Kilian

10 Kilian e Pierail


Kilian demorou para criar a coragem necessária e abrir os documentos que seu irmão deixara para trás. Ele sabia que neles haviam respostas e agora que as tinha, o medo de conhecer a verdade o freava. Ele adquirira gosto por estar na tropa e ele não queria abandonar o serviço, mas não podia permitir que eles saíssem impunes.

Era nesse dilema que se encontrava, enquanto observava o céu que entardecia na sacada do centro de convivência da Base. Estava sozinho, o que lhe dava mais privacidade para afundar-se em seus próprios dilemas, enquanto observava as nuvens passarem tão próximas da plataforma que se encontrava acima dos ares chamada de Base por todos.

Era isso que a Base era. Um enorme casco de metal, com sistemas que ignoravam a gravidade de acordo com a vontade dos tripulantes. A energia renovável era retirada igualmente de meios renováveis, como a luz solar, que podia ser acumulada, ou a força dos ventos, que nunca cessavam àquela altura.

E era esse mesmo vento que lhe agitava os cabelos agora crescidos, não mais ao corte militar de antigamente.

Ainda digeria o fato de ter se tornado Capitão. Tão rápido. Lembrava-se de a notícia, quando dada por Dilian, ter sido comemorada em casa com sorrisos no rosto. Ele sabia muito bem que a sua não fora tão bem recebida assim. Não fora uma videoconferência, como o irmão fizera. Decidira enviar uma mensagem escrita aos pais, uma forma que encontrara de se relacionar com eles sem lembrar-se de seu irmão.

A breve frase “cuide-se” foi o suficiente para ele saber que seus pais não comemoraram.

Nunca comemorariam.

Dilian fora tão longe quanto ele, em tempo recorde e em uma idade ainda mais tenra que a sua. E fora morto. Kilian sabia muito bem que os pais detestavam o fato de ele se encontrar no mesmo ambiente que o irmão e fazendo as mesmas coisas que ele.

Ser um capitão demandava a tarefa de guiar uma equipe. Para a não tão surpresa de todos, Kilian recusou todos os nomes que lhe foram oferecidos, todos os nomes que também estiveram na tropa de seu irmão. Todos menos um. Ana foi sua primeira escolha. Por motivos óbvios para todos e alguns que ele preferia deixar ocultos. Jora fora sua segunda opção. O sauríano sempre estaria consigo, mesmo quando Kilian estava errado.

E, para finalizar, a recruta Sumir e seu irmão Pierail. As equipes básicas eram compostas por cinco membros, sendo recrutados mais alguns dependendo do nível da missão.

Isso o lembrava de quando seus dois primos entraram para os Exploradores. Os seis meses de treinamento intenso não foram aliviados, independente de os dois estarem na fase de adaptação do Condutor de Pulso Elétrico e do SIAA pessoal de ambos. Como os autaríanos decidiram viver entre os humanos, algumas das regras deveriam ser seguidas. Assim como seus modelos de vida. Coisa que eles não se opuseram.

A última ordem de Sumir como líder dos autaríanos foi para que vivessem, formassem famílias e continuassem a contar a história deles.

Kilian tinha desenvolvido um carinho pelos primos, principalmente por Sumir. Pierail era um cara introvertido, com uma expressão entre o desconfiado para com todos ao seu redor e a dedicação para sua irmã. E Sumir era a verdadeira versão autaríana, sua inteligência só não superava a força que sua genética lhe proporcionava e seu maldito sorriso sarcástico.

Felizmente, para Kilian, os dois não tinham uma guerra os esperando assim que o treinamento acabasse. Ambos foram enviados imediatamente para uma missão básica, juntamente com alguns veteranos e, entre eles, Ana. Isso tranquilizou o mestiço que dedicou aquele tempo para aperfeiçoar alguns dos seus próprios talentos. Algo que ele gostava de treinar com Jora.

Também dedicou seu tempo a desenvolver uma proteção própria, juntamente com seu pai, para o Condutor de Pulso Elétrico de seus primos. Eles ainda usavam os padrões, mesmo que estes tenham sido implantados pela equipe dos pais. Segundo o pai, era mais fácil para a adaptação inicial de ambos.

Suspirando, Kilian sentiu o peito doer. Desde que encontrara os arquivos e toda a história acontecera, já havia se passado dois anos. Dois anos entre missões e treinamentos.

E nada de Kilian ter coragem de ir atrás do que ele se propusera inicialmente.

