Killer

7 Caminho Sem Volta


Notas iniciais
Demorei! Sim, eu demorei uma eternidade pra postar eu sei e quase bato minha cabeça na parede por causa disso. Antes de começar aqui, quero pedir desculpas a todos vocês que acompanham a história pelos quase três meses de ausência. Houve muitos contratempos e só agora consegui terminar o capítulo... Espero que valha pelos meses de espera. E mais uma vez, desculpem pela demora.

[Loren P.O.V.]

Não parei para pensar no que eu estava fazendo, apenas corri. Uma parte de mim sabia que era errado, sabia que eu deveria ficar e ajudar Pietro, mas a maior parte de mim só queria fugir de todo aquele pesadelo. Nem ao menos parei quando Jess gritou o meu nome. Eu só queria sair dali e voltar para o lugar onde minha vida ainda fazia sentido. O lugar onde minhas mãos não estavam manchadas de sangue.

Atravessei Angel’s House sem realmente enxergá-la, todos ali pareciam vultos enquanto eu corria desesperada para fora da fazenda com os olhos transbordando em lágrimas.

Mas correr com aqueles saltos não era fácil. Acabei escorregando nas pequenas pedrinhas que havia pelo caminho e caindo, esfolando meus joelhos e mãos. Levantei-me rapidamente, limpando a sujeira de minhas pernas e o pouco do sangue que fluía pelos pequenos cortes que havia ganhado na queda. Aquilo arderia muito em outra ocasião, mas agora eu mal podia sentir as dores. Mal podia sentir me sentir.

– Ei, Loren. – gritou Norah acompanhada de Ethan, aproximando-se de mim, mostrando-me uma chave – Onde está o Pete? Ele precisa levar vocês para casa, porque alguém aqui prometeu que me mostraria a coleção de pôsteres de baseball que tem no quarto esta noite. – disse ela, meio trôpega, olhando para Ethan e passando a mão por seu abdômen. Agora sim, ela estava bêbada.

Ethan abriu um sorriso safado para ela e depois direcionou sua atenção a mim, parando o olhar em minhas mãos.

– Caramba! Quanto sangue. – exclamou ele – Não me diga que matou alguém de novo?

Eu sabia que ele não havia feito mais que uma piada maldosa, mas mesmo assim não pude impedir meu coração de acelerar. Como eu poderia explicar a eles o que eu acabara de fazer? Aliás, como eu poderia explicar a quem quer que fosse o que eu havia feito?

E antes que eu pudesse pensar no que estava fazendo, mais uma vez me pus a correr feito louca para fora de Angel’s House, deixando atrás de mim os olhares confusos de Norah e Ethan.

Corri o mais rápido que pude pela estrada que ligava Angel’s House
à cidade. Meu único objetivo era chegar em casa – mesmo que eu não soubesse o que faria depois disso.

Era ridículo me sentir daquela forma agora, quando, anteriormente, eu odiava ter que voltar para casa. Era como ter de seguir uma rota para o inferno, mas, agora, aquele inferno era o lugar mais próximo da normalidade tão ausente em minha vida nas ultimas semanas e, embora eu não soubesse como chegaria lá, sabia que se quisesse chegar teria que continuar correndo, então procurei mentalmente por algo que pudesse me ajudar a chegar mais rápido e acabei por me lembrar de um atalho pelo rio que Jess, Pietro e Norah haviam me mostrado durante uma das trilhas que fizemos nas aulas práticas de Biologia.

Segundo me lembrava, eu deveria seguir pelas margens do Mortari até alcançar o casarão da família Knust no alto da colina e de lá atravessar o antigo cemitério para chegar à cidade. Norah e Jess haviam me dito que com esse atalho eu levaria cerca de uma hora para chegar à cidade. Não era uma caminhada fácil, é claro, mas se eu seguisse pela estrada levaria o dobro do tempo.

O Mortari era o maior dentre os rios que passavam por Trevolts e havia recebido esse nome porque suas águas escuras e profundas já haviam tirado muitas vidas ao longo dos anos. Uma delas foi a de uma garotinha de sete anos que se afogara ali enquanto seu pai pescava. Seu nome era Melbany e, agora, a ponte que cruzava o Mortari levava o nome dela.

