Apesar da grandeza dos destroços, Kilian não demorou para encontrar o ponto onde havia a maior concentração de pessoas e existiam dois motivos para aquilo: visão de calor e a quantidade de "guardas" que rondavam o local.

Kilian apenas observou por diversos minutos. O relatório era quase minucioso quanto a localização e a quantidade de pessoas. Pelo menos até onde a visão de calor alcançava. Ele podia contar três pessoas movimentando-se de um lado para o outro e outras duas paradas completamente. Ele tinha de desenvolver um plano para passar por eles, não causar conflito direto e, principalmente, sair sorrateiramente com a quantidade não contabilizada de reféns. Um suspiro longo saiu de seus lábios como uma forma de encontrar concentração.

E, dessa forma, analisou o ambiente ao seu redor. Eram prédios em melhores estado de conservação, apesar do abandono visível, o que fez Kilian deduzir que, de alguma forma, eles eram mais resistentes e de alguma maneira útil para o grupo que se encontrava naquela localização.

Isso o fez pensar que talvez o melhor plano de ação que tinha no momento era ficar de tocaia, até saber reconhecer todos os pontos estratégicos daquela região.

Quem esperava uma semana podia esperar duas.

Kilian retornou a nave naquela noite, depois de algumas horas observando, e pegou os materiais necessários para preparar um acampamento improvisado em um andar abandonado de um prédio retangular de cinco andares. Ele se arriscara no terceiro, não confiando completamente na estrutura do local apesar da aparência firme.

E a tocaia foi realizada por dois dias.

Nesse meio período, Kilian conseguiu reparar, finalmente, nas diferenças físicas entre as duas raças. Autaríanos Indistintos eram naturalmente desengonçados. Existia algo no caminhar deles que parecia estar sempre meio travado. Os braços eram mais compridos que o corpo, chegando quase aos joelhos, mas não os deixava desproporcionais, como parecia a primeira vista. Kilian reparou que as mãos também eram maiores e mais finas, como também eram habilidosas. O corpo era naturalmente encurvado, talvez pela altura, mas, principalmente, pelo jeito mais raquítico. Eles pareciam fortes, mas o corpo não parecia forte. Os cabelos não eram vermelhos, mas sim amarelos e os olhos pretos.

Kilian não entendia o que uma raça via na outra para se negarem, já que as poucas habilidades demonstradas pelos Autaríanos Indistintos, que podia reparar ao longe, eram habilidades que os próprios Autaríanos Superiores demorariam anos para adquirir, já que seus físicos não eram naturais para isso.

Na noite do segundo dia, Kilian já tinha uma noção do que deveria fazer. Talvez fosse precipitado e não desse certo, mas tinha que arriscar. Naquela tarde, ele vira dois Autaríanos Superiores sendo mortos. E tão a sangue frio que se o próprio não tivesse visualizado cenas grotescas anteriormente, com toda certeza teria vomitado. Os Autaríanos foram postos contra um muro, ajoelhados, as mãos atrás das costas e a cabeça apoiada no muro. Com um martelo enorme, eles simplesmente bateram contra o crânio das vítimas, tão forte que Kilian sabia que a cabeça fora completamente esmagada antes mesmo de ter a visão dos corpos. E então saíram, os martelos sobre os ombros e um caminhar relaxado com conversas amenas.

Mais tarde, viu onde os corpos foram jogados, e sua primeira revista ao sair da tocaia foi aquele vão.

E ele quase vomitou com a quantidade de corpos ali jogados. Crianças, mulheres, idosos e inválidos, que tinham partes de seus corpos mutilados de alguma forma. O cheiro característico da putrefação lhe avisava que alguns poderiam estar ali há diversos dias, talvez meses.

Ele quebrou sua promessa de não matar naquela noite. E ele decidiu encaixar aquelas mortes na categoria "raça dos meus pais".

Não soube exatamente se foi ver a atrocidade naquela espécie de valeta, ou se foi mesmo aquela raiva primitiva humana, que ainda assim fazia parte dele, mas ele não conseguiu controlar-se. Ele não entrou no alojamento de forma despercebida. Pelo menos não completamente. Ele entrou batendo, desarmando e imobilizando qualquer inimigo a sua frente. A adrenalina em seu sangue e as imagens daquelas pessoas ainda rodeavam sua mente, fazendo com que, a cada golpe, a força fosse maior.

