juiz.

Olhei para Brandon indignada. Onde estava o sentimento dele? Qualquer um ao menos me daria um minuto para me recompor, mas ele não. Não importava o quanto fosse um choque para mim receber aquela notícia, dita de forma tão fria ainda por cima. Ele nem se importava.

– Pode parar com isso?! – pedi afastando-me dele – Eu acabei de saber que um dos meus melhores amigos morreu, Brandon. Me dê um tempo!

– Seu julgamento é amanhã de manhã. – ele suspirou – Não há tempo, Loren. Além do mais, eu já havia lhe dito que não acreditava que Pietro fosse sobreviver por muito tempo. Ele até que superou as minhas expectativas, mas agora ele está morto e nós precisamos discutir isso.

Reprimi com dificuldade o impulso de avançar no pescoço de Brandon e estrangulá-lo. Já bastava ser acusada de dois assassinatos. Um terceiro seria demais.

– Pare de falar dele como se fosse um animal no abate! Pietro era uma pessoa boa, um amigo maravilhoso. Me ajudou muito quando eu precisei e eu... Eu o matei. – disse eu por fim. Minha voz se tornando quase um sussurro no fim da frase.

– Ora, então não culpe pelos seus erros. – disse Brandon com um revirar de olhos – Eu não sou psicólogo, muito menos padre. Não sou pago para me compadecer de seus pecados, Loren, apenas pra te defender. E é isso que estou fazendo. Pode aceitar ou não.

– Dê o fora daqui. – apontei para a grade.

– Como assim “dê o fora”? – ele me encarou como se eu estivesse falando o maior absurdo que já ouvira na vida.

– Você não é humano. – expliquei com raiva – Não tem sentimentos, então, foda-se você e a sua defesa. Eu não quero mais você como advogado.

– Você percebe o quanto isso é absurdo? – ele retrucou – Humanidade e sentimentos não ganham uma causa, Loren, e se você abrir mão da minha defesa agora vai ser condenada. É isso que quer?

– Eu matei o meu melhor amigo. Acha mesmo que eu me importo com liberdade agora? Não há mais nada nessa cidade pra mim, Brandon. Você não entende?

– Existem outras cidades além Trevolts! – disse ele – Em breve você fará dezoito anos e será dona do seu próprio nariz. Poderá sair dessa cidade e recomeçar a sua vida em outro lugar.

– Em breve? – indaguei – E, até lá, o que eu faço? Me tranco no quarto esperando pacientemente que os moradores dessa cidade invadam minha casa com tochas? Peço para o meu pai, aquele a quem eu odeio e que sequer veio me visitar na cadeira, para me contar uma história para dormir? Acha mesmo que meu pai vai me querer naquela casa ainda? E mesmo que nada disso fosse acontecer, como acha que eu vou viver sabendo o que eu fiz com o Pete. Eu não tenho para onde ir. – expliquei.

– E acha que passar anos na prisão será melhor? – ele questinou – Pense bem, Loren.

– Atualmente, qualquer coisa é melhor. – disse eu, virando as costas para ele e encerrando a conversa.

– Quer saber, eu não vou implorar para que você me deixe defendê-la. Você não é mais uma criança, então, se o que quer é apodrecer na cadeira, tudo bem. Boa sorte no tribunal. – disse ele e depois chamou Stan para abrir a cela.

Brandon se retirou lançando um último olhar irritado para mim e, assim que ele e Stan se foram, joguei-me novamente em meu colchonete e abracei meu próprio corpo. Agora eu tinha privacidade suficiente para chorar por Pietro.

Lembrei-me de todos os momentos em que estive com ele. A primeira vez em que o vi assim que cheguei à Trevolts, o dia em que ele quase me atropelou na saída do colégio, a primeira vez que me ligou, o dia em que tentou me passar uma cola na prova de química, mas acabamos sendo pegos e ganhando zero, as risadas que demos mais tarde enquanto ficávamos na detenção por colar. Tantos foram os meus bons momentos com Pietro e agora ele estava morto e a culpa era inteiramente minha.