Quando alcancei a ponte, adentrei na mata fechada até chegar ao Rio Mortari, suas águas pareciam estar mais agitadas naquela noite, mas eu não me preocupava com isso. Ouvi sirenes ao longe e não pude evitar que meu peito se enchesse de culpa ao pensar no que eu havia feito a Pietro. Eu me sentia mais que uma assassina. Me sentia uma traidora. Havia feito mal a Pietro e o deixado quando deveria tê-lo ajudado.

As lágrimas começaram a arder em meus olhos e precisei de muita força para não desabar no chão ali mesmo, condenando-me por todas as minhas decisões daquela noite. Mentalmente pedi perdão a Pietro, como se, ao fazer isso, ele de alguma forma pudesse me ouvir e saber que eu sentia muito por todo mal que havia causado.

Mesmo cansada e em pedaços, obriguei-me a continuar andando. Segui pelas margens escuras do rio, tropeçando e escorregando algumas vezes por causa da escuridão e do terreno que pouco ajudava em minha caminhada.

Quando, enfim, cheguei ao casarão dos Knust meu corpo parecia pesar meia tonelada a mais. Eu estava suja por conta dos tropeços e meus pés além de doloridos estavam também um pouco machucados, pois eu havia tirado as botas na metade do caminho. Ainda assim, ao chegar ali minha energia se renovou, pois eu sabia que não estava mais tão longe de casa, então respirei fundo e reuni minhas ultimas forças para percorrer o restante do caminho.

Passei pelo casarão reparando no péssimo estado da construção que era bem mais assustadora quando vista de perto e a luz do luar do que parecia ser quando eu o via enquanto ia ou voltava do colégio. Somando-se a isso o fato do antigo cemitério da cidade ficar bem ao seu lado, não era de se estranhar que o casarão tivesse ganhado a fama de casa mal assombrada.

Ao chegar à entrada do antigo cemitério, um pequeno arrepio percorreu meu corpo. Eu sempre tinha sensações ruins perto de cemitérios e, essa noite, após passar por tudo aquilo, elas estavam ainda piores e tive de reunir toda a coragem que possuía para atravessá-lo.

Dali, poucas quadras me separavam de casa e me dirigi até ela com mais esperança do que eu tive durante semanas.

A luz da sala ainda estava acesa, sinal de que meu pai provavelmente estaria assistindo a seus filmes antigos. Ele costumava fazer isso porque dizia que era o único momento em que tinha tranquilidade suficiente para prestar atenção em cada cena, já eu, tinha minhas dúvidas, pois ele sempre dormia na metade do filme.

Rezei para que hoje ele tivesse mais uma vez adormecido na frente da TV. Isso me pouparia muitas explicações, algo que eu de fato não tinha como fazer no momento, embora tivesse plena ciência de que teria que fazer mais tarde. Afinal, não se fere o melhor amigo daquela forma e fica por isso mesmo, não é?

Ao abrir a porta, entretanto, me deparei não apenas com meu pai, mas com toda a minha família sentada no sofá, acompanhados de dois rostos muitos conhecidos: os detetives Lanes e Stan.

Parei, sem nem mesmo terminar de fechar a porta, olhando assustada para todos ali. Meu pai estava sentado em sua poltrona, enquanto Anne e Josh – que, agora, me encaravam com um misto de medo e preocupação – dividiam o sofá maior, segurando as mãos de Kate, como se estivessem consolando-a pela morte algum familiar e, no sofá menor, encontravam-se os dois detetives, com suas habituais expressões de desconfiança.

– Loren, feche a porta e venha até aqui. – ordenou meu pai, me encarando com seriedade.

Não me movi. Eu devia parecer um animalzinho encurralado por seu predador, mas a maior parte das pessoas ali me olhava como se eu pudesse explodi-los por telecinese.

Diante de minha inércia, o detetive Lanes resolveu tomar partido da situação. Levantou-se devagar, como se pudesse detonar uma bomba com um mero gesto, mas seu olhar vagou até minha mão que ainda segurava a maçaneta da porta.

– Loren, ouça seu pai. Queremos apenas conversar com você. – disse ele, com uma cautela excessiva, típica dos policiais que queriam negociar com o criminoso.