Até que retirou sua arma das costas e disparou contra um que tentou, inutilmente, fugir de si.

Após ver o sangue do autaríano se espalhar, Kilian sentiu-se mal. Recobrou sua consciência e quase desabou. Ele se tornara o monstro que os Exploradores eram. Sem perdão. Sem sentimentos.

Ouviu barulho vindo dos corredores, conversas afobadas, berros e movimentos, e sua reação mais instintiva foi esconder-se. Seu SIAA monstrava-lhe que eram em cinco, estando todos eles observando o corpo morto do companheiro. Ouviram o barulho de sua arma. Dentro daquele armário abandonado, Kilian reviu seu plano. Ele deixou-se levar por um sentimento tosco e tirara vidas. Somavam quatro, agora, em sua pequena vida. Respirando fundo, ele abriu a porta, e conseguiu afastar-se lentamente, pelo corredor que seguia por onde aqueles caras vieram.

Apesar da vontade de desabar, Kilian continuava adentrando o prédio, até encontrar seu objetivo.

Assim que abriu a porta de uma sala que descia, ele soube que estava no local certo. Não havia luz adentrando, e podia ser ouvidos gemidos de dor, assim como choros abafados. Estavam, provavelmente, sentindo a dor de perder mais um entre os poucos que ainda restavam. Kilian fechou a porta e ativou o brilho de sua roupa, iluminando o local, e desceu as escadas.

Enquanto descia, podia sentir o cheiro nada agradável que se tornava mais intenso a cada passo. Era verdadeiramente merda acumulada, misturada com odores como putrefação e mofo. Assim que chegou ao final, sua expressão demonstraria a mais pura surpresa, nada agradável, de encontrar seres vivos vivendo naquele tipo de ambiente. Ninguém, absolutamente ninguém, merecia aquilo.

E os rostos abatidos que lhe olhavam só demonstravam o medo e a vontade de morrer.

Retirou o capacete, e ajoelhou-se, em frente a uma garota, que encolhia-se perante a proximidade. Ele viu que ela estava sangrando e, no automático, retirou do compartimento de primeiros socorros uma gaze, botando sobre o ferimento para estancar o sangue.

— Segure. Firme. — Levou a mão dela para o ferimento, forçando-a a segurá-lo. Ela já não lhe olhava como antes. Tinha algo de desespero, assim como surpresa. Ele não a espancara, dizia sua expressão, ele demonstrava preocupação.

Voltou a por o capacete e abriu sua tela invisível, ampliando a planta do prédio que recolhera até aquele momento. Ele não conseguia elaborar um bom plano de fuga e isso começava a irritá-lo. Deveria ter pensado naquela possibilidade.

— Seu uniforme, é um Explorador? — Uma voz finalmente foi ouvida. Ele tentou procurar o rosto de quem dissera, e encontrou uma senhora de idade, que olhava para ele com um pouco mais de esperança. Apenas assentiu, ajoelhando-se para se encontrar o mais próximo possível daquelas pessoas. — Pelos deuses, Sumir, você realmente conseguiu.

— Eu falei que tinha conseguido. — Kilian viu uma garota se erguer. Ela tinha quase o tamanho de sua mãe, apesar de mais magra. Demonstrava a mesma confiança e a mesma força de vontade. Uma vitalidade que ele não via nos outros. — Sou Sumir, décima sexta herdeira de nossos deuses, prazer em conhecê-lo.

— Kilian, herdeiro de minha mãe e meu pai. — Ele tinha quase um sorriso no rosto. Conhecia as histórias de sua mãe e sabia que aquela mulher sempre fora uma figura importante naquele planeta antes de tudo acontecer, pelo menos seu título. — Prazer em conhecê-la. — Kilian ouviu barulho vindo de cima, conversas rápidas e sabia que tinha alarmado a todos. — Quantos vocês são? — Perguntou com certa urgência, olhando ao redor, mas não conseguindo abranger toda a sala.

— Somos trinta e um dos cento e doze que éramos. — Ele reconheceu aquele tom na voz de Sumir. Era uma raiva amarga, repleta de impotência. Teria divagado mais, se sua preocupação não estivesse em como tirar aqueles seres dali.