Cogitei por um momento a hipótese de eu ter realmente enlouquecido. Todos aqueles seres horripilantes que vi na festa não podiam existir de verdade. Minha vida não era um filme de terror, não tinha como aquilo ser real, mas real ou não, eu havia matado meu melhor amigo e não havia como mudar isso.

Chorei por toda a noite, relembrando de cada gesto de Pietro, de nossos beijos na festa em Angel’s House e então, de repente, estava cogitando futuros alternativos. Eu e Pietro namorando e saindo de Trevolts para frequentar a faculdade, um noivado, um casamento, talvez filhos... Sorri. Seria possível que aquilo acontecesse caso as consequências daquela noite não tivessem sido tão brutais? Talvez. Quem sabe? Mas isso não importava mais. Pietro estava morto.

Acordei na manhã seguinte com Stan e Lanes batendo uma algema nas grades de minha cela.

– Está na hora. – disse Stan estendendo-me um sabonete.

Ainda meio sonolenta peguei o sabonete e notei só depois que havia uma policial que eu não conhecia ao lado deles. Ele possuía cabelos e olhos negros. Tinha estatura mediana, mas uma postura rígida e expressão severa, que combinava perfeitamente com a farda que trajava e o cabelo preso num coque alto. Percebendo que eu a olhava, Lanes a apresentou:

– Essa é a oficial Wyler. Ela veio a pedido do tribunal, pois precisam que alguém fique de olho em você em todos os lugares. Isso inclui o banheiro feminino. – ele acrescentou – A oficial será sua sombra hoje.

Assenti para ela com um breve aceno de cabeça ao qual não obtive nenhuma retribuição e me dirigi para o chuveiro com a oficial Wyler em meu encalço.

Após o banho e um rápido café da manhã, nos dirigimos ao tribunal. Eu me perguntava o que seria do julgamento agora que eu havia dispensado meu advogado. Imaginei que talvez fosse adiado, já que eu não tinha quem me defendesse, mas para minha surpresa, assim que entrei na sala de espera, encontrei Brandon, sentado em uma das poltronas ali, lendo meu processo mais uma vez.

– Bom dia. – disse ele, concentrado, sem se dar ao trabalho de olhar para mim.

A oficial Wyler indicou-me uma cadeira e postou-se ao meu lado como um cão de guarda.

– O que faz aqui? – questionei dividida entre a surpresa e a raiva. Eu ainda não havia esquecido o modo como ele havia tratado a morte de Pietro.

– O de sempre. Defendendo garotas problemáticas e perigosas. – ele me olhou indiferente – Conhece alguém que se encaixe no perfil?

– Eu disse que não te queria como advogado.

– Acredite, tão pouco eu queria estar aqui hoje, mas não encontraram outro advogado para você. Então, aqui estou eu.

Fechei a cara para ele e cerrei os punhos, mas senti a mão pesada da oficial Wyler em meu ombro esquerdo, como uma advertência.

– Relaxe. Vai acabar rápido. – disse Brandon e saiu da sala.

O julgamento teve inicio uma hora depois. Fui chamada ao tribunal e colocada no lugar destinado aos réus logo após passar por todas as burocracias, como fazer um juramento.

Aquele seria um julgamento com júri popular e mesmo que eu nunca tivesse visto nenhuma daquelas pessoas notei que seria quase impossível sair de lá para qualquer lugar que não fosse uma prisão.

Eu nunca havia imaginado que um julgamento pudesse durar tanto tempo e que pudesse ser tão doloroso. Ver expostas ali todas as provas de como matei Pietro e, provavelmente Daniel Clark também, fez meu coração se apertar de tal forma que achei que ia parar, mas nada se comparou a ver Jess, com os olhos marejados de lágrimas sentar-se no banco de testemunhas e contar a todos o que viu naquela noite em Angel’s House. Ela mal olhou em minha direção e tremeu durante quase todo o tempo em que depôs, mas quem poderia culpá-la? Eu havia mesmo feito tudo aquilo.

Vi a acusação juntar todas as peças de um quebra cabeça. Vi o irmão mais velho de Pietro levantar-se e ir em minha direção chamando-me de assassina. Vi Norah contar o pouco de que se lembrava da festa. Vi Brandon expor todas as minhas visões aterrorizantes diante de todos ali. Ouvi a mim mesma contar tudo o que se passou antes e depois de matar Pietro. Vi meu pai e Anne na plateia. Feições apáticas. Nada a declarar. E então, depois de quatro horas os jurados se retiram para julgar e retornaram meia hora depois com sua decisão tomada.

