Kilian
9 Kilian e Sumir
Descobriu que o pior de tudo, após uma missão, era fazer os relatórios, exames e os mais diversos testes a que era submetido. Isso lhe consumiu minutos, horas, semanas. Apesar de querer acompanhar a recuperação dos Autaríanos Superiores de perto, isso lhe foi impossibilitado.
Nem mesmo encontrar-se com seus amigos conseguia.
Mas, ainda assim, os pesadelos passaram a lhe importunar desde que retornara a base. A guerra em Saurwo misturava-se com aquelas poucas visões que tivera em Autares. Desde a valeta de corpos até a desintegração dos autaríanos dentro do portal.
Isso lhe causava insônia e mau-humor. Naquele dia, em específico, quase mandara seu mais novo superior, Sr. Charles, a puta que o pariu.
Foi com enorme surpresa que encontrou Sumir dentro de seu quarto, analisando a tudo com interesse. Ele sentiu-se envergonhado, como há tempos não sentia-se, e quase engasgou quando a atenção dela voltou-se para si.
Uma vez lera que homens procuravam em sua parceira características da mãe.
Ele já estava traindo Ana mentalmente.
— Fico feliz em vê-lo bem, Kilian, herdeiro de sua mãe e seu pai. — Ela tinha um sorriso nos lábios grossos e ele não conseguia deixar de reparar em como sua mãe e Sumir eram parecidas. Isso o fez pensar na diferença entre aquela mulher e aquela que resgatara. Essa trazia a mesma autoconfiança, mas tinha uma aparência deveras melhor que a outra. — Sabe, eu tinha reparado algo de autaríano em você, mas toda aquela confusão não me deu tempo suficiente para analisar as coisas. Felizmente eu encontrei boas pessoas que me contaram sobre sua mãe... Kara, estou correta? Uma autaríana refugiada no planeta Terra. — Ela tinha em mãos um pingente, uma espécie de cristal triangular de seis lados. Aquele cristal, porém, parecia conter o próprio sol dentro, tamanha a energia que possuía. Seu SIAA apitou em perigo assim que analisou aquela força oculta e seus olhos fecharam momentaneamente com o impacto da luz em suas retinas.
Quando os abriu, fora um processo lento, adaptando-os a claridade que agora dominava o local. Fechou-os novamente quando focou em seu quarto, achando que estava sonhando. Abriu-os mais uma vez e suspirou, encarando o sorriso da mulher com atenção cuidadosamente desconfiada.
Seu quarto se tornara um recinto de puro calor. Ele sentia aquela luz confortável e a pele arrepiar-se, como um dia de sol em um verde parque. Um sorriso queria despontar em sua face e a desconfiança era mantida com muito custo, mesmo que a paz parecesse mais forte que qualquer outro sentimento.
E não somente isso, Kilian via diversos fios coloridos, que se entrelaçavam em seu corpo e se espalhavam, que dançavam ao redor dos móveis, dele e de Sumir e entre eles mesmos.
— Esse é o momento que você me explica o que é isso. — Apesar da voz grossa, não conseguiu conter sua mão que, automaticamente levantou-se, tentando tocar em um fio amarelo ouro que passava a sua frente. Ele curvou-se, causou um arrepio em sua pele, mas Kilian nada sentiu de concreto.
— Somo autaríanos, filhos dos deuses. — Kilian torceu o nariz inconscientemente, lembrando-se das palavras da mãe e como elas eram carregadas de mágoa. — Nossas existências estão interligadas com o mundo através dos fios da vida. E nós... — Ele não reparou que ela se aproximara até ela ter a mão em frente ao seu rosto, levantando um fio dourado. — Somos os fios dourados dessa existência. Você, Kilian... — Ela puxou um fio diferente, que ele sentiu cócegas no peito ao ver que saía de si. — É uma mistura entre o azul e o dourado.
— Humanos são... azuis? — Pela primeira vez ele estava encantado. Sua mãe... ela lhe contara isso e ele nunca acreditara, pelo simples fato de não existir uma prova daquele cristal, daquela possibilidade. Não era exatamente científico. Sumir balançou a cabeça negativamente.