— Sabia que ia encontrá-lo aqui. — Kilian virou o rosto, dando de cara com Pierail. Ele logo retirou de um bolso de sua jaqueta um papel enrolado, coisa que o fez revirar os olhos. Era um vicio Autares, uma espécie de diversas folhas, de plantas que foram trazidas há muito tempo e que se adaptaram ao solo terrestre, que queimava dentro do papel e soltava um cheiro quase insuportável, enquanto era tragado.

Kilian não entendia como alguém suportava algo como aquilo. Pior ainda, gostava.

— Recebemos uma carta de recrutamento. — O outro apoiou-se ao seu lado nas grades que circulavam o local, e Kilian não voltou a encará-lo. — Isso tudo é uma droga. — Sorriu entre a surpresa e divertimento, voltando a olhar os olhos dourados tão característicos dessa raça.

— Por que entrou para a tropa, afinal? — Ele sempre se perguntara isso. Pierail não tinha característica de quem se preocupava com qualquer coisa fora de seu povo. O mais certo era ele permanecer na Terra, estabelecer seus parceiros sobreviventes e viver sua vida para ajudá-los. Mas ali estava ele, ao seu lado, soltando aquela fumaça que tanto odiava.

— É uma pergunta estranha para se fazer. Por que me envolver em uma merda que não tem nada a ver comigo? Não sei. Eu poderia muito bem me estabelecer na Terra e não passar por nada disso, assim como Kara fez. Eu poderia me adaptar, casar, ter filhos e esquecer todo o maldito acontecimento em Altares, que ainda causa pesadelos em mim e Sumir. Mas então, que significado teria minha vida? — Kilian ainda não tinha desgrudado os olhos de Pierail. Os cabelos vermelhos estavam raspados, o que dava para ver somente os fios curtos naquela pele tão peculiar. Ele tinha traços fortes e era mais alto que si, um bom palmo de altura a mais.

Mas sua expressão estava mais dedicada do que nunca, e concentrada, enquanto ambos sentiam o vento e os últimos raios de sol.

— Então, tem a ver com vingança? — O sorriso no rosto do outro era tranquilo, quase como se “tirasse uma com a sua cara”. Menos irritante que o de Sumir, mas que passava algo como pena.

— Você é tão inocente, Kilian. Tem a ver com impedir que os outros passem pelo que Sumir passou. Tem a ver com proteger minha irmãzinha. Você teria feito o mesmo por seu irmão. — As palavras pesaram mais do que deveriam e Kilian sentiu a dor em seu peito aumentar. De uma forma que talvez fosse possível ver que a morte de seu irmão ainda era um tabu para ele próprio, apesar de pensar nisso todos os dias. — Estou tendo alguns problemas com meu Condutor de Pulso Elétrico. Não consigo controlar minha energia de forma estável. Poderia me ajudar?

A mudança brusca de assunto era uma característica de Pierail que Kilian descobriu ser agradável. Era uma forma de invadir a privacidade de alguém, plantar a semente da discórdia pessoal e, então, tornar o clima agradável novamente como se a culpa não fosse dele se a outra pessoa era um otário por não conhecer-se.

— Claro, tem um local especial que eu e Jora usamos para isso.

No final da noite, sentado em sua cama, após um ano e meio, quase dois, da descoberta dos arquivos, Kilian finalmente criou coragem de analisá-los detalhadamente.

E, frustrado, tudo que encontrou fora uma coordenada.

Dilian estava brincando consigo desde o início.

...

— Para onde as coordenadas levavam? — Emir perguntou com uma curiosidade genuína. Kilian era um garoto complexo, mais complexo do que qualquer um poderia prever, e era a primeira vez que via-se desejando tanto saber o final daquela história...

Ou o verdadeiro motivo de o menino ser considerado um traidor potencialmente perigoso do planeta Terra.

— Um planeta há quase dez galáxias de distância. Em uma galáxia pouco explorada pelo tratados de paz serem ambíguos. Pequeno e praticamente inútil. Um planeta chamado pelos humanos de Bw-48 e pelos habitantes de, traduzindo para a nossa língua, Genova.

— O que tem de mais em Genova? — Emir viu Kilian fazer uma careta do mais profundo desespero, que não tinha visto até agora. Ele mesmo parecia não ter tido tempo de assimilar aquelas informações, ainda.

— O ser que meu irmão amou.

A garganta tinha um bolo e ele quase deixou-se afunda naquela sensação, se não soubesse que era analisado atentamente.