Eu havia começado a soltar a maçaneta da porta, mas parei abruptamente quando notei que o detetive Stan tirava uma algema prateada e brilhante do bolso e antes que eu pudesse me conter, saí correndo porta a fora.

Eu sempre havia me perguntado por que os bandidos corriam da polícia se sabiam que em breve seriam pegos, mas agora eu entendia. Parecia instinto.

Eu sabia que correr apenas complicaria ainda mais minha situação, mas era impossível parar, embora eu soubesse que não chegaria muito longe em minha fuga. Podia ouvir os passos pesados dos dois detetives logo atrás de mim, além de meu pai – que também devia estar correndo – gritando para que eu parasse.

Não havia percorrido nem mesmo três ruas, quando o detetive Lanes me alcançou. Comecei a gritar e espernear automaticamente.

– Chega dessa brincadeira, garota. – disse ele, segurado meu braço com força.

Meu escândalo despertou a atenção da vizinhança e, logo, muitas janelas e portas se abriram ali para espiar toda a confusão que se formara.

Meu pai nos alcançou segundos depois, seguido do detetive Stan – um tanto cansado – que correu para ajudar o companheiro em sua difícil tarefa de me algemar. Ao vê-los comecei a lutar ainda mais para me libertar.

– Pai! Por favor, me ajuda – gritei desesperada – Não deixe eles me levarem, pai! Por favor...

Não cheguei a concluir minha ultima frase. Apenas senti a mão pesada de meu pai atingir o lado direito de meu rosto.

– Pare com isso, Loren. Está tão louca quanto a sua mãe? – ele rosnou para mim, seus olhos trovejando de ira.

Eu poderia ter ficado calada, deixado que os detetives me conduzissem até a viatura, não ter causado maiores escândalos, mas não. Isso se tornou inviável no momento em que meu pai introduziu minha mãe no assunto. Ele podia me bater, sim, podia me ofender de todas as formas que quisesse, mas eu jamais admitiria que ele manchasse a memória da minha mãe daquela forma.

Se antes eu estava apenas desesperada para me libertar das mãos de Lanes e Stan e fugir, agora o motivo era completamente diferente, tudo o que eu queria era chegar até meu pai e fazê-lo engolir o que dissera.

– Retire o que disse! – gritei ensandecida para ele – Cale a sua boca quando for falar da minha mãe, porque você nunca foi bom para ela. Você a traiu e a abandonou quando ela mais precisava. Você não é digno de abrir sua boca para sequer tocar no nome dela, seu desgraçado!

Se tornou mais difícil para Lanes e Stan me manterem sob controle. Eu não era mais forte que eles e estava bem mais cansada, era verdade, mas a ira que crescia dentro de mim me dava um bônus. Podia até não ser suficiente para me soltar, mas já valia por dar um trabalho a mais para os detetives e ver o espanto nos olhos de meu pai.

– Você nunca foi um bom marido e muito menos um bom pai. Decidiu trocar sua família por uma safada qualquer e agora acha que tem direito de falar da minha mãe? – continuei, ainda mais brava e mais decidida a me soltar e agarrar seu pescoço – Ela nunca foi louca, você a deixou daquele jeito. Ela te amava e te venerava, fazia tudo por você e tudo o que ganhou em troca foi você se deitando na cama de outra. Você simplesmente não tem vergonha na cara. Nunca teve. Então dobre sua língua quando for falar da minha mãe!

As pessoas em volta me encaravam abismadas com todas as minhas palavras, enquanto meu pai mantinha-se entre a raiva e o susto com minha atitude, mas eu não me importava. Durante quinze anos vi minha mãe se arrastar aos pés daquele crápula ao qual eu chamava de pai e agora, já que estava tudo perdido mesmo, só queria despejar sobre ele tudo o que vinha guardando há anos dentro de mim.

Senti Lanes e Stan usarem de toda a sua força para me arrastar de volta pra casa onde estava sua viatura. O problema de só haverem dois policiais em toda cidade era que agora não havia ninguém para levar a viatura até nós e nenhum dos dois ousaria me soltar um milímetro que fosse no estado de fúria em que eu me encontrava. E faziam bem. Eu já havia ferido uma pessoa naquela noite – mesmo que sem intenção – e estava mais que disposta a fazer pior agora.