— Terráqueos são complexos, eles... — Sua pausa queria dizer confusão. Kilian abandonou seu próprio fio, segundos antes de seu quarto voltar ao normal e ele estar cara a cara com uma Sumir que parecia ainda mais como sua família. — Não são exatamente definidos.
Alguém bateu na porta de seu quarto e Sumir ajeitou-se, afastando-se dele. Ela tinha o mesmo andar de sua mãe, de cabeça erguida e os olhos sempre afiados, além de um sorriso presunçoso nos lábios. A pele recuperava a cor daquele tom escuro queimado que antes parecia mais amarelo que marrom, e os olhos tinham agora a sagacidade dourada que parecia morta e exausta durante a viagem até a base dos Exploradores.
Agora Kilian notava como Sumir se recuperara do baque que fora perder todo seu povo, sua terra natal, sua vida. Talvez eles fossem os últimos da galáxia e a sombra com certeza assolaria a mente daquela que se dizia “herdeira dos deuses”, um título nobre em Autares. Os cabelos vermelhos, antes compridos e desleixados, agora estavam cortados rente a nuca, como um corte militar feminino.
As batidas o tiraram do devaneio e ele caminhou até a porta de seu quarto, abrindo-a. Ana estava parada nela, com os braços cruzados e um olhar indefinido no rosto. Aquele olhar que ela adquiriu após toda a merda que acontecera consigo.
— Estou incomodando? — Sua voz carregava uma ironia que fez Kilian revirar os olhos, abrindo espaço para que a amante entrasse. Reparou desde que voltara que ela caminhava melhor, que seu passo era mais estável e não demonstrava o mesmo desconforto de quando partira.
— Claro que não. Sumir, esta é Ana, minha companheira. Ana, Sumir é uma das Autaríanas Superiores resgatadas. — Sumir cruzou a cabeça e falou uma palavra que ele já ouvira antes. Uma palavra de reconhecimento, mas que sua mente não conseguia puxar o significado exato.
Então lembrou-se, como um idiota, que aquele povo falava a língua terráquea, mas possuía sua própria língua. Uma que nunca aprendera e sua mãe nunca fizera questão de ensinar.
— Espero que esteja se recuperando bem, Sumir. — Ana mostrou reconhecimento com essas palavras. E empatia. Ela tinha passado por um baque forte e agora parecia se sentir melhor com todo sofrimento.
— Estou. Isso lhe pertence, Kilian. Como agradecimento por salvar a mim e ao meu povo. — O cristal foi posto em suas mãos e ela despediu-se de ambos, abandonando o local. Tão distraído estava ultimamente, que se lembrou da sua pergunta somente quando a autaríana atravessara a porta.
— Sumir, espere. — Ele fez um sinal para que Ana o esperasse e saiu porta afora, encontrando a moça que lhe olhava com aqueles olhos dourados tão encantadores que Kilian tivera o azar de não herdar. — O que vai fazer depois que esse período de reabilitação terminar? — Ela tinha um curto sorriso nos lábios, irônico, que deixou-o arrepiado com a sensação de ser tão parecida com sua mãe.
— Kaltiane me fez pensar em algumas possibilidades e uma delas me pareceu deliciosa. Vou entrar para a tropa de Exploradores.
...
— Eu demorei para me lembrar que Kaltiane era o nome de minha mãe em Autares. As duas não eram somente parecidas por serem da mesma raça. Sumir era sobrinha de minha mãe o que fazia dela minha prima. — Kilian voltou o olhar para Emir. O mais velho achou graça daquela expressão raivosa e ao mesmo tempo ofendida que o outro lhe oferecia. — Sabe o problema que isso me deu? Eu nem tinha conhecimento da minha própria família e ela aparecia do nada. Sumir me deu muito trabalho depois de conseguir entrar para a tropa.
Kilian parecia mesmo ser atordoado por aquelas memórias, e Emir teve que se segurar para não rir daquela expressão tão azeda.
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