Não sei dizer exatamente o que senti ao ouvir o juiz deferir minha sentença. Desespero, tristeza, conformismo, alívio. Tudo estava misturado dentro de mim, mas não tive reação alguma enquanto ouvia a condenação. Talvez tivesse entrado em choque.

Eu fui considerada culpada de todos os crimes dos quais fui acusada. Como poderia ser diferente, afinal? Nem Brandon conseguiria tirar essa culpa de mim. Mas eu não iria para a prisão. Tão pouco teria que cumprir horas e mais horas de serviço comunitário. Por conta de todos os meus depoimentos e de todos os exames que já havia feito, minha sentença me levaria a um lugar de onde poucas pessoas saíam: O Hospital Psiquiátrico Saint Auguste – o depósito de doidos e indesejáveis de toda a Costa Oeste.

– Sinto muito. – disse Brandon baixinho para mim e se retirou do tribunal.

Sem reação, senti a oficial Wyler algemar minhas mãos às minhas costas. Ouvi o protesto de alguns no tribunal alegando que apenas ser considerada louca não era punição suficiente. Vi Norah e Jess chorarem juntas ao se abraçarem e, não sei dizer se apenas imaginei, mas pensei ter visto Jess murmurar um “me desculpe” ao olhar para mim. Vi meu pai me olhar com repulsa e Anne cochichar em seu ouvido algo parecido com um “ela vai ter o mesmo destino da mãe.” e quase sorri ao pensar que passar o resto dos meus dias trancada em um hospício não poderia ser tão ruim quanto conviver com aqueles dois.

Sem muitas palavras fui conduzida até a viatura e levada ao Saint Auguste. A viajem não demorou muito, uma hora e meia, talvez duas no máximo e eu me encontrava parada em frente a enorme e solitária construção em estilo gótico – que muito me lembrava a Catedral de Lincoln, em Lincolnshire na Inglaterra – onde dois enfermeiros vestidos de branco da cabeça aos pés já nos aguardavam.

– Loren Schinnyder. – disse a oficial Wyler aos enfermeiros, que assentiram e pediram que ela assinasse algo que julguei ser uma ficha de entrega. Eu era como uma carga altamente inflamável.

– Precisaremos da assinatura do responsável por ela também. – disse um dos enfermeiros.

– O tribunal pedirá que ele venha amanhã para assinar o que for necessário. – confirmou a oficial.

Apenas quando as algemas foram tiradas de meus pulsos e fui conduzida através da enorme porta de metal de Saint Auguste foi que percebi o quanto minha vida estava acabada.

O desespero, que antes parecia ter sido reprimido pelo choque da sentença, agora havia se libertado e com toda a lucidez que ainda me restava eu percebi que não queria estar ali. Corri em direção à porta, mas esta se fechou com um baque surdo de metal contra metal.

Exaltada, tateei a porta em busca de algo que pudesse me ajudar a escapar, gritando para que a abrissem, mas não fui muito longe em minha procura. Logo senti um objeto frio perfurar a pele de meu braço e algo quente percorrer, apressado, minhas veias.

Me debati como se estivesse tendo milhares de pequenas convulsões, sendo logo amparada pelos enfermeiros.

– É só um sedativo. Você ficará bem logo. Só precisa se acalmar. – disse um deles me segurando com certa força, para evitar que eu batesse minha cabeça contra o chão enquanto me debatia.

Em poucos segundos, senti as convulsões diminuírem e meu corpo pareceu pesado demais para que eu pudesse me mover.

A última coisa que vi antes de apagar foi a escultura de um anjo logo acima da porta de entrada, fitando-me com um olhar triste.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado. Não tenho muita experiência em relatar cenas que incluam policiais e júri, mas fiz o melhor que pude. O próximo capítulo sai em breve. Mandem reviews pois quero saber o que acharam da condenação da Loren. Fui má com ela? Peguei leve demais? rsrs me digam! Abraços e até o capítulo 9.