Ainda gritando ofensas para meu pai fui conduzida até a viatura e colocada dentro da mesma.

– Vamos leva-la para a delegacia. – ouvi Stan dizer a meu pai, próximos da viatura – Ela menor de idade, então, precisaremos que um responsável a acompanhe para assinar qualquer documentação necessária. O senhor irá com ela?

– Sim. – respondeu meu pai, num tom desanimado – Vou pedir a minha esposa que chame nosso advogado e seguirei para lá em seguida.

– Tudo bem. – disse Stan e, logo em seguida, ele e Lanes entraram na viatura e seguimos para a delegacia.

Lanes me colocou em uma das celas ali e trancou a fechadura. Deu uma última olhada em mim, detendo sua atenção em minhas mãos e pés sujos. Sacudiu a cabeça num gesto claro de desprezo e sumiu pelo corredor sem dizer nenhuma palavra.

Agora que eu estava sozinha parei para refletir sobre cada uma de minhas ações naquela noite. Sim. Eu estava ferrada.

No mínimo pegaria muitos anos de cadeia por cada uma das coisas que havia feito: acusada por dois assassinatos e por tentativa de agressão a dois Oficiais da Lei e a um familiar.

– Parece um belo passarinho numa gaiola, só que você não canta. – disse uma voz grave próxima a mim. Levantei os olhos um pouco e vi que havia um homem parado em frente a minha cela.

Ele possuía cabelos loiros, olhos verdes e pele muito clara. Usava terno e sapato social e um óculos de grau que lhe dava certa aparência nerd, além de carregar uma pequena maleta. Era um look que transmitia bastante seriedade, mas a julgar por sua aparência, ele não parecia ser tão mais velho que eu.

– O que disse? – perguntei desanimada.

– Que você parece um passarinho. – repetiu o homem.

– E você é...?

Eu não estava nem um pouco disposta a falar com alguém naquele momento, principalmente com alguém que eu nem conhecia e que me comparava a um pássaro numa gaiola.

– Brandon Redfox. Seu advogado de defesa. – disse ele e eu o encarei, desconfiada.

Assim que deixei o hospital, no início das investigações policiais sobre o caso de Daniel Clark, meu pai contratou um advogado de defesa. O Sr. McCarthy era um velho de aparência ranzinza e de linguajar afiado de quem eu não gostava muito, principalmente porque tinha que encontrá-lo mais vezes do que podia me encontrar com meus amigos, mas ele havia me garantido que cuidaria do meu caso até o dia do julgamento – que estava marcado para dali a uma semana –, então, eu não entendia porque agora Brandon estava diante de minha cela e o Sr. McCarthy, não.

– Já tenho um advogado de defesa. – decidi explicar. Talvez ele tivesse sido mandado ali por engano – Ele deve chegar em breve, então, acho que os seus serviços não serão necessários. Talvez, você tenha sido chamado para defender outra pessoa.

– Seu nome é Loren Schinnyder? – ele questionou e eu assenti levemente – Ótimo, então, estou no lugar certo.

– Mas o meu advogado se chama Felix McCarthy. – insisti – Ele está estudando o meu caso há semanas.

– Eu sei. Infelizmente o Sr. McCarthy encontra-se impossibilitado de defendê-la nesse momento, então, terá de se contentar comigo. – Brandon puxou um banquinho e sentou-se de frente para minha cela – Podemos começar?

– O que quis dizer com “impossibilitado”? – indaguei, deixando claras as grandes aspas invisíveis que eu havia posto sobre a palavra.

– Quis dizer que ele faleceu ontem. Sou o substituto – Brandon deu de ombros, e não havia nenhum traço de sentimento no gesto – Mas chega de falar de mim, vamos falar de você. Tem uma lista de acusações bem grande para alguém de dezessete anos, senhorita Schinnyder. – ele abriu um pequeno sorriso que pareceu quase perverso aos meus olhos – Sorte sua eu ser um ótimo advogado.

Notas finais
Bem, é isso aí. O próximo capítulo já está a meio caminho andado, e prometo não demorar muito a postá-lo. Prometo mesmo viu ^^ Espero que tenham gostado. Obrigada a todos e muitos beijos.