Ele tinha uma alternativa, mas não sabia se todos iriam sobreviver àquele tipo de experiência.

Caminhou escada acima, preocupado com a aproximação do barulho todo. Tirou um pequeno dispositivo de sua bagagem, quadrado e achatado, fixando-o na porta e o ativando. Instantaneamente uma rede elétrica fixou-se no objeto, tornando-o estático e diversas vezes mais resistente. Um campo magnético, em outras palavras. Aqueles que tocassem, levariam choque, e independente do material utilizado para arrombar a porta, demoraria muito mais.

Isso lhe daria tempo.

E agora era a parte mais difícil daquela decisão. Ele odiou-se por ter de tomá-la. Mas talvez fosse a única alternativa que conseguia pensar agora.

— Existe uma forma de sairmos sem ter de passar por aqueles homens ali fora. — Sua voz saiu baixa, até para si mesmo, antes dele voltar-se para descer as escadas. Fora ouvido, tinha certeza disso. — Mas é insegura, e nem todos podem ser fortes o suficiente para sobreviver a experiência. — Talvez fosse a única alternativa para aquele povo, que já estava há tempo demais naquela clausura toda.

— Como? — A voz não era de Sumir. Era mais grossa, masculina, que deu alguns falsetes por, provavelmente, não ser utilizada com muita frequência. O garoto levantou-se, ao lado daquela que se dizia herdeira dos deuses, mostrando ter o mesmo tamanho da garota, só que... mais deplorável. De longe e no escuro Kilian reparou que aquele garoto estava quase morrendo por falta de comida.

A cena era precária.

As outras pessoas passaram igualmente se levantarem, alguns perdendo o equilíbrio e tendo de serem amparados pelos outros.

Kilian fechou os olhos, sua expressão contorcida em uma careta de dor. Ele via cada vez menos sobreviventes naquela maluquice toda.

O que Dilian faria?

Retirou uma bola de cristal que ficava em uma corrente por dentro do colete de seu uniforme, por dentro de um bolso acolchoado protetor. As cores se entrelaçavam entre o branco e prata e o cinza escuro. Não eram estáticas, elas modificavam, como se fossem uma neblina se misturando para voltarem a aparecerem.

— Chamamos de “entre-mundos”. O segredo é que dentro dessa esfera existe uma miniatura de um Buraco de Minhoca. Ele abre portais no mesmo planeta de um ponto a outro. Quanto maior a distância, mais facilidade existe da pessoa se desintegrar. — Talvez ele devesse ter buscado outras palavras, mas encarando aquela pequena esfera em sua mão, que continha uma tecnologia tão perigosa, ele não sabia se devia mesmo amenizar a coisa. — Planejo abrir um portal breve, somente daqui para fora, já que a minha nave está longe demais para qualquer um de vocês sobreviver.

Ele finalmente tirou os olhos da esfera, encarando os rostos ali presentes. Não existia incerteza em nenhum deles. A esperança ainda era vista. Kilian se perguntou se eles desejavam a morte tão ardentemente assim. A resposta veio sem que ele professasse a pergunta.

— Prefiro morrer que continuar nesse inferno mais um dia. — E a voz era exatamente do garoto ao lado de Sumir. Automaticamente a garota levou sua mão ao antebraço do rapaz, mas ele não lhe deu atenção.

Kilian reparou que existia uma conexão entre os dois, talvez uma que nunca fosse descobrir qual fosse se aquilo tudo desse errado.

Mas então a atenção do garoto voltou-se para Sumir, que ainda se agarrava em seu antebraço.

— Estamos por você, Sumir. És nossa líder e a seguiremos pelo resto de nossas vidas. — Ela pareceu fraquejar por alguns segundos, mesmo assim voltou-se para Kilian.

— Qual as chances de sairmos com vida se formos pelo caminho convencional? — Kilian gostaria de dizer que haviam boas chances, mas ele sabia que não. Seu leitor de calor indicava onze homens e agora estavam armados. Ele via as armas que seguravam, e mesmo que a energia já não existisse naquele planeta, elas ainda poderiam ser mortais. Ele não conseguia identificar aquilo, mas estavam utilizando-a contra seu escudo e logo ele se romperia. Sua hesitação fora o suficiente para Sumir. — Abra o portal. O mais próximo possível.

Kilian abriu o portal embaixo da escada. Era uma tática rápida, depois de adquirida, em que baseava-se na transferência incorpórea. Com uma jogada de pulso na direção em que ele gostaria que o portal ficasse, Kilian imaginava o local em que gostaria que o portal se abrisse e a espiral que se encontrava dentro do pequeno círculo de cristal passava para fora.

E imediatamente o ambiente se recebeu a brisa noturna que passava pelo portal. Era noite, e a escuridão só não era completa pelas luzes das estrelas. Ele podia ver, através da imagem levemente nublada, o ponto que escolhera, próximo a saída, mas distante da valeta de corpos, mas também podia sentir toda a turbulência que o portal causava entre um ponto e outro.

— Passem de dois em dois, apoiando-se um no outro. Continuem sempre em frente e não parem. — Sua voz parecia trovejar pelo local, querendo competir com a espiral a sua frente. — Talvez assim as chances de sobrevivência aumentem.

— Sumir, deves ir primeiro. — Não soube quem disse isso, mas não virou-se para ver. Ele ainda tinha a cabeça baixa e o corpo tenso. A culpa pesava sobre seu peito.

— Não. Meu povo primeiro. As crianças antes. — Kilian automaticamente olhou para o lado. Duas meninas se aproximaram, então se abraçaram. Automaticamente segurou-as pelos ombros, os olhos finalmente as encarando.

— É um jogo. — Ele disse em voz baixa, ajoelhando-se. — Quero que corram de mãos dadas, se uma falhar, a outra deve puxar. Entenderam? — Elas assentiram, com medo, mas com uma certa força de vontade. Estavam magras, as roupas surradas ficavam largas em seu corpo, mas Kilian acreditava nelas. — Vão.

E eles as viu correr. Seus olhos treinados analisaram como o portal reagia as meninas e como os corpos físicos reagiam a elas. Ele suspirou em alivio quando ambas acenaram do outro lado, meio apagadas por terem atravessado o portal.

As crianças passaram com certa tranquilidade, somente uma delas perdendo o equilíbrio. Quando Kilian reparou que ela caíra, simplesmente saiu em desesperada, entrando pelo portal de forma rápida. Ele o reconheceu, como se fizesse parte de si mesmo, mas começava a negar o outro corpo. Treinado em dificuldades, conseguiu se aproximar rapidamente da menina que começava a sentir a dor de ser apagada pelo portal. Pegou-a no colo, vendo que a outra já tinha corrido para fora, e correu com ela para o outro lado.

Mas ela não saíra inteira.

O portal tinha desintegrado seu pé esquerdo, assim como os dedos do pé direito e da mão direita. Ela chorava em dor e os berros rodeavam os tímpanos de Kilian como adagas. Ele mordia os lábios, intercalando seu olhar para a criança que chorava e os próximos que vinham.

Sua dor de ver os outros serem desintegrados só não superava a dor de ver a garota se contorcer em dor. Ao final, de trinta e uma pessoas, dezenove sobreviveram, seis feridas de alguma forma.

E eles ainda tinham de ir até a nave.

Sumir e o garoto ao seu lado foram os últimos a atravessarem. Ambos não sofreram nada. E não passou despercebido a si como o portal reagiu a presença deles.

Não eram intrusos.

Fechou o portal e pediu para que os poucos adolescentes e adultos ajudassem a levar os que estavam feridos. Ele tinha em seu colo a menina que agora chorava, de forma mais amena, depois de receber o tratamento de sua aldeia. Na nave poderia ajudá-los, mas não ali, em campo inimigo.

Chegaram ao amanhecer, a caminhada solitária de ida, que durara em torno de três horas, sendo triplicada pelo grupo que agora andava consigo.

...

— Os sobreviventes vieram comigo para a Terra, onde o processo de abrigo ao estrangeiro foi ativado, ensinando-os nossas regras, adaptando-os para viverem em harmonia com os humanos, tornando-os, de forma discreta, terráqueos. — Kilian terminou o relato de sua primeira viagem solo com um suspiro cansado. — Eu sempre me perguntei se poderia ter feito de alguma forma diferente, mas nunca tive uma resposta clara.

Emir decidiu manter-se em silêncio, esperando pela continuação da história enquanto Kilian digeria suas próprias mágoas.